Notas iniciais
Oi gente! Capítulo já editado e betado :)

Tristão, um dos dois cavaleiros ainda vivos, após avistar Lancelot carregando o rei desacordado para longe, tomou as rédeas da situação, tentando controlar o exército e administrar o socorro aos feridos, mesmo ele próprio estando em péssimo estado.

Demorou para encontrar os oficiais responsáveis pela infantaria, já que muitos estavam mortos. Depois de cavalgar por algum tempo por entre os corpos já sem vida, conseguiu recrutar três oficiais que estavam ainda em condições de executar suas ordens.

– Vocês devem começar a gerenciar nosso retorno a Camelot. Convoquem os médicos para realizarem uma triagem, aqueles que estiverem com ferimentos leves devem ajudar no transporte daqueles feridos gravemente. Os médicos devem se dividir para atender o maior número de pessoas em menor tempo, e os que estiverem acordados mas sem condições de andar devem esperar até que os outros estejam em segurança. Separem alguns médicos para dar assistência a essas pessoas mesmo assim. Mandem um emissário na frente para avisar as mulheres que precisaremos de todo o suprimento médico possível.

Dito isso, Tristão não pôde mais manter-se alerta. Seus ferimentos estavam demasiado profundos, fazendo-o desmaiar e cair do cavalo. Foi levado por seus homens até um dos médicos, que estavam na retaguarda do exército bretão.

A barca de Avalon já estava retornando para a ilha. Guínevere se mantinha como uma distante sacerdotisa, ainda que estivesse horrorizada com a extensão dos ferimentos de seu marido.

Lancelot estava ao lado do seu rei, o semblante tão carregado que tornara o belo cavaleiro uns dez anos mais velho. Seus olhos extremamente negros estavam levemente avermelhados, indicando que havia chorado recentemente.

Havia colocado a bainha da Excalibur junto ao corpo de Artur, e isso havia estancado a maior parte da hemorragia. Ainda assim, o rei não estava a salvo, e Guínevere podia sentir que o duque se culpava por não ter chegado a tempo.

A bela costa da Ilha do Verão não podia ser apreciada àquela hora. Lancelot pegou seu rei nos braços e foi guiado por Guínevere até a morada da Senhora de Avalon. Ele conhecia o caminho muito bem, mas estava desnorteado demais para se lembrar.

Artur foi acomodado com ajuda das donzelas da casa das Moças em uma esteira próxima à cama onde se encontrava Morgana. Lancelot não sairia do lado dele nem por um minuto, embora parecesse tão cansado quanto qualquer um naquele local.

– Vocês podem fazer alguma coisa, não é?

– Todas as sacerdotisas, inclusive eu, gastamos todas as nossas energias nos encarregando de ajudar o exército bretão na guerra. Morgana, que foi a Deusa em pessoa nesse Mistério, está exaurida. – respondeu Guínevere.

– Então... Ele vai perecer?!

– Não se preocupe, Lancelot, ele não perecerá... Mas talvez eu não chegue mais a ver a luz de uma nova manhã.

– Gwen?! Minha Rainha? Por que diz isso?!

– Não se preocupe meu campeão... Meu amor... Farei isso pelo amor que insistentemente nutrimos um pelo outro. – Guínevere aproximou-se de Lancelot, tocando-lhe calidamente a face. – Sempre te amei e sei que esse sentimento me era correspondido. Você foi obrigado pelas circunstâncias a se separar da minha corte, para não causar um escândalo a nosso Rei, embora ele soubesse do nosso sentimento... Ele sempre me amou assim como eu a ele. É irônico, costumava achar que amar a vocês dois sempre fora minha perdição, mas agora percebo que, na verdade, se tratava de uma benção. Seu amor pelo meu marido também não me é desconhecido, Lance... Farei o que vou fazer por todos nós, e pela Bretanha!

Guínevere apoiou o Grande Rei em seus braços e o conduziu para perto do poço sagrado. Lancelot quis ajudá-la, mas foi impedido por um gesto feito pela Rainha. Tudo o que pôde fazer foi assistir a ela deitando Artur junto à base do poço, e, logo em seguida, levantando-se para beber um pouco de sua água.

Guínevere debruçou-se novamente sobre seu marido, mas, dessa vez, ficando sobre ele, como se fossem um só. O encantamento que ela faria agora era complicadíssimo. O mago ou bruxa deveriam deixar fluir parte de sua energia vital para o doente para que ele pudesse se recuperar mais facilmente. Todavia, muita energia se dissipava no trânsito, de modo que o doador deveria deixar fluir mais energia do que necessário para a cura do receptor.

Artur estava quase sem vida e Guínevere bastante cansada. A Rainha sabia que a magia só daria certo se ela exaurisse toda a vida que habitava nela e a transferisse a seu Rei.

As palavras sagradas começaram a ser proferidas, e Guínevere aos poucos podia ver o encontro da sua própria aura com a de Artur, e reparou em como a dele ganhava viço a medida que a sua perdia o brilho. Os minutos se passavam e o Rei ia ganhando ares mais saudáveis, seus ferimentos se fechando aos poucos.

Guínevere ainda teve tempo de apreciar a beleza dos bosques sagrados e sentir o perfume das maçãs maduras de Avalon. Como pudera odiar aquilo?, pensou. Não, não era ódio, e sim ignorânciam construída em meio a uma sociedade que despreza o diferente e põe as mulheres em segundo plano. Não seria de se estranhar que temesse uma ilha governada por mulheres, mesmo ela sendo uma delas. Agora que entendia a beleza de uma vida mais tolerante, estava pronta para partir. Os pensamentos da Rainha foram interrompidos quando ela viu os belos olhos do seu Rei abrirem, e ele disse:

– Gwen? O que está acontecendo?

– Não fale agora, meu amor, vai ficar tudo bem... Só queria me desculpar por tudo o que fiz! Você deve continuar a governar, e que a paz reine para sempre na Bretanha.

Artur acordou a tempo de presenciar a vida deixar o corpo de Guínevere. O encanto foi quebrado em meio aos gritos de dor do Grande Rei. Lancelot, apressou-se para ir em direção ao poço sagrado, e, quando chegou, percebeu que o que ele acabara de assistir não era um sonho. Entendeu então a pretensão de Guínevere: ela salvara a vida de Artur, mas não sobrara energia suficiente em seu próprio corpo.