Sob o Céu da Bretanha
37 Capítulo 37
Notas iniciais
Na semana que se passou, Lancelot voltou lentamente à sua antiga forma física. Sob os cuidados de Nimue, o Grão-duque não demorou para ser totalmente curado, além de tudo, o clima da Ilha Sagrada o fazia tão bem como nenhum outro.
Artur voltou a Camelot, passando antes por Pellinore para cumprimentar seu primo e herdeiro e dar-lhe notícias sobre o seu pai. A capital da Bretanha estava em sua mais perfeita ordem. Tudo parecia ter voltado aos tempos de outrora e o Grande Rei finalmente pôde tirar algum tempo para festejar junto aos camponeses por mais um ano de campos fartos que dariam excelentes colheitas dali ao fim da primavera.
Morgana voltara à Tintagel. Seus pensamentos originais eram encontrar um homem honrado para servir-lhe de castelão e até já tinha algumas opções em mente, porém sua viagem foi conturbada desde antes do início; Nimue havia lhe falado tudo sobre o plano de Eda para dar à Bretanha um herdeiro com uma linhagem sanguínea o mais próximo possível de Artur e o mais distante possível de Lancelot, de modo que o Grande Rito fosse realizado entre primos e não entre irmãos como havia sido no passado.
De início, a Dama do Lago não havia gostado muito da ideia de manipular novamente o seu irmão, mas sabia que era a única saída. Artur nunca aceitaria de bom grado prejudicar o filho de Lancelot, negando-lhe o trono; mas se ele mesmo tivesse um filho; tudo se concertaria.
Para dar prosseguimento à trama, Nimue deveria atrasar o máximo que pudesse a volta de Lancelot para perto do Rei. A ligação entre eles quebraria facilmente o encanto e Artur cairia em si antes mesmo de tudo ter sido feito. Morgana iria conduzir Artur até o reino das Fadas e para isso, bastava que o Rei estivesse dormindo e não seria necessário que ela estivesse próximo a ele. Eda faria todo o resto.
Depois de tudo pronto, a Bretanha estaria novamente nos eixos e Morgana poderia passar o seu posto de Senhora à Nimue, depois que o Grande Rito fosse celebrado. Reinaria então nas terras da Cornualha até o dia de sua morte.
Ao fim da longa semana de tratamentos, o rei de Pellinore finalmente estava totalmente recuperado e ansiando estar de volta à Camelot, perto do seu Grande Rei. Assim que os primeiros raios da manhã começaram a despontar no firmamento, o Grão-duque começou a arrumar suas coisas a fim de iniciar sua viagem.
Quando já estava prestes a montar em seu cavalo, o cavaleiro foi surpreendido por Nimue que o olhava de forma reprobatória.
Ainda não deves viajar, meu pai... Não está pronto para sair da Ilha Sagrada.
Tenho que ir minha filha, Artur precisa de mim... Ademais, sinto-me ótimo, não há motivos para que eu fique.
Tudo bem, se desejas assim, devo acompanhá-lo até a barca e abrir as brumas para o senhor.
Nimue acompanhou Lancelot até a barca e o guiou como havia prometido até além das brumas sagradas. Poderia lançar qualquer encantamento sobre o duque a fim de fazê-lo atrasar-se, porém, decidiu que o tempo que o fizera ficar na Ilha já deveria ter sido suficiente. Ao invés disso, preferiu enviar alguns homens do povo antigo para escoltar o seu pai. Além de tudo, enviou a mensagem de que o duque havia saído da Ilha para Morgana, utilizando-se do conhecimento antigo da transmissão de pensamento.
Morgana estava apreciando as ondas baterem contra os sólidos rochedos do mar da Cornualha. O cheiro de maresia e o ir e vir das ondas sempre a deixavam em uma espécie de transe que, por vezes a incomodava um pouco, mas que no momento, era a forma mais agradável de obtê-lo. A Senhora sabia que deveria passar a maior parte do tempo em estado alterado de consciência, se quisesse estar preparada para agir quando necessário.
Toda a sua precaução foi justificada quando, a Dama do Lago viu ao longe, no céu nublado, uma nuvem que muito lembrava um dragão. O sentimento de que aquela seria a hora ideal para agir se apossou de Morgana, que imediatamente começou a induzir-se num transe ainda mais profundo a fim de conseguir, mais uma vez chegar ao mundo dos sonhos.
No palácio real do Mundo das fadas, Eda recebeu a notícia de que Morgana estava agindo para dar prosseguimento ao plano. Todavia para que tudo desse certo, seria necessário que o próprio Rei estivesse imerso em um sono profundo. Essa tarefa, contudo, seria excepcionalmente fácil para uma de suas servas mais fiéis.
Imediatamente, Eda enviou uma mensagem para Mab, a fada dos sonhos. A diminuta fada, de aparência infantil e cabelos cor de ferrugem atendeu imediatamente ao chamado de sua Rainha e se dirigiu ao plano físico a fim de induzir o Rei a um estado de sono profundo, só assim, Morgana conseguiria conduzi-lo ao plano das fadas.
Artur estava no meio de uma reunião com os líderes dos camponeses a fim de se inteirar sobre quando seria o momento mais apropriado para iniciarem as colheitas e encherem novamente as reservas de Camelot.
O ser encantado não tardou em executar sua missão, assim que chegou no mundo material, liberou o doce perfume do sono próximo ao Grande Rei, que por estar afastado da bainha da Excalibur, caiu em sono profundo, fazendo todos os presentes acharem que o soberano da Bretanha havia desmaiado.
Lancelot ansiava estar logo na presença do seu rei, cavalgava a toda velocidade, quando uma forte sonolência apossou-se do seu corpo, fazendo-o ser arremessado do cavalo e cair de qualquer jeito no meio das pedras que rodeavam a estrada romana que dava acesso à Camelot.
Artur via-se em meio a uma clareira de um vasto bosque em que encontravam-se várias pessoas de aparência etérea, dançando aos círculos em volta de fogueiras.
Estava confuso e não conseguia pensar direito, parecia estar entorpecido num estado de semiconsciência. Achava ter visto Morgana em algum momento, mas não conseguia nem mesmo saber se aquilo era sonho ou realidade.
Uma bela mulher surgida do meio de toda aquela fantástica profusão de cores e pessoas, tomou o soberano da Bretanha pelos braços e o levou para mais distante das fogueiras.
Artur não conseguia descrever nada do que estava presenciando a não ser o imenso prazer em que estava imerso e do qual não desejava sair. A misteriosa mulher o beijava habilidosamente e incitava suas mãos a percorrerem suas impecáveis curvas, desde de seus largos quadris até o vale de seus seios.
O Grande Rei estava tão excitado quanto nunca ficara com mulher alguma e assim que prosseguiu, consumando sua união com àquela deusa em forma humana, mal pôde segurar seu êxtase, derramando-se dentro daquele ser ao mesmo tempo distante e insanamente sedutor.
Morgana acordou ainda em meio às pedras, em frente ao mar, que agora estava mais calmo e limitava-se a se movimentar vagarosamente, lambendo as formações rochosas da costa de Tintagel. A mente da Dama do lago estava confusa e letárgica, como em quase todas as ocasiões que voltara do país das fadas; tudo o que Morgana conseguiu pensar foi que finalmente havia cumprido sua última missão por Avalon.
Estava feito.
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