Sob minha Pele

45 Capítulo Quarenta e Quatro


Notas iniciais
Boa leitura :) *o capítulo tem uma música especial: https://www.youtube.com/watch?v=-yHGuA5EYnA

— Capítulo Quarenta e Quatro —

— Edward —

Sempre odiei Richard, desde a primeira vez que coloquei meus olhos nele. O homem era folgado, me chamava de bastardo e tratava minha mãe mal. Eu tinha muitos motivos para odiá-lo e o odiava, entretanto isso não me impediu de sentir o choque quando mamãe anunciou sua morte.

— Assassinado, ele foi assassinado — ela repetiu, tremendo muito e pálida.

— Mãe — murmurei de volta, sem conseguir dizer algo que prestasse.

— Espera, tem certeza de que é o seu Richard? — Bella indagou, também em choque.

— Sim, eles ligaram para mim por ser esposa dele — mamãe disse, suspirando alto. — Disseram que encontraram o corpo dele não muito longe daqui, em um beco, com cinco tiros entre peito e barriga.

Bella arfou, tapando a boca com a mão.

— Isso deve ter sido alguém querendo acertar contas com ele, coisa de jogo ou algo assim. — Deixei a guitarra no chão, levantando-me. — Mãe? — Ela me olhou, ainda confusa. — O que mais a polícia falou?

— E-Eu preciso ir reconhecer o corpo, assinar a papelada de liberação e tudo mais. Não me pediram para prestar depoimento ainda, mas devem fazer isso em breve, até que se esqueçam do caso dele.

— Eu vi Richard mais cedo. — Encarei Bella ao ouvi-la dizer aquilo. — Ele estava me seguindo, acho que desde o metrô.

— Bella, por que você não contou isso antes? — indaguei.

— Não queria estragar o momento bom, além do mais, Richard não falou comigo, muito menos fez nada, Phill apareceu antes que ele pudesse querer algo.

Corri as mãos por meus cabelos, aquilo tudo era tão confuso.

— Edward! — mamãe exclamou, então começou a chorar.

A puxei para meus braços, deixando com que ela chorasse em meu colo.

— Vamos ir cuidar de tudo, mãe — falei depois de um tempo. — Bonequinha, você pode ficar de olho na Clarisse enquanto a gente sai?

— Claro, posso sim — concordou rapidamente, saindo do sofá para abraçar minha mãe também. — Sinto muito, Lizz, sei que Richard não era a melhor das pessoas, mas... — Ela se interrompeu, beijando a face de mamãe. — Não se preocupe, vou ficar com Clary para que você e Edward possam resolver tudo — assegurou.

— Cuidado! — mamãe pediu, afagando o rosto de Bella. — Por favor, cuidado.

— Eu terei, prometo — Bella garantiu.

Mamãe e eu saímos em seguida, depois de eu também pedir que Isabella tomasse cuidado e ligasse imediatamente caso qualquer coisa acontecesse. Eu enviei mensagens para Rose, Charlie e Jasper, para que eles ficassem alertados do que tinha acontecido, principalmente se Bella precisasse de ajuda.

Segui com minha mãe para o IML, para que pudéssemos fazer o reconhecimento de corpo de Richard. Ela continuava aflita, chorando um pouco, parando e recomeçando.

Tentei convencê-la a deixar com que eu entrasse sozinho para o reconhecimento, mas ela não aceitou. Ao menos pude entrar com ela, foi necessário. Mamãe chorou ainda mais quando viu que era mesmo seu marido ali, um nó se formou em minha garganta.

Não vi meu pai morto, seu corpo... O incêndio destruiu tudo e foi um velório com caixão fechado, então, ver Richard naquele estado fez com que ele fosse a primeira pessoa morta a minha frente. Era estranho, nojento também, com certeza. Podia ver os buracos dos tiros nele, cinco.

Quem fez aquilo estava com muita raiva de Richard, queria mesmo o matar.

Tirei mamãe daquela sala o mais rápido possível, ela assinou toda a documentação necessária, mas ainda teríamos de esperar mais um tempo. Enquanto ficamos ali, esperando, eu comecei a contatar empresas funerárias, para cuidar de tudo com o máximo de rapidez possível.

Com certeza era um pensamento frio da minha mente, admito aquilo, mas eu não estava contente com o fato de gastar dinheiro com Richard. Só que eu precisava fazer isso, velório, cova e todo o resto. Minha mãe precisaria daquilo, Clarisse também.

— Quem fez isso, Edward? — mamãe me perguntou, encarando o chão do IML, depois de eu desligar uma chamada com a funerária que decidi usar para aquele fim. — Como alguém pode matar outra pessoa?

Eu não soube responder.

***

Mamãe e eu só deixamos o IML no começo da manhã, ambos estávamos esgotados depois de uma noite inteira privada de sono. No apartamento tudo parecia bem, Bella estava na sala e parecia que não tinha dormido também.

— E ai? — Nos perguntou.

— Um policial apareceu, eles não tem um suspeito por enquanto — contei, mamãe sentou no sofá, fechando os olhos por um minuto. — Tudo bem por aqui? — perguntei a minha noiva.

— Sim, tudo bem — confirmou. — Clary não acordou durante a noite, preferi não acordar ela agora de manhã, vai ser um dia longo, melhor ela dormir um pouco mais.

— Certo — concordei. — Você vai para o trabalho? — perguntei notando que ela estava arrumada para sair.

— Eu preciso. — Ela saiu do sofá depois de afagar o braço de mamãe. — Mas, vou ficar em alerta, se precisarem da minha ajuda para algo e só ligar, Garoto do Brooklyn. — Bella beijou meus lábios rapidamente. — Eu te amo.

— Amo você também, Bonequinha. Por favor, cuidado — pedi.

— Eu terei — ela assegurou. — Jasper e eu nos encontraremos no metrô, não vou sozinha para Manhattan. — Se voltou para mamãe. — Lizz, tome um banho quente e tente descansar um pouco.

Mamãe assentiu, ainda de olhos fechados. Deixei Bella na saída do prédio, nos beijamos mais uma vez e voltei para nosso apartamento, minha mãe continuava na mesma posição.

— Mãe, o que posso fazer pela senhora? — perguntei, odiando vê-la naquele estado.

Seu choro voltou, seus olhos abriram.

— Eu não amava Richard, mas, isso tudo... — Ela não conseguiu concluir, chorando mais.

— Isso tudo é terrível, eu sei. — Beijei sua testa. — Também não estou feliz com essa situação, mãe. — Sentei ao seu lado. — Porém, nós vamos passar por isso, ok? Já passamos por coisas piores antes, vamos aguentar.

— Não consigo superar a morte do seu pai — ela falou, tocando em meu rosto com a mão tremendo. — Ele foi o homem que mais amei em minha vida, perdê-lo foi a pior coisa que me aconteceu, ele...Edward, sinto tanto a falta do seu pai.

— Também sinto, todo dia mãe. — Toquei em sua mão no meu rosto.

— Me desculpa, filho, por tudo que fiz de errado.

— Mãe... — Ela me ignorou, continuando a falar, eu a deixei falar por fim.

— Desculpe por não ter te dado tudo que você merecia, por ter me rendido a Marcus e feito aquilo, por ter mantido Richard em nossa casa, por te continuado ao lado daquele homem desprezível por tantos anos. Errei tanto, mais do que qualquer outra pessoa, só que perder seu pai acabou comigo, você entende?

— Perfeitamente.

— Prometo que vou tentar me reerguer, filho. — Beijou meu rosto. — Nós precisamos disso. — Ela me colocou em seu abraço mais apertado, enquanto voltava a chorar alto.

— Mamãe? — Nos afastamos, vendo Clarisse aparecer na sala, ainda em seus pijamas, coçando os olhos. — Por que você está chorando?

— Vem cá, filha — mamãe chamou por ela.

Clary sentou entre nós dois no sofá, afaguei seus cabelos e beijei o topo de sua cabeça.

— Aconteceu algo muito triste ontem à noite, Clary — mamãe começou a contar, parando de chorar e ficando forte por minha irmã. — Eu não queria precisar nunca te contar isso, mas é preciso.

— Cadê a Bella? — Clarisse indagou tensa, olhando ao redor. — Ela está bem? — perguntou para mim.

— Está sim — afirmei. — Foi trabalhar.

— Filha? — Mamãe recomeçou. — Aconteceu algo com Richard. — Clary franziu a testa, mas não disse mais nada, parando para escutar o que nossa mãe tinha para dizer. — E-Ele, Richard foi baleado. — Clary exalou alto. — Infelizmente foi algo muito grave, meu bem. — Mamãe recomeçou a chorar, Clary também já estava chorando silenciosamente. — Ele não resistiu e agora esta lá no céu com Deus, filha.

Minha mãe não precisou contar para mim que papai tinha morrido, eu tinha visto o prédio em chamas e ouvido que meu pai não tinha sido resgatado a tempo, soube muito bem o que aquilo significava. Mas, ainda foi muito difícil mais tarde naquela noite, quando fomos para a casa dos gêmeos e ela me explicou que papai nunca mais voltaria. Então, eu sabia muito bem que estava sendo bem difícil para Clary, continuaria sendo.

Richard não era o pai biológico dela, entretanto foi o pai que ela conheceu. E, não se podia apenas passar uma borracha no passado de uma pessoa, era impossível.

— Ele está morto? — Clary perguntou fungando.

— Infelizmente, Clarisse, eu sinto muito, filha. — Mamãe a puxou para seu colo, enquanto Clary chorava mais alto e de forma que doía em mim.

Reconheci o choro, o mesmo de quando eu perdi meu pai. Aquela merda doía, a dor era dilacerante.

***

O resto daquele dia foi terrível, além do fato de minha mãe e Clary estarem muito abaladas, eu ainda precisei cuidar de todo o resto para velório e enterro. Por sorte Rosalie se dispôs a me ajudar com aquilo, ou eu enlouqueceria.

Também precisei implorar para Alistair conseguir liberar Rose e eu para uma folga aquele dia, a segunda consecutivamente aquela semana. A banda ganharia certa quantia de adiantamento pelo álbum em alguns dias, mas não era uma fortuna e eu não queria perder meu emprego na boate — apesar de odiá-lo —, pois queria ter alguma garantia caso a The Dragons falhasse.

Consegui resistir aquele dia, terminando ele sentado na capela de uma pequena igreja católica do Brooklyn, velando o corpo do padrasto que odiei por anos e anos. Era mesmo terrível, eu me sentia sufocado dentro daquele lugar.

Tinha pouca gente ali, minha família, os Cullen que foram prestar seus sentimentos, meus amigos, algumas amigas mais próximas de mamãe. E, com certeza, tinha Bella.

— Quer ir lá fora tomar um ar? — ela perguntou baixinho para mim, enquanto continuava a afagar meu braço.

Concordei com um aceno de cabeça, deixando a capela com ela.

— Não sou muito fã de igrejas — Bella declarou, enquanto sentávamos num banco do lado de fora.

O vento fez ela se encolher dentro da minha jaqueta que usava.

— Nada fã, pra falar a verdade. — Ela apoiou uma mão no meu joelho.

— Isso quer dizer que não vamos casar em uma? — Uni minha mão a sua, mexendo na aliança em seu dedo.

— Isso, nada de casamento na igreja para a gente — ela disse, apoiando a cabeça em meu ombro. — Vou pensar em um bom lugar.

— Em Marte — brinquei.

— Prefiro Júpiter — Bella falou rindo.

— Pode ser o nome da nossa futura filha?

— Nem pensar — ela vetou, eu ri, a puxando para mais perto de mim. — Vamos ficar bem, não é? — Bella perguntou depois de um tempo, com temor em sua voz.

Toquei na tatuagem no pulso dela.

— Vamos sim, Bonequinha.

***

Naquele sábado eu estava trabalhando na boate, fazia alguns dias desde a morte de Richard e as coisas ainda estavam voltando ao lugar. Minha mãe estava sendo uma rocha forte, Clary estava bem abalada ainda e ela queria ser resistente por minha irmã.

As duas continuaram a morar comigo e Bella, aquela altura Rosalie já tinha se adaptado a viver com Arthur e não queria mais sair do apartamento que dividiam. Fora que ter mamãe e Clary em casa conosco não era um problema, eu adorava as ter por perto e Bella também. Sendo assim, mamãe devolveu o antigo imóvel que vivia para o dono e ela e minha irmã se mudaram oficialmente.

Então, sim, as coisas estavam se acertando. Eu torcia para que mais nada desse errado, porque às vezes era quase como se a vida fosse perfeita.

Estava muito ansioso para começar a trabalhar de fato no álbum da The Dragons, ainda sem nome. Jasper, Rosalie e eu iriamos começar a frequentar periodicamente a gravadora em quatro dias, não podíamos estar mais felizes quanto a isso.

— Ei, eu posso ter uma dose de vodca pura? — Olhei para o lado quando reconheci a voz grave, era Emmett. — Oi, amigo!

— Não sou seu amigo! — exclamei, deixando bem claro, servindo sua dose de vodca e entregando a comanda para ele.

— Qual é, Edward? — Emmett sorriu, dando um soco de leve no meu ombro. — Somos amigos, cara, vamos deixar as merdas no passado, que tal?

— Sério, Emmett? — Minha maior vontade era brigar com ele novamente, daquela vez disposto a quebrar a cara dele para valer, mas eu não iniciaria uma confusão na boate. Alistair já queria a minha cabeça por conta de todas minhas folgas, fora que Rosalie tinha o ouvido dizer que a boate estava em dividas, eu não criaria mais problemas.

— Olha, sei que errei muito naquele dia, mas estou aqui para te pedir desculpas — falou, ainda sorrindo de orelha a orelha. — Nós podemos superar aquilo, somos adultos!

— Não vai acontecer.

— Edward, somos amigos desde sempre, não se perde uma amizade de anos dessa forma.

— Foi você quem estragou a nossa amizade, Emmett! — gritei contra a música alta, por sorte Rosalie não estava ali, talvez ela não se contivesse e acabaria dando uns bons socos no babaca do ex-baixista da nossa banda. — Está com problemas de memória? Se esqueceu de tudo que falou para Bella? Ah, para Rose e Jasper também, como para mim? Seus amigos!

— Escuta, Edward. Vamos fazer assim, eu volto para a The Dragons, vocês... — Gargalhei, fazendo com que Emmett calasse a boca.

— Você é um grande babaca, Emmett! — exclamei. — O que foi? Ficou sabendo sobre o contrato da The Dragons e agora está arrependido? — indaguei, ele revirou os olhos.

— Eu vi algo sobre isso no Instagram do Jasper, mas a questão é que vocês precisam de um baixista...

— Não, não precisamos — o interrompi novamente. — Jasper assumiu o baixo, nós estamos indo muito bem como trio. Talvez, acredito eu, você era o que tornava a banda péssima! — debochei, Emmett ficou vermelho de raiva.

— Vocês não vão conseguir sucesso sem mim!

— Boas novas, Emmett, já conseguimos!

Ele abriu a boca para falar algo, mas a fechou novamente.

— Você pode ir agora, Emmett. — Apontei para longe. — Ah, não perca o sono por isso, nós com certeza nunca mais te chamaremos de volta para a The Dragons.

Emmett largou a vodca sobre o balcão, rasgou a comanda e foi embora. Uma cena digna de um idiota, eu só podia pensar que não sentia falta alguma dele por perto.

***

Quando voltei para casa aquela noite Bella estava dormindo em nossa cama, mas cercada por seus cadernos de desenho. Ela não parava, trabalhava no clube, desenhava para Aro e ainda estava pensando em tomar aulas online em uma faculdade pequena, uma vez que ela não tinha mais como sustentar seus estudos em Columbia, por mais que Esme e Carlisle tivessem oferecido pagar tudo.

Com cuidado comecei a tirar os cadernos de perto dela, temendo acordá-la. Estava fazendo aquilo quando a ouvi começar a chorar baixinho, ela estava tendo um pesadelo, era cada vez mais frequente os pesadelos dela.

— Vovô!

Paralisei ao ouvir a palavra saindo por seus lábios, ela ainda estava dormindo, mas sua feição era transtornada.

— Não, não — ela começou a negar, remexendo-se na cama.

— Bonequinha. — Toquei suavemente em seu braço, querendo fazer que ela acordasse, mas sem assustá-la.

— Não, por favor, não — ela continuou a implorar, tremendo.

— Ei, ei, Bonequinha. — Sentei ao seu lado, afagando seus braços. — Você está segura, Bella. Abra seus olhos para mim, meu amor — pedi.

Aos poucos ela abriu seus olhos castanhos, ainda assustada.

— E-Eu...

— Pesadelo, eu sei. — Bella se sentou rapidamente na cama, apertando-me em um abraço, então se deitando e ainda me segurando fez com que eu deitasse por cima dela. — Bonequinha, ainda estou vestido com as roupas do trabalho.

— Só fica aqui comigo — pediu, levando uma mão até meu peito, a repousando bem no lugar que meu coração batia forte para ela.

Fiquei junto dela, apenas trocando nossas posições na cama, colocando-a por cima de mim para não machucá-la. Bella se aninhou em meu peito, ela não chorava, nem mais tremia, só que estava extremamente quieta.

Comecei a cantar Cant Help Falling In Love, bem baixinho, enquanto percorria meus dedos por seus cabelos.

— Like a river flows, surely to the sea. Darling, so it goes somethings are meant to be* — cantava para ela, pensando como aquilo era verdadeiro para a gente, de uma forma ou de outra nossos caminhos se cruzariam. — Take my hand, take my whole life too. For I can’t help, Falling in love with you*.

— Eu baguncei sua cabeça — ela disse sonolenta.

— Obrigado por isso, Bonequinha.

***

Na segunda-feira os exames de DNA que Bella, Renée, Charlie e Clary fizeram ficaram prontos. Todos se reuniram em nosso apartamento pela parte da tarde, Bella tinha conseguido sair mais cedo do trabalho, iria pegar os resultados com Esme no hospital e nos encontrar com ela lá.

— Hey, estou aqui! — ela exclamou, entrando no apartamento, retirando sua jaqueta já que o clima estava esfriando bem em outubro, se unindo a gente na sala.

— Você já abriu? — Charlie perguntou a ela, enquanto ajudava Renée a ficar mais confortável na cadeira de rodas, andar ainda era uma tarefa bem complicada para minha sogra, ela se cansava fácil.

— Não, eu não faria isso sozinha de jeito nenhum. — Bella entregou os envelopes do laboratório para mim. — Oi, mamãe. — Abraçou Renée.

— Você tem trabalhado muito, quase não te vejo — Renée reclamou, ao menos sua fala estava cem por cento novamente. Ela estava recebendo todo o apoio dos Cullen em seu tratamento, eles com certeza eram pessoas excelentes.

— Sabe que preciso, mãe. — Bella abraçou Charlie também.

— Ela tem trabalhado mais do que eu — falei, roubando uma pipoca do balde que mamãe tinha preparado para Clary. Minha irmã afastou minha mão com uma careta, mas sorriu para mim logo depois e me deu o balde inteiro, peguei mais um pouco e devolvi a ela.

— Vamos parar de falar sobre meu trabalho. — Bella revirou os olhos. — Edward, você abre os exames! — ordenou.

— O quê? — questionei.

— Você me ouviu. — Ela apontou para os envelopes sobre mim. — Faça isso.

— Mas...

— Por favor — pediu, mordendo o lábio.

Ela estava com receios, era compreensível.

— Ok. — Abri o primeiro envelope, era o teste entre Renée e Clarisse.

Engoli em seco quando vi o resultado, no fundo esperando que aquilo fosse uma mentira.

— Positivo entre Clarisse e Renée — contei, vendo minha sogra sorrir carinhosamente para minha... Para nossa irmã, aquilo ainda daria um nó na cabeça de alguém. — Parentesco comprovado.

— Certo, próximo! — Bella exigiu, quicando em seus sapatos, lançando um olhar ansioso para Charlie.

Rasguei o outro envelope, puxando o resultado lá de dentro. Aquele foi um bom, eu realmente adorei a prova oficial de que Isabella era filha de Charlie.

— Charlie, você tem de dar seu sobrenome para Bella agora. — Eu mal tinha terminado de falar e Isabella correu para os braços do pai, soltando um grito de comemoração.

— Bom, será por pouco tempo, logo mais ela terá o sobrenome Masen — mamãe disse, sorridente, pegando algumas pipocas.

Bella soltou mais um grito de comemoração, soltando Charlie e correndo até mim.

***

Dois dias depois a The Dragons enfim começou a trabalhar efetivamente na pré produção do álbum, o lugar era muito maneiro, eu me sentia como uma criança em uma loja de brinquedos. Todos os instrumentos de ponta, algumas coisas que nem conhecia, fora o pessoal que trabalhava ali e entendia bastante de música.

Phill era um desses, ele não era um produtor musical à toa, o homem era um bom músico. O ouvido dele era perfeito, com pouco tempo ele podia nos dar ideias, vetos e tudo mais. Fazia até sentido ele ter nos dispensado da primeira vez, o homem realmente sabia o que estava fazendo.

— Sonhando acordado? — Phill foi até mim, enquanto eu olhava para a parede de uma das salas da gravadora, que era recheada de quadro de vários cantores e bandas mundialmente conhecidos.

— Um pouco. — Aceitei o copo de café que ele me estendeu, infelizmente não tinha canela. — Quem sabe um dia não seja eu a inspiração para um novo músico — debochei, Phill riu.

— É possível, não desista do jogo antes da partida começar. Aliás, eu acho que Não é um jogo deve ser a faixa título do álbum.

— Sério?

Ele assentiu.

— É uma composição foda, agradeça Bella por ter te inspirado muito bem.

***

Minha mãe tinha ido trabalhar no fim da tarde daquela sexta-feira, mas eu estava de folga, o que me permitia um tempo com Bella e Clary. Um tempo com Rosalie também, Arthur tinha viajado para Chicago, para o aniversário de um primo e ela não pode ir junto porque no dia seguinte teríamos de ir para a gravadora.

Sendo assim, nós quatro nos reunimos para assistir alguns filmes e passar o tempo. O problema era que ninguém se decidia qual filme assistir, nossas pizzas estavam quase chegando e continuávamos debatendo sobre o que assistir.

— Ai, desisto, vocês são muito indecisos! — Rose reclamou, levantando-se e pegando seu celular da mesinha de centro. — Vou ligar para o Arthur lá do quarto de vocês, já volto. — Seguiu para fora da sala.

— Eu também não sei o que devemos assistir — comentei com Bella, que estava passando seus dedos por meus cabelos.

— Que tal... — Ela se calou quando ouvimos batidas na porta, nossa pizza tinha chegado. — Vou pegar a comida e a gente decide por vez. — Bella pegou o dinheiro que estendi para ela, seguindo até a porta. — Boa... — Olhei para ela quando a ouvi se calar bruscamente, tendo a pior visão de todas.

Marcus Higginbotham estava bem diante Isabella, com uma arma em mãos. O homem rico e bem cuidado que se via antigamente não existia mais, ele estava mais magro, com roupas simples e usava até mesmo um boné velho na cabeça.

— Sentiu a falta do vovô, minha garota preferida? — Marcus a questionou.

O tempo pareceu parar, Bella estava petrificada no mesmo lugar ainda encarando o avô, eu o encarava e Clarisse não se movia ao meu lado.

— Você vem comigo, Isabella, agora! — Marcus exclamou, apontando a arma em minha direção. — Ou, eu vou matar esse filho da puta.

Eu tremia, dos pés a cabeça, com medo.

— E-Edward — assustada, Clarisse falou meu nome.

Marcus moveu a arma para apontá-la para Clarisse.

— Não dê um pio, garota!

— Não os machuque, por favor — Bella pediu, conseguindo falar.

Eu levantei naquele momento, o topor passando um pouco.

— Nem um passo, seu filho da puta! — A arma voltou a apontar para mim.

— Não vou fazer nada — prometi, erguendo minhas mãos para cima. — Apenas não machuque Isabella ou minha irmã — pedi. — Se você for embora agora ninguém vai chamar a policia! — gritei a última parte, esperando que Rosalie no quarto escutasse aquilo, torcendo para que ela estivesse atenta ao que estava ocorrendo.

— Vai embora, por favor — Bella pediu a ele, com a voz rouca.

Eu podia sentir a confusão dela, era seu avô ali bem a sua frente afinal de contas.

— Cala a porra da boca, Isabella! — Marcus gritou com ela, apontando a arma para a testa da neta.

Ele atiraria nela? Era a neta dele, merda!

Eu quis ir até eles, mas escutei o chorinho baixo de Clary. Precisava a por em segurança, mas tinha Bella...O que eu devia fazer?

— Vá para o quarto, Clary — sussurrei para ela, mas no instante que ela se levantou Marcus gritou:

— Ninguém se mexe nessa porra!

— N-Não, não tem ninguém se mexendo. — Continuei com as mãos para cima. — Apenas tire a arma da cabeça de Isabella, por favor — implorei, ela tremia, mas não chorava, seu olhar estava focado no avô.

— Quem você pensa que é para dar ordens em mim, seu moleque?

Marcus agarrou o braço de Isabella, que gritou de dor. O homem a colocou diante de si, como um escudo humano, apontando a arma para a cabeça dela.

— Eu conheci seu pai, sabe disso, né? Aquele filho da puta, também me deu ordens, eu fui um babaca e cai naquela merda toda. Eu deveria ter matado Charlie Swan e seu pai aquele dia, isso sim! — Marcus gritou descontrolado, Bella engasgou, ele apertou ainda mais o braço dela. — Você não sabe o quão feliz fiquei quando soube que seu pai tinha queimado, queria ter tido a ideia de ter o incendiado, seria prazeroso. — Marcus gargalhou, eu dei um passo para a frente, ele apertou mais o cano da arma na cabeça de Isabella, me freando. — Se você tentar algo ela morre.

— Ela é sua neta — lembrei.

— Eu já matei minha esposa, quase matei minha filha e matei muitas outras pessoas por ai, acha que tenho medo de matar qualquer um, Edward? Posso te matar agora mesmo, quer isso?

— Odeio você, odeio você! — Bella urrou, se remexendo no braço dele, mas sem conseguir se soltar. — Você arruinou minha vida, por que fez isso?

— Arruinei sua vida? Sua garotinha ingrata! — Marcus gritou com ela, apertando tanto o braço de Isabella que ela gritou e começou a chorar de dor.

Aquilo estava me matando, eu queria correr até ela, mas aquilo podia se transformar em um banho de sangue em segundos. E tinha Clarisse ali, a centímetros de distância de mim, eu não podia deixar nada acontecer a minha irmã, não podia.

— Fiz tudo por você, Isabella. Te dei tudo do melhor, cuidei do seu futuro, eu fui o melhor avô do mundo, mesmo você sendo uma bastardinha.

— Você deixou a minha mãe louca, quase matou meu pai, me envolveu em um esquema de roubo e entregou minha cabeça aos Black! — Isabella continuou gritando com ele, ainda tentando se soltar. — Você é um filho da puta, cretino!

— Eu sou, sabe disso? Sou muito um filho da puta! — Marcus riu. — Minha mãe fodia com todos os empregados da casa dos Higginbotham, nunca te contei isso? Motoristas, seguranças, jardineiros, era uma grande puta, uma puta como Marie, como você e aquela babaca da Renée também são. Às vezes eu me escondia nos cômodos, para ver ela fodendo com todos aqueles homens, eu gostava, gostava muito.

Porra, Marcus era um doente!

— Ela era uma grande puta, uma puta que arruinou meu pai. Um dia eu decidi contar a ele sobre as traições daquela piranha — ele continuou contando, eu tentei aproveitar seu falatório para chegar até Bella, mas Marcus atirou na TV, fazendo com que eu parasse de me mover imediatamente. — Meu pai se matou não muito depois, ele amava aquela vagabunda, não soube lidar. Mas, ele deixou uma carta para mim com ensinamentos. Primeiro, eu devia sempre pensar no poder e dinheiro antes de tudo. Segundo, não confiar nas mulheres. Terceiro, matar quem fosse preciso.

Marcus sorriu para mim.

— Eu matarei você hoje, Edward — falou, rindo novamente. — Vou matar como devia ter matado seu pai e Charlie. Matar como deveria ter matado a putinha da sua mãe, ela te contou o que fizemos? Contou sobre como ela foi para a cama comigo...

— Não, não, não! — gritei, o calando, querendo impedir que Clarisse ouvisse mais suas barbaridades.

— O que foi? Você não aguenta ouvir sobre a puta da sua mãe? Saiba que todas as mulheres não passam de putas, inclusive sua namoradinha, ela te contou que transava com o amigo do noivo dela? Isabella é uma vagabunda como todas as outras mulheres, principalmente as Higginbotham. Elas arruínam tudo, elas nos levam a cometer loucuras. Minha mãe fez meu pai se matar, Marie fez eu a matar, Renée quase me fez matar Charlie e Isabella fará eu te matar. Depois disso, eu vou leva-la para bem longe, pois ela é minha, não sua.

Marcus beijou o rosto da neta demoradamente, fazendo com que ela chorasse alto e soluçasse.

— Minha garota preferida, será só nós dois em breve. Nos últimos tempos estive me escondendo na Índia, só conseguia pensar em você, consegui voltar dois dias atrás e descobri direitinho sua localização. Ninguém mais irá nos separar agora, eu prometo que seremos felizes. Eu te amo desde que você era um bebezinho, você ainda era boa e decente, não era como as putas, mas vou cuidar para que fique boa e decente novamente. Só nós dois, os melhores Higginbotham.

— Me leve para onde quiser, apenas não machuque Edward e Clarisse — Bella clamou por aquilo, seu olhar se encontrou com o meu rapidamente. — Por favor, faça o que quiser comigo, só prometa que irá os deixar seguros.

— Ele irá atrás de você — Marcus disse, negando com um aceno de cabeça. — Não vou deixar mais ninguém tirá-la de mim, minha garota preferida.

— Por favor, vovô! — Bella ergueu uma mão, tocando no braço dele que não carregava a arma. — Vamos embora, deixe-os ai, eu ficarei ao seu lado para sempre, prometi isso lembra? Deixe-me cumprir.

— Não, eu não confio em você — Marcus murmurou. — As mulheres mentes, traem, são dissimuladas. Você me enganou antes quando estava por ai traindo Jacob, depois fodendo com esse filho da puta, sua mãe fez o mesmo no passado. Diga-me, você não está grávida dele está? Eu matarei o bebê agora mesmo se estiver.

— Não, não, eu não estou grávida — ela negou prontamente. — Vamos embora, abaixe a arma e partiremos em seguida. Iremos para qualquer lugar, bem longe de todos eles.

— Minha garota preferida...

— Bonequinha — o apelido escapou por meus lábios, ali me dei conta de que eu chorava.

— Do que a chamou? — Marcus gritou, suas narinas dilatando.

Não respondi, o som da sirene da polícia me impediu de falar qualquer coisa. Marcus olhou alarmado em direção à janela da sala, resmungando coisas desconexas para si mesmo.

— Solte a Bella — eu pedi a ele. — Você pode... — Marcus soltou um grito.

A sequência de fatos a seguir foi muito rápida para que eu a acompanhasse direito, também muito perturbadora. Marcus Higginbotham atirou na minha perna, fazendo com que eu gritasse e cambaleasse, em meio à dor e a queimação do tiro, quando me dei conta já estava caído no chão.

Ouvi os gritos desesperados das garotas, só que não consegui olhar para elas, apenas continuei caído no chão, apoiando-me em meu braço direito. A dor era imensa, eu estava zonzo e não tinha ideia do que fazer.

O segundo disparo veio logo depois, acertou meu braço esquerdo, fazendo com que um novo grito soasse por meus lábios. Cai de vez no chão, minha cabeça batendo contra o piso.

Clary e Isabella gritavam, a sirene policial soava e eu podia ouvir o chiado da TV quebrada. Não era uma melodia bonita, era aterrorizante.

— Não, não! — Bella gritava, então a vi parando junto de mim ao chão, tocando em meu rosto.

Eu estava com frio, queria uma coberta e poder adormecer, precisava descansar.

— Garoto do Brooklyn! — Meu olhar se encontrou com o de Isabella, minha visão era embaçada, mas vi seus olhos castanhos, os amava tanto. — Fique comigo, por favor, amor. Não me deixe, não... Edward!

Fechei os olhos, estava cansado demais para mantê-los abertos. Eu ouvi mais um disparo, outro tiro? Onde tinha acertado? Ou melhor, em quem?

Gritos, sirenes, o chiado da TV, era uma bagunça de sons. Não queria mais escutar aquilo, pensei em algo agradável, me lembrei do meu pai tocando guitarra, nele dizendo que me amava e principalmente em:

— Não tenha medo, filho.

Notas finais
*Como um rio que corre certamente para o mar/Querida, assim algumas coisas estão destinadas a acontecer; *Pegue minha mão, pegue minha vida inteira também/Pois eu não consigo evitar de me apaixonar por você; Beijos! Lola Royal. 25.10.17