Sob o Céu da Bretanha
2 Capítulo 2
Notas iniciais
A nevasca estava tão intensa e cortante quanto navalhas caindo do céu, o frio corria os ossos de Morgana de tal maneira que até a própria Dama do Lago temia por sua vida.
A mula que Morgana furtara do convento parecia mais debilitada com o frio do que ela. Dessa forma nunca chegaria a Camelot com vida; era crucial conseguir alcançar ao menos uma das pequenas grutas existentes ao redor daquela ilha.
Se Glastonbury e Avalon dispunham do mesmo espaço territorial era de se esperar que houvesse uma passagem seca para a Grã-Bretanha ou ao menos parcialmente congelada. O caminho secreto, conhecido apenas pelas sacerdotisas e druidas, ficava à mostra apenas uma pequena parcela do dia naquela época do ano, no resto era inundado pelo mar de verão. Nenhum cristão poderia percorrê-lo em segurança sem a devida orientação, já que o próprio mar formava caminhos sinuosos que, se percorridos de forma equivocada, levariam ao afogamento quando a maré subisse. Conhecer o caminho fazia parte do treinamento ao qual Morgana enfrentara.
Todavia, ainda estava longe, e o frio a fazia quase que perder as esperanças, mas não, não poderia desistir; tinha de chegar ao reino.
Morgana finalmente chegara a uma das grutas. Descansou a mula no fundo e tentou aquecê-la. Não havia como fazer fogo, nem mesmo por encantamento, já que ela estava sem forças, era preciso esperar que ao menos a neve cessasse.
Tremendo de tanto frio, Morgana comeu e bebeu vinho, a fim de esquentar-se um pouco. Era improvável que dormisse, e nem poderia; correria o risco de morrer de frio.
Ficou observando o lado de fora, uma beleza alva, tão bela quanto assassina, mais mortal que a mais afiada das espadas, parecendo pó feito dos diamantes vindos do além-mar.
*****
Guínevere sentia-se esperançosa. Novamente podia sonhar, mas, ao mesmo tempo, preocupava-se por Morgana. Se ela podia realmente fazer bruxarias talvez se salvasse, embora aquilo certamente fosse obra do maligno. Mas, com o inverno mais rigoroso que já vira, até mesmo o povo das fadas teria extrema dificuldade de viajar.
A preocupação voltara à sua face. A sua vida estava nas mãos de Morgana, não lhe parecia agradável que uma pagã estivesse no controle, mas, por outro lado, aquela bruxa estava tentando ajudá-la, enquanto as freiras que sempre admirou estavam mantendo-a cativa sem chance de explicar-se. Tudo bem, estava segura e alimentada, e ninguém a entenderia de qualquer maneira.
Começara a sentir-se mal nas últimas horas, o corpo quente anunciara que ficaria doente. Não era incomum adoecer no inverno. Mesmo sem pisar fora daquela clausura por mais de alguns minutos, o convento era bastante frio com suas pedras sem vida. Guínevere sempre fora frágil ao frio, desejara ter nascido mais ao sul, onde é bastante quente.
A rainha notara um pequeno alvoroço entre as noviças; corriam de um lado para o outro parecendo vultos em meio àquela escuridão. Tinham descoberto a fuga de Morgana. Não importava, ninguém em sã consciência iria tentar sair, muito menos por uma pagã. Se ela queria se matar, o problema era dela.
Guínevere ficou mais aliviada, mas seu corpo pesava demais, fazendo-a desmaiar sobre a sua cama. Era certo; a rainha estava enferma.
Minutos depois, noviças chegaram com a ceia da rainha e notaram que ela havia desmaiado. Isorta foi avisada e chamou algumas freiras para tratar da rainha. Ainda faltava pouco mais de um mês para o fim do inverno. Precisava mantê-la viva até que o rei se recuperasse e tomasse uma decisão em relação àquela adúltera.
*****
Amanhecia mais uma vez nas charnecas geladas de Glastonbury. Morgana mal dormira, graças à Deusa. Recolheu sua mula, deu-lhe água, tomou também, e seguiu viagem.
A neve agora estava suave, mas quase não havia luz. Precisava se apressar, pela lua da noite anterior sabia que a maré baixa ocorreria pela manhã, precisava chegar no caminho secreto antes que ele desaparecesse em meio as águas congeladas.
Viajou sem descanso. A fome a assolava, mas ela aprendera a não ligar para isso. Passou por vários caminhos, estava perto, mas notou presenças estranhas.
Dois homens trajando peles mal acabadas estavam em seu encalço, certamente saqueadores. Sua mula não estava em condições para concorrer com cavalos, Morgana então confiou em sua sabedoria e entrou em meio aos bosques negros. Os saqueadores a seguiram.
Atenta, Morgana cavalgava por entre as árvores de modo que os homens ficaram confusos. Mesmo sem poderes ela sabia fazer-se misteriosa o suficiente para despistar qualquer um em meio aos bosques.
Ela tomou um atalho saindo pela lateral e voltando por fora das árvores ao seu caminho original. Por ora, conseguira se salvar, mas poderia haver mais problemas.
Morgana estava próxima do seu destino, e já avistara o mar de verão. Cavalgou mais um pouco e pôde ver que o caminho ainda não se fechara; faixas finas de pedras formavam-se à maré baixa e entrelaçavam-se quase como um labirinto sem paredes.
Morgana moveu-se o mais rápido que podia, o caminho lhe era tão comum quanto a palma de sua mão (embora preferisse sempre ir de Avalon a Camelot pela barca e sentir a magia fluir quando abaixava as brumas para liberar a passagem, que estava se fechando).
Finalmente chegara à Grã-Bretanha. Sua mula estava exausta, mas não havia tempo para pausas. Dali para Camelot era menos de meio dia de viagem, e graças à Deusa a nevasca ainda não voltara com força total, mas Morgana aprendera a não abusar das forças sagradas dos elementais.
A dama do lago chega a Camelot. O reino realmente estava em frangalhos. O pátio de entrada estava com os portões abertos, sem a menor segurança. No estábulo, antes habitado por cavalos e potros fortes e numerosos, havia apenas meia dúzia de animais em estado deplorável. Chegando ao portão de entrada, Morgana notou a presença de dois guardas e se anunciou:
– Sou Morgana, a duquesa da Cornualha, irmã do rei, deixe-me passar.
– Claro! Senhora. – disse um dos soldados após um tempo examinando sua aparência e confirmando sua identidade. – Mas devo falar que o Grande Rei encontra-se ocupado. Seu duque foi ferido gravemente em batalha e agora o próprio senhor está dia e noite em seus cuidados. Os exércitos estão muito reduzidos e as aias da rainha voltaram a seus reinos de origem, por segurança.
– Entendo. – disse Morgana, apavorada pelo estado de seu primo.
Lancelot, ferido... Certamente protegera o rei contra ataques saxões em batalha. Se a magia de Avalon ainda surtira efeito, Artur estaria são e salvo apenas com ferimentos leves. A bainha da Excalibur feita de couro do Gamo-rei e veludo, marcada pelas magias antigas feitas por Morgana, protegia o rei de sangrar em demasia. Além disso, a própria arma, forjada com metal das estrelas cadentes e encravada de joias preciosas pelas artes dos duendes, jamais perderia seu fio e cortaria qualquer coisa sendo de grande valia, pois, numa batalha feroz.
Morgana apressava-se passava pelos salões principais, e subiu aos aposentos reais. Ao abrir a porta sem bater, viu o irmão, cabelos louros e barba por fazer, tão forte e alto quanto o Gamo-rei debruçado sobre Lancelot, que agonizava com um corte profundo na parte inferior do lado direito do peito.
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