Sob minha Pele

9 Capítulo Oito


Notas iniciais
SmP está de volta o/ Boa leitura ♥

— Capítulo Oito —

— Edward —

Isabella Higginbotham era uma garota confusa, eu pude ver isso naquela noite de sábado. Ela parecia uma garotinha assustada quando chegou ali, muito como Clary quando tinha pesadelos, muito diferente da Isabella que vi no Park algumas semanas atrás e, a Isabella sentada junto a mim no chão comendo pizza, era mais diferente ainda do que as duas outras versões.

Fosse pela cor quente dos olhos castanhos, que se adequava muito mais ao seu rosto do que o falso azul, ou por ela parecer muito menos como uma princesa que se considerava a dona da porra do mundo inteiro. Isabella não estava rindo, nem mesmo sendo a pessoa mais simpática da cidade, mas seja lá o que tenha acontecido a ela aquela noite, tinha a deixado abalada o suficiente para fazê-la descer de seu pedestal, mesmo que na minha frente, um completo estranho para ela, ainda que aquilo pudesse durar só por mais algumas horas, ou apenas minutos.

— Então, você está bem? — eu perguntei hesitante de como ela podia reagir a minha pergunta, mas a minha mente ainda estava focada no modo como Isabella, ou Bella como tinha dito que eu devia chamá-la, chegou mais cedo à casa de Alice. Suja de bebida, descabelada, descalça, o vestido arrebentado. Eu tinha visto garotas daquela forma milhões de vezes na boate, ou ao redor dessa, algumas eram apenas resultado de um porre mais forte, mas em outras algo realmente sério era o motivo.

Bella tirou os olhos da pizza em suas mãos, ela tremia um pouco, mas eu não achava que era por conta do ar-condicionado do apartamento de Alice. Seus olhos, que pareciam muito mais gentis com a cor natural, possuíam um brilho choroso, algo que realmente não parecia se encaixar com a Isabella do Central Park, ou a que esteve na boate, mas que se adequava com perfeição aquela Bella de aparência frágil sentada a minha frente.

— Sim, tirando o fato desta pizza ser terrível, Alice sempre pede da pizzaria errada — ela reclamou, soando muito como a Isabella que eu tinha como referência em minha mente. Ela não me contaria, isso era óbvio, eu não sabia o porquê estava insistindo, independente do que tinha acontecido, eu não ficaria sabendo.

Porém, era agoniante pensar que alguma coisa grave poderia ter acontecido com ela, Isabella podia ser uma pessoa arrogante, porém eu não desejava que as pessoas passassem por abusos, por mais insuportáveis que tais pessoas fossem. O silêncio naqueles casos podia ser pior, como era no caso da minha própria mãe e o relacionamento abusivo que ela tinha com Richard, Rosalie vivia me dando aulas sobre aquele tipo de assunto, eu estava treinado.

Alice e Jasper continuavam na cozinha, levando tempo demais para simplesmente irem buscar por bebidas como ela anunciou. A questão era que Jazz — ou Jazzy segundo Alice — estava muito contente com a ausência de Bella na vida de sua namorada, ele não tinha ficado nada animado em vê-la ali aquela noite, ele sequer pareceu se abalar pelo estado dela. Talvez Jasper soubesse muito mais sobre Bella do que eu, afinal era namorado da melhor amiga dela.

— Você não devia estar tocando? Ou sei lá, sendo perseguido por fãs? — Bella perguntou depois de um longo silêncio, onde tudo que pode ser ouvido foi os gemidos de prazer dela por estar se alimentando, a pizza não parecia tão ruim assim com todo aquele som pornográfico deixando sua boca.

— Não, nós não tocamos toda semana — expliquei. — Só uma vez por mês, duas, no máximo. — Estiquei minha mão até seu rosto, limpando um pouco de molho do canto de sua boca, lambendo meu polegar em seguida. O olhar dela estava fixo em mim, beirando a incredulidade por meu gesto.

Bella se inclinou na minha direção lentamente, a respiração dela parecia descompassada. Seus olhos viajavam dos meus lábios aos meus olhos, ela mordia o próprio lábio inferior em expectativa, Bella queria me beijar, eu sabia disso. Então, ouvimos Alice.

— Hey, desculpem a demora!

A Higginbotham se afastou de mim rapidamente, parecendo irritada por ter sido atrapalhada. Ela realmente achava que eu a beijaria?

Alice se sentou entre Isabella e eu, passando uma garrafa de suco para a amiga e ficando com uma de cerveja. Jasper sentou do meu outro lado, entregando-me uma garrafa de cerveja também, ele continuava irritado, sua expressão não negava isso.

— Então, já que Bella está aqui acho que temos direito a uma nova votação sobre o filme que devemos assistir — Alice disse entusiasmada. — Eu voto em Simplesmente Acontece.

— Eu voto em continuarmos a assistir Mad Max — Jasper disse entediadamente.

— Bella quer assistir Bonequinha de Luxo — provoquei, bebendo um pouco da minha cerveja, captando o olhar dela irado sobre mim quando falei aquilo.

— Eu assisto qualquer coisa, menos esse estúpido filme — ela resmungou, revirando os olhos. — Quer dizer, não, eu odeio os filmes que Alice escolhe, então voto em Mad Max também, pelo menos ganhou um Oscar, ainda que não merecesse um, ou todo o alvoroço sobre ele.

— Ganhou seis estatuetas, na verdade e merecia muito mais — Jasper a corrigiu, pegando o controle da televisão e retomando o filme desde o inicio — já que não tínhamos assistido muito antes da Higginbotham aparecer — Bella torceu o nariz ao ser corrigida, mas permaneceu quieta, provavelmente tentando se manter neutra quanto a Jasper o mesmo tanto que ele estava em relação a ela.

Simplesmente Acontece é tão lindo — Alice resmungou, ainda torcendo por seu filme clichê. — Eles dois como melhores amigos, passando anos em relacionamentos terríveis, quando o par perfeito estava ali, bem ao lado.

— Tedioso! — Bella exclamou.

— Você realmente acredita nisso? — perguntei para Alice sentada ao meu lado.

— Em par perfeito? — ela indagou, eu assenti. — Claro que acredito! — exclamou, seus olhos brilhando, então olhou para Jasper do meu outro lado, que compartilhava do olhar apaixonado dela. — Eu sei que encontrei o meu, Jasper é sem dúvida alguma o amor da minha vida. — Piscou para ele.

— Oh Deus, me mate — Bella resmungou, ganhando um olhar mortal de Alice, mas ela não pareceu se abalar com aquilo, mesmo vindo de sua melhor amiga.

— Você não acredita nisso? — perguntei a ela.

— Pode apostar que não, Masen — ela respondeu, encarando-me, arqueando uma sobrancelha. — Você acredita?

— Em uma pessoa perfeita destinada a outra? Não mesmo — afirmei. — Mas, meus pais se amavam muito e eram excelentes um para o outro, então acho que não sou um militante contra o amor. — Isabella mordeu o lábio inferior, balançando a cabeça em descrença.

Okay, a rainha do Upper East Side não acreditava no amor? Aquilo era surpreendente, eu pensava que ela era do tipo de garota que era perdidamente apaixonada por seu namorado, pelo menos era isso que transparecia nas fotos dos dois juntos espalhadas por ai.

— Vocês estão estragando o filme, é Mad Max, não um filme do Nicholas Sparks para levantar esse tipo de debate — Jasper falou, aumentando o som. Alice riu, indicando que devíamos mudar de lugar, eu deixei com que ela ficasse perto de Jazz, que imediatamente a aconchegou em seu peito, enquanto tive de sentar perto de Isabella.

Ela passou metade do filme quieta, apenas olhando para a imensa televisão na sala de estar, mas sem realmente parecer estar prestando atenção no filme. Sua mente estava em um lugar muito longe, provavelmente no que tinha lhe acontecido antes de chegar a cobertura da amiga.

Então, em um momento do filme, quando este estava ficando cada vez melhor, Bella levantou-se do chão, seguindo para fora da sala. Alice a olhou com preocupação, mas não a seguiu, eu podia vê-la hesitante sobre aquilo, mas decidiu ficar junto de Jasper.

— Alice? — Seu olhar se voltou para mim. — Cozinha? — Mostrei minha garrafa de cerveja já vazia, ela entendeu o que eu de fato queria fazer, Alice não era estúpida, disso eu tinha certeza.

— Sim, claro, você pode ir lá — ela falou.

Levantei, seguindo para fora da sala também. Eu sabia que Jasper odiava Bella, o que colocava Alice em uma situação complicada entre os dois. Como também sabia que ela estava preocupada com sua melhor amiga pelo que tinha acontecido aquele dia, eu me sentiria exatamente assim se Rosalie surgisse em nossa porta totalmente bagunçada.

Não precisei de muito para descobrir onde Isabella estava, logo na saída da sala principal, uma nova sala se estendia. Ela estava lá dentro, sentada a um piano de cauda preto, tocando para si mesma, completamente focada naquilo.

Entrei na sala, silenciosamente para não assustá-la, mantendo uma distância segura. Eu não era capaz de reconhecer a música que ela tocava, mas seus dedos percorriam as teclas do piano com destreza e confiança, ela não saia do ritmo, muito menos olhava para qualquer partitura.

— Você toca piano, Edward? — ela indagou, pegando-me de surpresa por ter me notado ali, mesmo que eu estivesse fora de sua visão.

— Não, apenas guitarra e violão — respondi, ela parou de tocar, então seus olhos me alcançaram.

— Onde aprendeu a tocar? Posso admitir que você toca bem, por mais que deteste o tipo de música que você tocou quando o vi na boate outro dia — falou, dando de ombros.

— Meu pai me ensinou um pouco no começo, depois Jazz e eu aprendemos treinando sozinhos, no melhor estilo faça você mesmo — eu disse, recostando-me na parede atrás de mim.

— Meu avô ensinou-me a tocar piano — Bella disse, um tom orgulhoso preenchendo sua voz. — Eu tinha cinco anos quando ele começou as lições, dizia que era sempre bom ter conhecimento sobre algum instrumento. — Ela sorriu, apertando algumas teclas aleatoriamente. — Há tempos não tocava, eu ainda prefiro pintar e desenhar.

— E alguém a ensinou a pintar e desenhar? — indaguei, aproximando-me dela, pegando a partitura ali e folheando, a maioria eram de músicas clássicas.

— Renée — ela sussurrou, fazendo com que eu voltasse a olhar.

— Sua professora de desenho?

— Não. — Bella negou, seu rosto torcendo-se em uma careta. — Minha mãe.

Assenti, eu via muito de Bella e seu avô nos jornais, eles estavam em todos os grandes eventos da cidade, principalmente aqueles ligados a algo político, mas não tinha qualquer lembrança de já ter visto sua mãe.

— Sente-se — ela ordenou, abrindo espaço no banco que ocupava, eu também fiquei surpreso com aquilo. — Não seja tímido, Edward. — Bateu na madeira. — Um músico que se preze deve saber pelo menos um pouco de piano, eu não detesto violão, mas confesse que piano é muito melhor.

— Não, eu realmente gosto do som de violão. — Devolvi a partitura para o local, então sentei ao seu lado.

Bella segurou em meus pulsos, colocando minhas mãos sobre o piano, pondo as suas ao lado, apertando algumas teclas. Eu reconheci a música que ela começava a tocar instantaneamente.

Clair de Lune — sussurrei, ela assentiu, dando um sorriso pequeno.

— É a favorita da minha mãe — murmurou, a voz soando nostálgica. — Ela sempre pedia que eu tocasse para ela, acho que eu era mais nova do que quinze anos quando toquei Clair de Lune pela última vez.

— Sua mãe é legal? — questionei ao notar como ela falava da mãe dela como se fosse uma figura do passado, elas não se davam bem? Ou era até capaz de Renée já ter morrido? Bella parou de tocar abruptamente, errando algumas notas com aquilo.

— Concentre-se, Edward — ordenou, indicando as teclas que eu devia tocar.

Fiz aquilo, começando a tocar Clair de Lune só.

— Você é um bom aluno — ela aprovou, tocando por cima das minhas mãos, guiando meus dedos pelas teclas. — Realmente leva jeito para a música.

— Obrigado? — Ela apenas riu, continuando a me guiar, suas mãos sobre as minhas era frias e pequenas.

Tocamos por um longo tempo, em algum momento Bella deixou-me tocar sozinho, mas eu ainda esquecia aonde devia apertar e destruía a música. Então, ela voltava a me guiar.

— Ela foi — Bella sussurrou do nada, fazendo com que eu tirasse meus olhos do piano para olhá-la, a música cessando. Seus olhos estavam tão cheios de lágrimas como quando chegou ali mais cedo, seus lábios comprimidos e o rosto empalidecido. — Minha mãe — explicou. — Ela era alguém legal, ou pelo menos tinha momentos mais extensos como uma pessoa normal. — Seus olhos continuavam fixos nos meus. — Mas, agora tudo ela faz é beber e nos envergonhar, é um inferno.

Eu permaneci em silêncio, ainda digerindo o fato de Bella ter me contado tanto.

— Esqueça isso! — exclamou, respirando fundo, voltando a tocar, tirando seus olhos dos meus.

— Ela está em uma clínica de reabilitação?

— Não — respondeu com a voz dura.

— Ela deveria. — Bella soltou uma risada carregada. — Eu conheci pessoas que passaram por clínicas, que realmente melhoraram, sua mãe pode melhorar, Bella.

— Qual o significado desses números? — Bella mudou de assunto bruscamente, segurando em meu pulso direito.

— É a data de nascimento da minha irmã. — Bella me lançou um olhar confuso. — Foi um dia bem significativo para mim — expliquei. — Como se eu tivesse renascido junto de Clary naquele dia quinze.

— E a outra? — Ela percorreu um dedo por meu pulso esquerdo.

Sem medo, dizia ali.

— É em homenagem ao meu pai — sussurrei, encarando a tatuagem. — Foi a primeira que fiz, assim que completei dezoito anos, ele costumava dizer que eu não devia ter medo de nada, pois isso impediria-me de viver pra valer.

— Você tem outras?

— Mais três — respondi.

— Eu posso ver? — Bella perguntou curiosa, já sem lágrimas em seus olhos. Ela parecia muito com Clary naquele momento, cheia de curiosidade infantil.

— Pode. — Puxei minha camisa para fora do corpo de uma só vez.

Os olhos de Bella ali assumiram um brilho diferente, ela não se importou em disfarçar o modo como olhava para meu corpo.

— Interessante — ela disse, a voz enrouquecida, tocando sobre a tatuagem em meu peito esquerdo por onde estava o coração. Eram engrenagens, uma tatuagem detalhista e colorida, que demorou muito para ser feita e doeu ainda mais, porém o resultado obtido era exatamente aquele que esperava. — Qual o significado disso para você? — Ela tirou os olhos do meu peito, mas sua mão continuava lá.

— É mais pela localização sobre o coração, é como se isso fosse a representação dele como máquina se movendo, mantendo-me vivo. Não teria o mesmo sentido para mim em qualquer outra parte do corpo. — Bella assentiu, voltando a olhar a tatuagem.

— Essa é bem óbvia, mas o desenho está incrível — ela disse, vendo o microfone vintage em meu ombro direito. — Onde está a quinta?

Deixei o banco do piano, ficando de pé, então de costas para Bella, deixando-a ver o dragão oriental em minhas costas.

— Porra! — ela quase gritou, a ouvi sair do banco também, ele ser afastado, então suas mãos estavam em minhas costas.

O desenho em preto e branco ocupava toda a área das minhas costas, eu precisei de varias sessões para conseguir terminar a tatuagem.

— Uau, nossa, isso é realmente grande — Bella murmurou, traçando o dragão com as pontas dos dedos.

Eu me coloquei de frente para ela, vendo-a irritada por novamente ser atrapalhada.

— Então, de onde saiu todo esse encantamento por dragões? — indagou, lançando um último olhar por minha pele antes que eu voltasse a vestir minha camiseta.

— Eu sempre curti, dragão no oriente significa coisas boas, sabedoria, força, poder. — Dei de ombros. — Eu dei o nome a nossa banda, Jazz, Rose e Emm concordaram, então embarcamos nessa, foi quando fiz a tatuagem.

— É uma bela tatuagem — Bella falou, mordendo o lábio, aproximando-se de mim, sua mão tocando em meu peito por cima da roupa. — O que acha de subirmos para o quarto de hospedes e ficarmos mais a vontade? — Sorriu maliciosamente para mim, a outra mão infiltrando-se por debaixo da minha roupa.

Segurei em seus ombros, a afastando.

— Eu não vou transar com você, Isabella — afirmei, vendo raiva surgir em seu rosto.

— Por que não faria isso? É por Rosalie? Ela é sua namorada? — Ela voltou a se aproximar de mim, novamente tive de afastá-la.

— Não, Rose e eu apenas somos amigos, a questão é que eu não quero nada com você, Isabella.

— Claro que quer! — exclamou indignada.

— Não, eu não quero — garanti. — Isso pode ser uma novidade em seu mundo, mas nem todos precisam estar curvados diante a você, Bonequinha de Luxo.

— Seu...

— Vejo você por ai, Bella — interrompi seu xingamento, vendo-a mais desconcertada e irada ainda. — Não sei o que aconteceu com você hoje, mas espero que supere. — Ela engoliu em seco, cruzando os braços na frente do corpo defensivamente.

Acenei para ela, então a deixei para trás, sozinha na companhia do piano e de seu grande ego que um dia a levaria para o fundo do poço.

Notas finais
Beijos! Lola Royal. 07.01.16