Notas iniciais
Mais um capítulo que acabou de sair do forno :)

Lancelot estava em seu quarto, já começara a despir-se e estava indo dormir quando Artur abriu a porta sem mesmo bater. Lancelot ainda de costas falou em tom jocoso:

– O que o traz aqui com tanta urgência, meu Rei?

– Preciso de sua ajuda!

O duque percebeu o pesar na voz de seu amigo e virou-se em seguida podendo confirmar com os olhos o estado de desespero em que Artur se encontrara.

– Artur, o que houve?!

– Morgana foi com Guínevere para Stonehenge sem nenhuma proteção!

– Por Deus, mas por quê?

– Acho que Morgana vê em Guínevere a única chance de se chegar a Avalon!

– Ainda assim, provavelmente a guerra vai estourar por lá, devo ir resgatá-las.

– Você não, Lancelot, mande alguns de seus homens. Espere uns dois dias até que esteja completamente hábil e comande os exércitos comigo!

– Se Morgana dispensou os guardas, certamente não quer companhia, confundirá quem tentar alcançá-la.

– Pensei que estava sem poderes.

– Estando em Stonehenge ela conseguirá realizar esses simples encantamentos, afinal, ela é a Senhora do Lago!

– Então ela poderia despistar os exércitos nórdicos?

– Lembre-se da quantidade, meu rei! Um nevoeiro não despistaria tantos homens, alguns acabariam achando Stonehenge, mesmo que por engano!

– Então não adianta quem mandarmos, já que só dispomos de um ou dois homens para essa missão?!

– Tenho o sangue real de Avalon, primo, não serei enganado por um truque tão simplório!

– Nesse caso eu também o tenho, resgatarei eu mesmo minha esposa e irmã!

– O exército até pode lutar sem um duque, mas sem um rei? Está louco! Não confia em mim?!

– Daria a você até a minha vida, meu caro! Está bem, mas por Deus, tenha cuidado. Se vir que os exércitos nórdicos estão em seu encalço se esconda e não saia até tudo acabar!

– Trarei as duas de volta, primo, eu prometo!

Um longo momento de silêncio assolou o aposento enquanto Lancelot se vestia; não com as roupas finas de um nobre que estava usando mais cedo, mas com sua armadura.

Artur ajudou seu amigo a preparar-se como se fosse seu escudeiro; peça por peça, da malha até o elmo, o Grande Rei vestia seu duque para mais uma missão; por fim, abaixou-se para calçar-lhe as proteções das pernas, Lancelot recuou:

– Não fica bem a um rei curvar-se dessa maneira, meu senhor!

– Não importa, não com você... Perdão, Lance, vivo te colocando em perigo por causa de assuntos que eu mesmo deveria resolver!

– Não seria duque se fosse diferente, não?

– Mesmo assim, você já ia dormir, está cansado para uma noite na estrada.

– Se sair agora, quem sabe chego antes dos bárbaros. Não se preocupe, fui treinado para dar pouca importância ao sono e a fome, esqueceu?

– Claro. Volte a salvo, Lance!

Ainda naquela noite, Lancelot e dois de seus homens partiram em busca das rainhas. O comando do regimento do duque ficara com Tristão, no caso de falha da missão.

Artur não dormira aquela noite, checando com os emissários seus poucos navios de guerra, que estavam em uma missão suicida para atrasar ao máximo os experientes navegantes do norte.

Lancelot cavalgava rápido como uma ventania de inverno. Conhecia muito bem o caminho para Stonehenge, já que sua mãe, Viviane, o havia levado quando criança, na esperança de que pudesse se tornar um druida. Não fora essa sua escolha, mas o sangue mágico corria em suas veias, e mesmo uma maga como Morgana não poderia enganá-lo a respeito do caminho.

Os primeiros raios de sol já cruzavam a terra quando, exausto, Lancelot parou para descansar:

– Ficaremos acampados por três horas no máximo; comam um pouco e tentem dormir.

O percurso continuava, estavam próximos, um nevoeiro atípico daquela hora de um dia de primavera cercava a Lancelot e seus homens. Morgana estava agindo!

Lancelot continuou seguindo seus homens através da névoa, seguindo o pulsar mágico do templo de pedras. Quando a névoa finalmente se dissipou, podia-se ver apenas a imagem de Guínevere acomodada dentro do círculo com seus trajes reais empoeirados e seu vasto cabelo louro percorrendo toda a extensão de seu dorso.

Lancelot desceu de seu cavalo e foi ao encontro de sua rainha. Seu corpo queimava por dentro, tal sensação mulher alguma lhe causara, mas, apenas pousou a mão no ombro de sua amada e ajoelhou-se para os cumprimentos adequados à rainha.

– Nobre Senhora, enfim te encontrei!

– Lancelot! Pensei que estava ajudando Artur nos preparativos da guerra. Que bom vê-lo!

– Estava, minha rainha, mas tive que vir resgatá-la. Os nórdicos estão muito próximos e este será um dos primeiros lugares a serem atacados. A senhora corre incomensurável perigo!

– Sinto muitíssimo que você tenha corrido tal risco em vir, meu amor. Sinto também por Artur ter ficado sem seu duque a essa altura. Porém, Morgana me convenceu de que não podemos vencer, não sem o que estamos prestes a fazer!

– Pensei que acreditasse nos Mistérios de Avalon como sendo alguma obra demoníaca, Senhora?

– Depois de tudo o que passamos, andei revendo minhas ideias. Além do mais, sou a Grande Rainha da Grã-Bretanha, devo protegê-la a qualquer custo, independentemente das minhas crenças.

– Não poderia esperar menos da senhora. A propósito, onde está a rainha de Gales do Norte?

– Morgana foi colher alguns cogumelos que me farão acessar a Visão, ou seja lá o que isso for!

– Os tempos realmente são de desespero, a senhora se utilizando de magia!

Guínevere corou com a brincadeira de Lancelot, era quase como se os velhos tempos de paz na corte tivessem voltado. Quando eles dois e Artur eram praticamente um só.

Morgana apareceu com suas vestes rasgadas à altura das pernas; trazia pequenos cogumelos nas mãos e olhava diretamente para Lancelot com um sorriso no rosto ao mesmo tempo marcado pela preocupação.

– Duque do Lago, rei de Pellinore! Como vai, primo? Deveria saber que Artur mandaria a única pessoa além dele capaz de ultrapassar meu nevoeiro, embora sinta em deixar o rei desprotegido!

– O Grande Rei ainda tem seus cavaleiros e eu sou só mais um, mas ainda assim precisamos ir rapidamente prima!

– Acalme-se, tudo a seu tempo. Se tivermos sorte, tudo aqui não passará de minutos enquanto que no mundo das fadas terá se passados anos até que a rainha aprenda os Mistérios e eu recupere a plenitude de minhas forças, isso é crucial para a guerra, primo, e se não me ouvir, creio que terei de derrubá-lo.

– Você, Morgana das fadas, derrubar-me? E a meus homens também?

– Não subestime uma sacerdotisa Lancelot. Você já deveria saber disso!

– Tudo bem; se for alguns minutos, podemos esperar, mas depois cavalgaremos o mais rápido possível para Camelot. Talvez consigamos chegar antes dos nórdicos.

– Se tudo der certo, a guerra estará ganha, primo. Venha, Guínevere, coma um pouco disso.

Morgana cortou finos pedaços do cogumelo com sua adaga e deu à rainha. Também comeu um pouco.

– Bem, Guínevere, normalmente, utilizaríamos a Visão através de um pouco de água, mas o objetivo agora é outro. Feche os olhos, sinta a magia de Stonehenge. Esvazie todos os seus pensamentos nem que seja por um segundo e, quando conseguir sentir a aura do templo, peça a ajuda das fadas.

– Se tem que ser assim... Então assim será...

Notas finais
Beijos à Juliana Rizzutinho por seus comentários assíduos. Você é uma das razões pelas quais eu ainda não parei de postar :)