Sob minha Pele

22 Capítulo Vinte e Um


Notas iniciais
Três avisos rapidinhos: 1. SmP vai passar a ser postada todos os domingos a partir de agora; 2. As respostas dos comentários estão atrasadas, mas prometo normalizar isso o quanto antes, não deixem de comentar por isso, por favor; 3. Há uma música no capítulo, quem quiser conferir, aqui o link de antemão para ouvir https://www.youtube.com/watch?v=C1AHec7sfZ8 e um para ver a tradução https://www.letras.mus.br/frank-sinatra/36423/traducao.html Agora, boa leitura ♥

— Capitulo Vinte e Um —

— Bella —

Eu não via meu pai há séculos, parte daquilo era minha culpa, claro, mas também dele. Caius Sawyer não se importava comigo, eu sabia disso, então visitas para me ver não era algo que ele priorizava em sua agenda de embaixador extremamente ocupado.

De cem coisas a se fazer em sua lista, procurar saber como sua única filha estava era a centésima primeira, ou seja, eu sequer estava na lista. Aquilo machucava muito enquanto crescia, mas com o tempo aprendi a ignorar a dor de não ter um pai presente e, aprendi que apenas vovô bastava, não precisava de Caius.

Eu devia ter me prendido a isso, não devia ter ligado para ele naquele domingo, pois era mais do que óbvio de que acabaria apenas sendo colocada de lado, como sempre. Eu era um nada para Caius, apenas alguém com parte de seu DNA e sangue que estava por ai.

— O que foi dessa vez, Isabella? — perguntou impaciente. — Já é bem tarde aqui e amanhã tenho de trabalhar cedo, não tenho tempo para perder com suas pinturas estúpidas.

— N-Não — gaguejei, pigarreando para conseguir falar. — Não liguei para falar sobre minhas pinturas, Caius, é sobre Renée.

Ele riu, uma risada fria.

— Nossa, sim, pois falar sobre Renée é muito melhor do que falar de pinturas idiotas.

Engoli em seco, odiando as palavras dele sobre minha mãe mais do que odiei como ele falou da minha arte. Eu realmente não devia ter ligado, era burra de pensar que do nada Caius poderia se tornar o pai que nunca foi.

— Você sequer já amou Renée de verdade? — consegui perguntar.

— Eu realmente não tenho paciência para esse monte de merda, Isabella — afirmou irritado.

— Ela está acordando, Renée está acordando do coma — contei, sabendo muito bem que Caius tinha conhecimento de tudo que tinha acontecido com sua ex esposa.

— Excelente — sua fala positiva não soou nada verdadeira aos meus ouvidos. — Mande-a direto para um hospício, antes que ela arruíne sua vida como arruína tudo que toca.

— Do que está falando? — gritei, irada.

Ele riu novamente, a mesma risada fria.

— Apenas não seja idiota como Renée, Isabella — disse em tom imperativo. — Não seja uma drogada, bêbada babaca e saiba qual seu lugar. Falando nisso, eu preciso saber a data certa de sua festa de noivado, é importante que esteja ai, já que Billy e eu temos muitos negócios em comum.

— Vá à merda, Caius — mandei, sem me importar se aquele homem era meu pai.

Eu o odiava, mais do que me importava com o fato de sermos parentes, para ligar se estava o ofendendo.

— Preste atenção como fala comigo, Isabella.

— Não, preste atenção você! — continuei gritando. — Você pode não se importar comigo, mas lembre-se que sou sua filha, seu babaca, sua única filha. — Meus olhos se encheram de lágrimas enquanto falava aquilo, era injusto que um homem que não merecia ser pai como Caius era continuava vivo, enquanto o pai de Edward, que obviamente tinha sido uma pessoa maravilhosa, estava morto. — Não me procure quando você estiver velho e sozinho, já que suas putas não vão ligar em ficar com um velho decrepito. E, não pense em vir até New York para a droga do meu noivado, eu não quero que chegue perto de mim nunca mais.

Não dei tempo de Caius falar qualquer coisa, rapidamente finalizando a ligação que nunca deveria ter acontecido. Deixei a garagem onde estava desde que fui até ali com Edward, pensar nele me acalmou por meio segundo, até eu recordar de que ele também estava fora da minha vida.

Caius longe era aceitável, era comum. Porém, eu ainda não estava acostumada com Edward longe, mesmo com a nossa proximidade tendo durado somente poucos dias, ele tinha sido muito importante para mim e tinha o perdido.

Aparentemente eu perdia tudo, ou era deixada de lado muito facilmente. A vida era uma merda, mas minha mãe estava voltando para mim e eu ia fazer de tudo para que nossas vidas voltassem aos trilhos, que nós duas pudéssemos ter um pouco de felicidade.

Ela merecia, eu não, mas ela sim.

— Como ela está? — indaguei Esme quando a encontrei no andar da UTI.

— Cadê o Edward? — ela perguntou de volta, olhando para trás de mim como se o Masen fosse surgir ali em um passe de mágica.

— Ele foi embora — respondi, encolhendo-me.

Embora não apenas do hospital, mas da minha vida. Será que tudo poderia ter sido diferente entre a gente se eu tivesse sido menos idiota quando nos conhecemos? Mas, claro, meu dinheiro, Jacob e todo o resto do meu mundo continuariam ali, era sobre aquilo que Edward tinha falado também sobre estarmos em caminhos totalmente diferentes.

Não, nada teria sido de outra forma. Nós dois continuávamos sendo peças de jogos distintos, não podíamos pertencer ao mesmo mundo.

— Por que ele foi embora? — Esme perguntou, soando triste com a noticia.

— Esme, minha mãe — eu a lembrei do que realmente importava ali, eu estava mal com Edward indo embora, mas Renée era minha prioridade. Ela tinha sido negligenciada por mim durante anos, estava na hora de colocá-la no topo da minha lista.

— Claro, claro, Renée. — Esme assentiu. — Fizemos alguns exames e, ela passará por mais alguns ainda hoje. Preciso que entenda que ela não vai simplesmente acordar de uma vez, em perfeito estado, certo? — Concordei com um aceno de cabeça. — Ela vai ir voltando aos poucos do coma, pode ser que isso leve bastante tempo, mas o importante agora é que ela está voltando, Bella. — Esme afagou meu rosto carinhosamente. — Sua mãe vai ficar bem, Bella, não importa se ela precisará ficar meses no hospital, ou ter sequelas que carregue pelo resto da vida, o que deve pensar agora é que Renée sobreviveu, ela ganhou uma segunda chance de viver.

— Eu sei — murmurei, pensando na conversa com Joe. — Prometo que serei forte por Renée, Esme. Tudo que mais quero agora é apenas ter minha mãe segura e comigo, não estou nem ai para o resto.

— Não seja tão focada assim, Bella, você também precisa pensar em si. Tem ficado tanto nesse hospital que logo estará doente por exaustão, tire um dia ou dois para relaxar.

Eu ri, uma risada sem humor e baixa.

— O quê? — Esme perguntou.

— É apenas engraçado. — Dei de ombros, passando a mão por meus cabelos. — Durante minha vida inteira fui egocêntrica, apenas eu e eu era o que importava, agora que finalmente estou me importando com outra pessoa, todos dizem que eu tenho de pensar em mim.

Esme me lançou um sorriso gentil.

— Bella, não podemos viver a vida em extremos, querida. Ser abnegado demais é tão prejudicial quanto ser muito egoísta, em um você é pisada, no outro você pisa.

Prestei atenção em suas palavras, aprendendo aquilo.

— Encontre um meio termo — ela sugeriu. — Isso torna a vida muito mais fácil, você verá.

— Esme — sussurrei, sentindo meus olhos se enchendo de lágrimas mais uma vez aquele dia. — E-Eu — gaguejei novamente. — O meu coração está doendo muito, nunca senti algo assim, dói demais — me queixei.

— O quê? Seu coração está doendo? — Esme perguntou alarmada, fazendo com que eu sentasse em uma das cadeiras no corredor da UTI.

— S-Sim, está doendo muito — falei sem conseguir parar de chorar aquela altura, colocando uma mão sobre meu peito.

— O que mais está sentindo? Pressão no tórax? Falta de ar? Está tonta ou enjoada? — Acenei negativamente com a cabeça para suas perguntas. — Vem sentindo essa dor com alguma constância? Ou ela só veio agora?

— Não sei, eu, só dói demais, Esme. — Solucei, abaixando o olhar para minhas mãos em meu colo.

— Bella, olhe para mim, querida — Esme pediu, erguendo meu rosto, fazendo com que seu olhar se encontrasse com o meu. — Isso é algo sobre Edward? Você está mal por ele ter ido embora, não?

Concordei com um aceno positivo de cabeça.

— Seu coração está bem, então — ela disse solenemente. — Não está tendo um ataque cardíaco, ou qualquer coisa assim.

— Mas, está doendo muito, muito mesmo — me queixei, escondendo meu rosto entre as mãos. — Faça parar, Esme, por favor — implorei. — Me dê algum remédio que faça a dor sumir, eu odeio sentir dor.

— Não há um medicamento que cure paixão, Bella.

Eu voltei a encará-la, sem crer em suas palavras.

— Não, Esme, não — eu disse em um fio de voz, as lágrimas cessando momentaneamente.

— Você sabe que sim, Bella, apenas não quer admitir o que está sentindo — ela falou, sentando na cadeira ao meu lado. — Eu vi vocês dois lá no quarto, okay? Vi como estavam juntos quando Renée veio para cá também, Bella, eu reconheceria o sentimento de longe.

Não, eu não podia estar apaixonada, não queria. Principalmente por Edward, seria como entrar em um beco sem saída, onde o fim inevitável seria uma colisão contra um muro, com altas chances do final ser fatal, para mim.

Ele não queria mais nem ser meu amigo, nunca que iria querer qualquer outra coisa comigo. Nós, entre ele e eu não existia, nunca existiria.

— Bella? — Esme me chamou. — Você ama, ou pelo menos já amou Jacob?

— Não — respondi sinceramente.

— Foi o que imaginei. — Ela segurou minha mão em um aperto seguro. — Edward, ele...

— Ele não quer mais nem ser meu amigo, Esme — a interrompi. — Por ele nós dois nunca mais nos encontraríamos, eu tenho certeza de que se ele me ver na rua vai atravessar a calçada para não olhar na minha cara — funguei ao dizer aquilo, eu queria tanto ter tido mais tempo com ele, ter o conhecido melhor.

— Bom, eu posso dar um jeito de colocar vocês dois frente a frente novamente — Esme disse.

— O quê? Como? — perguntei confusa, ela sorriu, um sorriso que era muito parecido com os de Alice quando minha melhor amiga estava tramando algo.

— Um jantar, lá em casa, o quanto antes.

— Esme, não, eu não sei se isso é o certo a se fazer.

Eu ainda tinha Jacob, o odiava, mas ainda tinha um compromisso com ele. Não podia romper nosso noivado, era tudo que mais queria, mas não podia.

— Apenas um jantar, vocês estarão servidos de boa comida, relaxados e poderão conversar com mais calma. — Soou mais empolgada ainda ao dizer aquilo, mas eu continuava achando aquilo arriscado demais. — É só um jantar, Bella — Esme insistiu.

— Que jantar? — Alice escolheu aquele momento para surgir atrás de mim. — Hey, mamãe me ligou avisando que Renée está acordando, eu estou tão feliz com isso! — exclamou, me dando um forte abraço e sentando na outra cadeira vaga ao meu lado.

— É, isso é muito bom.

Bom demais, mal via a hora de Renée poder falar. Precisava que ela confirmasse que tinha me ouvido falar que a amava e, esperava ouvi-la dizendo que me amava de novo.

— Edward e Bella se beijaram, não estão muito bem e eu farei um jantar lá em casa para que eles possam conversar um pouco — Esme respondeu a pergunta inicial de Alice, fazendo com que eu arregalasse os olhos em choque.

— Eu não te contei que nós tínhamos nos beijado.

Esme apenas riu, enquanto eu via Alice processando tudo aquilo, a boca escancarada.

— Bella, eu sei o que vi naquele quarto quando entrei, não era apenas um abraço. Vocês dois estavam juntos demais, conectados demais, tinha muito ali.

— Você beijou Edward — Alice falou por fim, ainda sem acreditar.

— E está apaixonada por ele — Esme emendou.

— Esme! — exclamei, mas sem conseguir deixar de rir.

Ela era absurda, mas talvez não só Esme, como Joe também. Estivessem certos sobre o que eu estava sentindo por Edward, por mais que achasse aquilo muito perigoso, paixão não era algo bonito e aquilo acabaria feio.

— Oh meu Deus, é demais para eu conseguir processar de uma vez só — Alice disse. — Mas, claro, estava mais do que óbvio de que você estava sentindo algo por Edward, Bella. Agora é só chutar Jacob e ir...

— Eu não vou chutar Jacob — afirmei, ganhando olhares de reprovação idênticos de Esme e Alice.

— Você não o ama — Esme disse aquilo com seriedade. — Bella, por que ainda está com esse garoto?

— Eu preciso, tá legal? — Levantei. — Você está certa, Esme, preciso descansar um pouco, vou pro meu apartamento. Qualquer novidade sobre mamãe me avise o quanto antes — pedi, começando a me afastar delas.

— Bella. — Alice correu até mim, ficando ao meu lado diante as portas do elevador enquanto eu esperava o mesmo chegar ao andar.

— Alice, não, por favor — implorei. — Estou cansada demais para isso.

— Ele também gosta de você — Alice disse, ignorando meu pedido. — Edward gosta de você — ela repetiu quando a olhei.

— Não, ele não gosta — murmurei, entrando no elevador quando ele chegou ali.

Alice manteve as portas abertas para poder falar mais.

— Ele gosta, eu darei um jeito de colocar vocês dois juntos de novo naquele jantar — prometeu confiante. — Mas, você precisa se livrar do Jacob, precisa mesmo fazer isso, o quanto antes.

As portas se mexeram, forçando Alice a tirar a mão dali.

— Eu não posso, Alice — sussurrei enquanto as portas se fechavam.

Estava sozinha no elevador gelado, sentindo-me além de só, também presa. Mas, não apenas ali, como em minha própria vida. Eu não conseguia encontrar uma escapatória, sequer sabia se tinha uma saída.

***

A segunda-feira foi lenta e torturante.

Logo no começo do dia eu já estava alojada no hospital, como um cão de guarda junto de mamãe, esperando que ela acordasse novamente. Não aconteceu, o que me desesperou muito, Carlisle e Esme tentaram me convencer de que era normal, mas a cada hora que se passava sem Renée acordando eu ficava mais nervosa ainda.

E se ela nunca mais acordasse? Se aqueles poucos segundos no dia anterior fossem tudo?

Eu queria ligar para Edward durante toda a segunda-feira, ou fiquei esperando por um milagre esperando uma ligação dele. Não aconteceu, ele não ligou e eu não tive coragem para ligar.

Mas, vovô ligou, irritado por saber que eu não tinha me encontrado com Jacob no domingo como ele tinha recomendado e mais irritado ainda por eu ter sido desrespeitosa com Caius. Ainda assim, ele prometeu voltar para New York na quarta-feira quando eu pedi que ele voltasse para casa quanto antes.

Eu tinha Alice e os pais dela, mas ainda me sentia muito sozinha ali.

Na terça-feira, pela manhã, Jacob e a mãe foram visitar Renée. Ficaram ali por uns cinco minutos, no máximo. Sarah se queixando de que devíamos começar a pensar na festa de noivado e, Jacob claramente ainda de ressaca pela festa que eu sabia que ele tinha ido na segunda-feira de noite, junto com James e Paul.

— Nós todos sentimos sua falta lá — Jacob disse para mim, ignorando completamente Renée deitada bem ali. — Mas, foi muito bom. Paul nos levou para uma boate maravilhosa, foi insano.

Ele não se deu ao trabalho de falar com ela, como Edward tinha feito. Até nisso eram diferentes, completamente diferentes.

— É — foi tudo que disse, sem conseguir tirar meus olhos de mamãe, esperando que ela acordasse.

— O quê? — Ele segurou meu rosto, fazendo com que eu o olhasse. — Você não vai reclamar de eu estar saindo por ai com Paul, Isabella? — indagou com um tom desafiador.

— Não — neguei. — Saia com quem quiser, Jacob.

Ele me olhou com raiva, largando meu rosto.

— Acho melhor sua mãe melhorar logo, viu? Ou vai se tornar insuportável ter de lidar com você intocada na porra desse hospital — ele reclamou, encarando Renée na cama, depois voltando a me olhar com raiva. — Você tem sido uma péssima noiva.

— Não me importo, rompa o noivado se quiser — falei.

Era tudo que eu queria, se ele rompesse o noivado não seria minha culpa. Se ele rompesse o noivado vovô não ficaria chateado comigo, ele entenderia.

— Jacob, vamos embora de uma vez. — Sarah retornou ao quarto, já que tinha saído para atender uma ligação.

— Nós conversamos depois, Isabella — Jacob disse em um tom de ameaça, seguindo a mãe para fora do hospital.

Suspirei aliviada quando ele foi embora, já farta de sua presença ali. Jacob tinha acabado de sair quando meu celular tocou, eu o peguei rapidamente, por um instante pensando que seria Edward ligando, mas não era, ele nunca mais ligaria.

— Oi, Alice — atendi.

— Jantar confirmado! — ela praticamente gritou em meu ouvido.

— Alice...

— Sem recusas, Bella — declarou. — Você irá para esse jantar e ponto final, Jasper precisou de muito para convencer Edward a vir, não vá estragar tudo.

— Você não contou para Jasper sobre o beijo, né? — indaguei preocupada. Edward provavelmente não queria que isso se espalhasse, sendo sincera eu também não queria.

— Não e, como ele não mencionou nada acho que Edward não contou nada para ele também.

Como eu previa.

— Bella, você vem, certo?

Olhei para minha mãe na cama, ainda apagada.

— Alice, eu não quero encontrar Edward. Quer dizer, eu quero, muito. Mas, não acho que isso seja o melhor para mim, como também sei que ele não quer me ver.

— Besteira — Alice afirmou. — Eu tenho certeza de que ele vai deixar de besteira e vai gostar de te ver. Agora, você precisa mesmo chutar Jacob.

— Sabe que não posso.

— Por que não?

Por que eu não podia mesmo?

Andei até minha mãe, tocando gentilmente em sua mão. Com ela acordando, os médicos me deram permissão de passar mais tempo ali dentro do quarto com ela, o que eu estava adorando, era muito melhor assim.

Vi Renée piscando, acordando aos poucos. Mal podia acreditar naquilo, parecia que toda a felicidade do mundo estava voltando ao meu corpo naquele instante.

— Alice, ela está acordando de novo — eu disse chorando de emoção, apertando o botão para chamar a enfermeira como tinha sido instruída a fazer caso visse Renée acordando.

— Oh, sério? — Alice voltou a gritar cheia de animação em meu ouvido, mas não me importei, também estava animada.

Esme e uma enfermeira entraram juntas no quarto, ver a mãe de Alice logo me fez voltar a pensar no jantar.

— Eu vou — falei para Alice e sua mãe ao mesmo tempo. — Eu vou para o jantar.

— Isso, garota! — Alice gritou novamente. — Estou indo me arrumar para te encontrar no hospital. — Desligou.

Esme apenas sorriu para mim, aparentemente feliz com a minha confirmação de que estaria no jantar, indo diretamente examinar Renée junto com a enfermeira.

Minha mãe parecia tão desorientada quanto no domingo, não se mexia ou fazia qualquer coisa que desse indicio de que ia falar. Eu permaneci em meu lugar ao seu lado, segurando sua mão firmemente, querendo que ela soubesse que estava ali por ela.

— Abertura ocular espontânea — Esme disse para a enfermeira, que começou a tomar nota do que ela falava. — Sem resposta verbal, talvez por conta do aparelho respiratório. — Esme pressionou o peito de Renée, o que me assustou. — Sem resposta motora. Total de 6 na Escala de Glasgow.

— O que isso quer dizer? — questionei sem entender.

— É a escala que mede o nível de consciência de pessoas que sofreram traumas como o de Renée e ficaram em coma, ela alcançou o número seis, de uma escala que tem número mínimo de três e máximo de quinze.

— Isso não parece bom — lamentei.

— É sim, Bella — Esme insistiu. — Hoje é um seis, amanhã pode ser um sete e quando menos se esperar ela pode estar no quinze.

Somente assenti, sentindo-me devastada. Voltei a olhar para minha mãe, seu olhar estava perdido no teto do quarto, como se ela sequer estivesse mesmo enxergando algo.

A enfermeira e Esme saíram, garantindo que Renée estava bem, pedindo que eu monitorasse por quanto tempo minha mãe ficaria desperta. Então, fiquei sozinha com Renée.

— Hey, mãe — falei com ela. — Que tal sair desse seis e pular direto para um quinze? — perguntei, tocando em seu rosto, ela continuou olhando para cima. — Mãe, eu preciso muito de você — murmurei. — Agora mais do que nunca. — Respirei fundo. — Eu acho estou apaixonada — confessei.

Renée piscou e eu pensei que ela voltaria a dormir, mas com o piscar de olhos conseguiu me olhar.

— Ei, você está me entendendo, não está? — Beijei sua testa. — Você conheceu Edward no domingo, acordou quando ele esteve aqui, lembra-se dele? — Renée apenas continuou me olhando, um olhar vago. — Estou apaixonada por ele, mamãe e não sei o que fazer com esse sentimento.

Comecei a chorar baixinho.

— Você já esteve apaixonada, mamãe? — a questionei. — Por meu pai? Ou sei lá, por outro homem?

Ela piscou uma vez.

— Isso é um sim?

Outra piscadela.

— É, acho que isso é um sim. — Eu ri em meio ao choro. — É sempre tão doloroso? Estar apaixonada, quero dizer.

Ela piscou duas vezes.

— Isso é um não? — Eu ri mais uma vez. — Mãe, você acha que eu ainda posso ser feliz de verdade?

Apenas uma piscadela.

Se ela achava aquilo, eu também. Talvez mamãe estivesse certa, talvez eu realmente pudesse ser feliz e quem sabe Edward estivesse ao meu lado.

***

Como prometido vovô voltou para New York na quarta-feira, pela parte da tarde. Pela manhã eu estava no hospital com Renée, ela tinha passado cerca de uns três minutos acordada aquele dia, também retiraram a mascara de oxigênio, mas ela se manteve no número seis na Escala de Glasgow, sem falar, ou se mover.

— Você voltou! — eu comemorei quando vi vovô no apartamento, correndo até seus braços.

— Eu sempre voltarei para você, minha garota preferida. — Ele retribuiu o abraço. — Deixe-me ver você — pediu, afastando para olhar em meus olhos. — Bella, parece tão cansada, minha querida.

— Eu estou muito melhor — disse convincentemente, o máximo que pude. — Com mamãe acordando, estou bem melhor mesmo — afirmei. — Você vai visitá-la ainda hoje?

— Não — ele negou. — Estava pensando em levar minha garota preferida para jantar em um bom restaurante, o que acha? Você realmente precisa se distrair daquele hospital. — Sorriu gentilmente para mim, afagando meu rosto.

— Eu ia amar, vovô. Mas, os Cullen darão um jantar hoje e me convidaram, eles tem sido tão bons com Renée, não acho que possa faltar.

Até porque Edward estaria lá, eu estava louca para voltar a vê-lo.

— Tudo bem, certo então — ele concordou, mas parecia chateado com aquilo. — Nós podemos ir amanhã, você escolhe o restaurante, o céu é o limite.

— Isso parece ótimo, vovô. — O abracei mais uma vez, estava morrendo de saudades dele. — Eu preciso me arrumar agora, irei usar as joias que trouxe para mim de Dubai, são lindas.

Corri escada acima, sentindo-me muito mais leve com vovô por perto.

Assim que terminei de me arrumar, já atrasada para ir ao encontro dos Cullen e seus convidados para o jantar, desci para me despedir de vovô. Eu estava entrando na sala principal do apartamento quando vi Jacob ali, o que me pegou totalmente de surpresa.

— Eu achei que seria bom Jacob acompanhá-la a esse jantar — vovô falou para mim, com um sorriso no rosto. — Já que você finalmente deu um tempo daquele hospital agora pode passar um tempo com seu noivo, não se importe com a hora de voltar para casa e se quiser passar a noite com Jacob, tudo bem. — Ergueu o copo do uísque que bebia para mim, lançando-me uma piscadela. — Divirtam-se, crianças.

— Ma-Mas — gaguejei.

— Vamos logo, Isabella! — Jacob ordenou, terminando de beber o uísque que ele tinha em mãos.

— Vá — vovô ordenou para mim também.

Apenas segui Jacob para fora do apartamento, ele devia estar bebendo antes do uísque, pois mal conseguia andar em linha reta. Não disse nada durante o caminho até seu carro e a casa de Alice, eu mencionei que era um jantar para o namorado da minha amiga, com a presença de alguns amigos dele, mas Jacob não pareceu dar a mínima para isso.

O que era estranho, muito estranho tê-lo tão quieto. Ele parecia estar escondendo algo. Foi mais estranho ainda quando chegamos a casa dos Cullen, ele saiu de sua mudez total e virou um cara cheio de papo.

Eu me senti péssima de estar indo para aquele jantar com Jacob, pior ainda quando vi Alice e Esme completamente decepcionadas por eu estar o levando para lá, mesmo que tenha tentado explicar que não era algo planejado. Porém, nada foi pior do que estar com Jacob, com Edward bem ali.

Ele também não parecia nada contente com a presença do meu noivo, olhava para Jacob com repulsa e não dirigiu uma palavra que fosse para mim. E, eu, mesmo tendo Jacob bem do meu lado, tudo que queria era correr para os braços de Edward, apenas um abraço, só precisava senti-lo mais uma vez.

— Eu pedi comida daquele restaurante italiano que você gosta, Bella — Alice falou para mim quando nos reunimos na sala de jantar.

— Itália! — Jacob gritou do meu lado.

— Jake, não grite, por favor — pedi envergonhada.

— Querida, Itália — ele repetiu, passando sua mão por meu rosto num gesto que deveria ser um afago, mas que eu abominei.

— Jake... — comecei a falar, querendo que ele me soltasse.

— Para nossa lua de mel, bobinha — falou, apertando seus lábios contra os meu, eu logo o afastei, sentindo nojo do seu beijo.

— Jacob, não.

— Vocês já sabem? — Jacob se voltou para todos os outros. — Bella e eu iremos nos casar, nosso noivado está bem perto, não é, meu amor? — Meteu as mãos entre os meus cabelos, desmanchando o coque eu que eu tinha feito.

Ele estava bêbado demais, fugindo completamente do controle.

— Jacob!

— Alice, nós podemos usar seu quarto? — Jacob perguntou a Alice, só me envergonhando ainda mais. — Prometo ser rápido.

Vi Edward do outro lado da mesa fuzilar Jacob com olhar, ele estava quase se levantando quando Carlisle se colocou de pé.

— Chega Jacob, você está constrangendo a todos nós, principalmente Isabella. — Indicou que Jacob deixasse a sala de jantar.

— Okay, quem diabos você pensa que é para achar que pode mandar em mim, Cullen? — Jacob debochou, gargalhando.

— Eu sou o dono dessa casa! — Carlisle gritou, fazendo com que Jacob se levantasse da cadeira de onde estava. — E não vou tolerar que fique aqui, atrapalhando nosso jantar.

— Isabella, você não vai fazer nada? — Jacob gritou comigo.

Eu sorri, feliz por finalmente tê-lo longe de mim aquela noite.

— Não, eu ficarei aqui e jantarei, amor — debochei ao chamá-lo daquele jeito. Sabia que as consequências daquilo poderiam ser horríveis, mas Alice e Esme me prometeram um jantar com Edward, era tudo que queria.

— É? E o que vai fazer depois, Isabella? Vai correr para Paul Lahote e foder com ele?

Eu paralisei com a fala de Jacob, qualquer vestígio de felicidade sendo varrida para longe de mim. Ele não devia ter descoberto aquilo, nunca.

— Sim. — Jacob riu. — Você pensou que eu não descobriria que estava por ai fodendo com um dos meus amigos, Isabella Higginbotham? Quer saber, esqueça tudo, Isabella, tudo! Foda-se o noivado, o casamento e a Itália na Lua de Mel, nós dois estamos acabados — pontuou, deixando por fim a sala de jantar.

Aquilo queria dizer que ele tinha terminado nosso noivado? Eu estava livre dele? Vovô entenderia, não? Ele tinha de entender. E, quem sabe com Jacob fora Edward e eu pudéssemos tentar algo, quem sabe começássemos a fazer parte do mesmo jogo.

Meu olhar se cruzou com o dele.

Olhos verdes, a dita cor da esperança. Era o que mais sentia dentre os outros sentimentos, eu podia ter esperanças em nós dois.

— Bella, querida, tudo bem? — Esme perguntou, chamando minha atenção.

— Sim, tudo bem — menti.

Não estava, não mesmo.

Eu devia ir atrás de Jacob e consertar tudo aquilo, mas não conseguia, não queria.

— Nós podemos voltar a jantar, está tudo bem. — Forcei um sorriso em meus lábios, olhando para todos ali.

— Bella...

— Vamos jantar, eu estou ótima — interrompi Alice, que me olhava com preocupação.

— Vamos jantar — Esme falou por fim, mas ainda olhava para mim com receio.

Não consegui falar quase nada durante o jantar, apenas fiquei ali forçando a comida e tentando me manter firme. Vovô entenderia o termino, ele também perceberia que Jacob não era o cara certo para mim.

Enquanto eu estava lá, tensa e ansiosa, Edward e os outros conversavam com a maior neutralidade. Mesmo estando nervosa era ótimo ter Edward por perto e, estar ali apenas o ouvindo falar.

Ele contou sobre Clary para Carlisle e Esme, falou um pouco sobre seus pais, não muito mais do que eu já sabia. Mas, assim como Rosalie e Jasper, ele se concentrou em falar mais sobre a banda.

Após o jantar, Esme chamou todos para tomarem mais taças de vinho na sala de jantar. Ela parecia estar indo muito bem com Rosalie, conversando com animação com a loira. Enquanto Jasper e Alice estavam presos em seu próprio mundo e, Edward e Carlisle conversavam.

Eu os deixei irem para a sala de estar, parando um pouco na sala de música, querendo um minuto ou dois para descansar minha cabeça. Passei entre os discos de vinis que os Cullen tinham ali, escolhendo um do Frank Sinatra, vovô adorava, ele sempre tinha Sinatra tocando em seu escritório de casa quando estava lá.

— Bella? — Senti meu corpo todo arrepiar ao ouvir a voz de Edward, olhei para a entrada da sala de música, vendo-o parado ali, olhando-me com cautela. — Esme pediu para ver como você estava.

— Apenas ouvindo um pouco de Sinatra — respondi aos sussurros, era a primeira vez na noite que eu falava diretamente com ele.

— Certo. — O vi franzir o cenho. — Você é mesmo uma garota que parece gostar de Sinatra — falou, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios.

Eu queria beijá-lo.

— Definitivamente sou uma pessoa que curte Sinatra. — Sorri de volta para ele.

— E Elvis? — Edward entrou de fato na sala, andando para mais perto de mim.

— Não muito — confessei, mordendo meu lábio quando ele parou diante de mim.

— Como você pode não gostar de Elvis, Bonequinha? — Edward perguntou indignado, mas ainda sorria.

— Eu não disse que não gostava, disse que não gostava muito.

— Ou você gosta do Elvis, ou odeia.

— Não há meio termo?

— Sem meio termo. — Ele riu, aumentando o volume da vitrola que Carlisle tinha ali, virando-se para mim e estendendo uma mão.

— O quê?

— Vamos dançar.

— Edward — falei em choque, mas consegui unir minha mão a sua.

— É somente uma dança, senhorita Higginbotham — falou baixinho, sua voz soando rouca.

Eu concordei, deixando com que ele me levasse para o meio da sala de música. Enquanto isso, na vitrola, Sinatra cantava I’ve got you under my skin¹.

Edward colocou a outra mão em minha cintura, mantendo a outra em minha mão. Eu coloquei minha mão livre em seu ombro, aproximando-me o máximo que pude dele.

Não fiquei surpresa do Masen saber dançar muito bem, eu devia saber daquilo. Edward era extremamente charmoso, cada ato dele, mesmo os não planejados, pareciam ser meticulosamente planejados.

O começo da música nós dois estávamos tensos, eu podia sentir isso, mas com o tempo Edward ficou bem mais relaxado e eu também. Ele até me girou algumas vezes, fazendo com que eu risse, mas logo voltasse para o calor do seu abraço.

Em algum momento nossa formação tinha se desfeito, meus braços estavam ao redor de seu pescoço, enquanto os dele ao redor de minha cinturas. Unidos, juntos, ligados.

Como a música dizia, era como se eu o tivesse sob minha pele. Como se Edward já fosse uma parte de mim e, não adiantava fugir daquilo, já era um fato.

— Because i’ve got you under my skin² — ele cantou em um sussurro em meu ouvido, junto com o final da música, seus lábios encontrando-se com a pele do meu rosto em um beijo demorado.

— Edward — clamei por ele, virando minha face para beijá-lo, mas ele me afastou rapidamente.

— Não, Bella — disse como se tivesse acabado de acordar.

— Você pode agora! — exclamei. — Jacob está fora.

— Eu não quero — falou, o que me fez parar.

— Você não quer?

— Eu não quero ficar com você, Bella. — Engoliu em seco, colocando seus braços atrás do seu corpo. — Não quero me apaixonar por você, sabe disso.

E quanto a mim? E quanto ao fato de eu já estar apaixonada por ele? Como eu lidaria com aquele sentimento sem reciprocidade?

— Você está bagunçando a minha cabeça, Edward — acusei, antes de deixar a sala de música. Ele não me seguiu, eu deveria ter previsto aquilo.

Evitei ir para a porta principal do apartamento dos Cullen, sem querer parar para dar explicações. Segui pela saída da cozinha, logo estava fora do prédio, tomando um táxi e indo para meu apartamento. Eu ignorei as ligações e mensagens do meu celular, não queria falar com ninguém.

Pareceu um tormento quando entrei em minha casa, pois ali também tocava Sinatra e para piorar minha mente, justamente a música que tinha acabado de dançar com Edward. Estava me arrastando para as escadas, quando vovô surgiu do segundo andar, seu rosto estava tomando por fúria.

— O que aconteceu? — perguntei.

— Você não passa de uma vagabunda! — ele gritou, eu estremeci, tremendo de medo. — É uma vadia, exatamente como sua avó e sua mãe.

— Vovô, o que está acontecendo? — perguntei assustada com suas palavras.

— O que está acontecendo? — Ele chegou ao fim dos degraus, parando diante de mim. — Billy me ligou, disse que Jacob chegou em casa quebrando tudo e, contou que você fodeu com um amigo do seu noivo, sua piranha.

— Não me chame assim — consegui falar, ainda tremendo de medo.

— É o que você é, Isabella! — Andou até mim, fazendo com que eu desse alguns passos para trás, com medo demais para ficar perto dele. — Uma vadia ingrata, você arruinou seu futuro, você é tão estúpida quanto a idiota da sua mãe.

— Não fale mal da minha mãe! — eu gritei, por um segundo enchendo-me de forças.

Eu perdi a cabeça, parti para cima dele, dando tapas em seu peito. Querendo me vingar por ele ter falado mal de mamãe e de mim e, por mais que eu não tivesse conhecido vovó Marie, por ter falado dela também.

— Chega, sua vagabunda, chega! — Ele gritou por uma última vez, agarrando-me pelos ombros e empurrando meu corpo em direção ao chão, com muita força.

Eu cai sentada, sentindo meu corpo inteiro doer. Meu salto quebrou no processo, eu estava toda descabelada e amassada, mas o pior de tudo era o medo.

Um medo que nunca esteve ali antes, um medo do meu avô, a única pessoa que por anos eu confiei e amei.

Notas finais
1. Eu tenho você sob minha pele. 2. Porque eu te tenho sob minha pele. Beijos! Lola Royal. 23.04.17