Sob o Céu da Bretanha
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Tudo parecia sombrio, grandes salgueiros balançavam suas folhas sob o forte vento de inverno, homens jaziam mortos e entre eles podia-se distinguir bretões e saxões além dos homens das tribos, o manto vermelho tingia a terra com tranquilidade e beleza só comparável à brutalidade e horror com que foram derramados.
Em meio a tantos corpos estava Artur, O Grande Rei, imóvel como uma estátua do mais puro mármore, cabeleira antes tão dourada quanto o sol, agora embebecida num mar mortal, armas junto aos corpos havia aos montes, mas nenhuma delas parecia com a lendária relíquia forjada pelas mãos das fadas; a Excalibur já não estava mais entre eles.
Morgana acorda exasperada, será que acabara de provar mais um pouco da Visão ou terá sido mais um pesadelo mórbido? Ainda estava demasiado fraca para levantar-se, sabia que se encontrara em Glastonbury, no convento em que sua mãe morrera depois que o último Grande Rei partiu desse mundo. Vagas lembranças assolavam sua mente podia lembrar-se de que havia sido trazida enferma, por emissários reais. Teria sido antes ou depois da grande batalha contra os saxões? Teria sua mágica sido forte o suficiente para proteger seu irmão e os mais próximos dele?
Só tinha certeza de uma coisa: a conexão com Avalon estava por se perder, ela mesma, a dama do lago, senhora da mágica sagrada mal podia conjurar um encantamento, de médio porte que fosse, sem ficar gravemente enferma.
As paredes do convento sempre lhe deixaram perturbada, talvez, porém, fosse o único local com um pouco de segurança para onde seu irmão a mandaria quando estava prestes a entrar numa batalha, ou será que já a estaria travando?
Morgana não sabia quanto tempo dormira, nem sua mente treinada de sacerdotisa foi capaz de resistir aos efeitos colaterais de magia feita sem o devido preparo e poder disponíveis.
As noviças do convento viam tratar-lhe frequentemente, mesmo sabendo que se tratava de uma mulher do povo de Avalon a quem consideravam malignos, talvez esse fosse um dos únicos presentes que sua mãe Igraine se dignou a lhe oferecer. Talvez pensasse que como ela, Morgana se tornaria freira ao ver que o mundo mágico se perderia.
As noviças chegaram ao seu quarto como habitualmente faziam, mas desta vez viram que Morgana estava acordada e em sã consciência. Deram-lhe pão, vinho, e algumas frutas secas.
O sabor fraco do vinho do convento agradou a Morgana que estava habituada às fortes beberagens do seu reino, mas não estava certa de que seu estômago aguentaria algo mais pesado. As noviças também aferventaram água em um grande tacho na lareira e ajudaram Morgana a se levantar e despir, meio que horrorizadas com a as marcas da Deusa em seu corpo, certamente pensariam elas que foram infligidas pelo próprio mal.
Já um pouco melhor, Morgana disse a uma das noviças:
– Preciso falar à sua madre superiora, Camelot está em guerra pela Bretanha, não há tempo a perder!
– Sabemos disso duquesa – respondeu uma das noviças — ao que parece a batalha já terminou e a Bretanha está segura por hora, mas de informação só é isso que temos, tenha a bondade de se vestir e poderá ver a Madre, ela certamente saberá de mais alguma coisa.
Morgana foi de encontro a suas vestes, o vestido de lã negra e os sapatos de mesma cor estavam limpos, certamente haveriam passado mais de uma semana no mínimo, em um inverno tão rigoroso as roupas não secavam facilmente mesmo com a ajuda do fogo. “Queira a Deusa que o inverno ainda não tenha passado!”
Os corredores de acesso eram tão frios que Morgana pensou estar em pleno terreno descampado, certamente o inverno ainda vigorava; fracas lâmpadas pairavam com suas débeis chamas não deixando os passantes em total escuridão, Morgana não se importava já que fora treinada para presidir rituais em total escuridão em noites de lua negra. Não viu nem sequer uma freira pelo caminho, nem cânticos comuns em conventos, certamente deveria ser noite e as irmãs teriam iniciado seu recolhimento. Todavia, para a duquesa da Cornualha, até a Madre superiora fizesse uma exceção, mesmo achando se tratar de uma bruxa ímpia.
A sala da Madre era um pouco mais quente que os corredores, mas não chegava a ser aconchegante. Uma imensa lareira aquecia o cômodo, um pequeno assento de peles muito bem curtidas ficava ao fundo, duas cadeiras de carvalho razoavelmente grandes ficavam diante de uma mesa também de carvalho a frente do assento da Madre. Muito pouco havia de livros, as freiras como qualquer sacerdote cristão se opunham à “leitura excessiva” principalmente no que se dizia respeito às mulheres.
Morgana achava que iria ser recebida no próprio quarto da Madre, mas logo refez sua suposição visto que a última coisa que as freiras queriam era que uma perdida frequentasse seus aposentos, certamente benzeriam o que Morgana estava e queimariam sua roupa de cama.
A Madre era uma mulher corpulenta no alto de seus quarenta anos, vestida com seu hábito sóbrio, cruz no pescoço e sandálias de couro ao contrario das noviças que ainda podiam trajar cores menos sombrias. Ao fazer um gesto para despedir as noviças, a Madre de nome Isorta, sinalizara a Morgana que poderia se sentar em umas das cadeiras.
A jovem sacerdotisa nada gostara do comportamento seco da senhora, mas não queria mais perder tempo, precisava de informações; antes teria ela mesma usado a Visão, porém a conexão com Avalon estava tão frágil quanto ela e seria impossível conseguir alguma coisa.
– A senhora por um acaso sabe algo de Camelot – perguntou, diretamente, Morgana.
– Sei que a batalha acabou e apesar de vitorioso, o reino de Camelot está em péssimas condições, muitos guerreiros mortos e sem defesas caso ocorresse um ataque futuro – respondeu Isorta.
– E o Grande Rei, como se encontra?
– Não sei ao certo, mas está vivo o que não se pode dizer de muitos dos seus cavaleiros. Se está bem ou agoniza em uma cama não saberia informar, mas a batalha foi feroz e nenhum homem do reino deve estar em perfeita saúde.
– A senhora não poderia mandar algum emissário para colher mais informações sobre o reino e meu irmão? – disse Morgana, Aflita.
– Com o inverno no auge, até mesmo uma viagem curta como esta se torna impossível, essas notícias chegaram quando o inverno ainda estava em seu início. – respondeu a Madre.
– Quando exatamente cheguei aqui – Fala Morgana, decidida a não os fazer rodeios feitos por quem tivera boa educação.
– No fim do outono, logo no início da batalha, que durou ao que se sabe, três dias, guerreiros do próprio rei a trouxeram em segurança. A senhora duquesa estava ardendo em febre, falava palavras sem sentido, nós do convento a protegemos por ordem do Grande Rei assim como fizemos com sua esposa.
– Guínevere está aqui?
– Sim, apesar de ainda ostentar o título de Grande Rainha, a mantemos sob clausura, não sabemos se o rei a perdoará pela traição e provavelmente seu destino será decidido após o inverno.
– Entendo, obrigada Madre, devo agora retirar-me para não lhe importunar mais – Disse Morgana ao se levantar.
A madre chamou novamente as noviças, mas Morgana disse que sabia o caminho sozinha e notou certa satisfação nos rostos das jovens, certamente andar com uma sacerdotisa de Avalon no meio da noite não lhes era agradável.
Não importava, Guínevere estava lá, Morgana sabia que a traição dela ao se deitar com Lancelot fora uma armação de sua tia Morgouse, rainha dos reinos do norte, morta por Viviane, a Dama do Lago anterior a ela, sua mentora. Diria isso a Artur quando o encontrasse; precisava ser rápida, estava preocupada por Lancelot, seu amor nunca correspondido agora começava a se transformar, de novo em afeição quase como se ela fosse sua mãe, apesar de suas idades serem muito parecidas, Morgana, agora Dama do Lago tinha de proteger o filho predileto de sua predecessora, que afinal era seu parente.
Morgana voltou a seu quarto, despiu-se sozinha ficando apenas em trajes íntimos. Tentava dormir, precisava de forças para sair a Camelot, mesmo que fosse com aquele tempo. Certamente não a deixariam falar com a Rainha com quem nunca se dera bem por divergência de crenças. Porém recentemente haviam se entendido e descoberto o zelo de irmãs uma pela outra.
Guínevere nunca fora agraciada com um filho e se Artur estivesse em perigo de morte, a linhagem real estaria em apuros. Seu único filho bastardo, concebido pelo casamento sagrado no próprio ventre de Morgana havia se aliado aos saxões, estaria agora muito provavelmente morto.
Pensamentos voavam livres na cabeça inquieta de Morgana; se o rei se enfurecera com seu duque e mestre de armas, a quem amava mais que tudo, pouco provavelmente os bretões venceriam a guerra. Será que Artur já descobrira toda a verdade sobre a trama de Morgouse e se uniu novamente a Lancelot?
A dama do Lago lutava com seus pensamentos, preocupada e nervosa demais para dormir, mas o cansaço ainda lhe fatigava deveras e, já em noite alta, conseguiu entregar-se ao sono.
Amanhecera, todavia a luz do sol parecia morrer em meio às névoas formadas pela nevasca. Guínevere acorda e percebe que uma das noviças já deixara seu dejejum à mesinha de apoio em sua clausura. O fogo da pequena lareira estava pálido e ameaçava cair, Guínevere, a Grande Rainha em pessoa teve de ir alimentá-lo para que ela própria não perecesse ao frio. Pensava enquanto mastigava um velho pão duro e tomava leite, que graças ao bom Deus estava quente. Se Artur caiu realmente nas tramas de Morgouse, ela estaria perdida, mas o convento ainda estava de pé e nenhum bárbaro cruzara suas fronteiras, a essa altura do inverno a batalha já havia de ter terminado com a vitória de Camelot, pelo menos isso era quase uma certeza.
Morgana foi acordada por uma noviça; vestiu-se e comeu frutas secas e carne defumada. Pediu novamente uma audiência com a Madre, mas foi advertida pela noviça de que as freiras estariam em oração na capela do convento na missa da manhã e que ela teria de esperar até o fim.
Ao final do que lhe pareceram duas horas, Morgana se encontrou com a Madre na entrada da pequena capela interna do convento, havia uma maior no pátio, destinada a missas no verão, mas ninguém se atreveria a dar nem um passo para os braços da neve.
– Preciso ir a Camelot. – Disse Morgana.
– Já lhe disse que é impossível Duquesa. – Retrucou a Madre
– Por favor, preciso ver o reino estou muito transtornada não ficarei aqui nem mais um dia. Dê-me um pouco de água, vinho, e alguma comida para suportar a viagem. Preciso também de algum cavalo ou mula.
– Duquesa, por acaso quer se matar, além do mais não acho que seja sábio perder um de nossos meios de transporte que já são escassos. Nesse tempo não há sucesso para nenhum viajante.
Morgana desistiu de tentar por esse caminho e despediu-se de Isorta. Porém ainda estava decidida a viajar, decidiu conhecer as instalações do convento, sua cozinha, suas saídas, seus caminhos, tudo o que lhe parecesse útil a uma fuga.
Andava silenciosamente pelo convento, seus passos treinados de sacerdotisa, prontos para não fazer um barulho sequer flutuavam por aquelas pedras frias e assim ela se apoderou de alguma comida e foi rapidamente a seu quarto.
A viagem normalmente não durava mais que dois dias e ela conhecia todos os caminhos e abrigos naturais, todavia com aquele tempo mais do que conhecimento era necessário, precisava pedir orientação à Deusa, mas sua força espiritual estava se esvaindo. Mais uma coisa com o que ela devia se preocupar.
Além de seu grosso vestido, Morgana se vestiu com um hábito de noviça, cortado por ela mesma na parte dos joelhos, e sua manta vermelho escuro de veludo. Depositou a comida em uma pequena bolsa de couro que também furtara da dispensa na cozinha e tão logo se aprontou começou a escrever um bilhete.
Guínevere, não saia da clausura a não ser para suas necessidades e confissões, mas sua mente voava para longe, estava em Camelot, Como estariam Artur, o homem a quem aprendera a amar, e Lancelot, seu amor desde que o vira ali mesmo em Glastonbury anos antes.
Feitos seus únicos afazeres do dia, a rainha volta ao seu destino mas desta vez encontra algo de diferente em sua dura cama.
“Grande Rainha,
Também fui mandada para cá em meio à batalha, estive enferma por algum tempo e só agora consegui me reerguer. Sei que a Senhora é inocente do que lhe acusam, direi isso a meu irmão. Não sabia se sua clausura era vigiada e nem se conseguiria lhe falar, por vias das dúvidas deixei-lhe este bilhete.
Estou indo a Camelot, mas por hora é melhor que sua majestade fique em segurança no convento, o inverno é rigoroso e nem sei se chegarei viva, mas se o fizer, fique certa de que lhe defenderei perante o Rei e estará livre antes que o último floco de neve derreta.
De sua duquesa, Morgana”.
Guínevere sentira o calor de volta ao corpo, então aquela a quem julgara tão mal seria sua salvadora. Bendita fosse Morgana das fadas
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