Sob o Céu da Bretanha
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Demorados minutos se passaram sem que nada acontecesse. Tudo estava tão silencioso que o som da brisa entrecortando as pedras do templo era perfeitamente audível. Lancelot já começara a perder a paciência, quando Guínevere começou a falar com uma voz tão frágil e sibilante que se assemelhava a um sussurro:
– Vejo uma espécie de névoa brilhante em torno das pedras.
– Muito bem, Guínevere. Você está começando a despertar a Visão, mesmo que de forma forçada... Agora Guínevere, você estreitou o caminho entre os mundos, comunique-se com as fadas!
Lancelot ordenou a seus homens que saíssem do templo, mas que não fossem muito longe, para não se perderem na névoa... Os não iniciados não deveriam estar em presença de tal poder ou poderiam perder a vida... Ainda era possível ouvir um sussurro da Rainha, mas não se sabia o que dizia.
Morgana também provara dos cogumelos e estava entrando numa espécie de transe.
Mais alguns minutos se passaram e tudo o que Lancelot via era as duas mulheres sentadas no centro de Stonehenge, com os olhos cerrados e respiração por vezes calma, por vezes bastante ofegante.
*****
A esquadra real já começara a avistar os navios nórdicos. Estavam todos preparados para morrer ali. Havia mais de vinte navios nórdicos, considerados os melhores navegadores, e apenas cinco navios bretões, já gastos das incontáveis batalhas contra os saxões.
O comandante tratou de enviar um emissário a Artur para informar sobre o início da guerra e decidiu zarpar com os navios bretões para uma batalha em alto mar na tentativa de atrasar ao máximo os nórdicos.
O mar estava revolto para uma tarde de primavera, e talvez isso pudesse ser uma vantagem. Afinal, se todos fossem tragados pelas ondas, ao menos o exército bretão não se resumia à esquadra.
Os navios estavam cada vez mais próximos, e o comandante começou a designar que iria saltar diretamente sobre o navio inimigo. Preparou os arqueiros, ordenando que acendessem suas flechas.
Navios se chocaram. Chuvas de flechas flamejantes tingiam o céu com uma fumaça escura. Homens voavam de um navio para o outro. O tilintar das armas começa.
O número e técnica dos nórdicos eram ambos muito superiores aos dos bretões, e dois navios bretões já estavam inutilizados. Usando as ondas altas a seu favor e se aproveitando do fato dos navios nórdicos possuírem as bordas menores, os bretões conseguiram afundar dois dos navios inimigos.
Muitos navios nórdicos ultrapassaram a batalha sem tomar parte dela a fim de chegar mais rapidamente à terra firme. Mais dois navios bretões se chocaram com os nórdicos, afundando enquanto levavam consigo dois dos nórdicos.
O solitário navio bretão que restara lutou até conseguir inutilizar mais dois outros navios, mas não resistiu ao maciço ataque e pereceu.
Os nórdicos haviam vencido a batalha na água a se dirigiam para a costa Bretã. Não havia prisioneiros. Todos os que não morreram imediatamente eram mutilados e jogados no mar. O terror da guerra apenas começara.
*****
O emissário cavalgou incansavelmente o mais rápido que pôde até cruzar os muros de Camelot e presenciou os olhos do rei perderem o brilho ao ver a mensagem de que a guerra havia começado.
Lancelot ainda não havia voltado, mas provavelmente já teria chegado a Stonehenge. Artur estava de mãos atadas, por mais que desejasse ir a socorro da esquadra ou até mesmo dos seus em Stonehenge, qualquer deslocamento poderia ocasionar uma derrota irrecuperável, apenas uma tática defensiva em Camelot poderia salvar a guerra.
O Grande Rei ordenou que Tristão ficasse junto aos arqueiros, e que Gawain liderasse a pequena cavalaria. Sua guarda pessoal estava a postos, protegendo todo o castelo principal. Artur estava humilhado; sempre lutara suas batalhas junto a seus homens, mas Lancelot o havia aconselhado a ficar dentro dos muros do castelo dessa vez. O exército tinha muitos soldados, mas só havia um rei, e lutar sem seu duque às costas seria por demais perigoso.
Os camponeses haviam terminado de armazenar os alimentos e os médicos do reino estavam a postos; não havia mais ordens a serem dadas. O Rei sentou em seu trono e pôs a Excalibur, sem ação, a seu lado.
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