Notas iniciais
Ai vai mais um capítulo com fortes emoções :D

Já havia passado dois dias desde que Morgana pisou novamente no pátio de Tintagel. O castelo se encontrava exatamente do mesmo modo como sempre fora, quase como se fosse uma obra atemporal, imutável e impassível até mesmo com o passar dos séculos.

A manhã estava linda; pássaros cantavam do lado de fora e Morgana aproveitava uma excelente refeição em seu quarto. Já passara tempo suficiente em seus domínios para se fazer senhora; também passou boa parte daqueles dois dias para visitar os arredores do castelo.

O povo da Cornualha era majoritariamente cristão, esse era o resultado de anos de reinado do seu pai Gorlois na época do Grande Rei Ectório. Porém, Morgana não chegou a notar nenhuma reação adversa do povo quando ela se declarou da antiga religião.

Certamente os anos de reinado de Marcus surtiram algum efeito, ao menos um efeito neutro. Apesar de cristão, Marcus, não impunha, de modo algum, suas crenças ao povo e abominava padres que o fizessem. Essa política gerou uma Cornualha bem mais tolerante a que havia nos tempos do seu pai.

O dia do ritual chegara e Morgana já havia decidido que o celebraria ao ar livre como deveria ser feito, apesar de estar sozinha. Um bosque localizado muito próximo ao castelo seria o local perfeito para a celebração. Lá poderia entrar mais facilmente em contato com as energias naturais.

Em Avalon, todos estavam animados para os ritos. O festival de Ostara antepunha-se ao Grande Casamento. Era uma celebração do equilíbrio, da harmonia e da paz, perfeitamente representados pelo equinócio de primavera.

Connor mal havia iniciado seus estudos, mas já achava tudo aquilo impressionante; não poderia participar do ritual, mas lhe era permitido assisti-lo sem maiores problemas.

O trabalho era dividido e enquanto as donzelas purificavam o Tor tanto física quanto espiritualmente, os guerreiros e guerreiras da Ilha colhiam as ervas necessárias para as sacerdotisas e sacerdotes além de enfeitarem as árvores sagradas, que já começavam a dar sinal de florescimento. Cabiam aos sacerdotes e sacerdotisas presidirem o ritual à noite ao som da música sagrada executada pelos bardos.

Nimue estava bastante concentrada; em seu trabalho como sacerdotisa de nível intermediário, ela deveria passar o dia em jejum e meditação a fim de conseguir criar um círculo mágico eficiente, invocando a presença de um dos guardiões das Torres de Observação para a cerimônia.

Sua concentração foi quebrada, quando uma das anciãs foi ao seu encontro informá-la de que ela não participaria do ritual através do círculo, como era de costume a uma feiticeira do seu nível, mas como a representação da Donzela Caçadora.

Esse papel era, classicamente, da Dama do Lago, mas ocasionalmente ela não podia presidir o ritual; nesse caso uma sacerdotisa ainda donzela era selecionada para o rito, sempre auxiliada por uma das magas anciãs.

O Merlim era responsável por ser o Gamo-Rei, exceto quando se coroava um novo Grande Rei. Todavia, desde a traição de Kevin, não havia mais ninguém capaz de assumir tal posto e algum dos sacerdotes mais jovens era auxiliado por um ancião a presidir a cerimônia.

Imediatamente, Nimue quebrou sua preparação e foi levada à Morada da Senhora para receber a sagração temporária capaz de fazê-la desempenhar a Donzela no rito.

A noite caíra sobre a Bretanha. Artur e Lancelot haviam decidido ir visitar o reino de Pellinore que há muito estava nas mãos de um castelão e necessitava do olhar do seu próprio governante.

Como não havia nenhum nobre na corte àquela altura, Camelot ficaria sem regente, fato que não preocupou o Rei, pois a viagem seria rápida o suficiente. Viajariam rápidos como cavaleiros e sem comitivas ou escudeiros. Tudo o que precisavam se encontrava no reino de Lancelot; a distância era curta, não havia necessidade de muitas provisões.

Lancelot subiu à câmara real e encontrou Artur terminando de arrumar seu pequeno alforje para a viagem. O cavaleiro se adiantou e abraçou seu Rei por trás beijando ternamente seu pescoço.

Tudo pronto, Artur?

Sim; já terminei por aqui – Artur virou-se para contemplar de frente seu mestre de armas.

Então viajaremos pela manhã?

É o melhor; assim chegaremos ainda à noite, se formos rápidos. Você já terminou de aprontar tudo?

Preparei também nossos cavalos. Sairemos rapidamente amanhã... Está tão abatido, primo, ainda com as mesmas preocupações na cabeça?

Passei o dia inteiro pensando em Morgana. Será que ela lançará mão de algum subterfúgio para casar-me com alguma nobre?

Não tome sua irmã por esse tipo de gente, meu Rei; ela é a mulher mais justa que já vi.

Se for para a Bretanha recuperar sua antiga glória, ela é capaz de fazer o impensável. Não a estou censurando; apenas tenho medo do meu destino pela primeira vez há muito.

Estás muito cansado. É melhor que se deite para recuperar suas forças; sim? – Lancelot acompanhou Artur até a cama e depois do Rei deitar-se, o duque o cobriu delicadamente, ajeitando seus travesseiros da forma mais confortável possível.

Não vais dormir comigo, meu anjo?

Se tiver a tua permissão, queria sair para ver a celebração do equinócio dos camponeses.

Ah sim, a festa; claro, meu caro, podes fazer o que bem entendes – disse Artur esboçando um tênue sorriso.

Prometo que acordarás comigo ao eu lado. Só lhe peço que tentes não se preocupar tanto. Aproveite cada hora que temos; não há necessidade de sofrer por antecipação.

Devo estar te chateando com a minha ladainha, não?

Não é isso; só me faz mal te ver infeliz!

Prometo que tentarei ser menos precipitado... Boa noite, Lance!

Boa noite, Meu Rei – disse Lancelot, saindo quase que de imediato dos aposentos reais.

Morgana já estava prestes a iniciar sua celebração nos bosques de Tintagel. Sozinha, ela já havia feito o círculo mágico e invocado a presença dos espíritos dos guardiões das Torres de Observação. Para uma bruxa do seu nível, utilizar magia era tão natural quanto respirar, por isso não havia real necessidade de mais ninguém além dela mesma para a celebração, embora um rito em grupo fosse bem mais prazeroso e energético.

Com apenas algumas tochas acesas, Morgana começou a sentir a presença da Deusa e do Deus em meio ao bosque. Mais uma vez o Gamo-Rei se apaixonava pela Donzela Caçadora determinando a volta à vida da natureza.

Como toda sacerdotisa, Morgana aproveitou para encher-se dessa energia de recomeço, usando-a para abençoar os campos, que estavam começando a serem cultivados. A força da vida estava tomando A Dama do Lago de forma tão intensa que ela se sentia novamente como a donzela que fora há anos atrás. Esse era o momento ideal para dispersar os guardiões e desfazer o círculo, findando o ritual solitário.

Em Avalon, Tochas iluminavam todo o percurso para o Tor. Magos e bruxas celebravam com alegria a chegada de mais uma primavera, o mundo estava mais uma vez florescendo e enchendo de fertilidade e bênçãos, as vidas das pessoas.

Connor estava admirado com toda àquela cerimônia. Sua admiração recaía, sobretudo, na bela sacerdotisa que desempenhava o papel da Deusa Donzela apaixonando-se pelo Galhudo.

As feições de Nimue encantaram o jovem aprendiz quase que de imediato. Os tambores e harpas sagradas davam ao ritual um ar etéreo que realçava ainda mais a beleza da moça, que trajava uma túnica vermelha ricamente adornada com flores que rodeavam também sua cabeça formando uma coroa, de modo que o jovem mal conseguia tirar os olhos dela durante toda a celebração.

A noite já ia alta quando o ritual acabou e todos desceram o Tor.

Nimue caminhava despreocupadamente com outras donzelas da Casa das Moças, exausta, mas feliz pela celebração. Em sua caminhada encontrou um jovem tímido, porém sorridente, que a olhava com admiração.

A Senhora me permite acompanhá-la até a Casa do Lago?

O que faz aqui rapaz, não sabe que durante o período de treinamento não deve ter contato com as donzelas da Casa das Moças? – disse uma das acompanhantes de Nimue, num tom reprovativo.

Está tudo bem irmã, ele deve ser um recém-chegado. Podem ir, eu o levarei para a Casa dos Bardos; não paira sobre mim qualquer restrição a esse respeito já que sou uma sacerdotisa de grau intermediário.

Nimue começou a acompanhar o menino tentando lembrar do caminho que os levaria até a Casa dos Bardos, no outro lado de Avalon.

Como se chama meu rapaz?

Meu nome é Connor; estava assistindo a toda a cerimônia. A senhorita estava linda representando a Deusa!

Ela empresta sua infinita beleza para suas filhas quando há necessidade para tal – disse Nimue, embora estivesse bastante feliz com o elogio; o rapaz era bastante polido, embora ainda um pouco tímido.

Poderia saber o seu nome?

Meu nome é Nimue; estou treinando aqui para ser sacerdotisa, como acho que você também está, não é?

Sim; fui trazido por ordem da Senhora Morgana. Meus pais eram muito pobres e eu queria aprender. Ela me mostrou como eu poderia me tornar uma pessoa melhor e mais instruída através do sacerdócio ou de alguma outra ocupação se assim for.

Então foste trazido pela Senhora? Ela é minha prima, não sabe?

Prima?!

Sim; na verdade ela é prima-irmã do meu pai por parte de mãe.

Você é filha de Sir Lancelot?

Sim; você o conhece?

De vista; ele foi para Camelot quando estava lá.

Ele parecia bem?

Forte como um touro!

Que bom! – Nimue riu-se; sentia saudades do pai, apesar da pouca convivência que tivera com ele.

A conversa estava tão agradável que Nimue nem notou que amanhecera. Caminharam mais um pouco quando a moça percebeu que as árvores daquele local em nada se pareciam com as que rodeavam à Casa das Moças, o que lhe pareceu bastante estranho.

A caminhada continuou por mais alguns minutos, Nimue já estava começando a se assustar, até o ar havia mudado, parecia estar presa em um sonho muito real. Finalmente, os dois puderam avistar uma presença que se aproximava em meio às árvores.

Pouco depois a figura se mostrou a de uma jovem donzela de cabelos cor de ferrugem.

Quem é você? É alguma noviça da Casa das Moças? – perguntou Nimue.

Não nobre Bretã; meu nome é Davey, filha da Rainha das Fadas, Eda.

Morgana acordou atordoada; mais uma vez havia sonhado com uma masmorra e um homem agonizando, acorrentado. Quando recobrou totalmente a consciência, percebeu que seu colar de pedra-da-lua dado por Eda havia quebrado. Imediatamente, Morgana soube de quem se tratava suas visões

Preciso voltar para Camelot, imediatamente!

Notas finais
Gente; acho que deu Algum tipo de erro no Nyah e os travessões parecem estar como pontos; por favor desconsiderem se ainda estiverem assim na versão final, ok :)