Sob minha Pele

36 Capítulo Trinta e Cinco


Notas iniciais
Capítulo super dedicado a Waterhouse e Jackson Rodriguez que recomendaram SmP, muito obrigada pelas recomendações maravilhosas ♥ Desculpem pelo sumiço, gente, mas a vida tá uma loucura. Não deixem de entrar no grupo do Face, se quiserem, pois sempre estou colocando avisos sobre postagens lá. O link está no meu perfil. Boa leitura ♥

— Capitulo Trinta e Cinco —

— Edward —

No meu aniversário de cinco anos pedi para meus pais uma irmãzinha, eles sorriram e disseram que quando fosse possível me dariam uma irmã. Meu pai morreu antes disso, mas minha mãe me presenteou com Clarisse ainda assim.

Eu amava tanto minha irmã, Clary trouxe de volta a minha vida a felicidade que foi roubada quando papai morreu. Ela era minha baixinha, minha pequena irmã que eu amava demais, dona de um coração puro e inocente. Como ela podia ser filha de um monstro como Marcus Higginbotham?

Clarisse era filha de Marcus Higginbotham, irmã de Renée e tia de Isabella. Porra, aquilo era uma puta confusão em minha mente, uma maldita árvore genealógica que eu não conseguia processar.

Era uma mentira, precisava ser uma mentira. Nem precisava ser um pesadelo, mamãe só precisava estar mentindo para mim, uma brincadeira de humor negro em péssima hora, era tudo que precisava.

— Por que está mentindo para mim? — perguntei para mamãe, tentando secar as grossas lágrimas que molhavam meu rosto.

— Edward, não estou mentindo — ela murmurou, ainda chorando como eu.

— Não, você está mentindo sim — teimei, sem querer acreditar naquilo.

Clarisse não era filha de Marcus Higginbotham, não era irmã de Renée, muito menos tia de Isabella. Aquilo era uma grande loucura, uma maluquice total.

— Filho, eu não mentiria sobre algo assim. — Mamãe se levantou, fazendo com que eu voltasse a sentar no banco, eu estava tão perdido com as últimas revelações que nem tive como impedi-la de me fazer sentar ali. — Preciso que acredite em mim, Edward — falou, sentando novamente ao meu lado, eu fiquei encarando o chão, o choro cessando temporariamente.

— Não, eu não posso, não quero acreditar nessa loucura — contestei. — Minha irmã não é filha daquele homem, não mesmo. Eu nunca pensei que diria isso, mas estou agradecido de ela ser filha de Richard, ele é um babaca, mas não como Marcus Higgibotham. — Olhei para minha mãe, que tinha uma expressão de culpa no rosto. — Como diabos você acabaria grávida dele? Justamente dele!

— Edward...

— Você acabou de dizer que ele quase matou esse tal de Charlie, que ameaçou todos nós e agora me diz que fodeu com aquele filho da puta?

— Ei, por favor, cuidado com suas palavras — ela implorou, seu lábio inferior tremendo devido seu choro.

— Como mãe? — gritei, pouco me importando com quem pudesse me ouvir. — Como isso aconteceu? Por que você fez isso?

— Por dinheiro, ok? — ela gritou de volta, fazendo com que eu me calasse por completo, seus olhos verdes estavam furiosos e tristes ao mesmo tempo. — Por dinheiro e por você, Edward — completou, chorando descontroladamente.

Eu engoli em seco, ainda confuso, mas também enjoado. Ela foi uma prostituta? Minha mãe tinha se prostituído? Só para Marcus Higginbotham, ou para mais algum cara?

— Eu não entendo nada, eu não consigo entender. — Voltei a chorar, sentindo-me tão exausto daquela bosta de dia.

— Deixe-me explicar, Edward — ela pediu. — Deixe-me contar a verdade de uma vez por todas.

Apenas concordei com um aceno de cabeça, já sem saber o que dizer ou fazer. Eu me sentia morto, inútil diante toda aquela confusão, diante toda aquelas verdades sendo expostas.

Mamãe respirou fundo, enxugou o máximo que pode de suas lágrimas e recomeçou a falar:

— Eu já estava com Richard quando aconteceu, consegui um trabalho extra para servir em uma festa importante aqui em Manhattan, era casamento ou aniversário de alguém, foi em um hotel bem luxuoso, você ficou na casa de Rose e Jasper aquela noite — ela contava em um tom de voz baixo. — Marcus Higgginbotham estava lá. Falei que nunca mais tínhamos chegado perto dos Higginbotham desde o acontecido com Charlie, mas Marcus cruzou meu caminho aquele dia. — Mamãe desviou o olhar para suas mãos. — Eu fiquei muito apreensiva quando o vi, mas segui com meu trabalho, não podia fracassar, se tudo desse certo naquela noite eu podia sonhar em ser contratada pelo buffett e teria mais grana sendo garçonete deles.

Eu inspirei fundo, mas sem querer soltar o ar, tenso com o que viria a seguir.

— Marcus me reconheceu, eu tentei evitar ao máximo cruzar com ele, mas quando aconteceu ele não precisou de muito para me identificar. Eu fiquei mais nervosa ainda, quando ele começou a perguntar se eu estava sendo uma boa garota mantendo-me longe de Renée, fazendo Charlie ficar longe e teve coragem de dizer que sentia muito pelo acidente envolvendo seu pai. — Ela me olhou. — Obviamente ele continuou de olho na gente, disse aquilo para mim, todos aqueles anos, para se certificar de que nenhum de nós chegasse perto de Renée e Isabella, que era apenas uma garotinha na época.

— E como você acabou na cama com aquele cara? — indaguei, minha voz era rouca, como se eu tivesse fumado um dos cigarros de Rose.

— Eu disse o que ele queria ouvir, que Charlie ou eu não estávamos tentando qualquer tipo de contato com Renée e agradeci as condolências pela morte do seu pai, tentei me afastar. Mas Marcus me manteve junto dele, falou que sabia sobre o pedido de seguro que eu tinha feito a Organização Higginbotham, que tinha sido negado, ele disse que podia me dar muito mais do que eu ganharia com o seguro, se eu fosse...se eu fosse para a cama com ele — sussurrou a última parte.

Quis vomitar, mas contive a ânsia, precisava ouvir o resto antes.

— Não queria aceitar, Edward, não queria mesmo, mas... — Ela se calou, desviando seu olhar para o céu. — Eu precisava do dinheiro, precisava pagar contas atrasadas, você com certeza não vai se lembrar, mas estávamos quase sendo despejados, íamos para rua, ou morar de favor em algum lugar, só sei que precisava de dinheiro, precisava garantir que você tivesse uma casa.

Soltei o ar que nem sabia que estava prendendo.

— E dependendo de quanto ele me daria, eu poderia garantir meses de tranquilidade para a gente. Podia até te comprar um violão, que eu tinha prometido te dar no seu aniversário e não foi possível, mas poderia fazer aquilo no natal dali alguns meses. Eu me vi deslumbrada com a ideia do dinheiro, Edward, eu me vi fascinada com a ideia de ter a grana que Marcus pagaria, a grana que garantiria nosso aluguel, que te daria comida de boa qualidade, roupas novas para que você não congelasse no inverno que se aproximava...

Ela se interrompeu, seu choro tornou-se algo sofrido.

— Richard não era seu pai, ele estava lá e no começo tinha grana e tudo mais, mas eu sabia que aquele homem era no fim das contas só um encostado, iria mandar ele cair fora em breve de qualquer jeito. Então, seriamos apenas você e eu novamente, como foi depois que seu pai nos deixou. E eu estava apavorada, morrendo de medo de te deixar passar qualquer necessidade, de te ver adoecer, de não conseguir te dar o mundo como seu pai queria dar.

Ela fechou os olhos, escondendo o rosto atrás de suas mãos.

— O seu pai te amava tanto, quando descobrimos sobre você eu pensei que ele me mandaria abortar, que me deixaria sozinha e grávida, mas claro que ele nunca faria isso. Seu pai era o homem mais honrado do mundo, o mais amável e ele nos assumiu, prometeu para mim que nunca deixaria nada faltar para você e eu. — Mamãe libertou seu rosto, me olhando. — Ele não deixou, não tínhamos muito, mas seu pai nos manteve firme até que falecesse naquele incêndio, então eu fiquei só com você e estava amedrontada, pois sabia que não daria conta sozinha.

— Você não precisava ter aceitado a proposta de Marcus, mãe — falei, percebendo ali que eu tinha voltado a chorar. — A gente daria um jeito, não sei, mas...

— Eu precisava, eu tinha de aceitar para garantir que você ficasse bem, Edward, mesmo que o dinheiro não fosse durar muito tempo. — Afagou meu rosto. — Faria qualquer coisa por você, filho, qualquer coisa. Você é meu garotinho, o melhor presente que Edward deixou para mim, nunca deixaria, ou deixarei, nada ou ninguém machucar você.

Eu deslizei no banco até ela, chorando em seu colo.

— Foi horrível — ela sussurrou, ainda me mantendo em seu abraço quente e seguro. — Foi a segunda pior noite da minha vida, depois da que seu pai faleceu. Senti tanto nojo de mim, daquele homem. Senti vergonha, sabia que se seu pai pudesse saber daquilo ele ficaria tão decepcionado por eu ter me vendido, mas eu tinha de fazer.

— Ele te machucou? Ele...

— Eu fiquei bem, fisicamente — murmurou, interrompendo meus questionamentos. — Ainda me sentia culpada e imunda, por ter me tornado uma vagabunda, mas suportei, precisava suportar.

— Você não é uma vagabunda, mãe — eu disse, lembrando-me de todas as vezes que disse para Isabella que ela também não era uma.

— Eu fui uma aquela noite, Edward, o que fiz foi deplorável.

Eu me afastei, podendo olhar para seu rosto.

— Claris-Clarisse.

— Descobri semanas depois, eu fiquei em desespero, sabia que não era de Richard que estava grávida, tinha certeza de que era do Marcus. Pensei em abortar, pensei em contar para o Higginbotham e exigir que ele assumisse o bebê e me desse ajuda financeira, pensei em tanta coisa idiota e estúpida. Mas, no mesmo dia que descobri você estava todo animado, porque tinha conseguido aprender a tocar uma música nova e você estava tão radiante, eu pensei como o novo bebê seria e me vi encantada por ele naquele momento. Não poderia abortar, não poderia dizer aquilo para Marcus e cair na roubada de ele acabar me matando, pois obviamente não me deixaria por ai carregando um filho dele, eu prometi que protegeria aquele bebê como protegia você.

Beijou meu rosto, sorrindo para mim.

— Aquela noite com Marcus foi terrível, mas ela me deu Clarisse e eu não me arrependo disso. Eu a amo, desesperadamente, é minha menina e iria até o inferno por ela.

— Obrigado por ter feito tanto por mim — agradeci. — Eu juro que vou te recompensar um dia.

— Não quero recompensas, filho, não fiz nada por você ou Clarisse esperando devoluções de vocês, ouviu? Eu fiz por amor, por cuidado e proteção, faria mil e uma vezes tudo novamente, pois vocês dois são as pessoas mais valiosas da minha vida.

— Não, eu tenho tantas dividas com você — murmurei, sentindo-me um lixo. — Você ficou com aquele homem pensando no melhor para mim, é tudo minha culpa.

— Edward, não! — Mamãe segurou meu rosto. — Não se culpe por isso, filho, por favor. Eu não quero que assuma nenhum dos meus erros, não quero que se sinta mal por mim, eu estou bem, nós estamos bem.

— Não, não estamos bem, você sabe disso — sussurrei.

— Edward...

— Richard sabe a verdade? — Ela negou rapidamente.

— Não, claro que não, nunca vai saber. Eu disse que estava grávida dele e ele por sorte acreditou e assumiu Clarrise, sei que ele não é um bom pai, sei muito bem disso, mas Richard com certeza é melhor do que o Higginbotham.

— O dinheiro?

— Não fomos despejados, não é? — Forçou um sorriso para mim. — Richard, no entanto, encontrou o dinheiro e usou boa parte da grana para o divertimento dele, eu menti e disse que tinha ganhando em uma aposta de jogo, ele falou que conseguiria duplicar a grana e perdeu.

— Mãe!

— E eu nunca consegui te dar aquele violão — ela murmurou, soando extremamente culpada.

— Foda-se o violão, você me manteve debaixo de um teto, alimentado e aquecido, eu não poderia querer mais nada além disso. Depois, conseguiu manter Clary bem, mesmo sem ajuda de Richard para isso, mesmo tendo outro filho para sustentar. Você foi até o inferno pela gente, eu nunca saberei como pedir desculpas por ter te colocado nessa situação.

— Já disse que você não tem culpa de nada, Edward!

Não insisti, mas sabia que de certa forma tinha minha parcela de culpa naquilo.

— Eu nem sei por onde começar a contar isso para Isabella — murmurei, mamãe me encarou, os olhos arregalados de pavor.

— Não pode contar nada disso para ela, Edward.

— O quê? Você quer que eu guarde todos esses segredos da minha namorada?

— Não, quero que se afaste dela.

Me afastar de Bella?

— Você precisa se afastar da Bella, Edward, não pode deixar ela saber disso tudo. Marcus fugiu, mas ele pode voltar a qualquer momento, fazer algo contra você, contra Clarisse e eu não vou suportar isso. Por favor, filho, deixe a Bella, é arriscado estar perto dela.

— Nã-Não — gaguejei.

— Edward, pense na sua irmã, por favor — mamãe implorou. — Marcus Higginbotham quase matou Charlie só por ele ter namorado Renée, o que aquele homem não seria capaz de fazer se descobrisse uma herdeira perdida? Que ainda por cima foi fruto de uma noite com uma prostituta.

— Você não é uma prostituta.

— Edward, eu vendi sexo por dinheiro, esse é o nome que define o que fui naquela noite.

Eu me levantei do banco, novamente querendo vomitar.

— Edward. — Mamãe levantou também. — Prometa que vai se afastar de Isabella, prometa. De verdade dessa vez, não como a promessa anterior que você claramente não cumpriu.

Apenas fiquei a encarado, sem forças até mesmo para falar.

— Aquela menina está presa, ela pode acabar te envolvendo em mais problemas, eu não posso lidar com isso. E não posso correr o risco de que Marcus descubra que Clarisse é filha dele. Fique longe daquela família, pelo bem da nossa, por favor.

Continuei sem falar nada, apenas me afastando dela, precisava me afastar. Eu pude ouvir seus gritos chamando por mim, mas não respondi, apenas continuei andando para longe.

***

Eu andei por horas, sem ir de fato a lugar algum, apenas caminhei por todo Central Park, depois pelas ruas de Manhattan, quando cansei eu peguei a ponte e segui ainda andando para o Brooklyn. Lá, também andei por mais um longo tempo, pensando, só pensando.

No fim da tarde eu bati na porta do apartamento da minha mãe, ela estava ali e soltou um longo suspiro aliviado quando me viu. Ela estava me abraçando no instante seguinte, quase me sufocando, mas eu estava anestesiado depois daquele dia caótico, mal conseguia sentir qualquer coisa.

— Que bom que está aqui, filho, fiquei tão preocupada com seu sumiço, liguei para você milhares de vezes. — Ela tinha mesmo ligado muito, Rose, Alice, Jasper, Esme e Carlisle também ligaram, mas em algum momento do meu percurso indefinido entre Manhattan e Brooklyn, apenas desliguei o celular, sem querer falar com ninguém.

Não queria conversar, só precisava de algum tempo de silêncio comigo mesmo.

— Onde esteve por todo esse tempo? — ela indagou. — Sabe o susto que me deu com esse sumiço? Pensei que o pior tinha acontecido com você, Edward!

— Cadê a Clarisse? — questionei, ignorando as perguntas da minha mãe.

— Lá dentro com Rosalie — respondeu, eu entrei no apartamento, mamãe agarrou meu pulso. — Edward, você não estava com Isabella naquela delegacia, estava?

— Eu vou ver minha irmã — foi tudo que falei, soltando-me de seu aperto e caminhando até a sala.

Rosalie e Clarisse estavam sentadas no chão, desenhando e cercadas por outras folhas de desenhos. Minha mente não pode deixar de pensar como aquilo era uma pegadinha do destino, Isabella e Renée eram artistas, assim como Clary tinha sua paixão por desenhos. Algo de família, vai saber.

— Edward! — Clarisse gritou quando me viu, correndo para meus braços.

— Baixinha! — A peguei no colo facilmente, a apertando contra mim.

Ela era minha irmã, eu continuaria a amando apesar de tudo. Foda-se quem era o pai dela, Richard, Marcus, não importava, o que importava era que ela continuaria sendo para sempre minha irmã e ninguém poderia mudar aquilo.

— Eu estava com saudades! — Clarisse exclamou. — A Rose falou que a viagem de vocês foi muito legal, você se divertiu?

— Bastante — murmurei, ainda mantendo-a em meus braços. — Foi bem legal. — Eu me lembrava de Hamptons, obviamente, mas no meio de tudo aquilo a viagem era algo distante na minha mente.

— Edward. — Clary se remexeu nos meus braços, fazendo com que nos olhássemos. — Por que Bella foi presa? Mamãe e Rose não quiseram me explicar.

— Você é muito nova para entender algumas coisas, Clarisse — mamãe disse de algum lugar atrás de mim.

Os ombros da minha irmã caíram, ela estava chateada.

— Eu prometo que na hora certa irei te explicar tudo, Clary — jurei, ela concordou com um aceno de cabeça, mesmo continuando desconfiada.

Ela não fazia ideia, de que não era mesmo filha de Richard, muito menos que era tia de Isabella.

Tia, ela era apenas uma criança sendo tia de uma garota de quase vinte anos!

— Edward, não... — Mamãe começou a falar, mas a interrompi.

— Rose, melhor você ir para o trabalho, não? Antes que se atrase — falei com minha amiga, que me olhava cheia de questionamentos, mas ela teria de esperar mais um pouco para ter suas respostas.

— Claro, você não vai trabalhar?

— Diga ao Alistair que estou doente — pedi, Rose assentiu. Ela beijou o rosto de Clarisse que continuava no meu colo, se despediu da minha mãe e saiu do apartamento. — Clary. — Coloquei a baixinha no chão. — Eu preciso conversar com a mamãe, você pode esperar aqui e continuar desenhando enquanto isso?

— Tá bom — ela cedeu facilmente, voltando-se para seus desenhos.

— Vamos conversar. — Indiquei para minha mãe que deveríamos ir para o quarto, ela relutou, mas me seguiu.

Assim que fechei a porta ela perguntou:

— Você não fez nenhuma besteira, certo? Não esteve naquela delegacia, por exemplo.

— Não, eu não estive com Isabella — respondi, mamãe assentiu, parecendo aliviada.

— Eu estive pensando — ela começou. — Que talvez você, Clarisse e eu devêssemos deixar New York. Deveríamos ter feito isso há muito tempo para falar a verdade, será mais seguro estar longe daqui. Eu tenho primos no Kansas, não falo com eles há mais de quinze anos, mas talvez fosse uma boa irmos para lá.

— Você quer fugir? — indaguei incrédulo.

— Será mais seguro para todos nós, Edward — ela disse, engolindo em seco. — Toda essa confusão vai acabar recaindo na gente, se nos afastarmos a tempo quem sabe conseguiremos impedir que algo aconteça com nossa família.

— Fugir? — repeti. — Quer fugir como Marcus Higginbotham fugiu? Você acha mesmo que eu vou deixar New York e correr para o maldito Kansas como um rato medroso, mãe?

— Edward, seja racional! — ela implorou. — Você estava envolvido com aquela garota, pode estar na mira dessa gente...

— Aquela garota é Isabella, mãe — frisei. — Filha de Renée, que pelo o que você me contou hoje foi sua amiga, amiga do meu pai e que é irmã da Clary, como Bella é sobrinha. Não é mais somente nossa família em jogo, Clarisse é da família delas também e eu estou com Isabella agora. Não vou abandonar ela, mãe, não quando ela precisa de mim mais do que nunca.

— Aquele monstro pode voltar a qualquer momento, filho — ela sussurrou apavorada. — Ele pode fazer algo contra você e Clarisse, eu não posso deixar isso acontecer.

— Não tenho medo, mãe. — Ergui meu pulso onde estava a tatuagem feita em homenagem ao meu pai. — Meu pai enfrentou o Higginbotham uma vez quando salvou o Charlie, não foi? Eu vou ser corajoso como meu pai e me manter aqui, forte para aguentar qualquer coisa.

— Não seja tolo, Edward! — mamãe gritou, mas diminuindo seu tom de voz rapidamente. — Você não pode contra essa gente, tá bom? Marcus Higginbotham é um maníaco, ele quase matou Charlie só por ele ter namorado Renée.

— Eu não vou fugir — repeti. — Não vou deixar Isabella pensar que estou a abandonando, não vou deixar Clarisse passar o resto da vida dela vivendo numa mentira como Bella viveu quanto a paternidade dela.

Mamãe arregalou os olhos quando se deu conta do que eu estava falando.

— Você não pode contar, Edward.

— Eu vou — declarei, certo daquilo. — Irei contar para Bella amanhã mesmo sobre Charlie e Renée. Não sei como faremos isso com Clary, mas ela também merece saber que Richard não é pai dela coisa alguma.

— Edward, você vai por tudo em risco — falou chorosa.

— É o preço a se pagar pela verdade? Então pagaremos. — Mamãe chorou baixinho, mas eu precisava continuar firme com minha decisão. — Você disse que vem recebendo ligações de Charlie, não? Que tal me passar o número dele para que eu possa conhecer meu padrinho?

Seus olhos se voltaram para mim.

— Você não vai desistir dessa loucura, não é?

— Você sabe que não. — Estendi minha mão para ela. — Me deixe falar com Charlie, mãe — pedi.

Ela não hesitou mais, apenas tirou seu celular do bolso, mexeu nele e me entregou. O aparelho já efetuava a chamada para Swan.

Isabella Swan, testei o nome em minha mente. Mais delicado, mais simples, menos rude, menos sujo. Combinava melhor com ela, era o seu nome por direito, que lhe foi negado desde o primeiro segundo de vida.

— Lizz! — Charlie Swan exclamou do outro lado da linha quando atendeu, eu reconheci a voz instantaneamente, era o cara que tinha me ligado de um número desconhecido nos outros dias. — Finalmente você ligou, eu estou desesperado — ele falava, pelo seu tom parecia mesmo em desespero. — Isabella foi presa, Lizz, presa. Como isso aconteceu? Você precisa me ajudar, precisa me dar mais informações. Primeiro Renée naquele hospital, agora Isabella numa delegacia?

— Elas vão ficar bem — eu falei pela primeira vez desde que peguei o celular, ouvi Charlie parar de respirar. — Hum, eu sou Edward Masen, filho da Elizabeth e do Edward, seus amigos.

— Por Deus! — Charlie exclamou surpreso. — E-Eu — gaguejou, claramente sem saber o que falar.

— Você — o incentivei.

— Edward — ele disse meu nome por fim, com carinho, durante um segundo foi como ouvir meu próprio pai dizendo meu nome outra vez.

— Minha mãe contou tudo, Charlie — confidenciei. — Eu vou contar para Bella.

— Você vai? — ele perguntou apreensivo.

— Eu vou — confirmei. — Isabella merece um bom pai, Charlie, mas juro que se você magoá-la irei te tirar da vida dela para sempre.

— Não vou magoá-la — ele prometeu. — Eu prometo que serei o melhor pai do mundo para ela, foi o que sempre quis.

Fechei os olhos, esfregando minha testa com uma mão, tentando fazer a dor de cabeça passar.

— Está na hora de você voltar para New York, Charlie.

— Bella —

O tempo se arrastava diante de mim, parecendo zombar da minha cara ao demorar a passar. Era como se ele soubesse o quanto eu estava aflita para as horas correrem, só para finalmente deixar aquele lugar asqueroso.

Eu queria deitar na minha cama quente, vestida em um bom pijama confortável, por pelo menos oito horas. Quando acordasse teria um banquete esperando por mim, tudo do bom e melhor, depois eu poderia seguir até o atelier e pintar, sem me preocupar com mais nada.

Mas, não, isso demoraria a acontecer, pois as horas não passavam. Ou melhor, aquilo tudo poderia nunca mais acontecer, pois eu estava metida em uma complicação que não parecia ter um fim.

Presa, literalmente e figurativamente.

Era o fim para Isabella Higginbotham.

O depoimento durou cerca de duas horas, o delegado fez com que eu respondesse dezenas de perguntas e mesmo que eu tivesse o advogado contratado pelos Cullen ali comigo eu continuava me sentindo insegura em responder aquilo. As perguntas eram sobre as assinaturas, sobre os negócios da Organização Higginbotham, os Black e principalmente meu avô.

Meu avô que tinha sujado meu nome, depois me abandonado para trás, como ele pode ser capaz de tudo aquilo?

Eu consegui entender parte do esquema dele junto aos Black, vovô recebia apoio politico do senador, o que lhe garantia obras estaduais e nacionais de grande porte, enquanto Billy recebia a por isso também. Uma perfeita troca de favores, o dinheiro sujo entre eles acabava sendo desviado para contas no exterior, ou em nome de empresas de fachadas que estavam no meu nome.

Nunca soube de nada daquilo, nunca pensei que parte da nossa fortuna seria proveniente de ações ilegais. Eu tinha nascido no meio do dinheiro, não sabia identificar quando ele vinha de onde não devia, sequer entendia completamente toda aquela confusão.

— Vai querer prestar queixa contra seu agressor? — o delegado perguntou no fim do depoimento, depois de tentar me fazer confessar a qualquer custo que eu sabia sim sobre todo o esquema corrupto do meu avô junto dos Black.

Ainda podia sentir o peso da mão de Billy em mim, o que era humilhante, assim como a ameaça de suas palavras ao falar que todos ao meu redor estavam correndo risco. Como eu poderia dizer a policia que ele tinha me batido quando todos estavam na mira daquele maluco? Não podia deixar nada acontecer a minha mãe, a Edward, que provavelmente estava mais confuso com tudo aquilo do que eu.

E se ele me deixasse? Edward era tão honesto, ele poderia lidar com a namorada presa?

— Isabella, melhor contar tudo — Jenks falou para mim, fazendo com que eu o olhasse.

Engoli em seco, voltando-me para o delegado.

— O senador Black fez isso comigo, mas ele prometeu matar todos próximos de mim, você não pode deixar isso acontecer, por favor — implorei em desespero para o homem sentado do outro lado da mesa. — Sou inocente, não sabia nada sobre esses documentos, sobre o dinheiro desviado, nada. — Solucei. — Mas, se algo tiver que acontecer que seja comigo, não deixe que nada aconteça com minha mãe, com meus amigos ou com Edward, eu não vou aguentar.

Toquei no colar de Renée em meu pescoço, sentindo-me completamente desprotegida.

***

Passei mais uma hora falando sobre meu desagradável encontro com os Black, no meu apartamento, na noite anterior, reviver tudo aquilo era terrível, mas o advogado insistiu que eu falasse e o delegado parecia verdadeiramente interessado. Mas, no final ele não me libertou, a vitima, como eu esperava que fosse fazer no fundo dos meus desejos.

— Você tem alguns minutos para conversar com a sua cliente, senhor Jenks, mas não abuse da minha boa vontade –– o delegado falou, antes de deixar a sala junto com o escrivão que coletou meus depoimentos.

— Eu não vou sair daqui? — indaguei o advogado.

— Não hoje, mas eu vou entrar com o pedido de habeas corpus para que você saia daqui o mais rápido possível — Jenks informou. — Mas, não, hoje será impossível, ninguém irá te libertar tão rápido.

— Eu preciso sair desse lugar — falei, ouvindo o quão rouca minha voz estava por conta de todo o choro.

— Sinto muito, mas não conseguirei tirar você daqui ainda hoje — Jenks falou. — Agora, nós precisamos começar a trabalhar na sua defesa, certo? Um acordo por confissão diminuirá sua pena, quanto antes você confessar melhor.

— Eu não sou culpada — afirmei.

— Isabella...

— Eu não sou culpada — repeti.

— Sou seu advogado, pode contar a verdade para mim, estou aqui para defender você.

— Então, acredite em mim quando digo que não sou culpada! — gritei. — Eu não menti nos depoimentos, nunca soube que esses documentos eram parte de algo ilegal. Sempre que eu assinava algo para meu avô era pensando ser parte de algo da Organização Higginbotham, da minha herança.

— Se acalme — Jenks pediu.

— Precisa acreditar em mim, todos precisam acreditar em mim — choraminguei.

— Acredito em você — Jenks anunciou. — Vou fazer de tudo para tirar você daqui o quanto antes, mas preciso que se mantenha calma, ou não vai aguentar um dia nesse lugar.

Porque eu estava no inferno.

Jenks falou por mais um tempo sobre o pedido de habeas corpus que ele ia fazer, me fez outras perguntas sobre meu avô e os Black, reafirmou que acreditava em mim, declarou que o processo seria longo e cansativo, mas que faria de tudo para conseguir que eu fosse plenamente inocentada. Por fim, o delegado voltou, anunciando que nosso tempo tinha chegado ao fim.

Um policial foi até mim, segurando em meus braços para que eu saísse da sala.

— Disseram que você é difícil, melhor não tentar fugir — ele falou para mim, eu quis cuspir na cara daquele cretino, mas me contive. Jenks tinha dito que eu devia me manter calma, cuspir na cara de policiais não parecia algo seguro.

Quando deixamos a sala do delegado vi Esme e Alice do outro lado da delegacia, sendo impedidas de chegarem até mim por outros policiais. Mas, eu não tive sinal nenhum de Edward ali, o que rapidamente me deixou aflita.

Ele tinha me abandonado? Aquilo tudo era demais para ele e Edward foi embora? Eu tinha o perdido?

— Alice, cadê o Edward? — Deixei a calma de lado, para questionar minha amiga com um grito que ecoou.

Ela abriu a boca para responder, mas antes que eu obtivesse uma resposta já tinha entrado em um corredor obrigada pelo policial e perdido Alice de vista. Naquele corredor ficava uma sala onde fui preparada para minha prisão, isso queria dizer que eu precisei tirar minhas roupas — para meu alivio era uma mulher cuidando daquela parte — e trocar elas por um tenebroso uniforme alaranjado, eu também precisei tirar o colar de Renée, temi o perder, mas a policial garantiu que se um dia eu saísse dali iria o ter de volta.

Depois de ser obrigada a me vestir com aquele uniforme, eles coletaram fotos minhas, como minhas impressões digitais. Me informaram a rotina do lugar, hora para acordar, hora para comer e que as visitas aconteciam uma vez ao dia pela manhã.

— E-Eu não posso ficar numa cela sozinha? — perguntei quando percebi que estava sendo conduzida para uma cela onde duas outras mulheres se encontravam.

— Isso aqui não é um daqueles hotéis luxuosos que você se hospedava, princesinha — o policial debochou, outro abriu as grades e fui colocada dentro da cela.

O lugar era escuro, fedia e era minúsculo. Uma espécie de beliche comportava duas camas com nada mais que um colchonete e uma coberta cinza velha, na parede ao lado outra cama como aquelas e ali perto um vaso sanitário e uma pia.

Nojento.

— Olha só, temos uma garota nova para o grupo — uma das mulheres falou, ela tinha cabelos pintados de loiro, era gorda e parecia ter no mínimo quarenta anos.

— O que você aprontou, gatinha? — a outra me perguntou, ela era baixinha e parecia quase tão nova quanto eu, seus cabelos eram bem escuros e ela era negra. — Detonaram com seu rosto, não é mesmo? O que fez para merecer isso?

— Na-Nada — gaguejei a resposta. — Sou inocente.

— Claro que é, todas nós somos — a mais velha falou rindo.

— Eu realmente sou inocente — teimei, com as costas grudadas nas grades atrás de mim.

— Sim, sabemos disso. — A mulher rolou os olhos. — Eu não trafiquei drogas e a Kendra não fodeu por dinheiro. — Apontou para a garota. — Qual seu lance? Roubo? Assassinato? Também é uma puta?

— Não sou uma puta — falei entre dentes.

— Ela não parece mesmo ser uma — a tal de Kendra disse, olhando-me de cima a baixo. — Bonitinha demais, mesmo com esses machucados, olha esses dentes tão brancos, essa pela bem cuidada, qual a sua garota?

— Não é da sua conta — praticamente rosnei.

— Calma ai, gatinha, não seja tão arrisca — Kendra falou, aproximando-se de mim, seu olhar me deu medo. — Você não quer comprar uma briga comigo e com a Valerie, quer? Não se esqueça de que seremos suas novas colegas de quarto, bonitinha. — Ela tocou no meu rosto. — Seria muito fácil te sufocar enquanto você dorme.

Eu estremeci diante sua ameaça.

— Ou fazer coisas muito mais legais — Valeria, a falsa loira, falou do seu lugar na cela, mandando para mim uma piscadela e um sorriso malicioso.

— Não façam nada comigo, por favor — implorei assustada. — Eu tenho dinheiro, pago para vocês não me tocarem.

Os olhos de Kendra brilharam ao me ouvir dizer aquilo.

— Se você tem grana o que está fazendo aqui?

— Foi um engano, estou aqui por um engano — afirmei, vendo Valerie se aproximar.

— Espera, eu conheço você, é filha daquele magnata da construção, Marcus Higginbotham, ou qualquer merda dessas.

— Neta — corrigi.

— Foda-se, não estou nem ai para sua árvore genealógica — Valerie disse em um tom de voz que me deu mais medo ainda. — Mas, aparentemente você tem mesmo grana, então se quiser nos dar algum dinheiro para que fiquemos longe de você, será um bom negócio. — Foi a vez dela tocar no meu rosto. — Sabe, estamos presas aqui tem muito tempo, sentimos falta de algumas coisas, Kendra e eu nos divertimos, mas adoraríamos nos divertir com você.

— É tão bonita e gostosa — Kendra falou. — Você não quer brincar um pouquinho?

— Nã-Não — gaguejei.

— Então, você vai nos dar quanto para ficarmos longe de você? Seja uma boa menina e nos dê uma boa proposta.

Eu ia dizer o valor, mas me lembrei de que estava sem dinheiro nenhum. O delegado tinha dito que todas nossas contas estavam bloqueadas, que nossos carros, imóveis, joias e obras de artes ficariam apreendidos até segunda ordem, eu não tinha nada.

— Olha, estou sem dinheiro agora, não teria como pedir para ninguém depositar nada para vocês, mas...

— Não, não nos venha com falsas promessas. — Valerie me calou. — Ou você nos da o que queremos, ou você vai ser nossa putinha.

Ela segurou no meu rosto, o apertando, fazendo minha cabeça se chocar contra as grades.

— Estou louca para provar uma garotinha rica, você deve ser muito gostosinha.

— Não, me solta! — Me debati em seus braços. — Socorro! — gritei pedindo por ajuda. — Soco... — Kendra tapou minha boca.

— Quietinha, vadia, só vamos nos divertir um pouco.

— Ei, o que está acontecendo aqui? — Ouvi a voz de um policial do outro lado das grades, as duas rapidamente me soltaram. — Vocês querem se meter em mais confusão? — ele indagou para aquelas mulheres terríveis. — Se irritarem o delegado vão se foder bonito, é melhor deixarem a nova convidada de vocês em paz, ela é de alto escalão, entenderam? Não toquem nela, não criem problemas para mim! — Com certeza ele não disse aquelas coisas para me proteger, foi só para livrar sua cara mesmo.

Dito aquilo ele se afastou, para meu alivio as duas se afastaram de mim também.

— Você deu sorte — Kendra falou, olhando para mim com desprezo. — Mas, é melhor tomar muito cuidado, Bonequinha.

Bonequinha? Meu coração apertou ao ouvir aquilo, eu precisava ver Edward.

***

Não dormi por um segundo, ou comi qualquer coisa durante o resto daquela quinta-feira. Apenas fiquei sentada naquela que era minha cama, perto do vaso sanitário, esperando a hora de deixar aquele lugar.

Valerie e Kendra tinham conversas estranhas, como também continuaram insinuando coisas nojentas para mim. Elas também comeram tudo que me foi servido de comida, quando eu recusei e não se importavam em usar o vaso, como eu tive de usar em certo momento.

Era humilhante, completamente humilhante.

Na sexta-feira de manhã, umas policias apareceram cedo para nos levar para uma sala de banho. Eu me senti um pouquinho melhor por serem mulheres, não que elas fossem mais doces que os caras, mas elas me davam uma sensação maior de segurança no meio daquela situação.

Era como o banheiro de um vestiário, mas sem divisórias, eu podia ver o corpo de qualquer uma das outras presas, como elas o meu. Foi o banho mais rápido da minha vida e não serviu para nada, eu continuava me sentindo suja, por dentro e por fora.

— Ei, princesinha, você tem visita do seu advogado! — um policial anunciou para mim depois que voltei à cela.

Eu me senti cheia de esperança naquele momento, Jenks tinha conseguido o Habeas Corpus, o que queria dizer que eu sairia daquele lugar asqueroso. Rapidamente e obedientemente, segui o policial para fora da cela, ele me levou para uma salinha pequena, com apenas uma mesa e cadeiras, onde Jenks esperava por mim.

A expressão dele varreu minha esperança para longe no mesmo instante, ele não parecia nada contente. Eu sentei na cadeira vaga, encarando minhas mãos algemadas.

— Não vou sair daqui, vou?

— Não hoje, nem amanhã ou domingo, Isabella — respondeu. — O juiz não quer dar seu habeas corpus, mas já entrei com outro pedido, vamos ser positivos de que semana que vem tenhamos um resultado melhor.

Ergui meu olhar para Jenks.

— Vou ser condenada?

— Vamos continuar trabalhando na sua defesa, quem sabe conseguimos uma pena reduzida por você nunca...

— Não tem jeito, eu vou ser mesmo condenada — o interrompi.

— Você tem muito lhe acusando — ele murmurou, olhando para o policial no canto da sala. — Se tivesse como provar que não sabia a real procedência daqueles documentos.

— Eu não sabia, juro que não sabia — afirmei.

— Lamento, mas é um argumento fraco — Jenks disse, suspirando, eu não consegui falar nada, já prevendo sair dali para um presidio de segurança máxima, sem nunca mais ter liberdade alguma. — Eu preciso ir agora, vou tentar me encontrar com um juiz agilizar o seu caso.

— Jenks, o meu avô, ele não deu noticia alguma? — consegui perguntar, aquela noite insone me fez pensar muito em vovô Marcus. Parte de mim ainda insistia em acreditar que ele era inocente também, mas se fosse por que teria fugido e me abandonado?

— Nada. — Jenks se levantou. — Seu pai e os Black continuam fora de radar também.

— Certo — concordei, tentando não começar a chorar ali mesmo. Billy Black tinha arrebentado com a minha cara, ameaçado todos ao meu redor e estava por ai solto, enquanto eu continuava presa naquele inferno.

— Você tem uma visita — Jenks falou para mim.

— Esme? Alice? — perguntei, eu queria vê-las, agradecer por estarem pagando os serviços de Jenks e tudo mais.

— Seu namorado. — Meu coração perdeu uma batida. — Tudo bem se ele entrar?

— Sim, por favor, sim! — clamei, sentindo o alivio dominar meu corpo.

Edward tinha voltado para mim, ele estava lá fora querendo me ver.

— Vou dizer que ele pode entrar — Jenks falou, recolheu sua pasta e partiu.

Fiquei com o olhar fixo na porta da salinha, esperando meu namorado surgir. Quando o policial abriu a porta para Edward entrar eu pulei da cadeira, correndo até ele, que rapidamente me apertou contra si, beijando minha cabeça.

— Você está aqui — comemorei. — Você voltou para mim, Garoto do Brooklyn!

— Nunca deixaria você, Bonequinha. — Ele segurou meu rosto, fazendo com que eu o beijasse.

Por um instante parecia que tudo tinha voltado ao normal, mas sabia que era só ilusão da minha mente entorpecida pelo cheiro, toque e beijo de Edward.

— Precisamos conversar — anunciou quando o beijo chegou ao fim, olhei para seus olhos, completamente sérios.

— O que aconteceu agora? — perguntei tensa, temendo o que viria em seguida.

— Vem, melhor você se sentar. — Ele me conduziu até a cadeira que eu estava antes, fazendo com que eu ficasse ali. — Como você está? — perguntou, sentando na outra cadeira, seu olhar percorrendo meu rosto ferido. — Aquele filho da puta, olha o que ele fez com seu rosto, Bonequinha! — exclamou enraivecido.

— Edward, o que tem para me falar? — mudei de assunto, sem querer me lembrar de toda a agressão de Billy.

Edward respirou fundo.

— Preciso que acredite em tudo que vou te dizer, Bella — ele pediu, eu concordei com um aceno de cabeça. — Também precisa saber que eu não sabia nada sobre tudo isso, descobri ontem depois que você foi presa, como também não contei para mais ninguém. Eu pedi que Esme e Alice me deixassem te visitar hoje, pois tinha algo de importante a dizer para você.

— Edward, você está me assustando — sussurrei.

— Por favor, não surte — ele continuou pedindo. — Se lembra que falei que meu pai trabalhava para Organização Higginbotham, não lembra?

— Lembro, claro que lembro, mas onde quer chegar com isso?

— Me escute. — Edward segurou minhas mãos, seus olhos passeando pelas algemas. — Meu pai tinha um amigo no trabalho, Charlie Swan.

O nome brilhou em minha mente, mas não sabia o motivo.

— Um dia, durante uma inauguração de uma obra, sua mãe acompanhou seu avô. — Edward olhou nos meus olhos. — E ela conheceu Charlie, o amigo do meu pai.

Charlie.

Eu sabia quem era Charlie, o cara que namorou minha mãe depois do namoro dela com Phill.

— E-Eu sei quem é Charlie — falei, Edward me olhou confuso.

— Você sabe? — indagou.

— Sei, Phill esteve no hospital na quarta, ele mencionou esse tal de Charlie que namorou a mamãe. Quando perguntei isso para Renée ela me contou ao seu modo que Charlie tinha morrido, ela pareceu bem mal com isso. Quer dizer que Charlie foi um operário como seu pai?

— Bella, Charlie não está morto — Edward declarou.

— Mas, a mamãe...

— Ele está vivo, Bonequinha, acredite em mim. — Edward tirou suas mãos das minhas, pegando algo de seu bolso. Era uma foto, ele a estendeu para mim.

Reconheci Elizabeth e minha mãe, quando mais novas, na fotografia. Na foto ainda estava um bebê fofo que eu tinha quase certeza de que era Edward, como um homem desconhecido para mim.

— Esse é o Charlie Swan, Bella, ele e sua mãe namoraram — Edward continuou falando. — Sua mãe foi muito amiga dos meus pais, pelo que soube eu a adorava.

— Onde essa história vai acabar, Edward? — perguntei baixinho, temerosa.

— Quando seu avô descobriu sobre o namoro deles dois, ele quase matou Charlie. — Abri a boca em choque, sem conseguir processar aquela informação direito. — O meu pai apareceu e conseguiu salvar Charlie, mas minha família e o Swan foram ameaçados por seu avô, para que nenhum deles voltasse a chegar perto da sua mãe.

Eu tremia, enquanto segurava a foto. Aquilo tudo ainda estava confuso e insano demais, minha mãe tinha namorado um amigo dos pais de Edward, ela o conheceu quando ele era apenas um bebê e meu avô quase matou Charlie?

— O que mais? — consegui perguntar.

— Seu avô deve ter feito Renée acreditar que Charlie estava morto, por isso ela te disse que ele estava — ele falou.

— O que mais? — repeti a pergunta.

— Minha mãe e Charlie acreditam que você não é filha do embaixador.

Encarei Edward, esperando o resto.

— Há grandes chances de você ser filha do Charlie, Bonequinha.

— Não — murmurei, largando a foto como se tivesse levado um choque. — Não, Edward, não!

— Bella, por favor...

— Não! — exclamei mais alto. — Você quer que eu acredite que minha mãe mentiu sobre minha paternidade por quase vinte anos?

— Se ela fez isso foi para te proteger, Bella — Edward falou, lançando um rápido olhar para o policial. — Seu avô tentou matar Charlie.

— O meu avô não é um assassino! — teimei.

— Você está presa por culpa dele, não está? — Edward rebateu, fazendo com que eu me encolhesse. — Eu sei que você o ama, Bella, mas ele não é o santo que você pensou que fosse, ele é um monstro, ele tentou matar Charlie, ele... — Edward se calou, colocando a cabeça entre as mãos.

— Ele o que? — indaguei.

— Eu não acho que você está pronta para saber o resto, Bonequinha.

— O quê? Vai me dizer que ele matou quem? — Bufei. — Ele não é um assassino.

— Mas ele pagava mulheres para ter sexo com ele — Edward disse, com a voz cheia de seriedade. — Minha mãe foi uma dessas mulheres. — Eu parei de respirar. — E ela engravidou dele, Bella.

O inferno devia ser mais calmo do que aquilo, certamente.

— Ela abortou? — me forcei a perguntar, Edward negou com um aceno de cabeça.

— Você? — perguntei, sentindo meu rosto se encher de lágrimas com a ideia de Edward ser meu tio, um parente, aquilo não podia acontecer de jeito nenhum.

— Clarisse — Edward sussurrou. — Ela é filha do Marcus, do seu avô, é sua tia.

— Sua mãe está mentindo! — gritei, não conseguia acreditar em nada daquilo, mas no fundo estava aliviada de não ser Edward.

— Ela não está, Bella.

— Vá embora, Edward — implorei, jogando a foto sobre a mesa para ele. — Você não pode vir aqui e ficar contando essas mentiras, eu não aguento, não posso acreditar nisso.

Edward deixou a cadeira, dando a volta até se ajoelhar ao meu lado.

— Me desculpe por ser o emissário de tantas verdades duras, Bella, mas eu precisava te contar tudo — ele falava, afagando meu braço e rosto. — Charlie está vindo para New York, ao meu pedido, eu vou entender caso não queira conhecê-lo, mas ele pode ser seu pai. Mamãe falou que vocês tem os mesmos olhos castanhos, podemos ver um pouco disso na foto. — Ele colocou a fotografia nas minhas mãos novamente, eu me recusei a olhar para aquilo, encarando apenas a parede. — Amo você, Bonequinha. — Beijou minha bochecha molhada por lágrimas.

— Também amo você, Garoto do Brooklyn — falei, virando meu rosto para beijá-lo.

— Hora de ir! — o policial anunciou antes do beijo se aprofundar.

— Isso tudo não pode ser verdade, Edward — eu murmurei, ele me olhou com pena, o que odiei, limpando as lágrimas da minha face.

— Vamos conversar melhor sobre tudo isso quando você sair.

— Não vou sair daqui, eu nunca mais vou sair daqui — falei entre o choro desesperador que me assolou.

— Você vai, Bonequinha — ele disse com convicção. — Quando sair daqui eu vou te levar para casa comigo.

— Você vai? — perguntei surpresa, Edward me lançou um sorriso torto.

— Sim, venha morar no Brooklyn, cuidarei de você.

Eu lhe beijei mais uma vez, agradecida pelo o que ele estava fazendo.

— Confia em mim, Bonequinha?

— Sempre. — Afaguei seu rosto. — Eu mal vejo a hora de ir para o Brooklyn com você.

Notas finais
Beijos! Lola Royal. 20.08.17