Sob o Céu da Bretanha
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Morgana acordou numa manhã ensolarada no país das fadas. Uma das fadas lhe servira um excelente dejejum. Comeu ovos, pão, frutas secas, tomou leite e ainda comeu carne defumada. Há muito não comia carne, mas estava demasiadamente fraca para recusá-la, mesmo ainda não a tolerando em grandes quantidades.
Vestiu-se habitualmente e foi de encontro às outras no salão principal. Lá, encontrou Eda, as elementais, e Guínevere.
A Rainha das Fadas estava segurando a bainha que construíra. Ela emanava poder e estava pronta para ser utilizada.
– Acho que nos despedimos aqui.
– Sim, minha querida... Volte quando estiver tudo em paz lá pela Bretanha!
– Voltarei, prometo.
– Isso serve para você também, Guínevere!
– Será uma honra, Eda!
As elementais se despediram das nobres de Avalon, e Eda criou um portal de passagem segura para a Bretanha. Guínevere e Morgana passaram por ele.
Finalmente poderiam fazer algo a respeito da invasão.
*****
Morgana acordou, seu corpo parecia dormente, a primeira coisa que viu foi Lancelot acolhendo a Rainha em seus braços formando quase um ninho ao seu redor.
Morgana estava recostada sobre a relva, protegida do frio pelo manto do duque. Aquela imagem lhe causou um efeito nostálgico. Fez com que ela lembrasse dos tempos em que eram todos jovens e destemidos. Fez com que ela lembrasse que o duque ainda nutria sentimentos pela Rainha, embora não fosse capaz de trair seu Rei em hipótese alguma. Afinal, a mesma afeição que sentia por Guínevere, Lancelot sentia por Artur.
Rapidamente, a Dama do Lago se levantou, seguida pela própria Grande Rainha sob o olhar assustado de Lancelot.
– Precisamos ir, Guínevere. O tempo está se esgotando!
– Claro!
– Lancelot, você precisa ir de encontro a Artur, ele precisa de você mais do que ninguém.
– Mas e vocês? Estou incumbido de protegê-las e levá-las para Camelot o quanto antes!
– Não precisamos de proteção... Avalon não está muito longe, e agora A Visão está de volta... Poderemos evitar possíveis ataques e despistar o inimigo. Além disso, o exército inimigo sofreu grandes perdas e precisou reagrupar na praia, as forças bretãs vão confrontá-lo em pouco tempo. Você, como o duque de guerra do Grande Rei, como seu mais fiel amigo, como o homem a quem Arthur mais ama em toda a sua vida, deve ir ajudá-lo. Deve entregar-lhe a bainha, o receptáculo encantado da Sagrada Regalia.
Lancelot ficou impressionado pelas informações que a Duquesa da Cornualha dispunha, e mais ainda ao ver a própria Morgana mostrar-lhe uma bainha de mais pura beleza, feita com os materiais mais nobres de que se podia dispor, talhada com os símbolos dos sagrados Mistérios. Aparentemente, essa bainha nascera de um encantamento feito pela Senhora de Avalon, já que não havia nada em suas mãos antes de acordar.
O duque ficou pensativo, mas conhecia bem os poderes de Morgana. Não havia mesmo tempo a perder, nunca deixaria seu Rei em apuros. Em todas as guerras que travaram até agora, era ele seu principal defensor, comandante da sua cavalaria... Não seria diferente com essa.
– Tudo bem, mas tenham cuidado! – disse o duque beijando de leve a testa da Rainha.
Tomaram suas posições e logo estavam cavalgando, Lancelot seguido pelos dois guardas, e as nobres bretãs na direção oposta.
Morgana conhecia muito bem o caminho para a Ilha Sagrada, todavia estava perdida em seus pensamentos tentando encontrar um jeito de introduzir Guínevere ao meio das sacerdotisas de Avalon. Pensando bem, ela pensava, elas não teriam dificuldade de acolher mais uma irmã, mesmo que a irmã em questão tenha, com certo êxito, afastado as pessoas da antiga fé e ajudado a fechar a conexão com a Bretanha... O importante agora é o seu empenho em consertar seu erro.
Os pensamentos eram tantos que Morgana quase se desviou do caminho, mas ainda conseguindo concentrar-se, mesmo que minimamente, e prosseguiu junto à Grande Rainha.
Pouco tempo depois, estavam as duas às margens do mar de verão, muito próximas a Glastonbury. Morgana desceu do cavalo, seguida pela Rainha, que perguntou:
– Então é por aqui que se viaja à Ilha Sagrada?
– Sim... Bem debaixo do nariz das freiras, não é?
Guínevere riu, agora entendia a proximidade entre as duas ilhas; entendia a barreira mágica que as fazia parecer dois mundos quando na verdade eram um só.
Morgana não esperou muito para invocar os guardiões que as guiariam para a outra margem. Aos poucos, dois homens baixos mas truculentos foram aparecendo em meio a névoa praticamente incessante daquele local. O barco em que eles estavam era pequeno, mas suficiente para levá-los pelas águas calmas do mar de verão. Logo, os homens ancoraram e saudaram a Dama do Lago, que retribuiu com uma saudação parecida, o cumprimento dos filhos da Deusa.
Subiram todos no barco, e, apesar do estranhamento nos olhos dos homens para com Guínevere, eles nada perguntaram. Continuaram seguindo seu caminho para cada vez mais perto da espessa névoa que cobria as águas.
Guínevere já sabia que aqueles eram os guardiões da parte externa de Avalon. Descendentes distantes das fadas, eles haviam perdido grande parte da magia de suas antepassadas, porém conservavam a força e habilidades sensoriais dos seres místicos. Residiam muito próximo à Glastonbury, de forma que poderiam vigiar aqueles que passavam por ali. Atendiam somente ao chamado mágico de algum sacerdote ou bruxa que quisesse fazer a travessia, porém, estar em sua companhia não garantia o sucesso da viagem, visto que as brumas só se separariam se a magia daquele que os havia chamado fosse forte e benéfica o suficiente. A ilha estava protegida por diversos encantamentos, tornando-a um lugar etéreo quase impenetrável, mas ainda no mundo humano.
O barco finalmente chegara ao seu destino final, e Guínevere, embora ciente do que estava por vir, estava ansiosa para ver com seus próprios olhos.
Morgana, que estava sentada no pequeno barco, ficou de pé, preparando-se para o encantamento que lhes permitiriam a passagem entre as duas ilhas.
As antigas palavras soaram de sua boca quase tão facilmente quanto na primeira vez em que vira Viviane dizê-las. As pesadas brumas se dissiparam lentamente às palavras da Senhora do Lago, revelando a majestosa ilha sagrada.
Guínevere mal pôde acreditar no esplendor do País do Verão. Já havia estado em Avalon antes, mas o fizera por um encantamento da própria Morgana que afastara as brumas quando Guínevere estava no limiar da ilha de Glastonbury. Além do mais, só havia ficado por poucas horas na terra sagrada, ainda com medo de estar em meio a feiticeiras malignas.
O pequeno barco continuou seu trajeto rumo à costa da ilha. Não demorou muito para atracarem. Os antigos descendentes do povo mágico desceram e ajudaram as Senhoras a desembarcarem.
A corte de recepção era composta por sacerdotisas dos mais variados graus de formação, avisadas da chegada de Morgana e Guínevere pelas fadas elementais.
Dentre os rostos das jovens que lá estavam, Morgana pôde reconhecer um em especial: mais maduro, experiente, bondoso, Raven estava lá, sorrindo, mas sempre em silêncio.
– Raven! Graças à Deusa nos encontramos de novo, achei que havia perdido meus poderes para sempre!
Raven olhava a senhora do Lago com afeição e alegria. Começou a caminhar em direção ao bosque sagrado, seguida pelas outras donzelas, além de Morgana e Guínevere. Ela fora igualmente recebida como uma irmã por todas.
A caminhada foi suave. Todas estavam animadas, apesar de apressadas para começar logo os preparativos para ajudar na guerra, que, por hora, já deveria ter começado.
Morgana se sentiu cheia de energia ao tomar novamente da água do poço sagrado e comer das frutas colhidas no bosque. Guínevere experimentava essa sensação pela primeira vez, e, ao que lhe parecia, a comida do país de Verão era mais parecida com a do País das fadas do que com a comida mundana convencional. Algo nela fornecia energia, uma energia distinta daquela usada para simplesmente sobreviver.
Banharam-se e reuniram as sacerdotisas mais poderosas e experientes que ainda restavam na ilha. A partir daquele momento, tudo precisava ser feito o mais rápido possível.
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