Notas iniciais
Primeiro capítulo para conhecerem melhor a mente da Bella. Boa leitura! ♥

— Capítulo Um —

— Bella —

Outra vez, era sempre assim. A frequência com que aquilo acontecia me irritava profundamente, não era uma vez no mês, nem mesmo uma vez por semana, às vezes era por todo o fim de semana.

Os gritos, o choro, então a porta do quarto batendo e por fim o silêncio vergonhoso.

Eu detestava aquilo, eu a detestava.

Tudo para Renée sempre foi assim, ela quebrando as coisas, ela destruindo as coisas. Físicas ou não, isso não importava, a questão era que aquilo sempre me atingia de algum modo.

Peguei meu celular, mandando uma mensagem de emergência para Alice.

Bella: Posso ir dormir na sua casa? Eu preciso de distância de Renée.

Alice: Bêbada de novo?

Bella: Eu não acho que algum dia na vida dela essa mulher tenha estado sóbria, Al.

Alice: Venha, sempre há lugar para você aqui.

Rapidamente me desprendi dos meus livros, os deixando de qualquer jeito sobre a cama. Corri para meu closet, trocando de roupas, enquanto arrumava uma mochila para passar a noite fora, talvez o resto do fim de semana , eu não estava no clima de aturar Renée.

Tive um rápido vislumbre de mim no espelho do closet, antes de sair. Cabelos castanhos em um tom de mogno presos no alto da cabeça em um coque, pele tão branca quanto papel e olhos azuis, ou lentes azuis sobre olhos castanhos que eu odiava, não importava.

Soltei meus cabelos do coque, então agarrando a alça da mochila e pegando as chaves da Ferrari, eu deixei meu quarto. Renée estava na sala, uma garrafa de uísque em mãos, enquanto gritava a letra de uma música que tocava no sistema de som, o novo, o antigo ela tinha quebrado da última vez que tomou um de seus muitos porres.

— Amorzinho! — ela grasnou a me ver, parando de cantar. — Venha, junte-se a mamãe, vamos cantar, você amava essa música quando criança.

Bufei, não mesmo. Eu detestava qualquer música tão agitada quanto aquela, eu tinha um gosto refinado desde sempre, clássicos eram o que faziam meu estilo, não uma música barata de alguma garota encontrando seu grande amor, enquanto batidas elétricas soavam de forma agoniante ao fundo.

— Estou indo para a casa da Alice — comuniquei, como se Renée fosse lembrar daquilo depois que o álcool a derrubasse, ela teria muita sorte se chegasse ao próprio quarto.

Uma expressão triste tomou conta de seu rosto ao ouvir aquilo, rosto que infelizmente era muito parecido com o meu. Eu detestava a ideia de ser como Renée, de qualquer forma que fosse. Até mesmo os cabelos eram iguais, aquele tom de mogno, mas os meus ainda possuíam ondas, o dela era totalmente liso e curto.

O que nos diferenciava mesmo, quando eu não estava fazendo uso das minhas necessárias lentes de contato, eram os olhos. Os dela tinham uma claridade, uma mistura entre azul e verde, os meus eram escuros e comuns.

— Eu pensei que íamos ter um fim de semana de garotas, já que seu avô está fora. — Renée fez um biquinho, que não combinava com sua idade.

— Você pode ter, troque o uísque por vodca e tequila, são suas garotas preferidas! — debochei, dando as costas para ela, indo em direção a saída do apartamento.

Sue estava lá, olhando-me com uma fisionomia nada contente.

— Ela é sua mãe, Isabella.

— Ela é uma alcoólatra que só não está em uma clinica porque nem mesmo pessoas especializadas conseguiriam contê-la — afirmei, abrindo a porta. — Eu vou passar o resto do fim de semana com os Cullen, diga isso ao meu avô se ele ligar e perguntar.

— Bella, talvez fosse melhor ficar com Renée, ela sempre fica mais calma com você por perto.

Respirei fundo, irritada com Renée e também com Sue. Ela era só a empregada ali, quem pensava que era para me dar ordens?

— Eu sou maior de idade, entro e saio dessa droga de apartamento a hora que eu quiser — anunciei para a mulher de traços nativos americanos, saindo por fim daquele inferno, fazendo questão de bater a porta com força.

Ainda podendo ouvir a cantoria desafinada de Renée.

***

Os Cullen pareciam uma família de TV, irreais. Eles eram muito perfeitos para realmente serem de verdade.

Pai, mãe e filha. Exemplo de família perfeita.

Eu não conseguia acreditar em merda alguma dessas, então suspeitava de que eles tinham seus segredinhos sujos. Alice provavelmente era uma cleptomaníaca, seu pai Carlisle deveria ter mil amantes e sua mãe Esme com certeza era viciada em remédios.

Ainda assim, estar no número 1500 daquele prédio em Upper East Side era melhor do que no meu apartamento junto da minha mãe alcoólatra incorrigível. Enquanto estava lá fingia que era a irmã de Alice, que Carlisle com toda sua compaixão e Esme com todo seu amor materno eram meus pais, eu me sentia em família entre eles.

— Oi querida, como você está? — Esme perguntou quando abriu a porta para mim, dando-me um beijo na bochecha, seu perfume doce me transmitindo calma.

— Estou bem — menti, era para eu estar em casa estudando, não vagabundeando para a casa da minha melhor amiga, mas Esme não precisava saber de toda a confusão que era Renée.

— Vamos, entre, Alice está no quarto dela. — Gesticulou para o interior do apartamento. — O que vai querer jantar?

Sim, Esme também cozinhava. Renée nem devia saber como esquentar uma água.

— Torta de chocolate? — pedi a ela, com os olhos brilhando em expectativa.

Esme riu. Mesmo com mais de quarenta anos ela ainda era uma mulher linda, o rosto em formato de coração, olhos cor de amêndoas e cabelos castanhos escuros.

— Vou pensar no seu caso.

— Não, não, nada de torta de chocolate! — Alice gritou da escada, descendo rapidamente. — Nós vamos a um show.

— Alice, eu realmente prefiro a torta de chocolate a um show — falei para a garota baixinha.

Realmente baixinha, ela mal chegava a um metro e cinquenta. Os cabelos iguais aos da mãe tinham sido cortados recentemente em um corte Chanel, eu tinha odiado, mas Alice não ligava para minhas opiniões, era o que mantinha nossa amizade por mais de dez anos.

— Show de quem? — Esme perguntou interessada. — Seu pai vai estar de plantão o resto da noite, posso ir com vocês?

Alice fez uma careta.

— Eu amo você, mãe. Mas, você não ia se sentir bem nesse show, lhe garanto — Alice falou.

— O que você está tramando? — perguntei a ela.

— É o show da banda de Jasper! — Alice gritou.

Eu suspirei alto, farta daquele cara.

Alice estava envolvida em uma paixão platônica por seu instrutor de tênis no clube que frequentávamos. Okay, o cara era bonitinho com os olhos cor de mel, cachos loiros e um porte atlético, mas era só um cara qualquer, eu não via tudo isso nele para ela ficar cheia de amores.

Além do mais, ele com certeza não tinha um trabalho de instrutor por diversão, isso queria dizer que ele era pobre. Alice era filha de dois médicos super renomados em New York, por que ela continuava se interessando por gente totalmente fora do nosso meio?

Ela nunca deveria ter terminado o namoro com James, era perfeito para ela.

— Vamos, Bella, por favor! — Alice implorou, quicando no seu lugar.

— Alice...

— Apenas aceite de uma vez, você sabe o quão irritante ela pode ser — Esme murmurou para mim.

— Okay, tudo bem — cedi, Alice gritou com animação, correndo para me abraçar.

— O que eu devo vestir? Algum vestido social? Talvez aquele cinza?

Alice balançou a cabeça, rindo.

— Bella, é uma banda de rock, você não quer se vestir como se estivesse indo assistir a entrega do Oscar. Eu tenho algo perfeito para você.

— Não diga coturnos — pedi, Alice deu um sorriso amarelo em minha direção.

— Estes são bonitos — prometeu.

— Coturnos nunca são bonitos!

***

Jacob não me atendia, ele conseguia ser pior do que eu quando o assunto era esnobar. Mas, porra, tinha sido só a merda de uma briga sem significado, ele não precisava de tudo aquilo.

Eu tinha o total direito de estar brava por ele ter saído com Paul sem me contar, ele sabia que eu odiava Paul, o sensato seria se afastar daquele cara desagradável. Não confabular com o inimigo pelas minhas costas, isso era traição.

— Onde fica isso mesmo? — perguntei a Alice, enquanto conferia minha maquiagem no espelho do elevador.

Obviamente tinha dispensado os coturnos, mantendo-me em meus saltos altos. Vestia uma calça jeans apertada e uma blusa vermelha com decote, meus cabelos presos em um rabo de cavalo no alto da cabeça.

Alice parecia ter sido cuspida de um legitimo show de rock, coturnos, camisa de uma banda que nunca tinha ouvido falar e até mesmo jaqueta de couro. Eu admirava como ela se dava ao trabalho de mudar por um cara, isso era ridículo.

— Não muito longe — Alice falou dando de ombros.

Apenas assenti, continuando a checar minha aparência. Tudo intacto.

— Que tal você crescer, Jacob? — Comecei a falar quando minha oitava ligação foi para a caixa postal. — Não precisa me dar um gelo para sempre, eu só disse que não gosto de te ver com aquele idiota do Paul, mas tudo bem, se quiser case-se com ele.

— Isso de novo? — Alice indagou, entrando no táxi que já esperava pela gente do lado de fora do prédio.

— Isso sempre, Jacob escolhe muito ruim suas amizades — afirmei.

— Para onde, senhoritas? — O taxista nos perguntou.

— Brooklyn — Alice sussurrou, eu a olhei em choque. — Desculpa, Bella.

— Aparentemente eu também ando escolhendo minhas amizades muito mal! — Fechei a cara para ela, deslizando para longe da baixinha no banco de trás do táxi, a ignorando pelo resto do caminho.

Eu não sabia o que era pior, ter ficado em casa com Renée, ou estar indo para o Brooklyn ver um instrutor de tênis aspirante a músico tocar. Todas as alternativas pareciam algo muito próximo do inferno.

***

O cheiro de cigarro deixava-me sufocada, eu odiava qualquer tipo de fumaça. Detestava quando vovô e seus amigos reuniam-se em alguma área comunal da casa e ficavam fumando charutos, além do odor deplorável que me deixava sem ar, aquilo também impregnava-se em meus cabelos e os deixavam fedorentos, então, eu só podia concluir que odiava cigarros.

Como odiava ainda mais Alice, queria matá-la por ter me convencido a ir aquela boate medíocre. Que maldito lugar não tinha uma área vip? Meus pés estavam sendo massacrados no meio de toda aquela gente, eu já tinha perdido a conta de quantas pessoas pisaram neles, além do mais, a música era irritante ao extremo, algo entre rock e uma invocação satânica.

— Vamos embora! — pedi a Alice por cima do som alto da música, quando um cara grandão e cabeludo esbarrou em mim, enquanto abria uma roda punk.

Foda-se, Alice tinha de estar louca para me levar até ali!

— Não, a banda de Jazz já vai subir, você vai amá-los! — gritou para mim, sua mão agarrando meu pulso, enquanto me puxava para mais perto do palco.

Excelente, ficaria surda por conta da música alta. Para meu alivio, parcial, quando chegamos à beira do palco, depois de Alice abrir caminho como um jogador de futebol americano, a banda se apresentando encerrou seu show.

Porém, logo a outra banda subiu no palco. Alice gritou tão alto em meu ouvido que achei que ficaria surda com aquilo, não com a música estridente.

Então, reconheci Jasper, mas vendo as outras pessoas com ele no palco pela primeira vez.

Uma garota loira que usava calça de couro e uma blusa preta com o nome de alguma banda que não reconheci, ela era muito bonita, mas usava delineador demais, extremamente exagerado, um grande erro na maquiagem. Tinha também um cara grandão, provavelmente dois metros de altura, cabelos escuros curtos, quase totalmente raspados, ele tinha tantos músculos que era impossível não imaginá-lo como um lutador de UFC, era até mesmo mais forte do que Jacob.

Por último, eu o vi. Ele era mais baixo que Jasper e o cara do UFC, ainda assim alto. Seus ombros eram largos, seu peito extremamente marcado na camiseta preta que usava, ele não parecia um amante de academia como seu amigo de banda, mas certamente tinha seus músculos. Os cabelos dele, em um tom estranho de cobre, eram rebeldes, apontando para todos os lados, parecendo que ele tinha acabado de sair de uma rodada de sexo.

Seu rosto quadrado parecia perfeito, como se o próprio Michelangelo tivesse o esculpido. O que era aquele maxilar? E por que diabos tudo que eu conseguia pensar ao olhar para seus lábios era na insana vontade de tocá-los com os meus?

Eu queria prová-lo, nunca tinha me sentido atraída daquela forma por ninguém. Nem mesmo por Jacob.

Estava quase entrando em colapso, imaginando como seria beijá-lo, quando seu rosto voltou-se na direção do meu. Sua expressão era séria, mas era a intensidade dos seus olhos que me fizeram dar dois passos para trás, como se tivesse levado um choque apenas por seu olhar.

Foi quando o pior aconteceu, ele sorriu para mim. Um sorriso torto, puxado para o lado direito, beirando o deboche e a malícia. Não consegui fazer nada, perdida demais no pacote olhar e sorriso do cara totalmente desconhecido para mim, até Alice dizer em meu ouvido.

— Ele se chama Edward.

O nome brincou em minha mente, parecia um bom nome.

— Sobrenome? — questionei a Alice.

— Ele não é um dos seus, Bella — ela disse séria, mas voltou a olhar para o palco, acenando excessivamente para Jasper que afinava sua guitarra.

Claro, se ele estava na bandinha de Jasper, obviamente devia ser amigo dele, provavelmente outro instrutor de tênis. Eu rolei os olhos, me sentindo estúpida por ter me sentido atraída por alguém como ele, eu não era Alice e suas escolhas duvidosas para homens.

Meu namorado era o filho de um senador, esse era meu tipo.

Edward, sua camiseta preta — agarrada — de mangas longas, ou malditos coturnos era apenas um cara quente, nada além.

— Olá, Night Club! — Edward falou ao microfone, eu engoli em seco. Sua voz era perfeita, ele parecia sussurrar sensualmente ao microfone, ouvi todas as garotas ao meu redor gritando seu nome. — Esperamos satisfazê-los esta noite.

Eu só conseguia pensar em um modo de tê-lo me satisfazendo e não era nada casto.

Notas finais
Beijos! Lola Royal. 19.11.16