Notas iniciais
Alguém me segure... Não consigo esperar para postar kkkkkk

Na corte do rei Bors, Galahad estava vivendo um dos períodos mais reconfortantes da sua vida. Sempre fora deixado a amas e tutores, que lhe ensinavam tudo sobre como gerir um reino, até mesmo sobre ciência natural e filosofia.

Podia-se dizer que, por conta disso, o filho do Duque de Pellinore, o país do Lago, se formou um jovem bastante culto. Mas o isolamento em que vivia em seu próprio reino, além da frequência ínfima com que vira seu pai deixavam o jovem nobre sentindo-se solitário. Havia criado a ideia de que era apenas um estorvo na vida de seu pai, desde que sua mãe, Elaine, morrera.

Essas impressões se desfaziam todas as vezes que Lancelot o visitava. Galahad amava seu pai, e tinha certeza de que esse amor lhe era correspondido. Todavia, as constantes obrigações de Lancelot, que era, além de Senhor de Pellinore, o chefe da guarda pessoal do Grande Rei, e capitão da cavalaria, o impediam de viver junto a Galahad em seu reino.

Viver junto a seu tio e a seus primos deixava Galahad se sentindo em família. Vanora, rainha da Bretanha do Sul, era uma descendente bárbara de cabelos levemente avermelhados e olhos esverdeados. Galahad nutria por ela um sentimento especial, quase de filho para mãe, fato que não era ignorado por ela, já que o tratava igual a todos os seus filhos.

Mais uma vez, o verão começava a dar sinais de sua plenitude, e o rei Bors, meio-irmão de Lancelot, resolveu sair para caçar com seus filhos e Galahad, que aceitou contentíssimo o convite. Quando finalmente chegaram aos portões do pátio principal de Corbin, foram surpreendidos com a aproximação de um cavaleiro solitário.

À medida em que se aproximava, suas feições ficavam mais evidentes. Bors logo reconheceu o seu irmão.

Lancelot trajava uma armadura leve e uma leve capa vermelha. Quando chegou aos portões do castelo de Corbin, desmontou majestosamente e foi ao encontro do seu irmão.

– Bors!

– Lancelot! Graças a Deus está vivo! Mas vejo que se machucou durante a batalha!

– Está tudo bem agora, irmão. Vim lhe visitar, mostrar minha gratidão para com sua majestade pelos recursos de insumo que a Bretanha do Sul forneceu para o meu Rei e pela hospitalidade para com meu filho.

– Vai começar com cerimônias, Galahad?! Você é filho de meu pai, faria tudo o que estivesse ao meu alcance para ajudá-lo. Agora vamos entrando, seu filho há de querer conversar com você. Veja como está forte o rapaz!

Lancelot avistou Galahad, que já se aproximava para saudá-lo. O rapaz era alto, forte, louro como os de ascendência romana e possuía olhos verdes como os da sua mãe. Quem não o conhecesse poderia achar que o jovem era filho do Grande Rei.

– Meu filho!

– Pai! – Galahad não pôde conter as lágrimas ao abraçar fortemente seu pai.

– Como tem passado? Há tempos que não te vejo. Perdão, meu filho, mas a Bretanha estava em apuros...

– Eu sei, pai, longe de mim atrapalhar o senhor com suas obrigações, mas senti muito sua falta.

– Espero termos mais tempo agora, meu filho... Você se tornou um belo homem, cresceu muito nesses últimos meses!

– E também fiquei mais velho, tenho treze anos agora!

– Eu não esqueci, meu filho. – disse Lancelot, puxando das vestes um anel feito em ouro, que portava, em baixo relevo, um âmbar polido, muito parecido com o que o próprio Lancelot usava.

– É lindo, pai! Mas achei que apenas os reis vassalos de Artur tinham permissão para usá-lo.

– Ficaremos uma noite aqui para eu poder conversar com meu irmão com mais calma e você se despedir e agradecer a hospedagem como se deve. Amanhã partiremos e conversaremos mais a respeito desse anel e de outras coisas. Só um pouco de paciência, meu filho.

À noite, um banquete à altura de um rei foi servido em honra a Lancelot, que pôde finalmente se divertir como há muito não fazia. Os filhos de Bors eram ativos, porém bastante corteses. Tudo estava indo como de costume em um banquete, um ótimo vinho era servido junto a uma excelente carne de gamo, além dos mais variados tipos de pão. Frutas frescas enchiam a mesa, coisa rara para o início da primavera. O duque estava se sentindo em casa, mas precisava conversar sobre assuntos de estado com seu irmão. Chamou-o para longe do centro da festa, onde menestréis divertiam a todos, Vanora acompanhou o marido. Ao chegarem em um dos salões secundários do castelo, sentaram e começaram a conversa.

– Irmão, Vanora, venho em nome do Grande Rei da Bretanha manifestar os mais sinceros agradecimentos por todo o apoio dado durante a guerra. A Bretanha se compromete em ressarcir todos os insumos mandados para dar suporte à guerra assim que se reerguer.

– Fizemos isso porque Artur é o melhor Grande Rei em anos, e a Bretanha está em melhores mãos do que se estivesse em poder dos bárbaros. Não há necessidade de ressarcimento. Podemos não ser um reino vassalo, mas temos uma relação amistosa o suficiente para nos ajudarmos. Ainda não esqueci a ajuda que você e seu Rei nos mandaram quando aquele romano e suas legiões tentaram tomar a Bretanha do Sul!

– Quanto a isso, disponha, irmão! Quero agradecer em meu próprio nome por proteger meu filho. Nunca vou esquecer!

– É meu sobrinho, não há o que agradecer! Agora que a guerra acabou, porque não fica um pouco, Galahad? Seu filho se dá muito bem com os primos, e queria ter meu irmão um pouco junto a mim.

– É com muito pesar que declino desse convite, irmão. A Bretanha está muito fragilizada, preciso ajudar meu Rei a reerguê-la. Até a Galahad vai ser entregue a gerência de um reino menor, e ele é só um garoto! Espero que os tutores que deixei ensinando-o tenham feito ele aprender alguma coisa...

– Ele é talentoso com o latim, grego, com a matemática... É um bom estrategista, mas como guerreiro ainda precisa melhorar um pouco. Com a supervisão correta, deve poder governar. Mas o povo o aceitará?

– Com o apoio de Artur, sim... Até deverão gostar que o herdeiro do grande trono esteja reinando antes na sua terra. Quanto aos conselheiros, verei se o Rei tem mais alguém em que confia... Eu mesmo me encarrego de treiná-lo nas artes da guerra.

– Então vejo que o menino será uma lenda viva, como o pai!

– Você me superestima, irmão!

– Então toda Bretanha o faz também. – disse Vanora.

Depois da reunião, o jantar não durou por muito mais tempo e logo depois de se despedir de seu filho e de seus sobrinhos, Lancelot foi para os seus aposentos. Há dias tentava por seus sentimentos em ordem. Seu lamentar por Guínevere era forte, forte o suficiente para fazê-lo pôr em xeque a decisão de se abrir de vez para Artur. Por outro lado, seus sentimentos por ele cresciam cada vez mais, e o duque tinha certeza que o Rei sentia o mesmo. Guínevere amava os dois e havia aprendido a ter a mente aberta, não restava dúvidas de que ela lhes daria sua benção. O rumo dos pensamentos acalmou o coração do duque, que dormiu como uma pedra aquela noite.