Conservatória, Distrito de Valença, Rio de Janeiro 29 de maio de 1895 — 11:50 a.m.

Nayla não comparecera à plataforma da estação no dia anterior.

Não fora o infortúnio do sábado que a mantivera reclusa, mas sim um chamado de caridade que não pôde ignorar. A pequena filha de uma das irmãs da congregação amanhecera sob o jugo de uma febre impetuosa, despertando o temor de todos, visto que a febre amarela rondava a região como um espectro invisível. Nayla devotara seu dia àquela casa, alternando entre orações fervorosas e o auxílio nos afazeres domésticos, para que a mãe pudesse velar o sono da criança.

Quando a noite finalmente estendeu seu manto estrelado sobre Conservatória, um aperto angustiante visitou o peito de Nayla ao imaginar Joaquim solitário, aguardando por uma lição que não veio. Tentou, em vão, aplacar o pensamento supondo que, talvez, a companhia de Cora lhe bastasse.

Ao despertar da manhã seguinte, quando a luz se insinuava tímida pelas frestas das janelas e o mundo parecia acordar em um reverente e cristalino silêncio, Nayla dirigiu-se ao templo. Na Escola Bíblica, debruçaram-se sobre o Evangelho de João, no oitavo capítulo, cuja lição pairava no ar como um sussurro de misericórdia sobre a mulher surpreendida em adultério.

Após a leitura, Nayla ergueu-se suavemente. Havia em seu semblante uma gravidade serena. Seus olhos, firmes e luminosos, repousaram sobre os irmãos.

— Sabei, meus irmãos — começou ela, com uma voz que possuía a doçura do mel, mas a firmeza do carvalho — que, não raras vezes, assemelhamo-nos àqueles fariseus, trazendo em nossas mãos pedras invisíveis, polidas pelo julgamento. Condenamos com uma presteza assustadora, esquecendo-nos de volver o olhar para o íntimo de nossa própria alma, onde habitam falhas tão profundas quanto aquelas que ousamos apontar no próximo.

Fez uma breve pausa, permitindo que o silêncio sublinhasse suas palavras.

— Rogo que levem convosco dois pensamentos. Primeiro: somos todos, sem exceção, seres inclinados ao erro e carentes de perdão. Segundo: antes que vossos lábios proferissem injúrias contra qualquer alma que cruze vosso caminho, detende-vos. Aproximai-vos. Conhecei a dor alheia. Sejamos semelhantes ao Salvador, que jamais recusou ouvir quem O buscava, pois Ele não veio para os sãos, mas para os enfermos do espírito.

Ao término do culto, Nayla encaminhou-se à tenda de seu pai para colher as hortaliças para o jantar. No trajeto, contudo, o ar parecia pesado com o veneno da maledicência.

— Ouvi dizer que ela foi capaz de desfazer-se de duas sementes de seu próprio ventre — sussurrava uma matrona à beira da calçada. — Dizem que foi vista com um operário da ferrovia ainda ontem. Que criatura desavergonhada! — retrucava outra.

Nayla percebeu que as flechas do julgamento miravam uma única direção: Cora. A moça caminhava com passos apressados, a cabeça baixa como se tentasse tornar-se invisível. Na pressa de escapar, seu corpo esguio chocou-se contra o de Nayla.

Nayla segurou-a pelos braços e, ao inclinar-se para ver o rosto oculto pelos fios de cabelo, sentiu o sangue gelar nas veias. — Meu Deus... Santo Deus!

O rosto de Cora estava marcado por uma violência brutal. Uma mancha arroxeada cobria-lhe metade da face, e o lábio partido ainda vertia o rubor da dor. Esquecendo-se de qualquer vestígio de ciúme, Nayla tomou sua moringa de água e um lenço de linho, limpando com ternura as feridas daquela que o mundo desprezava.

— O que houve? Quem ousou levantar a mão contra vós? — indagou Nayla, enquanto a conduzia a um banco próximo.

— Mulheres como eu não possuem o privilégio do amor que vós conheceis, senhorita — soluçou Cora, a voz embargada. — Sou apenas um objeto de prazer, privada de qualquer cuidado.

— Não digais tal coisa! — exclamou Nayla, o coração transbordando compaixão. — Ninguém tem o direito de vos ferir desta forma. Quereis ir ao encontro do Xerife? Podemos buscar justiça.

Cora soltou uma risada ríspida, temperada com o fel da amargura. — Ir ver meu pai? O "Xerife" tem vergonha dos rebentos que gerou. Mais fácil seria ele completar o serviço com um tapa do outro lado. Deixe... já estou habituada ao peso das mãos dos homens.

Nayla apertou o lenço ensanguentado entre os dedos, sentindo uma revolta santa borbulhar em seu peito. A discrepância entre as duas era gritante: Nayla em seu vestido de seda verde-maçã com mangas bufantes e um chapéu adornado. Cora em seus trapos remendados e botas gastas. Uma era a imagem da pureza protegida, a outra, o retrato da dor exposta.

Foi então que uma voz familiar cortou o burburinho da feira. — Irmã! O que fizeram contigo? — Joaquim ajoelhou-se aos pés de Cora, ignorando a presença de Nayla por um instante.

— Estou bem, Joaquim. Nada que eu não suporte — respondeu ela, tentando recompor-se.

Joaquim uniu as sobrancelhas em uma expressão de puro tormento. — Por que ainda o procurais? Por que insistis nesse homem que não vos dedica um átomo de afeto?

Nayla sentiu um formigamento subir por seus braços, uma sensação de calor que lhe inundou a alma. Irmãos! A palavra ecoou em sua mente como um hino de libertação. Eles eram irmãos! Joaquim apenas buscava proteger a irmã desamparada.

Joaquim finalmente notou Nayla e levantou-se, retirando a boina. — Agradeço-vos por cuidar de minha irmã, senhorita.

Nayla sorriu, uma luz nova brilhando em seu olhar. — Creio que devo deixá-los a sós. Com vossa licença.

Ela afastou-se com passos lentos, mas o coração parecia querer alçar voo. Contudo, não caminhou muito antes de ouvir seu nome ser chamado.

— Nayla, esperai! — Joaquim vinha ao seu encontro. Ele parou à distância costumeira, dois metros, mas seu olhar estava carregado de uma melancolia que a desarmou. — Esperei-vos ontem. Por que faltastes ao nosso compromisso? Queria mostrar-vos que já consigo grafar meu próprio nome... e contei à minha irmã sobre as parábolas que me ensinastes.

Nayla perdeu-se na contemplação daquele jovem. Notou como a boina se assentava com elegância sobre seus cabelos, como o colete sublinhava seu porte altivo e como os olhos avelãs possuíam uma profundidade que ela nunca encontrara nos livros.

— Peço-vos perdão, Joaquim — murmurou ela, as faces coradas. — Tive uma urgência com uma irmã da congregação.

O silêncio caiu entre eles, denso e pesado como um nevoeiro de outono.

— É verdade o que dizem na vila? — indagou ele subitamente, a voz falha. — Que ireis casar-vos? Com o Davi?

A pergunta atingiu Nayla como um golpe físico. O peso do compromisso firmado por seu pai pareceu esmagar seus ombros. Seus lábios, treinados na verdade, não conseguiram proferir a mentira, mas a palavra "sim" parecia um veneno que ela se recusava a engolir.

— Bem... é... um acordo de família — sussurrou ela, incapaz de olhá-lo nos olhos.

Joaquim baixou a cabeça, e o brilho que restava em seu semblante extinguiu-se. — Então é preferível que não tivésseis vindo ontem, senhorita. E que não volteis mais.

Ele virou as costas e partiu, deixando Nayla estática sob o sol do meio-dia. Os olhos da jovem marejaram, e ela apertou a Bíblia contra o peito enquanto via a silhueta dele desaparecer entre a multidão.