Sob o Céu da Bretanha
39 Capítulo 39
Notas iniciais
A neve caía cada vez mais depressa na Bretanha, o solstício estava se aproximando e Morgana se preparava para viajar e comparecer à reunião que o Grande rei havia preparado para celebrar o retorno da Bretanha à glória de outrora.
As principais edificações do reino estavam reerguidas e as colheitas foram bastante proveitosas se levada em consideração a terrível guerra que a Bretanha teve que suportar recentemente.
Tudo estava realmente voltando aos eixos e Morgana estava feliz em poder voltar a ver o seu irmão e toda a corte reunida; passariam o restante do inverno em Camelot, bebendo, comendo e relembrando os velhos tempos.
Ainda faltavam praticamente um mês para as festividades de Yule e Morgana planejava passar o seu posto de Senhora para Nimue no próximo festival, assim que o inverno acabasse, portanto, celebraria Yule dentro dos muros de Camelot, junto a sua família, como se aquele festival representasse sua última realização como a Senhora do Lago e o seu retorno para uma vida normal. A Dama do Lago nem sequer pensava em se tornar uma das magas conselheiras da nova Senhora; Morgana queria reinar em seu próprio reino por um tempo; seus sentimentos pelas terras da Cornualha haviam reaparecido com aqueles meses em que estivera por lá.
Depois de tudo preparado, a duquesa da Bretanha, rainha da Cornualha, saiu em comitiva em direção ao norte. Precisava passar por Avalon para fazer o comunicado oficial sobre sua decisão entes de ir a Camelot, por isso tinha que se apressar, não podia esperar que a nevasca se tornasse um impecílio ainda maior para a viagem que já seria bastante difícil.
Em Pellinore, Lancelot ficou exultante em saber que a celebração e Camelot se aproximava. Seus afazeres no País do Lago estavam praticamente acabados às custas de meses passando dias e dias em tarefas infindáveis para reorganizar o reino.
Artur andava bastante atarefado tendo que lidar com assuntos vindos de toda a Bretanha; as poucas mensagens que os dois trocaram durante os meses em que estiveram separados mal serviram para aplacar a saudade que o Grão-Duque sentia do seu Rei.
O rei de Pellinore decidiu partir o mais cedo possível para chegar antes que os outros convidados; sua comitiva já estava pronta dois dias antes do que seria necessário partir para chegar a tempo das festividades. Normalmente, Lancelot iria sozinho a cavalo para Camelot, todavia aquela seria uma ocasião formal e ele deveria aparecer com toda a pompa e cerimônia de um rei vassalo perante o seu Grande Rei. A demora que todo esse aparato traria para a viagem fez o duque se aborrecer um pouco, mas nada se compararia a sua felicidade em saber que em breve estaria ao lado de Artur.
Nimue se preparava para comparecer às festividades na capital. Como filha de Lancelot, era uma das convidadas de honra e deveria ir sem demora para Camelot.
Finalmente poderia conversar com sua mentora, que há tanto não via. Estava ansiosa para falar com Morgana, saber sobre sua vida em Tintagel e sobre quando voltaria a viver na Ilha Sagrada.
O vestido negro trabalhado com pontos de um bordado fino ornavam perfeitamente com o pente de topázio e a adaga curva em formato de meia lua que designavam indubitavelmente uma sacerdotisa do mais alto grau. A nobre sabia muito bem que suas vestes seriam estranhadas por alguns naquela ocasião, visto que ainda nem chegara aos dez anos de idade em sua aparência física.
Junto a Connor, já aparentando cerca de vinte anos, que iria se apresentar como novo Merlin da Bretanha e permanecer de vez na corte do Grande rei para ajudá-lo com os assuntos de Estado, Nimue pareceria ainda mais infantil. Contudo não estaria ali em missão e essa pequena polêmica sobre sua real idade até que lhe serviria de divertimento.
Artur preparava a festa que anunciaria o retorno da Bretanha a sua glória máxima com o esmero de uma noiva planejando seu casamento. Havia contratado dançarinas espanholas e os melhores músicos e menestréis da região para ornamentar ainda mais a ocasião.
Os fornos do seu castelo estavam cheios dos mais variados pratos. Havia porco, carne de gamo e coelho; frutas e grãos em quantidades praticamente infindáveis além dos diversos tipos de vinhos e cervejas escolhidos a dedo para a ocasião.
O Grande Rei estava terminando de conferir a arena onde seriam disputados os famosos jogos da cavalaria bretã, quando percebeu a chegada de uma comitiva real.
Não houve qualquer estranhamento pelo adiantado da data; a bandeira, tremulando, mostrava duas espadas cruzadas aos pés de um gamo branco. Era a bandeira de Pellinore, modificada por Lancelot desde quando assumira o trono.
Ao ver seu duque descer da liteira, o coração do Grande Rei parou por alguns instantes para voltar a bater ainda mais fortemente em seguida. Lancelot estava ainda mais belo do que da última vez que se encontraram; seus cachos negros estavam perfeitamente aparados e sua barba conservava-se cerrada, porém ainda curta.
Artur aproximou-se rapidamente da entrada principal do castelo. Só quando estava bem próximo à comitiva foi reconhecido por Lancelot, que se pôs imediatamente de joelhos para saudar seu Rei.
Meu Senhor e Rei, é uma alegria inenarrável te rever!
Lancelot, há quanto tempo meu caro! – disse Artur, puxando o primo para um abraço apertado – vejo que chegou antes de todos! Estava contando com isso; venha vamos conversar, deixe que os servos acomodem sua comitiva e subam com sua bagagem.
Os dois seguiram para os aposentos reais; assim que a porta foi trancada, Artur beijou avidamente os lábios do Grão-duque, que imediatamente repousou uma de suas mãos em seu quadril enquanto a outra acariciava gentilmente seus cabelos louros.
Aqui posso finalmente te receber como devo, Lance! Aqui entre essas paredes deixo de ser seu Rei para ser apenas seu...
Você nunca deixará de ser meu Rei, meu amor, mas não posso negar que só quando senti teus lábios é que realmente atinei que estava de novo na sua presença!
Artur sorriu e recomeçou a beijar o duque ao mesmo tempo em que o conduzia para a cama. Nem um minuto a mais foi gasto para que os dois se encontrassem totalmente despidos em meio a carícias cada vez mais tórridas.
Quando Artur posicionou-se por cima do Grão-Duque e começou a direcionar suas atenções para baixo, Lancelot prontamente o impediu, segurando levemente seus cabelos:
Não, Artur... Agora é a minha vez!
O Grande Rei não teve sequer tempo de processar a informação contida na frase; quando percebeu as posições já estavam invertidas e Lancelot já distribuía beijos e mordidas leves por toda a extensão do seu corpo, porém, nada se comparou a sensação que Artur sentiu quando foi totalmente engolfado pelo seu duque. Lancelot era habilidoso e movimentava-se vigorosamente durante a felação. O Grande Rei mal podia abrir os olhos tamanho o prazer que sentia ao ser tragado por aquela boca tão quente e úmida.
Teria chegado ao ápice ali mesmo se Lancelot não tivesse parado seus movimentos e invertido novamente as posições, ficando agora por baixo, guiando Artur para mais próximo de si ao mesmo tempo em que enlaçava suas pernas por volta da cintura do Grande Rei.
Lance; você tem certeza disso? – Começou Artur, esboçando uma preocupação sincera.
Esperei meses por isso; não se preocupe, estou pronto.
Artur consentiu e começou a penetrar o seu duque com toda a delicadeza que seu autocontrole permitiu; seus movimentos só começaram a ficar mais vigorosos, quando o nobre percebeu que Lancelot estava o mais relaxado possível.
Tomar seu duque para si era uma sensação quase tão boa quanto ser tomado por ele. As investidas do Grande-Rei se tornavam cada vez mais vigorosas com o passar do tempo e à medida em que iam aumentando de intensidade, aumentavam também os estímulos que Artur estava fazendo no seu amado. Seus corpos suados em completo frenesi, completavam-se perfeitamente como se tivessem sido feitos um para o outro.
Ver Lancelot com o rosto corado, olhos entreabertos e lábios cerrados numa ineficaz tentativa de abafar um gemido sôfrego, foi demais para Artur que chegou ao ápice do prazer dentro do seu vassalo. O próprio Lancelot não demorou muito e derramou-se nas mãos do seu Rei.
Antes de cair, na cama, ao lado de Lancelot Artur beijou-lhe os lábios, ajeitando um cacho teimoso que insistia em atrapalhar a visão do seu duque.
Isso foi incrível Lance! Jamais havia provado tamanho prazer com mulher alguma!
Nem mesmo com Gwen?
Eu amava, você sabe... Mas analisando bem, depois de passados esses anos todos... Depois de sua morte, acho que se tratava de uma relação muito mais fraternal do que conjugal. Com ela eu nunca me sentia completo, mas a cada vez que me deito contigo, me sinto mais homem... Seria capaz de enfrentar um exército por você!
.. eu dizimaria qualquer exército que ousasse se levantar contra você – disse Lancelot, sentindo-se levemente dolorido ao se ajeitar na cama.
Lance; eu te machuquei?
Não foi nada... Foste mais delicado comigo do que para uma donzela em sua primeira noite, no entanto, descendes dos Pendragon, meu Rei e seu porte não deve, definitivamente, ser ignorado – respondeu Lancelot com um leve sorriso nos lábios.
Perdoe-me...
Não diga bobagens; foi tudo perfeito; não se preocupe.
Tudo bem; mas agora porque não dormes um pouco, irei terminar de verificar as instalações dos nossos convidados, te chamo quando o jantar for servido, tudo bem?
Acho uma boa ideia; estou realmente cansado. Até mais tarde então.
Durma bem, meu anjo – disse Artur, afagando levemente a barba do seu campeão, antes de sair do quarto.
Morgana havia acabado de chegar a Avalon. Depois de se levar para tirar a poeira da viagem e se acomodar na Sala da Senhora, a Dama do Lago ouvia atentamente tudo o que Nimue tinha para lhe dizer sobre o que havia se passado em sua ausência.
Qual não foi o contentamento de Morgana quando viu Connor, o molequinho a quem trouxera outrora para sagrar-se sacerdote, ostentando o posto de Mensageiro dos Deuses, com as vestes azuis de bardo e com aparência de homem feito.
Estou tão feliz! Até que enfim tudo está voltando ao que era antes – comentou Morgana, após ouvir uma das antigas músicas de Avalon tocadas pelo jovem bardo.
Graças a Senhora tudo está voltando aos eixos – falou Connor.
A magia das fadas também nos ajudou muitíssimo, graças a Deusa elas ainda não se afastaram de nós tanto o quanto pensávamos – atalhou Nimue.
Vocês pretendem atender ao convite de Artur para celebrar com ele o começo de mais um ano?
Queria muito ir, mas não sei se devo deixar as festividades de yule desamparadas.
Falarei com Grey para ela presidir o rito de Yule com já fez inúmeras vezes há algum tempo atrás. Vocês devem comparecer em Camelot. Sinto que algo importante está para acontecer e você, como próxima Senhora deve presenciar os rumos que sua terra toma!
.. Próxima Dama do Lago?
Não estava claro para você que seria minha herdeira, Nimue? Eis habilidosa e sábia; instruída pela própria Rainha das Fadas e a única que tem o sangue real correndo nas veias. Nada mais natural que venha a ser a Senhora em meu lugar.
Se é assim; ficarei feliz em ir – comentou Nimue.
Eu também irei; assim me apresento perante o Rei como seu novo conselheiro. Devo ficar em sua corte se assim ele o permitir.
Claro, Connor, iremos todos então. Mas amanhã cedo; agora, devemos aproveitar esse banquete particular que nos espera – falou Morgana exibindo uma felicidade que destoava um pouco da sua sobriedade costumeira.
Dois dias depois os pátios de Camelot estavam cheios de acampamentos das comitivas dos pequenos reinos que vinham compartilhar da festa que o Grande Rei preparava.
Bandeiras e brasões de todos os lugares da Bretanha estavam hasteadas em todas as partes da capital. No castelo principal, estavam Morgana, chegada há um dia na companhia de Nimue e Connor; a nobre dividia o quarto que um dia pertenceu às aias da Grande Rainha com sua prima. Connor habitava um dos quartos de hóspedes, o outro estava ocupado por Tristão e sua esposa Isolda. Lancelot e Galahad dividiriam o quarto ao lado dos aposentos reais.
A maior parte da manhã foi preenchida pela chegada dos convidados retardatários, que eram recebidos pelo Rei em pessoa. Marcus foi o último dos reis vassalos a chegar das suas distantes ilhas escocesas. Foi precedido por Bors, que ateou a bandeira da Bretanha do Sul no local mais próximo do castelo.
Um almoço magistral foi servido aos convidados. Inúmeros pratos estavam sendo servidos pelos servos aos convidados que se dividiam em inúmeras mesas.
Morgana estava sentada com Nimue e Isolda. A Senhora do Lago comia e se permitia discutir sobre assuntos banais como os novos modelos de vestidos que estavam vindos do continente ou sobre como a beleza da rainha galesa jamais se esgotava.
Na mesa dos reis, Connor se apresentava e recebia as honrarias dedicadas a um Merlin, ainda que a maioria dos reis fosse cristão, desde tempos imemoriais.
Artur e Lancelot comiam do mesmo prato e se divertiam ao ver os bobos da corte em seus números espalhafatosos. Quando Connor se aproximou dos nobres, Artur levantou-se e pediu a palavra:
Agora a Bretanha finalmente está voltando aos eixos, finalmente podemos contar com a sabedoria de um novo Merlin. Espero que aceite viver aqui em minha corte e aconselhar-me nos assuntos mais complicados do meu reinado
Claro, meu Rei, ficarei extremamente honrado em poder ajudá-lo! – respondeu Connor.
Fico feliz, Venerável. Agora junte-se a nós durante os jogos da tarde!
Claro, majestade.
Todos os presentes seguiram para as arenas montadas no exterior do castelo. Os antigos jogos de cavalaria estavam para recomeçar e os nobres estavam exultantes em poder demonstrar suas habilidades após tantos anos de guerras e destruição.
Nimue divertia-se junto as nobres donzelas vindas das comitivas dos pequenos reinos, vendo os cavaleiros competirem entre si em jogos de equitação, combate simulado e testes de força.
Morgana conversava alegremente com Connor e Tristão enquanto o cavaleiro se preparava para competir com Bors num embate de tiro ao alvo. O rei da Bretanha do Sul fez um disparo excepcional com o arco, porém, a extrema destreza de Tristão o fez acertar exatamente no alvo e ganhar a disputa.
A plateia regozijava-se a cada nova competição e a tarde se passou rapidamente, mesmo com a neve que começara a cair, relembrando a todos de que estavam no meio do inverno.
Todos estavam para se retirar para iniciarem o jantar, quando alguém na plateia gritou pedindo por uma aparição de Lancelot. Imediatamente todas as pessoas vibraram em concordância, esperando ver o comandante dos exércitos reais em ação.
Passados alguns minutos, Artur notou que nenhum dos cavaleiros ali presentes ousavam desafiar Sir Lancelot do Lago para um duelo, então o Grande Rei levantou-se fazendo um sinal para chamar atenção dos espectadores:
Pelo visto ninguém é capaz de nem mesmo desafiar o meu campeão em uma competição; então, para não deixá-los desapontados, eu me candidato ao sacrifício!
A plateia estava em êxtase; iriam presenciar uma luta do Grande-Rei com o seu Grão-Duque em pleno inverno bretão.
Já na arena, os dois nobres, trajando suas armaduras estavam frente a frente empunhando suas armas; Artur detinha a lendária Excalibur e Lancelot, as espadas gêmeas do Lago.
Tem certeza disso, Artur? – disse Lancelot, preocupado.
Está tudo bem Lance, é só uma brincadeira; eu sei que você adora esses jogos... lembra-se de quando treinávamos antes de nossa primeira guerra?
Sim, claro... Você está certo, não pode haver mal algum nisso. Está preparado?!
Pode vir, meu caro!
O embate começou e logo nos primeiros movimentos já se podia ouvir o tilintar das armaduras. Ambos movimentavam-se com precisão, evitando os golpes desferidos pelo adversário ao mesmo tempo em que se preparavam para contra-atacar.
Artur começava a entender as histórias que contavam a respeito das espadas gêmeas. Sem a bainha que o protegia de qualquer encantamento nocivo para si, o Grande-Rei estava à mercê da confusão sensorial que as armas causavam no inimigo.
Desviar das duas espadas, que pareciam multiplicar-se nas mãos do duque era uma tarefa tão dantesca, que Artur nem sequer conseguia mais atacar. Sua atenção para com aquelas lâminas era tanta, que nem percebeu quando Lancelot o levou ao chão com uma rasteira, pondo rapidamente uma espada em seu pescoço.
O público vibrava com a vitória do rei de Pellinore, uma lenda viva entre os cavaleiros, enquanto Lancelot ajudava Artur a se levantar. O duque percebeu que um filete de sangue escorria pela testa do Rei, que tinha parte dos cabelos loiros tingidos de vermelho. Imediatamente, Lancelot buscou, com o seu escudeiro, um lenço para tentar parar a leve hemorragia que o Artur sofrera.
Por misericórdia Artur, perdoe-me! Eu me envolvi demais, esqueci de te proteger na queda! – disse Lancelot enquanto segurava delicadamente o lenço na testa do seu Rei.
Lance! Está tudo bem, meu caro; essas coisas acontecem em jogos como esse, você sabe... Agora vamos entrar, preciso tomar um caldo quente depois dessa surra – disse Artur sorrindo – Suas espadas são realmente incríveis, senti o seu real efeito na pele, agora que lutei sem a bainha. A Bretanha não poderia dispor de um melhor defensor...
Essas espadas estarão ao seu serviço para sempre, meu Rei... Agora vamos, deixe-me te ajudar a entrar, está realmente ficando muito frio aqui fora.
O sinal indicando que o jantar já estava sendo servido fez com que os nobres começassem a entrar no castelo. Lancelot apoiava Artur, ajudando-o a entrar no castelo quando uma dor forte atingiu a sua cabeça.
O Grande rei sentiu o corpo do duque fraquejar e quando notou Lancelot massageando sua própria cabeça no mesmo lugar em que tinha se ferido, atinou para o que estava acontecendo:
Está acontecendo de novo, não é Lancelot?
Sim; é o que eu ganho por machucar meu Rei – respondeu Lancelot, forçando um sorriso.
Vou falar com Morgana; você já está forte o suficiente para quebrarmos esse encantamento.
Não é bem assim, meu irmão – disse Morgana, que vinha logo atrás junto a Nimue, surpreendendo os dois nobres – Esse encanto é o que está mantendo a vitalidade de Lancelot. O episódio em Pellinore praticamente o matou; ele não tem mais condições de se recuperar sozinho, se você retirar seu suporte, Artur...
Não diga mais nada, irmã – atalhou o Rei, com o semblante perturbado – não quero nem pensar nessa possibilidade! Já que é assim, o encanto continua e eu vou procurar ter mais cuidado para não nos ferir mais.
Quanto a esse ferimento, o que nos resta fazer é remendá-lo. Assim Lancelot vai parar de sentir como se estivessem dando marteladas em sua cabeça – brincou Morgana, fazendo os quatro rirem.
O jantar estava ainda mais excepcional que o almoço. Todos comiam enquanto deleitavam-se com a música dos melhores menestréis de toda a Bretanha. Artur sentava-se em posição de destaque na távola redonda enquanto Morgana terminava o curativo em sua testa.
Lancelot bebia alegremente enquanto conversava com Tristão e Bors:
Mais uma vez meu irmão dá mostras de que é o cavaleiro mais poderoso do reino; conseguiu vencer o próprio Rei em uma batalha simulada! – falou alegremente Bors.
Todos sabem das habilidades do Grão-duque da Bretanha, sem ele depois dessa guerra a Bretanha estaria enterrando mais um Grande Rei – afirmou Tristão.
Que Deus não permita que isso ocorra tão cedo, meu amigo; ainda precisamos muito das orientações de Artur para manter a Bretanha unida.
É certo que sim... Mas mudando de assunto; Vanora não para de me perguntar quando você pretende se casar novamente, irmão; não é bom que um rei governe sem uma rainha a seu lado, principalmente você que também detém o título de Duque de Guerra e por vezes é obrigado a deixar seu reino nas mãos de castelãos.
Creio que esteja com a razão, mas não pretendo me amarrar novamente, irmão – riu-se Lancelot – agora se me dão licença, creio que devo ir saber sobre o Rei; já é um milagre que ele não me tenha mandado arrancar o pescoço pelo o que fiz com ele hoje!
Claro, Lancelot, pode ir; muito embora sei que Artur preferiria cortar a própria garganta do que te sentenciar à morte – afirmou Tristão, gargalhando com a brincadeira do Duque.
Lancelot aproximou-se de Artur, curvando-se formalmente perante ao seu Rei:
Sente-se melhor, meu senhor?
Sim; já não sinto mais nada; venha comer a meu lado, Lance, você não tocou em nada durante o jantar inteiro!
Claro; estava distraído conversando com nossos velhos amigos.
É bom ver esse castelo cheio de novo!
Artur estava tão orgulhoso de ter conseguido reconstruir o seu reino, que parecia brilhar. Estava ficando cada vez mais difícil para Lancelot não tomá-lo nos braços e beijar-lhe os lábios, todavia, estava ciente de que teria que deixar suas demonstrações de afeto para mais tarde.
A festa seguia e todos se divertiam como se a noite não tivesse mais fim. Lancelot não saiu mais do lado do seu Rei e percebeu, um pouco confuso, quando uma bela mulher, que ele não conhecia, se aproximou de Artur, com uma criança em seus braços.
Olá, Grande Rei. – Começou a jovem dama.
Olá senhorita, a que devo a honra? – cumprimentou Artur, sentindo a estranha sensação de que já conhecia àquela esbelta figura que se apresentava.
Já era esperado que não me reconhecerias; estava muito alterado no dia em que tivemos contato... mas isso não importa agora. O mais importante a essa altura é que deves conhecer a pessoa que terá importância fundamental na sua vida a partir de agora; quero que conheças a tua filha, Victoria; creio que chegou a hora de reconhecê-la oficialmente como sua herdeira.
Artur imediatamente perdeu o chão. A garotinha, que mal aparentava ter seis meses de idade, era praticamente sua cópia; cabelos louros muito claros e olhos azuis denunciavam sua origem para quem quisesse ver.
O Rei tentava recuperar o seu senso a todo custo, mas a notícia parecia tê-lo tirado totalmente do prumo.
Lancelot parecia abismado. Não parava de intercalar o olhar entre a criança e o seu Rei; só depois de algum tempo, com a voz embargada, começou a falar:
.. Você tinha que ter dormido com essa mulher a cerca um ano atrás para essa criança ser sua filha... Foi justamente na época em que corriam os boatos de que Guínevere te traia comigo. Você sempre soube que apesar dos meus sentimentos por ela, eu nunca ousaria te decepcionar! Você usou essa mulher como uma vingança contra nós dois? Chegou mesmo, por um momento que fosse, a duvidar da minha lealdade?!
Lance, não é nada disso... Eu não faço ideia...
Eu sempre te disse que você poderia ter qualquer mulher que quisesse, Artur, mas se você fez isso acreditando que eu havia te traído, então você não confia totalmente em mim; se for isso, meu senhor, então minha presença não se faz mais necessária aqui – disse o duque ausentando-se do salão da távola redonda a passos largos.
Artur não pensou duas vezes e começou a seguir Lancelot, porém foi impedido por Morgana, que já estava ciente do que estava acontecendo há algum tempo:
Artur, sei o quanto você deve estar confuso, mas tudo isso tem uma explicação plausível; venha eu tenho que lhe falar sobre algumas coisas que aconteceram recentemente e que são de suma importância para o reino.
Mas Morgana, ele está indo embora, não posso perdê-lo por uma coisa que não fiz!
Deixe Lancelot a cargo do Merlim. Ele já está indo de encontro a ele para explicar tudo o que está acontecendo. Agora você deve parecer tranquilo para que ninguém desconfie de nada. Iremos a um lugar mais reservado conversar; essa conversa é de extrema importância mas deve ser rápida, você precisa fazer um anúncio antes que as festividades acabem.
Tudo bem, vamos botar essa história a limpo.
Morgana revelou que a mulher que segurava a criança, na verdade se tratava de Eda, a Rainha das Fadas e que ela e o próprio Artur haviam se deitado juntos no reino das fadas a fim de que um herdeiro fosse gerado, evitando-se assim a necessidade de Nimue executar o Grande Rito com seu próprio irmão e que a menina a quem Eda segurava no colo era de fato filha de Artur. Como o tempo no mundo das fadas corre ao bel prazer de seus habitantes, não demorou muito para que a criança aparentasse ter seis meses de idade.
Artur parecia ter ficado ainda mais transtornado ao receber a informação. As lágrimas corriam pelo seu rosto e sua voz não saiu mais forte do que um sussurro:
Pensei que poderia confiar em você, Morgana... Mais uma vez controlaste a minha vida como se eu fosse um fantoche! Porque não falaste comigo antes de tudo?! Porque não sentaste para conversar comigo sobre os ritos que deveriam ser observados durante a coroação de Galahad ao invés de simplesmente fazer de mim um joguete em suas mãos?! Fui traído pelo meu próprio sangue!
Artur, Entenda! Você nunca concordaria em retirar Galahad do posto de herdeiro e não havia mais nenhuma outra alternativa. Confesso que no início não concordei com a ideia, mas não havia nenhuma outra saída. Entendo perfeitamente sua raiva para comigo, você verá no futuro, que isso foi o melhor para todos. Agora você tem uma filha para herdar o seu trono, continuar sua linhagem!
A criança não tem culpa de nada... Vai viver comigo e será a minha herdeira – falou Artur, depois de pensar por alguns instantes – Só tenho medo que Galahad também fique magoado comigo. Agora que Lancelot se foi, a última coisa que quero mais um motivo para causar inimizade entre nós.
Não se preocupe com isso Grande Rei, o filho de Lancelot tem um coração nobre e justo; ele nunca almejou o trono, só estava cumprindo o dever que lhe havia sido imbuído – interveio Eda.
Quanto à Lancelot, não se preocupe, Connor foi de encontro a ele e deve estar explicando tudo, a essa altura, eles já devem estar retornando ao castelo.
Espero que ele entenda que nunca suspeitei nem por um segundo de sua lealdade – disse Artur, com o semblante um pouco mais aliviado – e então, o que queres mais de mim minha irmã?
Você deve fazer o anúncio oficial agora, na festa, Artur, assim todos os reis saberão por sua boca que tens uma nova herdeira; do contrário, jamais respeitariam a coroação de Victoria.
Isso será feito...
Pois muito bem; devo ir agora. Não quero que fiques magoado comigo; espero que um dia você consiga me entender.
Não vá; o inverno vai ficar ainda mais rigoroso antes do solstício. É melhor que fique aqui. Só lhe peço um favor...
Diga, irmão.
Quando eu fizer o anúncio, sairei do recinto para conversar com Lancelot; não quero ser interrompido. Por favor, encerre as festividades e oriente todos para os seus devidos aposentos. Quero que Nimue vá falar com Galahad também. Amanhã pela manhã conversarei pessoalmente com ele; mas agora... Agora eu simplesmente não suporto mais!
Claro; que assim seja.
O anúncio foi dado e os reis da Bretanha se alegraram ainda mais pela chegada de uma nova herdeira para coroar o reino. Morgana seguiu as instruções do Rei e aos poucos foi ordenando que a música cessasse e que os servos parassem de trazer mais comida, indicando a todos que as festividades estavam se encerrando.
Artur procurava, sem sucesso, por Lancelot. No meio de todas aquelas pessoas o único que conseguiu encontrar foi o Merlin, que já estava indo em sua direção:
Meu Rei; ele está esperando pelo senhor em seus aposentos...
Entendo; obrigado, Connor.
Estou sempre ao seu dispor, majestade.
Subindo as escadas ansiosamente, o Grande Rei esperava que seu amado tivesse entendido toda àquela situação. Lentamente, Artur começou a empurrar as pesadas portas que davam acesso ao seu quarto.
Lance? – chamou o Rei, quando viu o cavaleiro de costas, na sacada, como se olhasse diretamente para a lua.
Lancelot virou-se e começou a encurtar a distância entre ele e seu Rei, sem falar uma palavra sequer. Artur estava com os nervos à flor da pele; se Lancelot não estivesse convencido a respeito da origem de sua filha, certamente a convivência entre os dois seria abalada de forma irremediável.
Seus pensamentos foram interrompidos quando o Grão-duque ficou frente a frente consigo, limitando-se a se ajoelhar, na mais profunda reverência para só então começar a falar:
Meu Rei... Artur, perdoe-me! Eu não devia ter ousado te confrontar daquela maneira... O Merlin me contou tudo; a menina é metade fada, filha da própria Rainha do povo encantado, com sua majestade!
Lancelot! Estava com tanto medo de que você tivesse ido para sempre! Como ousa pensar que eu desconfiava de sua lealdade para comigo; você é justamente o homem que eu mais confio e amo nessa vida! – disse Artur, puxando seu duque para um abraço.
Quando vi a garota; Deus, ela é a sua cara! Logo pensei que ela tivesse sido concebida naquela época... Não consegui pensar em mais nada! A Rainha das Fadas parecia uma mulher que estava reclamando direitos sobre o seu filho bastardo e a idade da menina... Se você tivesse dormido com ela por estar magoado comigo e com Gwen, por suspeitar de nós dois... Sem sua confiança não haveria razão para minha existência!
Entendo que a situação foi extrema, mas por Deus Lancelot! Eu dividi minha vida contigo para te salvar e faria tudo de novo, meu amor! – disse Artur selando os lábios do duque num beijo trêmulo. — Você poderia ao menos ter me dado a chance de explicar!
Perdoe-me! Eu fui um idiota infantil. Se eu tivesse te olhado nos olhos eu saberia, mas eu tinha medo de fraquejar em minha decisão; se te encarasse... Teus olhos sempre me desarmaram...
Está tudo bem agora... Agora eu tenho uma filha, a Bretanha está em paz... Viveremos juntos até o fim, não é Lance?!
Claro; nunca mais agirei dessa forma contigo...
Lancelot guiou seu Rei para a cama, despindo-o lentamente; seus beijos tinham o gosto das lágrimas que insistiam em cair dos orbes azuis que exerciam um poder quase sobrenatural no duque.
Saber que tudo não havia passado de um mal entendido despertava os desejos mais urgentes do líder da cavalaria. Artur não havia sequer estimulado seu campeão, que já estava totalmente ereto e prestes a tomá-lo para si.
O duque avançava por sobre Artur cada vez mais rapidamente, esbanjando virilidade e experiência. Gemidos sôfregos saíam dos lábios do Grande Rei, que limitava-se a cravar suas unhas nas costas do seu vassalo e sentir os estímulos proporcionados por ele, vindos por todas as partes, com as mais variadas intensidades.
Artur reuniu toda a sua força de vontade para abrir os olhos uma única vez; a visão magistral do seu duque, o corpo esguio perfeitamente trabalhado, os olhos escuros brilhando junto ao tremeluzir das velas que iluminavam parcamente o cômodo, o suor pingando dos seus cachos desgrenhados, foi demais para os sentidos do Grande Rei que chegou ao seu ápice um pouco antes do seu duque, que explodiu em prazer dentro de si, antes de desabar em seus braços.
Algumas horas depois, Lancelot acordou com o Rei afagando a sua barba; vê-lo assim tão próximo e feliz foi o suficiente para abrir um sorriso de satisfação no duque:
Ainda bem que tudo se resolveu, meu anjo!
Você não sabe como estou aliviado, Lance! Agora que você me compreendeu, precisamos esclarecer tudo para Galahad; ele pode estar magoado comigo.
Não se preocupe; tenho certeza de que ele ficou feliz por você.
Pode ficar certo lance; ele nunca ficará desamparado!
Eu sei, meu caro; ele vai herdar Pellinore por minha parte, já que tenho certeza de que Nimue herdará Tintagel de Morgana; os dois ficarão honrados em servir a sua filha.
É... Seus filhos são tão honrados quanto você, meu caro; sou um homem abençoado por ter pessoas tão leais em meu séquito.
Você inspira o que há de melhor em seus súditos, meu bem... Agora trate de descansar, parece que você não cochilou sequer por um momento enquanto eu dormia.
Estava com medo de acordar e não te ver aqui...
Eu estarei aqui sempre, até quando for da sua vontade, meu Rei – disse Lancelot, ajeitando Artur em seus braços.
Eu te amo, Lance! Nunca se esqueça disso.
Lancelot sorriu e beijou o topo da cabeça do seu Rei. A certeza de que finalmente sua missão de protegê-lo dos perigos das guerras estava cumprida e de que agora viveriam juntos até o fim crescia ainda mais dentro de si, até que ali mesmo, nos braços do homem por quem daria de bom grado sua vida, o melhor de todos os cavaleiros deixou-se levar pelo mais doce dos sonhos.
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