Sob minha Pele

17 Capítulo Dezesseis


Notas iniciais
Capítulo dedicado as lindas Vivi Sena e Kawanne Cullen Volturi que recomendaram SmP, muito obrigada ♥ Boa leitura :)

— Capítulo Dezesseis —

— Edward —

Bella dormia em meu colo quando acordei, precisei de algum tempo para retornar a realidade após despertar e recordar o motivo que me levou a estar ali com a garota Higginbotham. Quando minha mente se adequou ao presente, minha mão seguiu um caminho involuntário até os cabelos dela, meus dedos percorrendo os fios lisos enquanto a via respirar mais fundo em seu sono, remexendo-se um pouco no sofá. Hesitei continuar com o afago, temendo acordá-la, mas ela não deu mais indícios de que acordaria logo, deixando com que eu voltasse à ação anterior.

Ainda que estivesse dormindo, Bella não parecia nada relaxada, seu rosto estava preso em uma expressão assustada. Suspeitei de que ela pudesse estar tendo um pesadelo, provavelmente sobre quando encontrou sua mãe, ou com qualquer outro instante tenso de que tinha vivenciado aquele dia. Então, mesmo sabendo que eu não devia estar ali com ela, continuei ao seu lado, sendo impossível para mim deixá-la sofrendo sozinha.

Eu sabia como ela devia ter se sentido quando viu Renée em plena parada cardíaca, também tinha sido aterrorizante para mim quando vi o prédio que um dia morei sendo consumido pelas chamas, com meu pai preso lá dentro sem conseguir escapar. Nada sobre a morte era lindo, por mais que poesias e canções muitas vezes falavam a respeito do assunto de forma bonita, eu não conseguia concordar com aquilo, não quando tive de enterrar meu pai quando era apenas um garoto.

Um som irritadiço chamou minha atenção, fazendo com que eu desviasse os olhos de Bella, para o outro sofá na sala de espera que estávamos. Vi Alice acordando, os cabelos estavam uma grande bagunça, seu rosto era sério e até mesmo um pouco raivoso, quando ela me olhou, senti pena imediata de Jasper. Obviamente a Cullen não era uma garota matinal e meu melhor amigo também não era, se eles continuassem aquele relacionamento, seria previsível para mim que os dois iam querer se matar pela manhã todo dia.

— Essa foi a pior noite de todas — Alice resmungou, esfregando seu rosto, enquanto sentava-se no sofá. — Eu definitivamente não serviria para ser uma médica, detesto tudo sobre hospitais — continuou a falar.

— Vai trabalhar na parte administrativa? — A careta no rosto dela se pronunciou ainda mais ao ouvir minha pergunta. — Okay, isso foi um não.

— Com certeza um não — ela concordou, olhando para Bella. — Ela não acordou em nenhum momento?

— Não que eu tenha percebido. — Meus dedos continuavam nos cabelos dela, eu devia parar com tudo aquilo, principalmente com Alice vendo tudo depois que já tinha dito que Isabella gostava de mim. Eu não tinha certeza sobre aquilo. Minha racionalidade não permitia acreditar nas previsões de Alice, para mim Bella estava apenas frágil demais por conta da mãe e usou a mim como um apoio, ela acabaria usando qualquer outro que estivesse ali junto a ela durante aquela crise.

— Foi um dia bem difícil, espero que tudo melhore hoje — Alice murmurou, os olhos ainda fixos na amiga. — O avô dela deve chegar essa manhã.

— Isso é bom, Bella vai gostar de tê-lo perto — falei, isso me dava liberdade para ir também, com o Higginbotham chegando, Isabella teria mais alguém para consolá-la.

Alice balançou a cabeça em um aceno negativo, mas permaneceu calada por um tempo.

— Eu vou buscar por café, não quero estar uma merda quando Bella acordar e precisar de mim — falou, levantando-se. — O que vai querer, Masen?

— Algo com canela — disse, grato por ela ir buscar um pouco de café, eu também precisava de um pouco de cafeína para despertar por completo.

— Ótimo, você tem isso em comum com Bella, ela adora canela — Alice disse, me lançando um sorriso provocativo, saindo em seguida da sala.

Evitei rir de Alice, ela devia ser uma das pessoas mais insistentes que já tinham cruzado meu caminho. Com certeza não tanto quanto Bella, eu sabia muito bem o quanto ela podia ser insistente.

Tirando minha mente das duas, eu tirei meu celular do bolso da calça com cuidado, temendo acordar Bella, mas ela continuava adormecida e sua expressão até mesmo tinha se suavizado. Como previsto, ele estava cheio de mensagens e ligações, a maioria pertencendo a Rosalie, eu lhe enviei uma mensagem antes dizendo onde estava e com quem, mas não tinha visto sua resposta até ali.

Rosalie: Que diabos, Edward!

Rosalie: Você perdeu sua cabeça? Saia desse hospital agora mesmo!

Rosalie: Até onde eu me lembro você não tem um diploma em medicina para estar ai “ajudando” a Higginbotham, seja a mãe ou a filha.

Rosalie: Edward, você disse que não iria se envolver com essa garota!

Não respondi suas mensagens, por saber que era cedo e Rosalie deveria estar dormindo e acabaria sem ler nenhuma delas, mas também por ainda estar me perguntando o que realmente estava fazendo ali naquele hospital. Rose estava certa, no que eu podia ajudar Bella? Eu não devia estar lá, além do mais, tinha prometido até mesmo para minha mãe que não iria ficar próximo a Isabella.

Eu ainda estava com a mente em minha mãe quando vi a mensagem dela ali.

Mãe: Edward, querido, você pode ficar com sua irmã hoje de tarde? Ela já está de férias da escola e eu tenho de ir trabalhar.

Logo respondi sua mensagem, querendo que ela ficasse despreocupada quanto a isso.

Edward: Não se preocupe, eu cuido da baixinha, pode ir trabalhar sossegada.

Só quando enviei a mensagem, percebi o que aquilo significava, eu teria de ir embora e deixar Bella no hospital. Suspirei com aquilo, voltando a tocar em seus cabelos, convencendo a mim mesmo de que ela ficaria bem, de que eu não precisava estar ali junto a ela.

Alice não demorou muito a voltar, entregando-me um copo de café e retornando ao seu lugar no sofá.

— Eu vou precisar ir em breve — falei a ela, tomando um gole do meu café, adorando saber que ela tinha mesmo pedido que colocassem canela na bebida.

Alice assentiu, bebendo um pouco do seu café.

— Ela vai ficar bem — falou, olhando para Bella, que parecia estar próxima de acordar. — Eu pelo menos espero que ela fique. — Suspirou. — Jazzy disse que qualquer coisa posso chamar por ele.

Eu ri, me sentindo um idiota porque aquilo fez Bella se remexer ainda mais em seu sono.

— Por que está rindo, Eddye? — Fechei a cara, vendo o sorriso vitorioso no rosto de Alice. — Sim, eu descobri seu apelidinho odiado, agora não pode mais rir do de Jazzy — falou, eu revirei os olhos.

Bella respirou mais alto e logo soube que ela estava acordando, vi ela piscar algumas vezes antes de conseguir manter seus olhos realmente abertos.

— Bom dia, Raio de Sol! — Alice exclamou, sua voz era animada e sabia que ela estava fazendo aquilo para tentar levantar o astral de Isabella.Ela ergueu a cabeça da minha coxa, sentando no sofá.

— Que horas são? — perguntou, visivelmente confusa.

— Pouco mais de seis da manhã — respondi, estendendo para ela o copo de café, depois de tomar mais um gole. — Alice disse que você também bebe com canela.

— É, alguns acham estranho — murmurou, pegando o café e bebendo um pouco também.

— É muito estranho — Alice disse. — Como se sente, Bella?

— Toda quebrada, meu pescoço principalmente — reclamou. — Teve alguma noticia da minha mãe? — perguntou, levei minha mão até seu pescoço, apertando um pouco ali para tentar aliviar parte da tensão que ela estava tendo, vi Bella respirar fundo, parecendo gostar do que estava sentindo. Eu não consegui tirar minha mão dela, continuando a massagem.

— Falei com uma das enfermeiras cerca de dez minutos atrás, Renée está na mesma — Alice disse, o sorriso em seu rosto desaparecendo. — Não quer ir até seu apartamento? Tomar um banho, trocar de roupas.

— Não, eu vou ficar aqui — Bella afirmou. — Não saio daqui até ela melhorar. Vocês podem ir se quiserem.

— Eu preciso mesmo ir, Bella — murmurei, sabendo que tinha um longo dia entre cuidar de Clary e ir trabalhar, não poderia ficar preso naquele hospital. Hesitei por um instante, mas minha mão de Bella. — Tenho que trabalhar de noite e...

— Eu sei, tudo bem. — O sorriso que Bella lançou para mim claramente foi forçado, o que me deixou sentindo-me péssimo, eu tinha prometido que não a deixaria só, então estava partindo. Minha cabeça era um grande mar de confusão ali, eu tinha de parar de fazer promessas, tinha feito uma a minha mãe e outra a Bella e ambas colidiam.

— Me veja aquele lápis — pedi, referindo-me ao que ela tinha usado para desenhar na noite passada. Bella o tirou de sua bolsa, junto com a carta que era de sua mãe. — Tem certeza? — Com seu aceno positivo, eu rascunhei o número do meu celular ali. — Ligue-me se quiser conversar. — Devolvi tudo a ela, inclinei-me em sua direção, beijando sua bochecha por um instante. — Até mais, Bella — sussurrei.

— Até — ela sussurrou de volta.

Eu levantei, baguncei os cabelos de Alice, que riu e me chamou de Eddye para provocar. Então, forcei meus pés a me levarem para longe daquela sala e para longe de Isabella Higginbotham.

***

No momento que entrei em meu apartamento, vi Rosalie, ela não estava nada contente. Sua expressão era séria, seus braços estavam cruzados na frente do corpo e seu olhar para mim era demoníaco.

— Você enlouqueceu?

— Não começa, Rose — pedi, indo até a cozinha atrás de algo para comer. — Eu estou exausto, ainda vou ter que ficar com Clary de tarde e depois ir para o trabalho.

— Como você acabou indo parar no hospital junto a Isabella? — ela indagou.

— Eu estava com Alice na lanchonete, Bella ligou dizendo que a mãe dela estava passando mal e nós fomos até lá. — Eu não pretendia contar a Rosalie sobre a tentativa de suicídio de Renée, muito menos sobre o estado que ela se encontrava. Rose era minha melhor amiga, eu confiava cem por cento nela, mas aquele não era um assunto que dizia respeito a mim, era sobre Bella e sua mãe, eu não as exporia a ninguém.

— Isso é estranho — Rosalie disse, um pouco mais calma. — Até onde eu pensava, você não se dava nada bem com aquela garota, não é?

— Bom, eu também não sabia que você estava apaixonada por Emmett — rebati, a desarmando, mas não por muito tempo, ela era Rosalie no fim das contas.

— Isso quer dizer que está apaixonado por Isabella, Edward?

— Não, claro que não. — Bufei. — Não foi isso que quis dizer. — Apoiei-me no balcão, olhando diretamente para Rosalie. — Okay, eu sei que Bella pode ser irritante, arrogante, egoísta e muito mais, eu realmente sei, Rosalie. Mas, a mãe dela passou mesmo muito mal, Alice estava nervosa e acompanhei até o hospital para que ela ficasse com a melhor amiga dela, lá vi Bella e ela estava péssima com tudo e eu acabei passando a noite lá para lhe dar um pouco de suporte. Eu faria isso com qualquer um, você me conhece.

— O que a mãe dela tem afinal? — Rose questionou.

— Não posso dizer. — Rosalie assentiu, parecendo baixar sua guarda. — Ei, é sério, sei que Bella pode ser insuportável, mas talvez ela não seja tão ruim assim.

— Você gosta dela? — Rosalie fez uma careta. — Sério, eu já estou esperando a Cullen chutar a bunda de Jasper, agora vou ter de esperar a Higginbotham chutar a sua? — Ela balançou a cabeça em negação.

— Alice e Jasper se amam, ela não vai chutá-lo.

— Ela é uma garota rica e meu irmão não tem nada e é orgulhoso, Edward, em algum momento isso vai afastá-los. Quando acontecer, ele vai ficar uma merda. Se você se envolver com a Higginbotham ela também te chutará, então vai sobrar pra mim ter de lidar com os dois sofrendo.

— Rosalie, não fique brava comigo — pedi. — Mas, você não pode esperar que todos abandonem como seu pai fez. — Ela voltou a cruzar os braços na frente do corpo, os olhos desviando-se para a superfície do balcão. — Seu pai foi um babaca que caiu fora das suas vidas, mas nem todo mundo é como ele. Seu irmão e Alice realmente se amam, sim eles tem muitas diferenças e isso podem os afetar em algum momento, mas agora eles estão felizes, ficar se prendendo ao medo do que pode acontecer no futuro não irá ajudar em nada. E, sei o quanto você sofreu quando teve de abrir mão de Juilliard por não ter como pagar as mensalidades, mas você não pode ficar se colocando para baixo só porque não tem grana. Ninguém é melhor, ou pior do que você por ter mais ou menos dinheiro, Rosalie, as pessoas são ruins, boas e más, uma mistura completa entre bondade e maldade por conta do caráter que carregam, se isso é moldado por quanto elas possuem em suas contas bancarias é outra história.

— Eu estou sendo uma vadia, não é? — ela perguntou baixinho, a voz embargada pelo choro que sabia que ela não se deixaria chorar.

— Não, você só está sendo preocupada em excesso — falei, fazendo com que ela voltasse a me olhar, seus olhos azuis cheios de lágrimas. — Vai ficar tudo bem, Rosalie, certo? Você não precisa se preocupar com todo mundo.

Ela assentiu, expirando alto.

— Isso quer dizer que você está apaixonado por Isabella?

— Não — respondi com certeza. — Eu não me sinto assim pela garota Higginbotham.

***

Deixei meu apartamento no começo da tarde — depois de pouco tempo de sono em minha própria cama e de ter comido qualquer coisa que tínhamos na geladeira — a caminho da casa da minha mãe para poder ir tomar conta de Clary enquanto ela iria trabalhar. Rosalie tinha saído não muito depois que cheguei em casa e tivemos nossa tensa conversa, dizendo estar indo atrás de algum trabalho matinal para aumentar a renda e conseguir quitar nossa divida com Emmett.

— Ei, baixinha, como você está? — perguntei quando Clary abriu a porta.

— Sua namorada está na TV, Eddye! — Clarisse disse entusiasmada.

— Quem? — indaguei, sem entender a fala dela, entrando no apartamento, fechando a porta atrás de mim.

— A Bella — Clary falou, agarrando minha mãoo. — Mas ela estava triste, por que ela estava triste, Eddye? — Ela puxou-me até a sala, onde a TV estava ligada e minha mãe sentada no sofá, encarando a tela diante si.

Na televisão, um jornal de rede nacional, mostrava Isabella e Marcus Higginbotham deixando o hospital onde Renée estava internada. Ele não parecia abalado, seu rosto era um vazio sem expressão alguma. Em contrapartida, Bella estava destruída, todas as vezes que a câmera conseguia focar em seu rosto, ele parecia ainda mais cheio de dor.

A manchete ali dizia: Renée Higginbotham é internada após overdose de cocaína. O áudio era tão baixo que não podia ouvir, mas metade da tela estava divida na apresentadora do jornal, que provavelmente explicava o caso até onde a imprensa já estava sabendo.

— Você já sabia disso, Edward? — minha mãe perguntou, seu olhar era sério sobre mim.

— Não — menti automaticamente, sabendo que ela não gostaria de saber que eu tinha estado com Bella, principalmente no hospital.

— Por que ela está triste, Edward? — Clary perguntou uma segunda vez.

— Assista desenhos, Clarisse, você não tem idade para jornais — mamãe disse com a voz rígida, mudando de canal, em seguida levantando-se do sofá. — Eu volto no começo da noite, obrigada por vir ficar com sua irmã, Edward.

— Sem problemas. — Dei de ombros. — Mas, cadê o pai dela? Um milagre aconteceu e ele arranjou um trabalho?

— Não comece com isso, Edward, eu estou morrendo de dor cabeça e tenho que ir ao trabalho antes de perder a hora — ela pediu, sem dizer mais nada saiu do apartamento, batendo a porta com força ao sair.

— Ela está irritada pra valer hoje — Clary disse, pegando o controle e retornando ao jornal. — O que Bella tem? — insistiu. — O que é overdose? — Leu a manchete ali.

— Mamãe está certa, Clary, você é nova demais para jornais — falei, tirando o controle de sua mão e recolocando no canal de desenhos.

— Bella vai ficar bem? — ela perguntou preocupada, olhando para mim com extrema atenção. Sorri para minha irmã, afagando seu rosto.

— Ela vai ficar bem — confirmei, não apenas para manter Clary calma sobre aquilo, mas também querendo me convencer de que Isabella conseguiria suportar aquela situação toda pesando em seus ombros.

— Bom. — Clary sorriu também. — Quando eu vou poder vê-la de novo?

— Não sei, Clarisse, Bella e eu não somos amigos, muito menos namorados — esclareci.

Ela suspirou, balançando a cabeça em descrença.

— Vocês deveriam ser namorados, eu ia amar isso, Bella é muito legal.

— Você acha? — indaguei.

— Muito — Clary afirmou. — Ela até fez um desenho meu, lembra? — Não era muito fácil de esquecer, eu ainda estava surpreso sobre aquilo. — Até a mamãe disse que o desenho estava bonito. Eu gosto muito da Bella — disse animada. — Ela deveria ser sua namorada, assim estaria sempre por perto.

Eu gargalhei, fazendo Clary me encarar irritada.

— Isabella e eu nunca seremos namorados, Clary, desculpe por frustrá-la.

— Sim, eu estou muito frustrada — ela falou, bufando, voltando sua atenção para a TV.

Pensar em Bella fez com que eu checasse meu celular, mas ali não tinha nenhuma ligação ou mensagem de algum número que pudesse ser dela. Eu o desliguei, o guardando novamente no bolso, querendo parar de pensar nela e de me preocupar, principalmente. Ela ficaria bem, tinha o avô que tanto idolatrava consigo, não precisava de um cara qualquer do Brooklyn para apoiá-la mais.

***

Por ser segunda-feira, nosso tempo na boate não ultrapassou as altas horas da madrugada. Rosalie e eu voltamos no meio desta para nosso apartamento, ambos exaustos o suficiente para irmos direto para nossas respectivas camas conseguir um pouco de sono merecido.

Para meu alivio, não tive nenhum tipo de insônia aquela noite, assim que encostei na cama já estava apagando em meu sono. Entretanto, o estado de pura paz não demorou muito a ser encerrado e logo estava mergulhando em um sonho.

Eu sempre sonhei muito, mas aquilo parecia ter se tornado mais constante depois da morte do meu pai. Quase todas as noites acabava tendo pesadelos com ele morrendo naquele incêndio, então pensei que naquele dia eu acabaria tendo mais um pesadelo daqueles já tão rotineiros.

O cenário daquele sonho foi estranho a primeiro momento, até que as paredes brancas, iluminadas por fortes luzes, se tornaram familiares para mim. Eu estava no hospital, o mesmo que Renée Higginbotham estava internada. Mas, o local estava vazio e silencioso, não se via, nem ouvia ninguém ali.

Caminhava pelos corredores sem saber o que fazer, apenas buscando por uma saída que não surgia. Parecia um labirinto, de onde eu nunca conseguia fugir. Eu estava apavorado, como se a qualquer momento fosse surgir algum tipo de monstro para tentar me matar naquele perfeito cenário de filme de terror. Ou, o próprio aprisionamento ali deixaria-me louco, eu estava começando a surtar em não encontrar uma escapatória.

— Edward? — Ouvi alguém gritar por meu nome, o chamado ecoando pelos corredores desérticos. — Edward? — Eu tentei responder a voz, mas não consegui, mudando de rota, indo para o caminho que julguei vir o som. — Edward! — a exclamação foi alta e cheia de alivio, eu girei em meus calcanhares, olhando para trás e me deparando com a figura de Bella correndo para mim.

Isabella pulou em meus braços, agarrando-se a mim da mesma forma que tinha feito quando nos encontramos logo após a tentativa de suicídio de sua mãe. A minha reação foi uma surpresa, eu respirei aliviado por vê-la, puxando-a para mais perto, distribuindo beijos por seu rosto tomado de lágrimas.

— Você está aqui, eu estava lhe procurando — ela falou, chorando e rindo ao mesmo tempo, levando suas mãos ao meu rosto.

— Nós precisamos sair daqui, Bella — eu disse, vendo-a assentir.

Entrelacei nossas mãos, mantendo-a ao meu lado. Conforme íamos andando juntos, o hospital deserto, parecia se tornar menos aterrorizante, os corredores, os quartos, as portas, tudo se tornava mais real e menos fantasmagórico, então, Bella e eu chegamos ao hall de entrada, podendo ver lá fora o Sol brilhando e pessoas circulando em plena normalidade.

— Finalmente! — exclamei, correndo até ali, mas quando senti o Sol aquecer minha pele, percebi que Bella não estava mais ao meu lado. Olhei para o interior do hospital, vendo-a presa lá dentro, chorando muito, enquanto as luzes artificiais ficavam mais fortes, fazendo ser impossível manter os olhos sobre a figura de Bella desaparecendo ali.

Eu acordei de uma única só vez, confuso e suando, minhas mãos tremiam e eu parecia bastante assustado. Engoli em seco, tentando esquecer daquele pesadelo. Não os aguentava mais, eu mal podia suportar lidar com os pesadelos relacionados ao meu pai, então começava a ter pesadelos com Isabella.

Com o sono completamente perdido pelo resto da noite, peguei o celular que tinha abandonado ao lado da cama quando voltei do trabalho. Ele esteve desligado desde que tinha feito aquilo no apartamento da minha mãe, o religuei ali, sendo bombardeado por mensagens e ligações de amigos e alguns conhecidos que não eram necessariamente amigos, todas elas dispensáveis, mas, perdidas ali no meio, estavam algumas ligações de um número que não conhecia e uma mensagem.

Número Desconhecido: Edward, é Bella.

Eu não me atentei ao horário, apenas redisquei o número cujo qual ela tinha me ligado, querendo falar com ela, principalmente após aquela merda de pesadelo. Ela atendeu no segundo toque, provavelmente não estava dormindo aquela noite.

— Ed-Edward? — atendeu gaguejando, sua voz indicava que estava chorando antes.

— Hey. — Sentei na cama, passando a mão pelos cabelos, os bagunçando ainda mais. — Eu acordei você?

— Não, eu não consegui dormir nada hoje — sussurrou.

— Como ela está?

— O quadro está estável, mas nenhuma mudança significativa no coma — disse, voltando a chorar.

— Você está em casa?

— Sim — respondeu fungando. — Meu avô não quer que eu passe a noite no hospital, principalmente agora que a porra da imprensa descobriu sobre o caso dela.

— Sinto muito por isso — falei verdadeiramente. — Alguma ideia de como a informação vazou?

— Seria impossível manter isso em segredo por muito tempo, muita gente atendeu Renée no hospital. — Bella suspirou. — É o mínimo dos meus problemas agora, eu só consigo pensar na minha mãe, em como a queria em casa. — Seu choro continuou por um tempo, eu deixei que ela chorasse, não podia confortá-la de verdade daquela forma, mas estava dizendo a mim mesmo que por aquela ligação a Higginbotham não estava completamente só, que eu estava cumprindo minha promessa.

— Sonhei com você — contei após um tempo, o choro dela já era mais controlado.

— Um pesadelo, eu suponho — ela disse com certeza.

— Não foi tão ruim — garanti. — Em parte dele fiquei feliz de vê-la.

— Desculpe, Edward — Bella pediu, a voz era tão baixa que tive de me esforçar para ouvir. — Desculpe ter sido uma pessoa insuportável antes, isso está servindo para me mostrar o quão estúpida já fui, sobre tudo. Eu sou tão idiota que até mesmo joguei fora aquela pedrinha que sua irmã me deu, isso foi tão babaca da minha parte, ela é só uma criança e inocentemente me deu um presente, eu...

— Clary te adora — contei, a interrompendo. — E ela é a pessoa com o coração mais puro que já conheci, Isabella. Então, acho que você tem seu lado bom, já que minha irmã consegue ver isso.

O choro dela voltou, mais alto e desesperador do que antes.

— Você vai ficar bem, Bella — disse a ela o mesmo que disse a Clary mais cedo. — Tem uma vida inteira pela frente, pode aprender com seus defeitos. Não precisa se tornar uma garota perfeita, só precisa saber lidar com eles.

— Ontem — ela murmurou. — Você disse que não me deixaria sozinha, eu preciso saber se posso tê-lo como um amigo, Edward

Eu paralisei, pensando na promessa que fiz a minha mãe. Ali, mais do que antes, as duas promessas estavam colidindo, porém me vi respondendo sem muita hesitação.

— Sim, Bella, eu posso ser seu amigo.

Notas finais
Bom feriado, gente :) Beijos! Lola Royal. 25.02.17