Sob o Céu da Bretanha
12 Capítulo 12
Notas iniciais
A travessia do lago foi bastante rápida, apesar de se tratar de uma razoável quantidade de água. As damas seguiram pela colina e logo encontraram uma espécie de caverna. Asrai convidou-as para entrar e continuar a caminhada. Morgana entrou primeiro, seguida de Guínevere.
Tão logo quanto entraram chegaram a saída, que dava diretamente para a entrada do castelo sem muros. Guínevere estava confusa, não andara tanto para subir tão alta colina. Obviamente, a terra dos povos antigos tinha muito mais segredos do que ela imaginara.
A belíssima construção era gigantesca: quatro torres rodeavam a nave principal em cada um dos pontos cardeais, a porta era de ouro maciço, adornada com diamantes graúdos e guardada por duas donzelas, que trajavam um vestido de linho sem alças e mangas terminando antes do joelho de forma assimétrica.
A entrada dava para um jardim interno repleto de rosas e plantas dos mais variados tipos. Eles percorreram uma antessala ricamente decorada com estofados de veludo molhado, que dava para os degraus de uma das torres.
– Bem, senhoras, levarei as duas para os aposentos que lhes foram preparados para que possam lavar-se. Descansem um pouco, e logo será servido o jantar. Devem abandonar todas as dúvidas e inseguranças. Aqui, nada as perturbará.
– Muito obrigada, Asrai. – disse Morgana.
Ao subirem as escadas, Guínevere despediu-se de Morgana, que ficou no quarto ao lado do seu. O seu aposento era enorme, maior que seu quarto real em Camelot. Havia um estofado grande o suficiente para quatro pessoas e cadeiras dispostas graciosamente ao longo do aposento; uma penteadeira feita de carvalho negro ficava encostada à parede lateral, e uma cama enorme com palha bastante nova a esperava. Frutas frescas e pão de mel enchiam o criado mudo e um caldeirão com água estava sobre a lareira, pronto para ser usado. Alguns minutos depois, Guínevere ouviu a porta bater, e atrás dela estava uma linda jovem de olhos azuis, que fora enviada para fazer às vezes de sua aia e ajudar-lhe com sua toalete.
Morgana estava se recuperando da viagem e regozijando-se por estar finalmente no país em que achava que nunca mais veria. Agora o próximo passo era treinar Guínevere como sacerdotisa, voltar a Avalon, vencer a guerra e recuperar a Bretanha para a Deusa.
Ao chegar à sala do trono, Morgana a viu ornada exatamente como a vira pela última vez: um longuíssimo tapete de veludo molhado que dava para o trono único de bronze, elevado em relação ao restante da sala, além de quadros belíssimos retratando cenas da natureza, incomumente dispostos nas paredes, complementando o caminho até o trono.
Morgana pôde ver a Rainha da Bretanha exasperada. Com certeza ela achara por todos esses anos que seu reino era o mais nobremente decorado, justamente por ser o reino do soberano de todo a Bretanha. Obviamente os moradores daquele país não eram necessariamente subservientes a Artur.
Caminharam até o trono e a figura sentada nele finalmente assumiu as formas que Morgana estava esperando. Eda, a Rainha das fadas, parecia uma divindade saída dos contos romanos. Não aparentava ter mais que trinta anos, embora Morgana soubesse que era bem mais velha que isso. Vestia um longo vestido branco, apertado na cintura por um cinturão de ouro também branco, que por sua vez combinava com uma pulseira pousada no seu pulso esquerdo. Os cabelos cacheados estavam enfeitados com flores de primavera, amarradas a um coque meio preso próximo à nuca. A coroa dourada era delicada como uma tiara, e nos pés, nada mais que sandálias de tiras feita com fibras vegetais.
Guínevere estava encantada com aquela rainha. Nem ela própria, que parecia um anjo, igualava-se à beleza de Eda. Um doce aroma de jasmim emanava da Senhora das fadas e fazia Guínevere pensar que já não havia mais preocupações. Eda interrompeu seus pensamentos e começou a falar:
– Olá, filhas da Deusa! É uma honra recebe-las em meu país.
Guínevere ia retrucar e dizer que não era nenhuma seguidora da Deusa mas lembrou-se com uma certa insatisfação de que estava ali justamente para tornar-se uma.
– Morgana! Nos encontramos de novo.
– Sim, Senhora. Novamente por motivos de Estado, temo alertar-lhe!
– Eu sei bem, minha querida. Por isso, desta vez, ordenei as minhas servas que retirassem o encantamento de torpor que se sentia naturalmente ao entrar em meu país, fazendo com que as pessoas fossem tragadas para um mundo de ilusões, e que aqui morressem, acreditando estarem no paraíso. Você sabe, alguém não iniciado não pode ter acesso aos Mistérios sem devida preparação, exceto, talvez você, doce Rainha da Bretanha! Bem, continuaremos essa conversa no jantar que nos espera no salão de banquetes. Vamos?
– Espere, não vamos começar o treinamento? A senhora não vai interferir na guerra?
– A tempo para tudo, Guínevere, explicarei mais adiante. Venha.
Seguiram Eda até o salão ao lado da sala do trono, onde estava uma grandiosa mesa retangular servida de pães, doces, grãos, vegetais dos mais variados tipos, além, é claro, de carnes diversas.
Guínevere serviu-se de pão de cevada e uma pequena porção de frutas frescas. Depois, pegou um pedaço de carne de carneiro, e viu Morgana saciar-se com apenas um pouco de pão de mel, frutas secas e vinho aquecido. Eda apenas comia vegetais e frutas e tomava água em uma linda taça de cristal.
Após alguns minutos do jantar ter começado e ninguém falar nada, entraram no salão oito donzelas de beleza estonteante e sorrisos solares que deixaram a bela Rainha da Bretanha se sentindo uma mendiga, o que não era incomum naquela país. Uma delas era a já conhecida Asrai, já sentada à mesa juntamente com as outras.
– Minhas filhas! Que bom que se juntaram a nós! Morgana, creio que já deve conhecer minhas meninas?
– Sim, Senhora. Como vão, irmãs?
– Muito bem, Morgana, essa deve ser a Grande Rainha? – disse uma das jovens.
– Oh sim, desculpem-me! Deixe-me apresentar-lhes. Guínevere, essas são as filhas da Rainha das fadas: Áurea, Aril, Branwen, Davey, Ana, Anjana, Viviene, e como você já conhece, Asrai. Elas são conhecidas como as elementais porque cada uma têm uma afinidade em especial com cada elemento da natureza. Áurea e Aril têm afinidade pelo ar; Branwen e Davey, pelo fogo; Ana e Anjana, pela terra e Viviene e Asrai, pela a água.
– Muitos prazeres conhecê-las – disse Guínevere com a voz trêmula de medo e admiração.
As fadas possuíam belezas bastante diferentes, cada uma quase que realmente fazendo alusão ao elemento que representava. Aril e Áurea possuíam cabelos bastante dourados e pele muito alva além de lindos olhos azuis celeste e corpos no limiar entre uma menina e uma mulher. Branwen e Davey ostentavam cabelos ruivos cor de ferrugem, olhos verde-esmeralda e corpos curvilíneos e sensuais; Ana e Anjana tinham cabelos castanhos e olhos de mesma cor, corpos fortes e femininos ao mesmo tempo; já Viviene e Asrai tinham cabelos negro-azulados e olhos muito negros. Todas vestiam-se de forma parecida com vestidos de uma só alça grossa, sem mangas e que terminavam pouco antes dos joelhos de forma ousada e natural; Tiaras as enfeitavam a cabeça e uma pedra brilhava em cada uma delas; águas marinhas nas tiaras das fadas de água, esmeraldas nas de ar, ônix nas de terra e topázios nas de fogo. Não havia calçado em seus pés perfeitamente esculpidos.
– Pois muito bem, já que minhas filhas estão conosco, poderemos falar agora dos assuntos que trouxeram as nobres bretãs a nosso país. Prossigam, minhas caras.
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