Sob minha Pele
37 Capítulo Trinta e Seis
Notas iniciais
— Capitulo Trinta e Seis —
— Edward —
Era tão bom ter Bella em meus braços, mas ainda não era o suficiente, não enquanto ela continuava sendo mantida presa naquele lugar. Ela precisava sair, eu tinha de levá-la para um local seguro, para o Brooklyn, para casa.
— Hora de ir! — o policial repetiu, depois de Bella falar que queria ir para o Brooklyn comigo.
Não foi algo planejado detalhadamente, eu só sabia que a queria por perto. Eu a amava, ela me amava, nos tínhamos de ficar juntos e o Brooklyn seria nosso refúgio, pelo menos eu torcia por isso desesperadamente, precisando de um pouco de paz novamente em minha vida.
Também queria que ela tivesse sossego, ela precisava daquilo mais do que eu. A vida de Bella tinha mudado de forma muito abrupta, o peso nas costas dela era algo que sabia que nem eu podia carregar por ela, mas faria de tudo para ajudá-la a suportar.
— Eu te vejo em breve — sussurrei para ela, beijando delicadamente seu rosto, com medo de machucá-la mais do que Billy Black já tinha feito.
— Por favor, não desiste de mim — sussurrou de volta.
— Nunca — prometi, olhando para a foto que ainda estava em suas mãos algemadas. — Fique com isso.
— Não, eu não quero! — ela tentou largar a fotografia, mas não permiti.
— Bella, você precisa acreditar.
Ela suspirou alto.
— Ninguém mais sabe sobre essa loucura toda?
— Não — respondi. — Mas, talvez...
— Os Cullen precisem saber — ela completou minha fala.
— Sim — concordei. — Charlie está vindo. — Bella engoliu em seco ao ouvir aquilo. — Os Cullen e ele acabarão se topando em algum momento, será mais fácil se souberem.
— Conte — Bella disse por trás das lágrimas que ainda deslizavam por sua face. — Vá em frente, conte para quem achar necessário contar.
— Terceira e última vez, hora de ir! — o policial tornou a repetir, soando completamente sem paciência.
Olhei para Bella, vendo meu desespero refletido em seus olhos. Ela não queria ficar, eu não queria ir. Se fosse possível eu assumiria a prisão no lugar dela, poderia passar anos preso, mas suspeitava o quão tenebroso aquilo estava sendo para ela. Bella não suportaria muito mais, ela precisava sair logo.
— Brooklyn — murmurei para ela.
— Brooklyn — ela repetiu baixinho, concordando com um aceno de cabeça.
Eu beijei sua testa, então me coloquei de pé. Deixá-la para trás doía, porém me vi obrigado a caminhar para longe dela, mas meu coração continuava com Bella, era o lugar a qual ele pertencia.
***
Encontrei com Alice e seus pais numa cafeteria próxima a delegacia, onde eles tinham dito que estariam mais cedo. Eu tinha pedido a eles que me deixassem ser a pessoa visitando Isabella, já que precisava contar todas aquelas verdades a ela.
Os Cullen estavam em uma mesa no canto do local, todos quietos demais, mas ainda assim parecendo confortáveis com o silêncio. Eu me aproximei deles, tomando um lugar na cadeira vaga, os três me olharam apreensivos.
— Como ela está? — Carlisle me perguntou.
— Nada bem. — Suspirei, puxando meus cabelos, na vã tentativa de fazer minha cabeça parar de doer. — Ela continua muito confusa com tudo isso.
— É compreensível, o mundo dela desabou — Esme disse sabiamente. — Ela falou algo mais sobre o avô?
— Aquele homem desprezível! — Alice disse entre dentes, encarando sua xícara de café. — Eu mal vejo a hora de ele ser preso, ou de vê-lo morto.
— Alice! — Esme chamou a atenção dela, fazendo uma careta.
— Poupe-me, mamãe, não me peça para ser gentil sobre aquele homem — Alice exigiu, raivosa. — Por culpa dele Bella está presa, eu mesma o mataria se o visse na minha frente.
— Alice, filha, sei que esta com raiva do Higginbotham, todos estamos, mas não fale esse tipo de coisa — Carlisle pediu para a filha. — Não se iguale a esse homem, ele teve a coragem de colocar a própria neta em maus lençóis, sabe-se lá o que mais pode ter feito.
— Eu sei — murmurei, os três voltaram a me olhar.
— Desculpe? Do que está falando, Edward? — Esme perguntou confusa.
— Eu sei sobre algumas coisas a respeito de Marcus Higginbotham — sussurrei. — Descobri ontem, acabei de contar para Isabella e ela me permitiu dividir com vocês.
— Oh Deus, seu tom de voz não soa nada bom — Esme disse nervosa, apertando o braço do marido. — O que você descobriu? Algo sobre o paradeiro dele?
— Não, não sobre isso —neguei. — Algo sobre o passado dele, que envolve Renée, envolve Bella também.
Alice prendeu a respiração, eu podia sentir a tensão emanando dela.
— Presumo que seja uma longa história — Carlisle disse, eu assenti. — Vamos pedir por um café para você, Edward — ele chamou a garçonete. — Algo em especial.
— Apenas canela — pedi, pensando em Bella, em como queria poder dividir aquele café com ela.
***
Os Cullen ficaram, obviamente, chocados com toda a história. Eu contei tudo que sabia, o namoro entre Charlie e Renée, a surra que ele levou de Marcus e quase ter sido morto, o fato da minha sogra acreditar que ele estava mesmo morto, por fim falei sobre minha mãe. Hesitei sobre aquilo, mas acabei contando e a cada palavra proferida em voz alta sobre aquele assunto ele se tornava mais real.
Minha irmã era uma Higginbotham, ao menos no sangue. Tia de Bella, irmã de Renée, filha do maior monstro que eu conhecia. Não monstros como aqueles de pesadelos, sim um real e que estava à solta, podendo a qualquer momento voltar e causar mais caos.
Talvez Alice estivesse certa, eu também acabaria matando Marcus com minhas próprias mãos se o tivesse diante de mim. Seria o fim de todo aquele sofrimento? No fundo eu sabia que não, mas gostava de sonhar que seria tão fácil assim.
— Como sua mãe está, Edward? — foi a primeira coisa que Esme perguntou após ouvirem a história.
— Bem, na medida do possível. — Dei de ombros.
Esme suspirou alto, olhando para a filha diante de si, parecendo perdida em seus pensamentos.
— Ela foi uma mulher muito forte, querido, por ter aguentado tudo isso por tantos anos por você e por sua irmã. — Voltou a olhar para mim. — Eu não sei se seria capaz de suportar tanto, sua mãe com certeza é uma guerreira.
— Eu sei — concordei, olhando para o resto do meu café. — Ela fez muito por mim e por Clarisse.
— Nós ajudaremos em tudo que for necessário, Edward. — Senti o aperto da mão de Carlisle em meu ombro, o que fez com que eu o olhasse. — Sua mãe com certeza deve estar muito aflita diante essa situação toda, nós a ajudaremos.
— Ela é muito cabeça dura, não vai querer ser ajudada, fora que ainda tem o marido babaca a tiracolo.
— Como vão contar isso para Renée? — Alice perguntou preocupada. — Ela está em uma situação delicada, pode surtar quando descobrir sobre Bella, Charlie e Clary.
— Melhor irmos com calma — Carlisle falou. — Ontem eu disse a ela que Bella estava ocupada, por isso não foi a visitar, vamos continuar sustentando essa mentira até ela deixar a prisão.
— Eu posso visitá-la? Renée, quero dizer — falei.
Depois de ter descoberto tudo aquilo, eu queria muito vê-la, não mais por ela apenas ser a mãe da minha namorada, mas por eu a ter conhecido quando era um bebê. Além do mais, ela tinha sido amiga dos meus pais, ela conheceu meu pai e eu sentia tanto a falta dele, talvez estar com Renée fosse um acalento como era estar com minha mãe.
— Tem certeza? Ela estranhará você estar lá e Bella não — Carlisle falou.
— Eu preciso — disse assentindo. — De verdade, vou ser o mais cuidadoso com minhas palavras, não vou mencionar Charlie ou Clarisse, também acho que ainda é cedo demais para jogar tantas bombas no colo de Renée.
— Certo — Carlisle concordou. — Você pode ir visitar ela pela manhã.
— E quando Charlie chegará a New York? — Esme perguntou.
— Na segunda feira de manhã, ele vai pegar um ônibus hoje à noite saindo de Seattle, que fica perto da cidade onde ele vive em Washington — contei.
Minha conversa com Charlie, no dia anterior, não tinha sido muito longa. Depois do contato inicial, eu pedi que ele conseguisse ir para New York o mais rápido que conseguisse e ele disse que estaria num ônibus logo na noite daquela sexta feira e disse que ligaria para meu celular da próxima vez, mas sem ter seu número como um desconhecido.
— Talvez ele possa ficar lá em casa — Carlisle sugeriu. — Ou podemos pagar um quarto de hotel para ele.
Eu neguei com um aceno de cabeça, pelo pouco que minha mãe se permitiu falar após o fim da minha ligação com Charlie, fiquei sabendo que ele era um homem simples que trabalhava com pesca na sua cidade. Não achava que ele fosse aceitar a proposta de Carlisle, nenhuma das duas.
— Vamos ver — foi tudo que falei. — Só espero que ele não deixe Bella pior do que ela já está.
— Bom, ele parece um homem melhor do que o embaixador — Esme disse, apoiando a cabeça no ombro de Carlisle. — Talvez, quando tudo isso acabar, Bella se sinta melhor por não ser filha daquele homem que também está por ai fugindo, mas de Charlie.
— Mas ela sempre vai ser a neta de Marcus — Alice sussurrou. — Isso soa como um castigo.
— Alice! — Esme chamou a atenção dela de novo, olhando rapidamente de mim.
— Desculpe, Edward — Alice pediu para mim. — Pelo que já vi da sua irmã ela é um doce, com certeza não tem nada daquele homem nojento.
— Ela com certeza não tem.
— Sua mãe pretende contar a verdade para sua irmã?
— Não — respondi para Carlisle. — Minha mãe não queria contar isso de jeito nenhum, mas Clary merece saber a verdade, não sei quando, mas ela merece.
Carlisle assentiu.
Minha mãe já tinha ficado muito irritada por eu ter ligado para Charlie, recusando se até mesmo a falar com ele. Então, depois da minha aparição na casa dela, eu lhe dei um tempo e não fiquei forçando aquele assunto, apenas fiquei algumas horas com ela e Clary e fui embora antes de ter o desprazer de ver Richard.
— Não sei quanto ao Charlie, mas Bella irá para casa com a gente — Alice proclamou decidida, voltando ao assunto anterior, depois de um tempo de silêncio.
Voltei meu olhar para ela, então para seus pais.
— Bella aceitou ir para o Brooklyn comigo — contei, Esme sorriu, parecendo gostar do que ouviu, mas Carlisle franziu o cenho.
— Você cuidará dela, não é, Edward? — seu questionamento era sério, era como um pai preocupado com a filha. Soube ali que não importava Caius, ou Charlie, nem mesmo Marcus, Bella sempre teria os Cullen.
— Eu irei, Carlisle — prometi, o homem concordou, parecendo convencido.
— Ela precisa de suporte — ele proclamou.
— Ela com certeza precisa — Esme fez coro. — Mas é uma garota forte, vai se manter de pé. — Ela continuou sorrindo pra mim. — Estou muito feliz que vocês dois estão sendo fortes juntos, Edward.
Sorri de volta para Esme, mas meu olhar se perdeu no reflexo da televisão na vidraçaria da cafeteria. Eu olhei para trás, onde atrás do balcão o aparelho de tv ficava, lá estava uma foto de Marcus Higginbotham, com a manchete embaixo anunciando que ele continuava foragido.
Ele precisava ser encontrado, logo. Como também precisava tirar a neta dos problemas nos quais a colocou, ele tinha de fazer isso, ele precisava salvá-la.
***
Não demorei muito para deixar Manhattan, uma vez que não tinha nada mais para fazer lá, eu podia voltar para o Brooklyn. Segui diretamente para meu apartamento, talvez eu conseguisse dormir um pouco, já que na noite anterior não tinha dormido nada.
Eu entrei no apartamento e logo vi Arthur e Rosalie se pegando no sofá, o líder de torcida já estava sem a camisa, deitado por cima da minha amiga. Pigarrei, chamando a atenção deles. Ela corou, parecendo culpada, mas o fotografo parecia muito contente, ainda assim ele teve a decência de pegar sua camiseta e vesti-la.
— Ei, como Bella esta? — Rose perguntou, prendendo o cabelo num coque, fingindo que não tinha sido pega no flagra com Arthur, levando em conta que ela estava o ignorando desde a volta de Hamptons.
— Nada bem — respondi. — Olá Arthur!
— Oi, Edward! — Arthur falou comigo, seu sorriso morrendo aos poucos. — Sinto muito por toda essa loucura envolvendo a Bella, deve estar sendo bem difícil para você, algo que eu possa ajudar?
— Não por enquanto, ao menos. — Fiz um gesto de deixa para lá com a mão. — O que esta fazendo mesmo aqui Davis?
Rose corou ainda mais.
— Eu vim dar uma volta pelo Brooklyn — ele falou, olhando pela janela. — Estou pensando em alugar um apartamento por aqui.
— Ótimo, Rose vai ter o namoradinho dela por perto — brinquei, mas brincar era difícil, eu não conseguia me sentir cem por cento, nem mesmo cinquenta por cento, feliz.
— Muito engraçado, Masen! — Rosalie reclamou, cruzando os braços.
— Se assumam logo — pedi, revirando os olhos.
— E Bella? — Rose mudou de assunto novamente.
— Nada do habeas corpus ainda. — Meus ombros caíram. —– Ela terá de passar o fim de semana lá. — Rose e Arthur fizeram caretas parecidas.
— Vi o jornal mais cedo, ninguém ainda achou o avô dela, o pai ou os Black — Arthur comentou.
— Aqueles Black são tão idiotas, Edward contou que o pai do Jacob bateu em Isabella! — Rosalie contou para Arthur, com fúria em sua voz.
— Ele fez isso? — Arthur perguntou, também parecendo irritado ao descobrir aquilo.
— Fez — confirmei, engolindo em seco ao pensar em Bella machucada.
— Edward, o que mais você sabe? — Rosalie perguntou, me olhando atentamente.
Respirei fundo, olhando para Arthur ao seu lado.
— Hum, vocês querem que eu saia? — ele perguntou, fazendo menção de se levantar.
— Não! — Rose exclamou alto, segurando no braço dele, fazendo com que ele se mantivesse no sofá. — Podemos confiar no líder de torcida, Edward — falou para mim, dando um sorriso pequeno, mas sincero.
Eu fiquei feliz por ela, pelo menos minha melhor amiga estava tendo mudanças positivas em sua vida.
— É uma longa historia — falei, tomei folego e contei mais uma vez o que sabia.
***
Eu tinha dormido depois que contei a tudo para Rosalie e Arthur — que como imaginei também ficaram surpresos com a história —, mas dormi tanto que acabei acordando tarde para o trabalho. Rose, que não queria me deixar sozinho depois de tudo que ouviu, também acabou se atrasando e nosso chefe estava com uma cara péssima quando o encontramos na boate, que estava quase na hora de ser aberta.
— Vocês não tem a droga de um relógio? — Alistair gritou quando nos viu, cruzando o caminho até a gente, furioso.
— Foi mal, não vamos nos atrasar mais — Rose falou rapidamente, adoçando sua voz para tentar amolecer o coração do loiro.
— E você? — Alistair se voltou para mim. — Além de eu te dar dias de folga, você ainda faltou ontem do nada alegando estar com a porra de uma gripe? Conta outra, Masen, você com certeza não estava doente coisa nenhuma.
Respirei fundo, apertando a ponta do meu nariz, sem paciência alguma para ouvir sermões dele, ou de qualquer outra pessoa.
— Foi mal, chefe — eu pedi. — Não vai se repetir. — Minha maior vontade era mandá-lo se foder, dar meia volta e deixar a droga daquela boate, mas eu precisava do dinheiro que recebia dali.
— Melhor mesmo que não se repita! — Alistair exclamou. — Se acontecer de novo você está na rua, Edward. — Depois disso ele seguiu caminho até outros funcionários, provavelmente querendo destilar mais raiva.
— Eu quero tanto cair fora dessa bosta de lugar — falei com ela, seguindo para trás do balcão para que pudéssemos começar tudo lá.
— Nem me fala — ela sussurrou de volta para mim. — Um dia, quem sabe. — Olhou para mim, com esperança no seu olhar. — A gente só vai lembrar dessa droga de boate quando vierem nos entrevistar para nossa biografia.
Eu ri, por um segundo sentindo-me leve.
— Bella estará com você — Rose acrescentou, afagando meu braço. — Ela será inocentada.
Sorri, mas não tão confiante sobre aquilo. Me inclinei e beijei a cabeça de Rose, que me abraçou por um segundo, antes de me empurrar e ordenar.
— Agora chega de papo furado, vamos trabalhar, ainda somos meros funcionários.
— Eu estou compondo — falei para ela em um sussurro. — Desde Hamptons. — Ela me olhou surpresa. — O sonho da The Dragons ainda está vivo.
***
No dia seguinte, como combinado com Carlisle, fui para o hospital visitar Renée. Tanto ele como Esme estavam trabalhando, então foi fácil ter acesso ao quarto da mãe de Bella, mas eu não pude deixar de perceber o quão redobrada a segurança do local estava.
Não era uma surpresa, no final das contas, já que Renée era uma Higginbotham e com o pai dela sendo um fugitivo, era de se esperar que todos temessem a aparição dele ali. Além do mais, Jenks tinha dito para os Cullen, que falaram para mim, sobre as ameaças que Billy Black tinha feito a Bella e todos ao redor dela.
— Tente não a desgastar, Edward — Esme pediu, pouco antes de eu entrar no quarto. — Ela está muito debilitada ainda.
— Eu prometo cair fora se ela ficar agitada demais. — Ela assentiu, deixando com que eu fosse até Renée.
A mulher estava acordada, olhando para uma das paredes laterais a porta. Seu olhar era perdido, ela estava visivelmente preocupada com algo, mas também cansada.
— Renée? — chamei por ela.
Sua cabeça virou lentamente para me olhar, então vi seus olhos claros receberem um brilho feliz ao me verem. Bella podia — talvez — ter herdado os olhos castanhos de Charlie, mas o brilho nos olhos de Renée aquela manhã foi como olhar para o brilho feliz que Bella tinha em outros tempos.
— Ed — ela se esforçou para falar.
Sorri para ela, contente em ouvi-la dizer algo, aquilo era algo excelente no meio de tudo que estava acontecendo.
— Oi, oi Renée. — Me aproximei de sua cama, tomando sua mão na minha. Seu toque era frio e tremulo, eu afaguei sua pele fina, na tentativa de aquecê-la.
— Bel — Renée chamou pela filha.
— Ela está bem — menti, era terrível ter de mentir para Renée, mas sabia que necessário. — Eu prometo que estou cuidando de Bella, Renée. — Beijei sua testa, ouvindo o choro baixo partindo dela. — Não, não chore, por favor — implorei.
— Ed, Bel — Renée insistiu, com certa dificuldade levou a outra mão até seu peito. — Bel, mi, Bel.
— Sua Bella? — Ela concordou com um aceno de cabeça.
— Co. — Apontou para o lugar onde seu coração batia.
— Coração? — Arrisquei. — Você está sentindo alguma dor? — Ela negou, suspirando, voltando a olhar para a parede, antes de tentar falar novamente, em um sussurro, mas daquela vez com clareza.
— Lizz.
Eu soltei o ar que nem sabia que estava segurando.
— Renée? — Ela me olhou, com temor em seus olhos. — Eu gostei muito de saber que você e eu já nos conhecíamos de antes. — Renée parou por alguns instantes, mas sorriu e apertou minha mão.
— Ed — falou, eu podia ouvir a sentença de carinho em sua voz. — Lizz? Ed Lizz.
— Sim, Edward Masen — confirmei, ela provavelmente já suspeitava disso de antes, uma vez que eu era bem parecido com minha mãe. — Filho de Edward e Elizabeth. — Lágrimas deslizaram pelo rosto de Renée, mas ela manteve o sorriso.
— Lizz. — Renée respirou fundo antes de continuar a falar. — Bem?
— Ela está bem — garanti.
— Pai? — Renée apertou minha mão novamente. — Mor...
— Morto? — Ela assentiu. — Sim. — Engoli em seco ao responder, Renée teve seu rosto tomado por uma expressão triste. — Mas, estou muito feliz que conheci uma amiga dele. — Ela sorriu brevemente. — Eu sei que você sabe que meu pai era um cara fantástico, eu prometo ser bom para Bella como ele era para minha mãe, Renée. — Beijei sua testa mais uma vez.
— Bel — Renée disse torturada.
— Ela logo estará aqui, Bella te ama, ela gostaria que você soubesse disso.
***
Eu fiquei até o meio da tarde com Renée naquele sábado, aproveitei alguns livros de artes que Bella tinha deixado lá e os li para minha sogra. Ela parecia se esforçar para se concentrar naquilo, mas sabia que assim como eu, Renée também tinha sua mente voando até a filha dela a todo instante e ela sequer sabia o que realmente estava acontecendo.
Quando ela adormeceu, eu parti de volta para o Brooklyn, querendo passar algum tempo com minha mãe e irmã, antes de ir para o trabalho. Porém, para meu total desagrado, o imprestável do Richard estava lá.
Eu tinha batido na porta e mamãe apareceu para me recepcionar, pelo seu olhar já pude saber que tinha algo lhe deixando nervosa, então vi o seu marido na sala, rodeado por garrafas de cerveja, enquanto assistia a um jogo qualquer na televisão. Minha irmã estava sentadinha no chão, desenhando, mas ela também não parecia nada contente.
— Ei, Baixinha! — chamei por Clary, que quando me viu sorriu e correu para mim, deixando com que eu a pegasse no colo prontamente.
— Olha só o bastardo de merda esta aqui! — Richard gritou, com sua fala enrolada por conta de toda a bebida que já tinha consumido.
— Cala a boca, seu...
— Edward, não, por favor — mamãe implorou, soando exausta, segurando em meu braço. — Podemos conversar só nos dois?
— O que você quer conversar sozinha com o bastardo, Elizabeth? — Richard inquiriu, em sequência soltando um alto arroto, Clarisse no meu colo se encolheu, escondendo o rosto na curvatura do meu pescoço.
— Nada demais, Richard, eu juro — mamãe falou, a submissão e o temor eram duas coisas presentes em sua voz. — Pode continuar assistindo ao jogo, não iremos te atrapalhar.
— Acho bom! — ele resmungou, colocando os pés em cima do sofá, coçando a barriga por cima da camisa. — Clarisse, vá pegar mais uma cerveja para mim.
Eu queria matá-lo, eu queria muito aquele homem longe da minha mãe e da minha irmã.
— Vou buscar para você — mamãe se prontificou, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ela rapidamente voltou com a cerveja, entregando-a para o babaca do seu marido. — Aqui, aproveite. — Então se voltou para mim. — Vem, Edward.
Hesitante eu tirei Clary do meu colo, odiando a ideia de deixá-la mesmo que por alguns minutos perto daquele homem. Mas, ainda assim a coloquei no chão e fui atrás da minha mãe ate o único quarto do apartamento.
— Charlie está mesmo vindo? — ela perguntou baixinho quando entramos no quarto.
— Está — confirmei. — Ele deixou Seattle ontem, já está vindo.
— Isso é uma péssima ideia, Edward — afirmou. — Marcus pode estar de olho na gente agora mesmo, se ele souber que não estamos cumprindo com a promessa de ficar longe de Bella e Renée...
— Eu não fiz promessa alguma para Marcus Higginbotham, mãe — a lembrei daquilo. — Fiz uma promessa a você que ficaria longe de Isabella, mas isso já se quebrou há muito tempo, a promessa que estou cumprindo agora é a de ficar ao lado da minha namorada, não vou deixá-la para trás.
— Edward. — Mamãe passou a mão pelo rosto, muito aflita.
— Estive com Renée hoje — contei, os olhos verdes de mamãe que eu tinha herdado se voltaram para mim. — Ela sabe quem sou, se lembra de você e do meu pai. — Vi um sorriso tomar conta do rosto da minha mãe, então ela se abraçou, parecendo muito vulnerável.
— Eu sinto falta de Renée — confessou. —– Ela era doce, gentil, ela te mimava, mas te amava verdadeiramente, eu sei disso. — Limpou uma lágrima que deslizou por seu rosto. — Sinto tanta falta da minha amiga.
— Você pode vê-la, em breve — falei esperançoso. — Nós vamos passar por tudo isso, mãe, eu prometo.
Ela respirou fundo, andando até mim para me abraçar forte.
— Estou com medo, filho.
— O papai diria para a gente não ter medo, mãe.
***
Eu já estava na rodoviária uma hora antes do horário marcado para a chegada de Charlie, simplesmente não conseguia ficar parado em casa, esperando o tempo passar sem fazer nada. Queria poder estar com Bella, mas Esme queria muito vê-la e deixei com que ela fosse a visitante, afinal ninguém teve permissão para visitar Bella durante todo o fim de semana.
Esme tinha prometido me avisar sobre qualquer novidade a respeito do habeas corpus, então eu tinha meu celular em mãos, esperando uma das ligações mais importantes da minha vida. Precisava da minha namorada longe daquele lugar, mas temia que se o segundo habeas corpus também fosse recusado, ela nunca mais sairia de lá antes de ser julgada.
Olhei mais uma vez para o celular, mas nenhuma ligação ou mensagem perdida se encontrava ali. Olhei para o telão na rodoviária que informava os ônibus partindo e os que chegavam, para meu alivio pelo menos aquilo tinha uma novidade para mim, o ônibus vindo de Seattle tinha acabado de chegar.
Eu me dirigi até o portão de desembarque, por onde os passageiros sairiam. Tentava reconhecer Charlie no meio daquelas pessoas, usando a imagem que eu tinha mente dele naquela fotografia antiga como uma referência.
Por fim o reconheci, obviamente mais velho, com um bigode sobre os lábios e olhar cansado. Lá estava Charlie Swan, amigo dos meus pais, meu padrinho, ex-namorado de Renée e possivelmente pai de Isabella.
Ergui minha mão, acenando para ele, Charlie — que carregava uma pequena mala de mão — logo me viu, desviando seu caminho até mim. Eu estava muito nervoso, mais do que acharia que ficaria ao ver aquele homem.
— Edward. — Ele parou diante de mim.
Paralisei.
Não era necessário um teste de DNA, não quando olhar para os olhos de Charlie faziam com que eu pensasse imediatamente nos de Bella. Era a única coisa física em comum entre os dois, mas era uma característica forte. Os olhos castanhos em um tom de chocolate, que por algum tempo Isabella tinha escondido por trás de lentes azuis, eram os olhos do pai dela.
— Char-Charlie — gaguejei, pigarreando e estendendo a mão para ele. — Bom te conhecer.
— Já nos conhecemos, garoto — Charlie disse, soava nervoso também, mas forçou um sorriso e apertou minha mão com segurança.
— É, claro. — Assenti. — Fez boa viagem?
— Foi uma merda, deixe-me ser sincero — falou, mas deu de ombros. — Mas tanto faz, finalmente estou de volta a New York. — Olhou ao redor, para a loucura de pessoas que era naquela rodoviária. — Não venho aqui há anos.
— Você nunca voltou, não e?
Os olhos dele, os olhos que só me faziam pensar em Isabella, se prenderam em mim.
— Não, eu gostaria muito de ter vindo quando seu pai... — Ele engoliu em seco, calando-se. — Não, não venho aqui desde que fui embora tantos anos atrás.
— Você acha que podemos conversar um pouco? — eu perguntei.
— E Isabella? E Renée? — Charlie perguntou, tão mais nervoso, como se sua viagem até ali não estivesse completa ate ver as duas, mas ai percebi que não estava mesmo.
— Logo mais você as verá — prometi, mesmo que soubesse ser uma mentira, não sabia se Bella ia querer ver ele e não sabia se ela deixaria com que ele visse Renée.
— Tudo bem — Charlie cedeu. — Que tal um café?
— Tanto faz, eu não acho que sou capaz de tomar ou comer qualquer coisa agora — declarei, indo até a cafeteria que ficava dentro da rodoviária, com Charlie ao meu lado.
Aquilo era tão estranho, ele provavelmente era o pai da minha namorada.
Nos sentamos a uma mesa pequena, ele pediu café para nos dois e um sanduiche para si. Mas, Charlie não parecia mais interessado na comida do que eu, já que mal tocou no seu pedido.
— Como ela reagiu? — Charlie perguntou para mim, mexendo nas mangas de sua camisa xadrez velha, ele usava também uma calça jeans surrada e sapatos brancos encardidos, na cabeça, tapando os cabelos negros, um chapéu de time de beisebol.
— Ela não acredita.
Charlie assentiu, mas seu olhar era triste.
— Alguma previsão de quando ela deixará a cadeia? — Ele tinha o rosto preso em uma expressão torturada.
— Estamos esperando o resultado do novo habeas corpus. — Olhei mais uma vez para meu celular, mas não tinha nada novo lá. — Aliás, como você conseguiu meu número para passar aqueles trotes?
— Hum, não eram trotes, eu só não tinha coragem de falar — Charlie disse envergonhado. — Foi pela internet, Lizz uma vez me disse que você estava com uma banda, que estava até colocando anúncios na internet para contratarem vocês para shows, achei o anúncio que tinha seu número.
Aquilo fazia quase um ano, Charlie estava mesmo empenhando em falar comigo.
— Você devia ter falado algo, Charlie.
— Você acreditaria na verdade saindo da boca de um completo estranho?
Pensei naquilo, obtendo minha própria resposta.
— Provavelmente não.
Ficamos em silêncio por um tempo, que foi absurdamente desconfortável.
— Sinto muito pelo seu pai — Charlie sussurrou. — Edward e eu éramos melhores amigos, ele me salvou uma vez, gostaria de poder ter o salvo também.
Respirou fundo, encarando a tampa da mesa.
— Você não podia fazer nada, foi um acidente. — Por mais que no fundo eu quisesse um culpado por aquilo tudo, pelo fato que mudou minha vida por completo, não tinha ninguém a quem culpar. A pessoa responsável pela roteirização da vida só era uma grande piadista, de mau gosto.
— Eu sei, mas você não merecia ter perdido seu pai sendo apenas um garoto. — Charlie respirou fundo outra vez. — Eu estive no telefone com ele naquela manha do incêndio, Edward estava preocupado porque vocês estavam sem grana, falei que podia tentar ajudar vocês de alguma forma, mas...— Ele bufou. — Não era como se tivesse muito para ajudar, entende? — Concordei com um aceno de cabeça, entendendo perfeitamente. — Ai, o incêndio aconteceu, eu quis vir para cá ajudar sua mãe com você, mas Lizz me proibiu de vir, ela não queria que Marcus soubesse que eu estava na cidade.
— Ele quase te matou — murmurei.
— Só porque eu estava com Renée — Charlie murmurou de volta. — Marcus Higginbotham é doente, também um manipulador, Edward — disse, com seriedade em sua voz. — Ele tinha muito domínio sobre a mente de Renée, apesar de tudo, de ele a privar de muita coisa, ela o tinha como um herói, sabe?
— Sei, Bella também o tem como um herói — eu disse, Charlie parou de respirar, apertando o copo de café em suas mãos. — Você sabe sobre Clary? — Ele assentiu.
— Lizz e eu não mantemos muito contato depois da morte do seu pai, mas ocasionalmente nos falávamos, ela acabou me contando sobre sua irmã.
O silêncio voltou a recair sobre a gente.
— É uma bonita tatuagem. — Ele apontou para a sereia ainda cicatrizando no meu braço.
— É um desenho de Bella — contei.
— Eu preciso ver minha filha, Edward.
— Você não sabe se ela é sua filha mesmo.
— Eu sei que é — ele disse confiante daquilo. — Eu preciso ser um pai para ela, está mais do que na hora.
Meu celular tocou, rapidamente me voltei para ele, atendendo a ligação de Alice.
— Pode falar.
— Edward, o habeas corpus saiu, Bella logo estará fora.
Eu respirei aliviado, sentindo meu coração bater desesperadamente com a noticia.
— Mamãe falou com ela, Bella disse que aceitaria ver o Charlie. — Olhei para o homem sentado diante de mim, que me olhava com familiares olhos castanhos cheios de expectativa. — Nós vamos levá-la rapidamente ao nosso apartamento para se recompor, então a levaremos para o Brooklyn para deixá-la com você.
Finalmente, finalmente a Bonequinha iria para o Brooklyn.
***
Tirei o Charlie daquela rodoviária no instante que terminei a ligação com Alice, o levando para meu apartamento, onde nos dois poderíamos esperar por Bella. Rosalie tinha saído cedo aquela manhã, para dar uma volta, mas sabia que no fundo ela estava deixando o espaço livre e com certeza ido se encontrar com Arthur.
Charlie e eu não falamos muito, eu quebrei o desconforto que o silêncio causava ligando a televisão e deixando em um programa qualquer. Até que por fim, depois de três horas de espera, recebi uma mensagem de Alice informando que estavam chegando.
— Melhor você ficar aqui — falei para Charlie. — Vou buscar Bella lá embaixo — dito isso me movi para fora do apartamento, então para fora do prédio.
Vi o carro de Esme dobrando a esquina no momento que pisei lá fora, eu queria que ela fosse mais rápida, precisava de Bella nos meus braços. Quando o carro parou diante de mim, vi a porta do carona se abrir e Bella pular de lá de dentro, diretamente para meu colo.
— Bem vinda ao Brooklyn, Bonequinha. — Eu a apertei contra mim, afagando suas costas, enquanto a ouvia chorar baixinho no meu peito.
— Bella? — Ela estremeceu ao ouvir a voz diferente, se soltando de mim, ao nosso lado estava Charlie. — Oi, filha.
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