Sob o Céu de Conservatória - Volume 1
4 O Nó no Corset
Conservatória, Distrito de Valença, Rio de Janeiro 25 de maio de 1895 — 18:24 p.m.
Nayla buscava, mais uma vez, o próprio reflexo na vidraça da janela. Seus cachos caíam em cascatas sobre os ombros, e um vestido de tom alaranjado a cobria até os pés. A peça, adornada com bordados de flores e rendas alvas no busto, conferia-lhe uma elegância que flertava com a delicadeza de uma pétala. Contudo, apesar da imagem distinta que o vidro devolvia, o coração de Nayla não partilhava daquela harmonia.
— Nayla, venha auxiliar-me com a mesa! — O chamado de Abigail interrompeu seus pensamentos. Com um suspiro resignado, a jovem abandonou o espelho e adentrou a cozinha.
O aroma da sopa de cebola e do pão recém-saído do forno de lenha impregnava o ambiente. Nayla dispôs as louças de porcelana e os talheres de prata sobre a toalha de renda.
— O aroma está divinal, mamãe.
A missionária finalizava o tempero com uma pitada de sal. — Fiz também compotas de morango e uma torta de maçã para após o jantar. — Abigail voltou-se para a filha e estreitou-a num abraço breve. — Estou mui entusiasmada com este jantar, e tu?
Nayla forçou um sorriso que não alcançou o brilho dos olhos. — Sim... decerto.
Abigail meneou a cabeça, o tom tornando-se duro. — Deves abandonar essa resistência e ser mais dócil para com o Davi. Não há para onde fugir, minha filha, ele será teu esposo. Essa tua pirraça apenas torna o caminho mais tortuoso.
Nayla cerrou as pálpebras, e as imagens da estação ferroviária assaltaram-lhe a mente. Na última terça-feira, discorrera com Joaquim sobre a Arca de Noé e a aliança do arco-íris. Ele, por sua vez, falara-lhe da mãe, perdida precocemente, mas que ainda era o motivo do brilho em seu olhar. Nayla recordou a vontade impetuosa de abraçá-lo para mitigar-lhe a dor, mas conteve-se na distância regulamentar de dois metros. Joaquim também lhe contara que iniciara as aulas de leitura com a irmã, movido pelo desejo de impressionar a "professora".
O que, todavia, mais lhe voltava a mente não eram os feitos grandiosos nem as palavras proferidas com ardor, mas antes aqueles instantes de doce inação, em que nada se fazia, nada se dizia e, ainda assim, tudo parecia transbordar de sentido. Permaneciam ambos ali, como se o tempo, por um capricho divino, houvesse decidido repousar sobre suas cabeças, compartilhavam o mesmo espaço, a mesma brisa suave que lhes roçava os rostos, a mesma paisagem que se estendia, serena, diante de seus olhos.
Havia, na presença de Joaquim, algo de eternidade silenciosa. Parecia ele entrelaçado à própria estação, como se fosse parte intrínseca daquele cenário, como se jamais houvera existido um instante em que não estivesse ali firme, constante, quase etéreo. Seus olhos, de um avelã profundo e contemplativo, mantinham-se cativos de cada gesto, de cada inflexão de voz, de cada palavra que, ainda que tímida, escapava dos lábios de Nayla. E, nesse olhar, havia uma devoção muda, um afeto que dispensava declarações, pois se fazia inteiro na simples arte de permanecer.
Batidas secas à porta anunciaram os convidados. O Pastor Elias recolheu-se da ida no quintal e logo todos estavam acomodados à mesa.
— Estimamos mui o convite, Pastor Elias — declarou o pai de Davi.
Davi fitava Nayla com um sorriso que pretendia ser galante. — Se me permite a ousadia do elogio, senhorita, vosso vestido é deslumbrante.
— Agradeço-vos, Davi. Sois sempre mui educado.
Nayla sabia que aquele jantar não era um mero gesto de cortesia. Era um tribunal onde se selaria o seu destino. Sentia náuseas ao imaginar-se unida ao rapaz à sua frente.
— Quem sabe estes jantares não se tornem parte de nossa rotina familiar? — pilheriou o Pastor Elias, provocando risos gerais, exceto em Nayla, que se concentrava na sopa.
A conversa derivou para as chuvas e a prosperidade das colheitas. O pai de Davi, empertigado, gabava-se da responsabilidade do filho na administração das terras. O silêncio que se seguia a cada elogio era denso, carregado de intenções.
Finalmente, o visitante pousou os talheres. — Creio que não nos reunimos apenas para discorrer sobre o clima.
O ar pareceu estagnar-se. O Pastor Elias cruzou as mãos sobre a mesa, solene.
— Nossa família nutre grande apreço pela vossa — continuou o pai de Davi. — E acreditamos que uma união entre nossos filhos seria... proveitosa para ambas as linhagens. Davi tem caráter e meios para constituir um lar sólido. E vossa filha possui as virtudes que honrariam tal casa.
Lançaram um olhar a Nayla, não em busca de seu consentimento, mas como quem confere uma mercadoria valiosa.
— E o que propõem exatamente? — indagou Elias, direto.
— Um compromisso formal. Um noivado com vistas ao matrimônio. Estamos dispostos a tratar do dote e das garantias...
O pai de Nayla anuiu levemente. — Nossa casa honra compromissos. O dote não será um impedimento. E quanto ao tempo? — questionou Elias. — Não convém precipitações.
— Acordo convosco. Um período de acompanhamento, sob a devida supervisão, será o ideal — concluiu o visitante.
O Pastor Elias olhou para a esposa e, de soslaio, para a filha. Não era uma consulta, era uma sentença. — Podemos considerar o acordo firmado — sentenciou o Pastor.
Naquele instante, o nó no corset de Nayla pareceu apertar-se até faltar-lhe o fôlego.
***
Minutos depois, Nayla e Davi caminhavam pelas ruas de pedra, chutando a poeira em silêncio. Ana Gertrude os seguia a alguns passos de distância, garantindo a guarda da moralidade.
— Achei o jantar mui promissor, não achas? — indagou Davi, olhando para as estrelas.
Nayla sentia um nó na garganta que dificultava a respiração. — Não desejo falar sobre isso, Davi. Por favor.
Ele parou, a luz da lua conferindo um tom azulado aos seus cabelos escuros. — "Isso"? Estamos a tratar de nosso futuro, Nayla!
— Chame como convier. Me sinto indisposta e desejo recolher-me — retrucou ela, sem erguer os olhos.
Davi bufou, indignado. — Não compreendo vossa resistência. Somos o par mais estimado de Conservatória. Irá casar-se comigo, queira ou não.
Tudo o que ecoava na mente de Nayla eram as imagens dela própria a lecionar, um sonho que agora parecia esvair-se como fumaça, pois seu pai a entregara, ou quase, nas mãos de Davi. Ele selara seus pés ao solo de Conservatória, transformando a estação de trem, seu portal para a liberdade, em um mero cenário de encontros proibidos com...
— Olhem só! É sob o manto da escuridão que os impuros se reúnem — a voz grossa e ríspida de Davi, acompanhada de uma risada escarninha, arrancou Nayla de seu transe.
A jovem seguiu o olhar de Davi e sentiu o peito oprimir-se. Joaquim e Cora, a mulher de vida airada da vila, estavam sentados nos degraus de pedra do coreto. Joaquim mantinha um livro sobre os joelhos, enquanto Cora apontava para as páginas, murmurando algo que o vento da noite impedia de alcançar.
Nayla sentiu o corpo reagir a um ciúme impetuoso ao vê-los tão próximos. Ela, que impusera a Joaquim a distância de dois metros por temor à sua reputação.
— Não vejo razões para importuná-los. Façamos o retorno — pediu Nayla, puxando o braço de Davi para que voltassem à segurança de sua casa.
Contudo, antes que pudessem recuar, Davi soltou um grunhido alto de escárnio, chamando a atenção do casal. No mesmo instante, Joaquim e Cora ergueram os olhos, tomando consciência de que eram observados.
O tempo pareceu estagnar. Os quatro permaneceram em um silêncio carregado de apreensão. Joaquim fixou o olhar na mão de Nayla, que tocava o braço de Davi com suavidade, enquanto Nayla não conseguia desviar os olhos do ombro de Cora, que roçava o braço de Joaquim com uma intimidade que ela jamais ousara ter.
— Vamos, Nayla! Deixemos os... pombinhos? — Davi disparou, carregado de deboche, antes de arrastar a jovem.
Nayla caminhou de costas por alguns passos, sustentando o olhar de Joaquim até que as sombras da noite os separassem por completo. Ela sentia-se infinitamente pior do que quando saíra para o jantar.
— Creditas mesmo que formam um casal? — indagou ela, a voz trêmula.
Davi deu de ombros. Seu semblante era duro, a face tonificada por um rubor de ira que chamaria a atenção de qualquer um, mas Nayla estava mui ferida pela imagem de Joaquim para notar a fúria desmedida do pretendente.
— Não seria de estranhar — retrucou Davi com desdém. — O filho do delegado e a meretriz, são farinha do mesmo saco.
O estômago de Nayla embrulhou. O ciúme ainda a corroía, fazendo-a questionar se um dia poderia sentar-se daquela forma ao lado de Joaquim sem o peso do julgamento, mas a rispidez de Davi a indignava.
— Não creio que devais referir-vos a eles desta forma. Eles possuem nomes, e vós os reduzistes a epítetos vagos e cruéis.
— Sois de uma ingenuidade atroz, Nayla.
Irritada, ela desvencilhou seu braço do dele, já diante da porta de sua residência. — E vós sois cristão, Davi. Não vos cabe julgar o próximo com tal veneno.
Davi encarou-a com amargura antes que ela entrasse. — Cora jamais será como tu, e Joaquim jamais será como eu. Disso podes ter certeza.
— Até mais, Davi — despediu-se ela, sem forças para mais réplicas.
Nayla adentrou a casa e cerrou a porta, correndo para o refúgio de seu quarto. Ali, desabou em lágrimas, por si mesma, pelo matrimônio imposto, por Joaquim e pela percepção de que o céu de Conservatória parecia, a cada dia, fechar-se mais sobre seus sonhos.
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