Sob minha Pele

3 Capítulo Dois


Notas iniciais
Boa leitura ♥

— Capítulo Dois —

— Edward —

Cheiro de fumaça, o sufocante cheiro de fumaça. Eu não podia imaginar como aquilo tinha sido realmente para ele, mas em todos meus pesadelos eu vivia a sensação em seu lugar. Quanto mais eu tentava inspirar, mais sufocado ficava.

Eu batia nas paredes, nas janelas e nas portas, gritando por socorro. Pedindo por uma ajuda que não chegava, enquanto a fumaça escura e o fogo se alastravam.

— Edward, Edward!

Era eu ou ele? A quem a voz estava chamando? Onde ele terminava e eu começava? Onde aquele dia exatamente nos separou?

— Edward!

Abri os olhos rapidamente, deparando-me com a figura loira parada ao meu lado na cama, ela tinha um olhar cheio de pena. A porra do olhar que eu odiava desde aquele maldito dia, eu não precisava dele, eu odiava aquele olhar.

— Estou bem — falei, esfregando meu rosto, tentando controlar minha respiração descompassada e meus batimentos cardíacos acelerados.

— Não, você não está! — Rosalie suspirou, sentando na beira da cama, passando a mão pelos meus cabelos. — São quatro da manhã e você estava gritando desesperadamente por socorro.

— Estou bem, tá legal? — repeti irritado. — Volta pra porra do seu quarto, que saco!

— Olha, só estou tentando te ajudar, não seja estúpido comigo, Masen! — ela bufou, levantando da cama. — Sou a porra da sua melhor amiga, não me trate como uma vadia que você come e manda pra longe quando se cansa.

— Rosalie, desculpe, eu... — murmurei.

— Você é um idiota quando quer — ela afirmou, bufando novamente. — Mas, está certo, vou voltar pra porra do meu quarto, tente ser menos babaca da próxima vez.

No segundo seguinte ela já estava deixando meu quarto, batendo a porta com força ao sair.

Eu inspirei fundo, o ar não tão puro assim de quem morava na cidade grande, mas certamente um ar muito melhor do que o do incêndio. Agoniado em pensar nele enquanto acordado, eu sai da cama tentando me distrair de mais uma noite de pesadelos.

Como Rosalie fez questão de informar antes, o horário era pouco mais de quatro da manhã. Sai do quarto, indo para a sala do pequeno apartamento que nós dois dividíamos a pelo menos dois anos.

— Desculpe! — pedi novamente para Rosalie, que estava sentada no sofá, rabiscando em seu caderno de composições.

Ela me ignorou, continuando apenas a escrever palavras sem conexões no caderno.

— Barbie, fale comigo — exigi, cutucando suas costelas, fazendo com que um sorriso involuntário nascesse em seus lábios.

— Para! — ela reclamou quando começou a rir devido as cócegas. — Para Edward, sério. — Gargalhou, dando tapas em minhas mãos.

— Só quando você aceitar minhas desculpas. — Continuei o ataque de cócegas.

— Ai foda-se, eu te desculpo! — ela gritou, chutando minha perna para que eu me afastasse, o rosto ainda vermelho das risadas. — Você é idiota demais, Masen, não temos mais oito anos de idade, cresça — ordenou.

— Por quê? Ataque de cócegas é a única forma de fazê-la abaixar suas barreiras, eu usarei isso até mesmo quando você for uma velha de cem anos. Quer dizer, se você não morrer de câncer de pulmão antes disso. — Apontei para a carteira de cigarros dela sobre a mesinha de centro.

Eu sequer sabia quando aquela mesinha foi colocada no apartamento, mas ela estava ali a mais tempo do que eu podia lembrar.

— Não fale dos meus cigarros, eles são mais legais que você — ela resmungou.

— Você devia parar, vai morrer em alguns anos — falei, para me provocar ela se esticou até a mesinha de centro, pegando um cigarro e o isqueiro, acendendo e começando a fumar. — Além do mais, eu não curto ser um fumante passivo.

— Foda-se! — Ela pelo menos teve a decência de expelir a fumaça longe do meu rosto. — Você quer falar sobre o pesadelo?

— Não há o que falar, é sempre a mesma coisa, eu no lugar do meu pai naquele incêndio. — Engoli em seco, pegando o caderno de cima de suas pernas. — Você nunca mais nos escreveu nada, precisa acelerar isso, Barbie.

— Pare de me chamar de Barbie — reclamou, levantando e abrindo a janela, sentando ali perto para jogar a fumaça do seu cigarro fedorento para fora. — Eu odeio ser comparada com a porra de uma boneca de plástico.

— Não seja chata, você amava a Barbie quando éramos crianças. — Folheei o caderno, tentando encontrar algo bacana escrito por Rosalie, mas ela tanto quanto eu, parecia estar passando por um belo bloqueio. — Eu não aguento mais cantar só covers, precisamos mesmo voltar a escrever algo que seja considerado uma boa música e que não faça o público nos vaiar.

— Ou eu posso simplesmente tocar nua, isso fará o público amar a banda — ela brincou, ou estava dizendo mesmo a verdade, nunca podia se saber vindo de Rosalie.

— Ninguém quer ver seus peitos.

— Eu tenho peitos bonitos, Edward, você nunca os viu para julgá-los. — Piscou para mim, apagando seu cigarro em um cinzeiro improvisado. — Eu vou voltar a dormir, tente dormir um pouco também, okay?

— Claro — concordei, rabiscando mais palavras ao lado das dela. — Rose, sério, desculpe ter te tratado mal antes.

Ela suspirou, parando ao meu lado no sofá, afagando meus cabelos bagunçados.

— Somos a droga de melhores amigos, né? — Ela sorriu para mim. — Eu não posso cair fora da sua vida, não depois de você ter me defendido daqueles garotos estúpidos na escola.

— Às suas ordens para sempre salvá-la, cara dama. — Peguei sua mão, depositando um beijo ali.

— Eca, como você consegue levar garotas para cama sendo tão antiquado? — Ela se soltou de mim, seguindo para seu quarto.

— Admita, você é louca para transar comigo!

— Sim, eu vou agora mesmo me masturbar pensando em você, babaca! — ela gritou do quarto, batendo a porta em seguida.

Eu ri, voltando ao caderno de composições, querendo mais do que tudo conseguir escrever algo. Aquilo era frustrante, então apenas deitei no sofá, fechei os olhos e tentei não pensar no pesadelo.

Era impossível, logo as chamas estavam diante meus olhos.

***

Quando se trabalha apenas de noite, as manhãs e as tardes podem ser incrivelmente entediantes, ou sonolentas demais. Naquela quinta-feira do começo de maio, estava terrivelmente entediante.

Passei a maior parte da manhã e da tarde em casa, tentando compor algo — sem sucesso —, tocando minha guitarra e assistindo programas de TV estúpidos. Até que por fim tive algo para fazer, seguindo no meio da tarde para a escola algumas quadras dali.

— Edward! — Clarisse gritou a me ver, soltando da mão de nossa mãe, correndo até mim.

— Oi Clary, é sempre uma honra encontrá-la! — Eu a rodopiei, dando um beijo estalado em sua bochecha.

Ela riu, me abraçando com força. Tinha bastante tempo que não nos víamos, eu estava morrendo de saudades da minha pequena irmã de oito anos.

— Filho, é bom vê-lo. — Ouvi a doce voz de Dona Elizabeth, então coloquei Clary no chão, virando-me para ela.

Não fiquei surpreso ao vê-la magra demais, com o rosto abatido e cansado. Ela só tinha trinta e oito anos, não deveria estar daquele jeito, parecendo ter cinquenta ou mais.

— Ei mãe. — Beijei sua bochecha, ganhando um sorriso dela. — Você está bem?

— Apenas cansada do trabalho. — Ela deu de ombros, afagando o topo da cabeça ruiva de Clary.

Quem nos via ali deveria achar engraçado aquela grande raridade genética reunida. Nós três tínhamos olhos verdes e cabelos ruivos, isso era muito para o mesmo metro quadrado.

— Eu tive o último turno dobrado — confessou.

Respirei fundo, querendo de alguma forma poder dizer que ela não precisava daqueles turnos extras na lanchonete que trabalhava como garçonete. Porém, isso não tinha como acontecer, eu mal tinha para pagar minhas próprias contas, não conseguiria ajudar minha mãe e Clary como sempre quis.

— Que tal uma volta pelo Park? — sugeri, querendo ao menos extrair alguma animação dela.

— Eu tenho de ir para casa lavar roupa, filho. — Ela afagou meus cabelos. — Mas, você pode ir com Clary se quiserem. — Piscou para a garotinha ali, que sorriu animada ao ouvir aquilo.

— Eu quero, por favor, Eddye, por favor — a baixinha implorou.

— Só se você parar de me chamar assim, anã. — Baguncei seus cabelos, ganhando uma risada dela. — Eu a levo em uma hora, ainda tenho de passar em casa antes de ir para a boate — falei para minha mãe, que assentiu.

— Divirtam-se! — ela ordenou, sorrindo para a gente, levando a mochila de Clary consigo.

— Podemos tomar sorvete, Eddye? — Clary questionou, agarrando minha mão enquanto andávamos juntos em direção ao Central Park, pegando o caminho oposto ao de nossa mãe.

— Tudo que você quiser.

— E se eu quiser a Lua?

— Ainda com planos de ser astronauta? — perguntei divertido.

— Sim, sim! — Clary exclamou entusiasmada, pulando em seus pezinhos minúsculos. — Eu quero ver as estrelas bem de pertinho, elas são tão brilhantes.

— E você não tem medo do espaço? — perguntei, entrando em seu jogo.

— Não, ele é muito bonito, pelo menos parece muito bonito nas fotos do livro da escola.

— Bom. — Eu parei de andar, agachando-me diante de Clary no meio da calçada, ganhando alguns xingamentos das pessoas apressadas que passavam pela gente. — Eu te darei o espaço todo um dia, baixinha! — prometi, ganhando um sorriso puro e inocente dela.

— O espaço todinho?

— Todo, só para você.

***

Assim que chegamos ao Central Park, Clary ganhou um grande sorvete de morango, seu preferido. Ela parecia muito contente com ele, eu sabia que aquilo era realmente algo grande para ela, não apenas em questão de tamanho.

Como eu não cresci, Clary também não crescia com muito. Com nossa mãe sendo apenas uma garçonete e o pai de Clarisse um cara que se preocupava mais com o próprio rabo, sorvete não era a prioridade da lista, ele estava lá embaixo, depois de itens necessários para se sobreviver com o pouco que todos nós tínhamos.

Eu estava em um banco, assistindo Clary brincar com outra garota que fez amizade no parque, quando a vi. Ela era uma figura conhecida, não apenas pelas minhas passagens pelo Central Park com Clarisse, provavelmente cada pessoa em New York já tinha visto pelo menos uma vez na vida Isabella Higginbotham nos jornais, ou na televisão, ao lado do grande magnata que era seu avô.

Ela usava vestido floral no fim daquela tarde, os cabelos castanhos trançados jogados por cima do ombro esquerdo, em seus pés sapatilhas beges. Carregava uma grande tela, mas estava coberta por uma capa protetora, impedindo-me de ver o desenho ali.

Eu suspeitava que Isabella não enxergasse qualquer um a sua frente enquanto andava pelo parque aquele dia. O nariz empinado, a cabeça erguida, ela era a pura imagem de alguém super confiante. Jasper — irmão gêmeo de Rosalie e meu melhor amigo —, conhecia Isabella do clube que ela frequentava, onde ele era instrutor de tênis, ele disse uma vez que ela era uma grande filha da puta narcisista, eu acreditava nele.

Era um pouco difícil não achar que alguém pertencente aquela família não fosse, os Higginbotham eram donos de metade da costa leste. O bisavô de Isabella tinha até mesmo sido presidente do país, por algumas gerações e ela não teria sido criada nos gramados da casa branca.

Vi Isabella desaparecer de minha vista, uma figura imponente, intocável e que nunca se misturaria com o tipo de Edward Masen. Pobre, da classe inferior, que mal tinha grana para um sorvete e filho de um ex operário da Organização Higginbotham que um dia ela herdaria.

***

Eu servi mais uma porção de doses de tequila, tentando ignorar as cantadas das garotas de faculdade, desesperadas por sexo, do outro lado do balcão. Não que eu me importasse com isso, eu adorava, mas ainda estava trabalhando e tinha de cantar naquela noite de sexta-feira, precisava focar naquilo, o sexo podia vir no fim do dia.

— Vodca pura — Emmett clamou ocupando o lugar das garotas, que se afastaram para dançar ao som da primeira banda da noite.

Rosalie e eu trabalhávamos na Night Club, uma boate no Brooklyn. Éramos barmen e bargirl, respectivamente, quando conseguíamos tocávamos com nossa banda, The Dragons, ali, ou em outras boates da cidade. Além de nós dois, Jasper e Emmett, integravam a banda.

Eu tinha conhecido Jasper e Rosalie na escola primária, me tornei primeiro amigo dela quando a salvei de uma chacota de um grupo de garotos que estavam a zoando por ela estar a cima do peso na época. Jasper veio por tabela, então nós três viramos os próprios Três Mosqueteiros, inseparáveis e tudo o mais. Alguns anos depois, Jasper conheceu Emmett e ele virou nosso d'Artagnan.

Nós quatro éramos unidos por duas coisas, falta de grana e amor pela música. Foi em uma noite de bebedeira, com nós quatro reclamando de uma banda ridícula que tocava na Night Club, que decidimos criar a The Dragons.

Rosalie assumiu a bateria, o que ainda surpreendia muita gente. Emmett o baixo, Jasper uma das guitarras. Enquanto eu ficava com o vocal e a segunda guitarra.

— Dia difícil? — perguntei a Emmett. Ele trabalhava de dia como personal trainer em uma academia, de nós quatro era o que conseguia uma vida financeira mais ajustada. Ele dividia um loft com Jasper, era um lugar grande, onde usávamos para ensaiar também.

— Sempre — ele afirmou, bebendo de uma só vez a dose de vodca que lhe servi. — Não demore muito ai, quando esses caras saírem. — Apontou para a banda no palco. — É nossa vez em breve.

— Estarei com vocês logo — prometi, já começando a servir outras pessoas.

Alguns minutos depois, eu me reuni a banda no pequeno camarim da boate. Não fiquei muito surpreso de encontrar Rosalie e Emmett discutindo o repertório, eles sempre discutiam sobre tudo, às vezes era insuportável ficar perto deles por muito tempo.

— Nós já tínhamos escolhido o que tocar, apenas parem de querer mudar tudo na porra da hora do show — reclamei, mas eles não me deram ouvidos, Rosalie nunca me dava ouvidos, então eu não me surpreendi com isso. — Será que você pode me ajudar aqui? — perguntei a Jasper, que estava mexendo em seu celular sem parar.

— Ei cara, o que foi? — perguntou confuso, totalmente alheio a minha fala.

— O que você tem? — indaguei, afinando minha guitarra, uma herança do meu pai.

— Nada, esquece. — Jasper guardou o celular no bolso, pegando sua própria guitarra. — Na verdade não, é aquela garota, Alice — ele falou.

— Quem? — questionei arqueando uma sobrancelha, querendo mandar Rosalie e Emmett para o inferno pela briguinha que mantinham.

— Você nunca decora nomes, né?

— Jazz, eu não decoro nem mesmo o número do meu celular, não peça algo difícil para mim.

— Você é um vocalista, você decora as músicas.

— Totalmente diferente, acredite, mas sim, quem diabos é Alice?

— A garota que comecei a ensinar tênis recentemente, Alice Cullen.

Eu tirei os olhos da minha guitarra, olhando para Jasper, que parecia fodidamente ansioso como uma criança na véspera de natal.

— Jazz, não me diz que você está apaixonado por uma de suas alunas daquele clube de gente rica — pedi fazendo uma careta.

— Cara, você não conhece Alice, ela é um anjo na Terra, sério. — Ele suspirou, dedilhando You and I do Scorpions. Foda-se, ele estava mesmo apaixonado para tocar justamente aquela música. — Alice até disse que ia tentar vir ao show hoje.

— Você convidou uma garota do Uper East Side para o Brooklyn?

— É, eu sei. — Ele fez uma careta. — Ela nunca vai vir até aqui só para me ver tocar, eu estou sendo um idiota. — Parou a música. — Ei os dois ai, apaguem o fogo da bunda de vocês e vamos tocar! — gritou para Emm e Rose, que finalmente deram um tempo na briga.

Nós subimos no palco assim que a outra banda acabou, já tocávamos na Night Club por tempo suficiente para os frequentadores assíduos da boate nos conhecerem, então não demorou muito para os gritos começarem.

Eu estava mais ocupado cuidando da minha guitarra, sendo assim demorei a me voltar para o público, quando fiz isso a vi na beira do palco. Não podia acreditar que ela estava ali, devo ter passado muito tempo a encarando, até que por fim sorri, ainda sem crer que uma Higginbotham estava assistindo o show da The Dragons.

Isabella pareceu desconcertada com meu sorriso, enquanto conversava com a garota ao seu lado, mas sua amiga logo começou a gritar por Jasper. Minha mente trabalhou rapidamente, aquela com Isabella era Alice Cullen, fazia sentido as duas serem amigas.

Logo deixei Isabella de lado, voltando minha atenção para o que realmente tinha me levado aquele palco. Saudei o pessoal ali, as vozes femininas gritando meu nome como se eu fosse um astro do rock realmente bom, ou conhecido mundialmente.

Voltei a olhar Isabella antes de começar a cantar, seus olhos passeavam por meu corpo. Ela mordia o lábio inferior, parecendo nem perceber fazer isso, mas eu desejei muito poder fazer aquilo no seu lugar, querendo sentir seu gosto.

Notas finais
Oh Edward, quero ser sua fã o/ Beijos e até sábado que vem! Lola Royal. 26.11.16