Sob minha Pele
23 Capítulo Vinte e Dois
Notas iniciais
— Capitulo Vinte e Dois —
— Bella —
Vovô Marcus sempre esteve lá por mim, durante toda minha vida eu o tive por perto. Ele era minha base, meu porto seguro, eu o amava e o respeitava. Eu confiava nele, de olhos fechados, até aquela noite quando tudo começou a desmoronar.
Marcus Higginbotham sempre tinha sido muito bom para mim, de todas as formas possíveis. Ele ia a minha escola todo dia dos pais, sempre assistia todas minhas apresentações de ballet ou teatro e, quando a pintura se tornou algo muito maior em minha vida, ele me incentivou a arte.
Toda vez que Caius faltava de alguma forma para mim, ou quando tínhamos Renée bêbada demais para me dar atenção, vovô estava lá. Ele me levou para conhecer o mundo, viajávamos, riamos e ele me ensinou muita coisa.
Então, era muito assustador ver aquele outro lado do meu avô. Eu já o tinha visto furioso antes, com Renée, com empregados, mas aquela fúria toda dirigida para mim fazia com que tivesse medo dele, muito medo.
— Bella, minha garota preferida — ele disse, soando chocado com seu próprio ato. Andou até mim, o que fez com que eu rastejasse ainda mais no chão, tentando fugir de seu alcance.
Assustada com meu próprio avô, o homem que sempre me protegeu de tudo e de todos. Aquela inversão era horrível, eu me sentia mais do que nunca só e totalmente desprotegida.
— Você me machucou — acusei em um sussurro, as lágrimas não paravam de rolar de meus olhos por meu rosto inteiro.
Depois de ter quase perdido minha mãe, aquele era o pior momento da minha vida.
— Bella, minha querida. — Andou mais até mim, suas mãos voltadas para cima em sinal de rendição. — Eu juro que não queria fazer isso, apenas perdi a cabeça por um minuto.
— Isso doeu — falei por trás do choro. — Você me agrediu!
— Isabella, não, não — falou, também soando transtornado, além de culpado. — Minha garota, eu lhe disse, foi apenas um momento de insanidade, não queria empurrá-la.
Ele se agachou junto de mim no chão, esticando sua mão para tocar no meu rosto, mas consegui o afastar. Medo, muito medo.
Ninguém nunca tinha me machucado antes, Jacob às vezes passava dos limites com gritos, mas eu sempre conseguia o colocar no lugar, ele nunca tinha ido longe aquele ponto. Vovô tinha ultrapassado tudo, completamente tudo.
— Isabella, eu amo você — vovô afirmou, começando a chorar, o que me fez ficar preocupada. — Amo tanto, tanto você! — exclamou, seu choro tornando-se desesperador.
— Ma-Mas, você m-me mach-machucou — gaguejei.
— E eu me sinto um merda por isso, meu amor. — Seu choro era doloroso. — Você é minha princesinha, eu nunca te machucaria, mas estava tão nervoso.
Tentou tocar em mim mais uma vez, eu consegui me levantar antes disso.
— Bella, por favor, me desculpe — implorou.
— Não, não. — Balancei a cabeça em um aceno negativo. — Eu não posso mais confiar em você! — exclamei.
Mamãe estava certa, não? Em sua carta, ela tinha me alertado sobre aquilo.
— Bella — ele me chamou mais uma vez, eu corri escadaria acima, trancando-me em meu quarto.
Fui diretamente até meu closet, eu arrumaria uma mala e cairia fora dali. Esperava que os Cullen e Alice pudessem me receber, nem que fosse por apenas uma noite. Só precisava de um tempo, de distância de vovô, eu estava muito assustada para ficar ali.
— Isabella! — Vovô entrou no closet, me sobressaltando.
Eu tinha em mãos o livro de artes onde a carta de Renée estava escondida, o apertei contra meu corpo, temendo que o papel caísse lá de dentro e ele lesse a carta. Aquilo não podia acontecer, era algo meu e de mamãe e, de Edward, uma vez que eu tinha o deixado ler aquilo, mas de mais ninguém.
— Não devia ter entrado aqui, a porta estava trancada. — Eu sabia que ele tinha chaves reservas de todas as portas do apartamento, mas esperava ao menos um pouco de privacidade naquele momento.
— Me perdoe, Isabella. — Vovô caiu de joelhos diante de mim, sua cabeça tombando para frente, enquanto recomeçava a chorar. — Perdoe-me por tê-la machucado, perdoe-me por tê-la ofendido, por ter ofendido Marie e Renée também.
Foi minha vez de voltar a chorar, além do empurrão ainda teve aquilo, ele nos chamando dos piores nomes possíveis.
— Não me deixe, minha garota preferida, por favor. — Seu olhar se encontrou com o meu, após pairar sobre a mala que já tinha pegado. — Eu vou morrer sem você ao meu lado, Bella. — Seu rosto estava repleto de lágrimas. — Estou velho, não posso ficar sozinho.
— Não posso ficar aqui, não posso — falei mais para mim do que para ele.
Estava dividida, uma parte de mim queria enfiar roupas naquela mala e ir embora para nunca mais voltar. Mas, tinha o outro lado, aquele que não conseguia ir embora, não pelo dinheiro, ou pelo conforto, mas por vovô.
Com Renée no hospital ele só tinha a mim e, era difícil admitir isso, mas eu também só tinha a ele. Alice e os seus pais eram amigos, mas eu não sabia até onde eu podia exigir deles e, meu pai era um filho da puta que nunca se importou comigo.
— Isabella, perdoe-me — continuou implorando, curvando-se sobre o chão em uma posição vulnerável. — Eu não posso vê-la indo embora, não posso perdê-la, minha querida. Perdi meu pai de uma forma tão horrenda, quando era tão novo, então minha mãe não muito depois. E, quando tudo parecia estar indo bem, Marie morreu. — Ele emitiu um gemido em meio ao seu lamento. — Minha doce, Marie. — Seu corpo tremia por conta do choro. — E, agora sua mãe tão debilitada naquele hospital, eu tenho tentado ser forte por nós dois, mas tê-la naquele estado vem me matando dia após dia.
Vovô voltou a me olhar.
— Estou tão exausto, me sentindo tão fraco, tão sozinho.
Eu me encolhi diante suas palavras, entendo o que ele queria dizer. Estava me sentindo da mesma forma, a vida estava uma verdadeira bagunça e parecia que não existia uma solução para nada.
— Você é tudo que me resta, Bella. — Colocou-se de pé. — Você e eu temos tanto em comum, não é? Nós dois estamos sozinhos no mundo, pois todos aqueles que nós amamos, ou que nos amam, nos deixam cedo demais. Só temos um ao outro, só podemos contar um com o outro.
— E-Eu...
— Nunca mais voltarei a machucá-la — prometeu. — Nunca mais irei sequer gritar com você, Isabella, é minha promessa. — Tomou meu rosto em suas mãos, não consegui me afastar, ainda temendo qualquer atitude violenta da parte dele e, mais do que nunca temendo que ele pegasse a carta de mamãe dentro do livro. — Amo você, minha garota preferida. — Depositou um beijo em minha bochecha.
— Não, eu, não. — Tentei me soltar dele, vendo seu olhar torturado.
— Bella, eu não quis te falar antes, mas... — Suspirou, abaixando o olhar para seus pés.
— Mas o que? — indaguei.
— Eu fui a um médico enquanto estive fora na minha última viagem. — Arregalei os olhos ao ouvir aquilo, temendo o que vinha a seguir. — Ele disse que meu coração está fraco, eu preciso pegar leve, você entende?
Não, não!
Renée já estava mal, eu não precisava de vovô doente também.
— Você está morrendo? — questionei, apertando ainda mais o livro contra meu corpo, queria largá-lo e abraçar vovô, mas eu protegeria aquela carta até o último instante.
— Eu estou velho, Bella — ele sussurrou, afagando meu rosto molhado por lágrimas. — Já foi um grande susto quando descobri sobre sua mãe, agora...Eu não posso mais me estressar, você entende, querida? Estou tomando alguns medicamentos, mas não acho que eles podem prevenir um infarto, ou sabe-se lá o que mais.
— Não. — O meu choro foi alto e apavorante. — Não, vovô, não!
Depositei o livro de volta a estante do closet onde estava antes, no instante seguinte me infiltrando nos braços de vovô. Ele me abraçou, com todo o carinho que sempre costumava me abraçar, era ele de novo ali, não o homem furioso na sala.
Era o que acreditava, o que queria acreditar, que aquele homem que me empurrou nunca mais voltaria.
— Oh, eu amo você tanto. — Ele beijou o topo da minha cabeça.
— Nós não podemos continuar assim. — Eu o afastei, engolindo meu choro, limpando as lágrimas do meu rosto e o encarando de cabeça erguida. — Jacob e eu terminamos, isso é tudo — declarei, vovô concordou prontamente. — Não importa o motivo que levou o termino, o noivado está oficialmente cancelado, ele e eu não temos mais nada. — Vovô abriu a boca para falar algo, mas fui mais rápida. — Se você insistir nesse assunto juro que vou embora, entendeu?
— Claro, claro — aceitou. — Tudo que você quiser, minha garota preferida.
— Não quero mais Jacob! — exclamei. — E, não quero que decida mais nada por mim, você consegue compreender isso? Eu vou tomar todas as decisões da minha vida a partir de agora, isso incluiu com quem eu deixo ou não de me relacionar. — O rosto de Edward estava claro em minha mente quando falei aquilo, mesmo achando que nós dois nunca mais nos cruzaríamos, talvez só quando Alice e Jasper acabassem se casando.
— Eu farei todas suas vontades, Isabella. Peça e em um segundo terá tudo que precisar, comprarei...
— Não quero presentes — o interrompi. — Quero que me respeite, vovô. Nunca mais quero ouvir nenhum daqueles xingamentos, nem quero que surte por qualquer coisa. E, eu juro que vou denunciá-lo se você voltar a me machucar, sei que é meu avô, mas... — Voltei a chorar, lembrando-me do empurrão.
— Não, eu também juro, Bella, nunca mais voltarei a lhe machucar. — Limpou meu rosto gentilmente, o livrando das lágrimas.
— Também estou no limite — sussurrei. — Estou cansada e estressada com tudo que vem acontecendo nos últimos dias, desde que Renée teve a overdose. Eu só preciso ver minha mãe bem, ela é a única coisa que me importa agora.
— Renée ficará bem, Bella, eu sei que vai — vovô disse com confiança.
— E você promete que irá melhorar seu relacionamento com ela? Ela precisa de nós dois, vovô.
Mamãe e eu podíamos voltar a confiar nele, nós três podíamos virar uma família de verdade e, eu nunca mais invejaria os Cullen.
— Eu irei, Renée é minha filha e também a amo, Bella. Eu também quero que tudo melhore para todos nós.
Assenti, voltando a me encolher. Vovô voltou a me abraçar, deixando com que eu chorasse em seu colo por um tempo.
— Você não deveria ir a outro médico? — perguntei apreensiva com sua saúde.
— Estou bem, irei a um novo médico se ficar muito mal. Mas, eu não vou, não é? — Ele fez com que eu o olhasse. — Prometa que vai cuidar de mim, Bella, prometa que sempre ficará ao lado do seu avô, minha garota preferida.
— Eu ficarei — prometi.
O medo ainda me cercava, mas eu ainda amava vovô mais. Era confuso, soava como se eu estivesse presa naquilo, sem conseguir me libertar.
— Minha garotinha. — Seus olhos claros se voltaram para os meus. — Você é tudo em minha vida, Bella.
Me afastei dele novamente, querendo ficar um pouco só.
— Eu quero descansar um pouco, vovô.
— Claro, descanse bem. — Sorriu largamente para mim. — Como lhe prometi, amanhã à noite nós iremos jantar fora.
— Tudo bem.
— Isabella? — Ele me chamou quando alcançou a porta do closet. — Você me perdoa?
— Sim.
Eu deveria ter dito não.
***
Depois de vovô sair do meu quarto tomei um longo banho, quando estava quase virando uma uva passa deixei a banheira, indo pegar meu celular. Alice, Esme e Edward tinham tentado entrar em contato comigo, ligações e mensagens.
Eu assegurei as mulheres Cullen que estava bem, afinal nunca poderia contar para ninguém sobre o que tinha acontecido quando voltei para casa, falando para elas que apenas precisei deixar o apartamento delas mais cedo, pois queria um tempo de descanso. Elas responderam, dizendo que qualquer coisa era apenas dizer, que fariam tudo por mim.
Edward tinha mandado apenas uma mensagem, nada muito longa, mas carregada.
Edward: Desculpe, eu não queria bagunçar sua cabeça. Vou sair do seu caminho, Bonequinha, prometo.
Eu pensei em responder, em pedir que ele não deixasse meu caminho coisa alguma. Também pensei em contar a ele o que tinha acontecido, mas não era certo. Então, apenas apaguei a nova mensagem, todas as outras que tínhamos trocado antes de nos afastarmos, limpei suas chamadas e deletei seu número.
Nada disso foi o suficiente para tirá-lo da minha mente, como Sinatra dizia, ele estava sob minha pele.
***
O resto daquela semana foi tranquilo, não bom, mas tranquilo. Mamãe não teve progresso na Escala de Glasgow, continuando sem conseguir se mexer ou falar. Ela também passava mais tempo apagada do que acordada, o que não me dava muito tempo para conversar com ela atrás de piscadelas e alguns dias aquilo sequer foi efetivo.
Vovô estava carinhoso e gentil, ele me mandava flores todo dia, com pedidos de desculpas em todos os cartões. E, visitava Renée pelo menos por meia hora por dia, soando animado com qualquer coisinha que a equipe medica falava de positivo sobre ela.
Renée nunca esteve acordada com ele ali, o que foi terrível, talvez ela melhorasse um pouco mais se pudesse ver que o pai estava ali por ela. Eu certamente estava muito mais relaxada com vovô mais participativo, deixando minha cabeça menos carregada de problemas por ter com quem dividir a carga de suportar o estado de Renée.
Por outro lado, eu continuava sem qualquer contato, ou até mesmo informação sobre Edward. Esme e Alice pareciam estar me dando um tempo, já que tinham visto todo o caos que foi com Jacob — que pelo eu soube por conta das redes sociais, estava em Washington D.C com seus pais —, então elas não falavam sobre ele.
Na terça-feira da semana seguinte, eu estava desde cedo no hospital com mamãe. O número que ela ainda mantinha na Escala de Glasgow era seis, nem mesmo Esme conseguiu fingir estar empolgada com aquele número, já que queria dizer que Renée estava parada.
— Bella? — Carlisle colocou sua cabeça para dentro do quarto, eu tirei os olhos do livro de artes que eu tinha em mãos, não o com a carta, aquele voltou a ser escondido em meu closet.
— Sim?
— Você conhece Phill Dwyer? Ele está aqui para visitar sua mãe — Carlisle comunicou.
— Não — murmurei, deixando o livro sobre a mesinha que tinha ali, nunca tinha ouvido falar sobre Phill Dwyer algum.
— Quer que eu o dispense?
— Não, você pode deixá-lo entrar — permiti, curiosa sobre Phill Dwyer. Ninguém além de mim, Alice, os Black, meu avô e Edward tinham ido até ali visitar minha mãe, nem mesmo seus amigos de festas.
— Certo, vou trazê-lo até aqui. — Carlisle tornou a fechar a porta.
Algum tempo depois ele retornou com o tal Phill, eu não conseguia mesmo me lembrar de já ter o visto antes. Ele era um homem novo, devia ter a idade de mamãe, não muito alto, deveria ter poucos centímetros a mais do que eu. Seus cabelos escuros tinham um corte realmente bem curto, permitindo ver pouco de seus cabelos. Os olhos eram castanhos, não muito escuros nem muito claros. Ele usava uma camiseta azul, que permitia com que eu visse algumas tatuagens em seus braços.
— Se precisar de qualquer coisa é só chamar, Bella — Carlisle falou antes de sair.
— Phillip Dwyer, mas você pode me chamar apenas de Phill — o homem falou, sua voz era enrouquecida e baixa, estendendo sua mão para mim.
Apertei sua mão, ganhando um toque quente e seguro, que durou alguns segundos.
— Bella — disse meu apelido, querendo pular o Isabella.
— Claro. — Ele sorriu e algo pareceu clicar em minha mente, eu já tinha visto Phill antes. Não pessoalmente, mas um retrato dele entre as pinturas antigas de mamãe. — Você é idêntica a Renée.
— É o que todos dizem. — Respirei fundo, olhando para ela sobre a cama hospitalar. — De onde a conhece?
— Nós estudamos juntos — Phill olhava para Renée também, com certa nostalgia no olhar. — Fomos namorados também.
Eu não pude deixar de ficar surpresa com aquela informação.
— Sério?
Phill assentiu, dando um pequeno sorriso.
— Deus, eu quase enlouqueci quando soube que ela tinha sido internada em estado grave. Eu amei muito sua mãe, Bella.
Não pude deixar de sorrir ao ouvir aquilo, aproximando-me da cama e sinalizando que ele se aproximasse também.
— Ela está melhor?
— Um pouco. — Dei de ombros, afagando a mão dela. — Estudaram juntos no colegial?
— E por um tempo em Columbia, ela e eu terminamos durante o meio do semestre.
— Entendo. Desculpe não reconhecê-lo, Phill, nunca tinha ouvido falar sobre você. Mas, tenho quase certeza de que vi um quadro seu no atelier que temos em casa.
Ele voltou a sorrir, olhando diretamente para mamãe.
— Ela é uma artista incrível, não é? — Ele respirou fundo, parecendo estar contendo o choro. — Não há via tinha anos, acho que você ainda era uma bebê de só dois anos quando Renée e eu nos encontramos a última vez no Central Park. — Sorriu gentilmente para mim, fazendo com que eu sorrisse de volta para ele. — Você com certeza não vai se lembrar disso, era muito nova. Mas, sua mãe e eu nos encontramos para conversar um pouco, eu queria me despedir estava me mudando para Los Angeles e, ela te levou. Eu te dei um ursinho de presente, como você não conseguia falar meu nome ficou me chamando de Teddy igual ao bichinho de pelúcia.
Eu ri, querendo lembrar daquilo. Parecia uma memória boa, uma muito melhor do que qualquer uma que eu tinha com meu pai.
— Por que vocês terminaram? — perguntei.
— Ela se apaixonou por outro. — Eu nem precisei que ele falasse mais nada, pelas datas sabia que estava se referindo ao meu pai. — E, seu avô me detestava.
— Por quê?
— Não sou tão rico quanto vocês. — Phill revirou os olhos. — Ele deixava bem claro o desprezo que tinha por mim, por eu não ter nem um terço da grana que os Higginbotham tem. Meus pais tinham um bom negócio em New York e New Jersey na época, o suficiente para pagar para mim a mesma escola de elite que sua mãe frequentou e Columbia, mas nada comparado à construtora de vocês.
Eu me abracei ao ouvir aquilo, odiando aquele tópico da conversa.
— O que tem feito agora, Phill? — mudei de assunto. — Continua na costa oeste?
— Não, voltei tem uns dois anos para New York — contou, ainda olhando para Renée. — Eu liguei para sua mãe na época, mas ela me mandou ficar fora da vida dela.
— Ela bebia muito já nesse tempo — confidenciei. — Você certamente viu nos jornais que ela veio parar aqui por conta de uma overdose.
— Sim, eu vi. — Phill balançou a cabeça em um aceno negativo. — E não posso acreditar que Renée se deixou levar pela bebida e drogas, ela odiava qualquer coisa desse tipo quando éramos adolescentes. É impressionante como parece que não conhecemos alguém de verdade. — Ele deslizou sua mão pelos cabelos dela. — Obrigado por ter me recebido, Bella — agradeceu.
— Sem problemas, pode voltar quando quiser.
Phill negou.
— Não acho que seu avô vai gostar disso, além do mais, o ódio que ele tinha por mim era reciproco. — Phill se afastou de Renée, tirou um cartão do bolso de sua calça e estendeu para mim. — Mas, eu seria muito grato se me ligasse quando Renée melhorasse, ou se... — Se ela morresse, completei sua fala em minha mente.
— Eu ligarei. — Guardei o cartão no bolso da minha própria calça. — Ela ainda não está respondendo muito ao exterior, mas falarei a ela que esteve aqui, acho que vai gostar de saber disso.
Phill sorriu mais uma vez para Renée, parecendo muito triste.
— Mais uma vez, obrigado por ter me recebido, Bella. — Ele estendeu a mão novamente para mim, mas eu lhe dei um abraço. Phill parecia entender muito bem como era ver Renée naquela cama, queria compartilhar um pouco daquilo com alguém. — Procure-me se precisar de algo, querida — falou com delicadeza quando nos afastamos.
— Até mais, Phill! — O deixei ir, lá no fundo querendo pedir que ele ficasse, querendo não me sentir mais tão só como sempre acabava me sentindo.
Eu peguei o cartão dele em meu bolso, lendo as informações ali. Phill Dwyer era um produtor musical, trabalhando para uma gravadora ali em New York.
Apertei o cartão em mãos, pensando em Edward. Aquilo podia ser útil, muito útil para ele e o pessoal da banda.
Mas, eu não podia falar com ele, sabia que Edward me queria fora de seu caminho também. Então, enviei uma mensagem para Alice.
Bella: Esse é o número de Phill Dwyer, um produtor musical, o repasse a Jasper. Talvez a The Dragons consiga algo com a gravadora onde ele trabalha, dedos cruzados.
E terminando de fazer a conexão, logo enviei uma mensagem para Phill.
Bella: Phill, é Bella, filha da Renée. Eu vi que você é um produtor musical e conheço uma banda nova, muito boa, do Brooklyn. Tomei a liberdade de repassar seu contato a eles, espero que não se importe. Eles se chamam The Dragons, você vai amar.
Sorridente guardei o cartão em meu bolso, voltando-me para mamãe.
— Vamos torcer para que a banda consiga algo, mamãe.
***
Na segunda-feira da outra semana, eu deixei o hospital no começo da noite junto de Esme e Carlisle, Alice tinha me chamado para ir dormir na casa dela e eu concordei, querendo uma distração. Minha vida estava realmente resumida ao hospital, ou ao meu apartamento e a jantares em restaurantes caros com vovô. Mas, aquele dia ele tinha um jantar de negócios e eu podia passar um tempo com minha melhor amiga.
Mamãe tinha progredido um pouco mais aquela semana, estava começando a fazer fisioterapia e aos poucos, bem aos poucos, conseguia se mover. Porém, a fonoaudiologia não estava sendo nada produtiva, ela não conseguia dizer nada e mal emitia qualquer som.
— Finalmente! — Alice gritou quando entrei na sala do apartamento junto dos seus pais.
Eu a encarei confusa, vendo-a em um vestido prata curto e agarrado, com brilho e saltos altíssimos. Fora a maquiagem pesada e o cabelo escovado, aquilo com certeza não era roupa para uma festa do pijama.
— Por que está vestida assim?
— Nós estamos indo para o aniversário do Edward! — ela gritou, batendo palminhas.
— Nós o que? — questionei surpresa, também sentindo meu coração disparar ao ouvir o nome de Edward e principalmente por ser aniversário dele.
— Aniversário de Edward — Esme repetiu animada.
— Você sabia disso? — A confrontei.
— Claro! — Carlisle riu da esposa, tentando esconder a risada atrás de uma tosse.
— Alice, Edward com certeza não me quer lá — murmurei.
— Ele nem sabe da festa, é uma surpresa, você pode ir.
— Sim, vai ser uma surpresa ainda maior quando ele me ver lá. Não, nem pensar, eu não posso ir. Vou ir para meu apartamento e...
— Bella, apenas vá de uma vez — Carlisle palpitou, sentando-se confortavelmente em seu sofá. Eu o olhei indignada, esperando aquilo de Esme e Alice, mas não dele.
— Vaaaamos! — Alice esticou a palavra.
Eu usava o colar que mamãe tinha consigo quando quase me deixou, então o apertei em minhas mãos, acenando positivamente para Alice.
— Tudo bem, eu vou.
***
Jasper foi quem abriu a porta do loft dele, onde aconteceria a festa, quando sua namorada e eu chegamos ali. Ele não escondeu o olhar surpreso a me ver ali, o que só queria confirmar que ninguém estava esperando por mim naquela festa.
— Ei, oi Bella — falou comigo, antes de se voltar para Alice e beijar a bochecha dela.
— Oi. — Lhe lancei um sorriso cordial, alisando o vestido de Alice que usava, já que ela tinha praticamente me sequestrado para aquela festa. O vestido tinha fundo branco, com desenhos geométricos em roxo e preto, ele era justo e curto, além de tomara que caia. Eu usava saltos bem altos e, meus cabelos estavam soltos e totalmente lisos graças a chapinha potente de Alice. Ela também tinha feito uma maquiagem em mim, destacando meus lábios com um batom bem vermelho.
— Eu não sabia que Bella vinha...
— Eu a convidei. — Rosalie apareceu à porta do loft, interrompendo o irmão. Aquilo também me pegou de surpresa, Rosalie tinha me chamado para a festa? Ela não me odiava, ou pelo menos algo assim? Nós duas tínhamos nos desentendido na primeira vez que nos vimos também.
— Você a convidou? — Jasper perguntou por mim.
— Sim, agora parem de papo furado e entrem. Edward deve estar chegando — Rosalie ordenou, segurando em meu pulso e puxando-me para dentro do loft.
— Por que você me chamou? — perguntei baixinho a ela, ouvindo Jasper e Alice nos seguindo.
O loft estava cheio de gente, todos em conversas silenciosas. De todos ali pude reconhecer apenas Emmett junto de duas garotas loiras, bem parecidas. Os móveis, assim como os instrumentos da banda, tinham sido afastados para os cantos, dando mais espaço para circulação ali.
— Você sabe muito bem porque está aqui, Higginbotham. — Rosalie soltou meu pulso, encarando-me de forma quase ameaçadora. — Se você partir o coração de Edward, eu juro que parto sua cara.
— O quê? Mas, eu, do que está falando?
Ela apenas revirou os olhos, afastando-se de mim para ir apagar as luzes da sala. Alice e Jasper pararam junto de mim, abraçados e sorridentes.
— Estou tão animada, adoro festas surpresas — minha amiga falou. — O que vocês falaram para Edward? — perguntou ao namorado.
— Ele pensa que Rose está no trabalho — Jazz explicou. — E, como ele está de folga hoje, Emmett e eu o chamamos para beber um pouco aqui em casa, quem sabe ensaiar um pouco. Ele é bem lerdo, não suspeita de nada. Está vindo da casa da mãe agora.
Uns dois minutos depois ouvimos alguém bater na porta do loft, Emmett deixou as garotas de antes de lado, indo recepcionar o aniversariante. Meu coração disparou mais do que nunca com a expectativa para ver Edward, após tantos dias desde o jantar na casa dos Cullen.
Quando Edward e Emmett chegaram à sala, todos gritaram surpresa — como Rosalie nos ensaiou —, eu também devia ter gritado, mas estava concentrada demais no vocalista para dizer qualquer coisa. Quase duas semanas tinham se passado desde que nos vimos pela última vez, mas ainda era como se eu pudesse sentir o corpo dele junto ao meu enquanto dançávamos ao som de Sinatra.
Edward riu ao perceber o que estava acontecendo, logo sendo recebido com um abraço por Rosalie. Todos os outros convidados ali começaram a ir até ele, incluindo Alice e Jasper, eu permaneci no meu lugar junto à parede do loft, sem saber se devia mesmo ir até ele.
As garotas loiras parecidas e Emmett estavam com Edward, quando o olhar do Masen finalmente se encontrou com o meu. Ele por fim me notando no meio de todos, que já dançavam ao som que Rosalie colocou e bebiam com as bebidas servidas por Jasper.
Edward falou algo para as garotas e Emmett, indo até minha direção, contornando as pessoas que queriam falar com ele. Porém, antes dele me alcançar, Rose alcançou, parando junto de mim.
— O que está fazendo aqui? — ele perguntou quando parou na minha frente, não parecia irritado, mas chocado.
— Eu a convidei — Rose repetiu aquilo outra vez aquela noite.
— Rosalie! — Edward exclamou o nome dela, soando irritadiço ali.
— Eu posso ir embora — sugeri.
— Não, você fica. — Rosalie segurou em meu braço, impedindo que eu me movesse para longe dela, ou de Edward. — E você, senhor aniversariante, deixe de ser tão idiota.
Edward apenas bufou, afastando-se da gente rapidamente.
— O que diabos está acontecendo aqui? — perguntei a Rosalie, ela apenas deu de ombros, bebendo um pouco do copo vermelho em sua mão.
— Você bebe? — ela perguntou para mim.
— Água.
— Deus, você é tão fraca! — Foi a vez dela de se afastar de mim.
Edward tinha voltado a conversar com as loiras, uma delas estava pendurada no pescoço de Emmett e eles logo se beijavam. A outra parecia mais próxima do Masen, mas ainda que tivesse a garota ali claramente querendo algo com ele, Edward frequentemente olhava para mim.
Alice e Jasper passaram algum tempo junto de mim, mas assim que Edward teve a irritante música do parabéns cantada para si e apagou as velas do seu bolo, o casal desapareceu entre o mar de gente que não sabia como era possível caber naquele loft. Eu me movi até a cozinha do local, buscando por água, já que não queria mesmo beber álcool.
— Claro, você gosta de Emmett — eu falei quando parei junto de Rosalie ao balcão da cozinha, vendo-a encarar seu colega de banda e uma das loiras praticamente se comendo contra uma parede.
— E você gosta de Edward — ela rebateu, fazendo com que eu me engasgasse com a água que eu bebia.
— Há quanto tempo você gosta do Emmett? — Tentei tirar o assunto de cima de mim.
— Não é da sua conta, Higginbotham. — Ela desviou o olhar para Edward e a loira, que riam, enquanto a garota tocava excessivamente no peito e braço dele. — Se você ficar parada vai acabar o perdendo para Tanya, sabe, eles fodem de vez em quando.
Senti meu rosto ficar vermelho com a informação, mas não por constrangimento, sim por não querer ver Edward e aquela menina juntos.
— Ele não quer saber de mim — resmunguei, descartando meu copo com água.
Rosalie resmungou um palavrão, livrando-se do seu copo também.
— Você sabe dançar, Higginbotham? — Apenas assenti. — Ótimo, vem comigo. — Ela me puxou até o meio da sala do loft, onde algumas pessoas estavam dançando, incluindo Jasper e minha melhor amiga.
A música tocando era algo com uma batida sexy e pesada, Rosalie colocou-se diante de mim, lançando-me um sorriso travesso, começando a se mover no ritmo do som. Ela segurou em meus quadris, os fazendo balançando também.
Eu me entreguei à música, parecia que tinha se passado séculos desde a última vez que tinha me divertido um pouquinho que fosse. Estava acostumada a dançar com Alice em várias festas, então foi fácil dançar com Rosalie.
Fora que apesar de toda a expressão durona que ela tinha, a garota realmente sabia o que estava fazendo. Nós estávamos dançando provocativamente, nossas mãos passeando pelo corpo da outra, enquanto nos movíamos com o ritmo da música.
Em algum momento Rose me colocou de costas para ela, pressionando meus ombros indicando que era para eu dançar até o chão. Fiz aquilo, tomando cuidado para não acabar rasgando o vestido que usava, mas não deixando de ser sexy.
Enquanto descia, vi o olhar de Edward sobre mim. A garota loira ao seu lado totalmente esquecida, ele tinha sua atenção completamente voltada para mim. Mordi meu lábio quando voltei a subir, vendo-o respirar fundo, cruzando os braços na frente do corpo, visivelmente incomodado com algo.
— Ei meninas, podemos dançar com vocês? — Dois caras se aproximaram de Rosalie e eu.
O que fez a pergunta era um loirinho, de olhos bem azuis e expressão juvenil. O outro parecia mais maduro, tinha claramente descendência do oriente médio, ele era alto, com olhos escuros e um cabelo em topete e, certamente estava interessado em mim pelo que podia notar por conta do seu olhar malicioso em cima de mim.
— Claro. — Rosalie concordou, praticamente me empurrando para o moreno. — Bella, esse é o Mike, ele trabalha comigo na boate. — Apontou para o loiro junto a ela. — Esse é o Benjamin, ele trabalha na academia com Emmett. — Isso explicava os músculos em excesso. — Meninos, essa é a Bella.
— Oi! — Sorri para ele, ganhando um beijo na bochecha e uma mão em minha cintura.
— Você é muito linda, sabia disso? — ele perguntou, falando próximo ao meu rosto.
— Hum, que bom — foi tudo que consegui falar, em outra época eu já estaria adorando aquilo. E, mesmo que fosse legal ouvir alguém dizer que eu era linda, ainda não era a pessoa que eu queria que falasse.
Olhei por cima do meu ombro, vendo Edward na mesma posição de antes, mas parecendo ainda mais irritado do que antes. A garota com ele disse algo, então se afastou, ele não pareceu notar, ou não se importou.
Logo estava dançando com Benjamin, o que detestei. Ele não era um péssimo dançarino, mas com certeza não era Edward e, até Rosalie era melhor. Além do mais, eu me sentia um pouco traída pela gêmea de Jasper, que já estava se pegando com Mike.
Ela e eu não devíamos estar nos curando da fosse juntas? Já que Edward e Emmett obviamente não queriam nada com a gente.
— Hey, que tal irmos um pouco lá fora? — Benjamin perguntou, sua mão quase chegando a minha bunda, mas rapidamente a fiz sair daquela área.
— Eu acho melhor não. — Me afastei dele, dando de encontro com algo quando andei para trás.
Então, senti mãos quentes e familiares envolverem meus braços.
— Eu assumo daqui, Benjamin — Edward falou, sua voz fez com que meu corpo todo se arrepiasse.
Benjamin bufou, mas se afastou sem dizer nada.
— O que quer dizer com você assume daqui, Masen? — perguntei a Edward, ainda de costas para ele, mas suas mãos começaram a percorrer meus braços nus.
— Por que você veio, Bonequinha? — ele perguntou, falando em meu ouvido, mordiscando minha orelha.
Gemi baixinho com aquilo, logo Edward me colocava de frente para ele. Sua mão afastou meus cabelos do rosto, depois a uniu junto a outra em minha cintura, enquanto eu entrelaçava meus braços ao redor do seu pescoço.
A música tocando ali, apesar de definitivamente não ser meu estilo musical, não pode passar despercebida por mim. Era I Don’t Want To Miss a Thing, do Aerosmith e, por ter um ritmo lento, fazia com que Edward e eu quase não nos mexêssemos muito, mas só de estar junto a ele de novo já era o suficiente para mim.
— Alice me arrastou até aqui — respondi sua pergunta.
— Você não é o tipo de garota que faz o que outros te obrigam — ele rebateu. — Por que veio, Isabella? — insistiu.
— Eu queria te ver, estava com saudades. — Entrelacei meus dedos por dentro de seus cabelos, Edward inclinou sua cabeça para frente, puxando-me para mais perto ainda dele.
— Você também está bagunçando minha cabeça, sabe disso, não é?
— Desculpe, não era minha intenção.
Ele me pegou de surpresa com seu próximo ato, fez com que parássemos de dançar e do nada me beijou. Por um segundo pensei que fosse desmaiar, mas logo me concentrei no beijo, querendo ter Edward para mim.
Foi um beijo demorado, muito mais saboroso do que o que tínhamos trocado no hospital. Apesar de Edward ter gosto de cerveja, eu estava tão envolvida com o beijo que pouco me importei com aquilo.
Suas mãos permaneciam em minha cintura, fazendo com que meu corpo ficasse junto ao seu. As minhas me davam sustento suficiente para poder ficar na posição ideal para que nos beijássemos e nos beijamos.
Lento e calmo. Um beijo desbravador, o melhor beijo. Eu estava envergonhada do meu coração batendo tão rápido, jurando que qualquer um naquele loft seria capaz de ouvi-lo, mas Edward ainda era a única coisa me importando ali.
Então, quando ele se afastou eu murchei. A última vez que tínhamos nos beijado tinha sido um total desastre, eu não queria passar por aquilo de novo.
— Por que me beijou, Edward? — eu perguntei, mal ouvindo minha voz contra a música. Porém, Edward, que ainda tinha os olhos fechados, ouviu.
— É meu presente de aniversário. — Ele deu um sorrisinho cínico, abrindo os olhos verdes para mim. — Você não me deu nenhum, Bonequinha.
— Vinte e dois, não? — Ele concordou com um aceno de cabeça. — Certo, isso quer dizer que estou te devendo outros vinte e um presentes dos outros aniversários que já teve em sua vida?
Edward riu baixinho, sua mão afagando meu rosto.
— Você está sim.
Eu sorri, esticando-me até ele.
— Comece a contagem, Edward — avisei.
— Vinte e um — ele cantou.
Nós voltamos a nos beijar.
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