Sob o Céu da Bretanha
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Morgana caminhava há dias junto com Ana e Anjana, à procura das flores que ajudariam a encantar uma nova bainha para Excalibur. Cansada, mas ainda assim obstinada, ela não parava um segundo além do necessário, e era por isso que já estavam quase chegando ao vale final do país das fadas.
Depois do que pareceu ser uma caminhada sem fim, as três conseguiram chegar no vale guardado pelo último dragão, filho do fogo. Sua pele repelia qualquer magia direta, possuía uma força aterradora e capacidade de voar, além de conseguir cuspir fogo.
Era uma criatura terrível e ao mesmo tempo bela. Morgana tentava achar uma maneira de despistá-lo e colher as flores de que precisava, mas essa tarefa estava se provando cada vez mais difícil.
– Ana, você poderia provocar um deslizamento capaz de prender o dragão ou fazê-lo voar para que possamos pegar as rosas!
– Pode ser, mas ainda assim será perigoso! Devemos ir com o máximo de cuidado e rapidamente!
Logo, Ana utilizou os poderes da terra para criar um desabamento. Grandes rochas caíram diretamente sobre o dragão, que, assustado, se livrou do desmoronamento voando.
Morgana mal esperou o dragão alçar voo e foi em busca das rosas das sagradas existências. Havia muita poeira no ambiente, o que tornava a busca mais complicada. Por fim, Morgana achou o que procurava, e pegou até um pouco a mais, por precaução. Porém, quando menos esperava, uma rajada de fogo veio ao seu encontro.
Não fosse pela parede de terra levantada por Anjana, Morgana teria morrido em meio a chamas. O dragão logo estraçalhou a parede e começou a ameaçar Morgana com suas garras enormes.
Morgana estava encurralada, mas por sorte ainda lembrava-se do encantamento para obter as formas da Deusa. Não perdeu tempo, começou a recitar as palavras sagradas imediatamente.
Na mesma hora, Morgana tomou uma forma que era imponente até mesmo para um dragão gigantesco. A fera começou a recuar como se estivesse acuada, e Morgana aproveitou enquanto o encantamento ainda estava surtindo efeito e saiu da presença da fera.
As elementais da terra trataram de afastar o dragão com um pequeno tremor, e, antes que ele recuperasse o equilíbrio, foram embora.
*****
Branwen e Davey conseguiram chegar à Bretanha antes que a batalha estourasse. Precisavam atrapalhar os nórdicos o máximo possível. Davey percebeu que os nórdicos possuíam alguns barris de fogo-vivo, um explosivo poderosíssimo, a bordo de um de seus navios.
– Branwen, se conseguíssemos acionar aqueles barris, eles poderiam muito bem fazer o trabalho pelo exército de Artur!
– Pelo menos uma parte das forças ele reduziria!
– Pois muito bem, eu criarei um pequeno incêndio que levará parte dos nórdicos para perto da água enquanto você ativa os barris de fogo-vivo, então, voltamos para casa!
– Comecemos então!
Branwen se apressou em aquecer os arredores do exército nórdico, criando um pequeno incêndio alimentado por galhos secos que se depositaram de pequenas árvores existentes na costa. As forças nórdicas começaram a recuar até perceberem que não se tratava dos inimigos, mas de um pequeno incêndio natural. No entanto, já era trade, pois Davey já ativara os barris com fogo-vivo. A explosão foi tão colossal, que pôde ser vista até mesmo pelas forças bretãs, que ainda se aproximavam.
Metade de das forças nórdicas foram dizimadas, e, enquanto os comandantes estavam tentando entender o que ocorrera, reorganizar o exército e verificar se algum barril ainda restara, as elementais já haviam partido.
*****
Guínevere terminara seu treinamento com Eda e as duas finalmente voltaram para o palácio das fadas. Durante a caminhada, Guínevere tentava recapitular tudo pelo que passara para chegar até ali. Há pouco tempo, era considerada a pessoa mais católica do reino inteiro. Agora, se via praticando magia. Não só isso, se via entendendo a Deusa e servindo-a como sua sacerdotisa.
Chegaram aos portões do castelo, e se depararam com Morgana e as elementais da terra. Estavam com as vestes em frangalhos, porém, mantinham o mesmo ar real de sempre.
– Vejo que não foi fácil colher essas flores, não foi, minha querida?
– Tem razão, Eda, aquele dragão estava um pouco bravo, tivemos que apelar para a magia.
– Sabemos todas que ela nunca se esgota quando é bem usada! Agora vamos, precisam comer e descansar. Amanhã, Guínevere e Morgana voltarão para Stonehenge.
– O que faremos então? – fala Guínevere
– Iremos até Avalon, uniremos forças com as outras sacerdotisas e faremos o exército bretão vencer, mas antes, eu preciso encantar a bainha nova da Excalibur, para mandá-la por Lancelot ao rei.
Concordaram todas e entraram. A noite estava diferente, mais sombria agora do que quando chegaram, e Guínevere só agora percebia que a lua nova se aproximara.
Depois de um merecido banho, seguido de um banquete agradabilíssimo, todas resolveram ir para a cama mais cedo. Morgana, por sua vez, ainda tinha mais uma missão a cumprir.
– Eda, sabe que, para completar o encantamento, preciso de uma semana, não é?
– Claro, Morgana, já entendi o que você anseia. Vou agora mesmo conjurar sigilos mágicos que a escondam do tempo, até mesmo do tempo alterado do país das fadas. Você encantará essa bainha, e retornará antes mesmo de se passar uma hora... Ainda haverá tempo para descansar. Não queremos que a Dama do Lago chegue desgastada à Ilha Sagrada!
– Muito obrigada, Eda!
Eda traçou o círculo mágico. Logo Morgana pôde ver uma luz dourada desenhando o chão: o sol, a lua e as estrelas dançavam por entre uma circunferência perfeita. Quando notou, Morgana estava em uma espécie de caverna bastante escura, mas que tinha uma abertura para o céu feita por entre as rochas.
Morgana entrou em meditação. Precisava entrar em contato com a Deusa. Logo depois de dizer as palavras, Morgana sentiu as vibrações divinas como só uma sacerdotisa experiente conseguiria. Ela estava lá, com sua aura prateada, cabelos longos e bastante brilhantes, corpo forte, porém exalando feminilidade por onde passava. A donzela caçadora olhava para Morgana, que pedia por sua orientação. Indo de encontro a ela, a Deusa abraçou-a, de modo que Morgana não sabia mais se era ela mesma ou a Deusa que estava controlando seu corpo.
Sentindo agora toda a energia da lua nova, Morgana começou a cortar o couro do gamo, costurá-la com linha vinda da lã de um cordeiro negro, revestir a bainha recém formada com veludo molhado, vermelho como o sangue.
Logo depois, recitou sigilos de proteção e banimento, de modo que, aquele que possuísse a bainha, não se ferisse jamais se estivesse em contato com ela.
A medida que ia recitando, desenhando símbolos mágicos em toda a bainha, da mesma maneira que fez na primeira vez... E assim permaneceu, em jejum, por uma semana inteira, entregue à donzela, direcionando todo o seu poder para a bainha... Até que tudo apagou-se.
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