Notas iniciais
Ai vai mais um capítulo betado pela Stomphia (thanks darling! :) Espero que curtam!

O antigo templo druida cercado por magia de todos os lados e sendo, segundo a lenda, construído pelo próprio povo das fadas, seria o caminho mais curto para a comunicação. No entanto, ainda assim precisava de uma bruxa forte o suficiente para usar encantamentos tão longe de Avalon. Talvez não fosse necessário, se achasse alguém com a Visão intacta, ainda não usada, poderia forçar-lhe a usar magia com potência o suficiente para abrir um portal. Uma pessoa com a Visão nunca utilizada concentrava em si magia vinda de Avalon acumulada por toda a sua vida, razão pela qual as primeiras Visões sempre eram as mais fortes.

Poderia fazer-lhe levá-la direto à ilha sagrada, assim restauraria sua magia própria, mas com tão poucas sacerdotisas na ilha, isso não seria de grande ajuda. Realmente, para vencer aquela guerra, necessitaria dos povos antigos.

Morgana já se vestira e tomava seu dejejum, quando o rei passou em seu aposento para lhe dar as boas novas: Lancelot havia acordado!

Indo ver seu primo, Morgana recebeu dele os agradecimentos devidos mas como sempre demostrara modéstia em relação as suas artes médicas.

Conversou com o rei e o duque para informar-lhes da decisão que ela tomara. Sairia em jornada atrás de alguém com a Visão. Os nobres acharam muito perigoso, mas ninguém comandava a Senhora da ilha sagrada. Foi assim que Morgana, munida de mantimentos e escoltada por dois soldados, foi em busca de sua última esperança. Faltavam três semanas para a primavera.

*****

Guínevere ardia com a febre de inverno, o corpo doía como se houvesse sido chicoteada, mal conseguia levantar-se. As freiras lhe cuidaram com indiferença, de modo que a rainha não conseguia melhorar.

Por um momento, lembrou-se de Lancelot. Sim, ela o amava e tinha ido para sua cama, mas quem era Artur para condenar-lhe? Afinal, fora ele quem permitira tal coisa na esperança frustrada de que seu primo conseguiria dar-lhe o que nunca pudera ter... Um herdeiro.

O incidente em que fora pega na cama com Lancelot por Morgouse não passara de uma armação da rainha do Norte esperando que seu filho fosse o sucessor real. Artur não desejara escândalos na corte, e, se essa observação fosse atendida, a rainha poderia se deitar com o duque até na própria cama real como ocorrera na primeira vez, em que ela, Artur e Lancelot dividiram o mesmo leito. Apesar de na época considerar pecado, Artur disse que os seus antepassados estavam cansados de fazê-lo para perpetuar a linhagem real desde que não houvesse escândalos...

Lembrava-se também de Artur, seu rei e amor. Estava preocupada, teria seu marido sobrevivido? Teria o boato espalhado por Morgouse surtido efeito?

Devaneava em meio à febre. Já não mais pensava em pecado, ou o bem e o mal. Nenhum dos deuses daquela terra, nem o dos pagãos ou o dos cristãos, lhe dera um filho, apesar de ser uma esposa exemplar e recatada. Não se torturaria mais por tentar.

Sonhos confusos vieram enevoados a sua mente semi-lúcida. O rei debruçado sobre um Lancelot ferido, agonizante, Morgana chegando a Camelot. Um reino dizimado...

Acordara um pouco melhor, serviu-se de leite quente e frutas secas. O inverno começara a retirar-se. Teria sido aquilo um sonho? Guínevere, sozinha e atormentada por seus pensamentos, temia o destino que lhe aguardava.

*****

Morgana viajava pelo o que restara das aldeias em busca de alguém com a Visão. Mas, por mais que andasse, nunca conseguia achar ninguém com o dom.

Algumas jovens camponesas tinham resquícios da Deusa e Morgana até tentara despertá-los, mas não eram suficientemente fortes.

O tempo corria como um perseguidor voraz, e Morgana estaria perdida se não encontrasse ninguém. Avalon se fecharia para sempre no mundo das brumas e ela ficaria numa terra coberta por guerra e injustiça.

Os soldados que a acompanhavam, cristãos como eram, certamente a achavam uma bruxa louca e diabólica. Não conseguira sequer arranjar homens seguidores da Deusa, sua situação era a pior possível.

Dias e dias se passaram, Morgana nada conseguira. Ela iria desistir? Não, devia isso à Deusa. Fugira de Avalon e agora não poderia retornar sem o intermédio de outrem. A sua punição era justa, mas precisava se redimir e salvar o reino, mesmo com os homens pensando que eram eles que detinham o reino com suas guerras e destruições.

Nada, só o desespero... Será que a Deusa abandonara o reino a tal ponto? Não seria totalmente injusto. Morgana a traíra e Artur muito mais, ao lutar por bandeiras unicamente cristãs, apenas por capricho de sua rainha... Guínevere!

Talvez a Deusa tentasse mostrar que aquela que começara a luta contra a antiga fé deveria ser o portal de sua renovação. Não importava ela ser cristã, todo ser humano poderia ter a Visão mesmo que julgasse serem sonhos ou até mesmo tentações do diabo.

Afinal, em suas atuais condições, não poderia escolher. Se Guínevere tivesse o dom, ela o usaria mesmo que à força. Ela começara a enfraquecer o poder de Avalon, portanto ela teria que salvar a todos!

Novamente pegou a estrada. Os mantimentos estavam acabando e Morgana e sua escolta tiveram pouco para comer no caminho. Um dos soldados aconselhou a duquesa a renovar as forças e pegar mais mantimentos em Camelot, mas ela recusara, afinal, fazer uma pessoa despertar a Visão não era fácil mesmo que o dom fosse bastante forte. Levaria alguns dias e Morgana nem mesmo tinha certeza de que Guínevere a tinha. Parar por qual motivo que fosse seria insensato.

Viajavam leves e rápidos, mesmo com o inverno, que já estava próximo ao fim. Morgana lembrava-se dos perigos passados por ela na tentativa, graças a Deusa, bem sucedida de ir à corte de Artur.

Demoraram pouco tempo para conseguir chegar à ilha das freiras. Morgana foi recebida pela própria superiora já que, pesara ela, suas noviças não queriam mais qualquer contato com as ímpias mulheres de Avalon.

– A senhora por aqui, duquesa? Pensei que esta casa santa lhe causasse repulsa! – disse a Superiora logo que entraram em sua sala.

– Vim por uma coisa que me faz superar até meu pior asco. – disse Morgana, cansada de tentar entender por tanto tempo os costumes daqueles que só desprezavam o que lhe era caro. – Preciso ver a Grande Rainha.

– Agora ela passa bem, está instalada em novos aposentos. Esteve doente, mas já se recuperou – falou Isorta com um semblante reprovador pelo comentário impróprio da duquesa da Cornualha.

– Creio que já recebeu um emissário do rei?

– Sim, já recebemos a mensagem, estávamos aliviadas pela Grande Rainha não ser quem pensávamos.

– Naturalmente. – Mudaram rapidamente sua forma de tratamento para com Guínevere para que não sofressem perseguições por parte do rei, que patético!, pensou.

– Qual seria o assunto que a senhora duquesa teria com a Rainha? Pensei que ela só iria para Camelot após o reino se recuperar e poder ofertar-lhe segurança.

– Receio que seja particular. – disse Morgana secamente.

– Pois bem. – disse Isorta a contragosto.

Caminharam pelos conhecidos corredores de pedra até que tomaram um rumo ao qual Morgana não estava acostumada.

Os aposentos de Guínevere em nada pareciam àquela clausura em que ela deixara o bilhete. Era tão grande quanto um bom quarto de castelo, mesa de apoio, pequenos assentos, cama com palha nova e confortável, além de uma lareira de pedra grande e bem alimentada.

Na mesa havia uma bandeja com vinho aquecido, frutas frescas (Morgana imaginou o quanto foram difíceis de conseguir), pão e queijo de cabra.

A rainha ainda estava sentada à cama, bela como sempre com um vestido simples de lã preta e sapatos de interior. Pareceu estar feliz em ver Morgana, apesar de quase nunca terem se dado bem.

– Bem-vinda, irmã! – disse a rainha.

– Olá, Guínevere, precisamos conversar sobre um assunto de vital importância!

Assim que a porta se fechou atrás das nobres, Morgana foi conferir se Isorta as tivera deixado a sós realmente e depois foi para bem perto da rainha.

– Você sabe a situação em que Camelot se encontra?

– Bem, vencemos, não é o que importa? As outras coisas depois podem se arranjar!

– Até que poderiam, se não fosse uma nova ameaça às nossas terras.

– Por Deus, quem é agora?

– Selvagens mais para o norte tomaram conhecimento da grande batalha e talvez tentassem conquistar os vencedores, pois sabiam que estariam debilitados e assim conseguiriam não só as suas terras como as dos derrotados na batalha anterior.

– A Bretanha pode vencê-los?

– Artur já havia convocado os exércitos para a Grande Batalha, não há mais a quem pedir ajuda, todos os reis vassalos já mandaram o possível e ainda estamos em situação crítica... Mas há uma saída.

– Qual, Morgana? Não faça mistério!

– Artur ordenou que você ficasse em Glastonbury, mas só nós podemos vencer esta guerra!

– Como duas mulheres podem enfrentar um exército de bárbaros?

– Com a magia de Avalon.

Guínevere fez o sinal da cruz comumente feito ao se falar desse assunto.

– Já lhe pedi que não falasse mais desse lugar demoníaco!

– Você nunca entendeu Avalon por causa dos ensinamentos equivocados que recebeu por toda a vida. Sempre achei que você era só uma menina mimada, mas, agora, olhando-a melhor, você parece-me ter a Visão da Deusa.

– Do que está falando, irmã? Você é uma feiticeira e sabe Deus como eu a reprovo! Você fez meu marido se perder e eu consegui sua redenção, você maquinou para que Lancelot se casasse com Elaine para nós não ficarmos mais juntos! Eu não vou compactuar com esses ritos malignos!

– Tudo o que fiz foi para o seu bem e o bem de todos. Claramente fiquei chateada com Artur por ele não ter cumprido seu juramento para com Avalon, fato esse que ocorreu sob seus conselhos! Você deu início ao fim, Guínevere, e agora talvez possa se redimir!

Guínevere pensava aterrorizada ao ouvir as palavras de Morgana. Sim, ela tinha feito tudo aquilo na esperança de tornar a Bretanha uma terra cristã, vivera castamente e em penitência contínua a fim de que concebesse um herdeiro para o trono. Mesmo assim, nada acontecera, o trono teria de passar ao filho de Lancelot e sua finada esposa Elaine. Nada do que pedira aconteceu, e, apesar de achar nefastas as crenças de Morgana, a Grande Rainha faria o que fosse preciso.

– Morgana, creio que não tenho outra escolha, apesar de não ver o que duas mulheres fazendo feitiçarias ajudaria a terminar com uma guerra.

– Você nada conhece sobre Avalon! Não vou conseguir que você perca todos os seus receios em relação às artes secretas, mas mesmo assim farei com que venha comigo! Graças à Deusa que não precisei ir muito longe para convencê-la, acho que na hora do desespero todos voltam-se à Grande Mãe.

Ao final de uns rápidos preparativos, Morgana transmitiu uma falsa mensagem do rei desconsiderando a mensagem anterior e fingindo voltar a Camelot.

Na verdade dirigiam-se a Stonehenge para tentar reabrir o portal até Avalon. Morgana seguia com seu olhar firme de sacerdotisa observando os olhos temerosos da rainha. Pode quase sentir pena dela, mas sempre era assim a iniciação de uma nova sacerdotisa! A única diferença é que essa fora criada para odiar os Mistérios e isso não tornaria nada fácil a missão de Morgana.

Notas finais
Ps: Comentários são de graça e tornam a vida de um autor mais feliz kkkkkkkk