Sob minha Pele
18 Capítulo Dezessete
Notas iniciais
— Capítulo Dezessete —
— Bella —
Eu estava uma bagunça, minha vida perfeita virada de ponta cabeça, tudo fora do lugar, completamente errado. Não sabia o que fazer para colocar tudo em ordem novamente, não sabia nem mesmo se a ordem de antes era o que realmente queria para mim, as coisas estavam estranhas a esse ponto.
Minha mãe em coma, meu pai do outro lado do mundo, meu avô...Eu ainda estava confusa com o que Renée disse sobre vovô naquele bilhete de despedida, por que não podia confiar nele? Tudo bem que eles dois tinham seus problemas, mas vovô sempre foi tão bom para mim e, qualquer desentendimento entre ele e Renée era culpa dos vícios dela que a deixavam totalmente fora de si.
Não muito depois de chegar ao hospital, vovô foi atrás do médico de Renée para ter mais informações da filha. Enquanto eu consegui uma liberação para ir até o quarto dela, ela continuava no mesmo estado do dia anterior.
— Ei, mãe. — Segurei em sua mão, contendo as lágrimas. Vovô estava certo, não podia ficar chorando, não ganharia nada com isso e não faria minha mãe melhorar. — Vamos, mamãe, acorde — implorei. — Você já teve uma noite inteira de sono, bela adormecida. — Forcei um tom divertido em minha voz.
Será que realmente existia um Deus? E toda aquela coisa de inferno e céu? Pois, se existisse, aquilo podia ser meu purgatório, eu podia me sentir cada vez mais próxima do calor do inferno.
Minha mãe quase morreu, ela sequer tinha uma previsão para acordar e só naquele momento estava me tocando o quão patética fui por toda minha vida. Não só com Renée, mas com tantas outras coisas e pessoas, era como se ali, no purgatório, eu estivesse tendo o privilegio de ver onde errei todas as vezes, o que justificaria minha queda até o inferno em seguida.
— Oi, vovô — o cumprimentei quando o vi entrar no quarto de UTI que Renée estava, ele tinha seus olhos fixos na filha, mas desviou sua atenção para mim ao me ouvir.
— Você deve ir para casa, Isabella — falou em um tom de voz autoritário.
— Não, eu não posso deixá-la. — Segurei protetoramente na mão de Renée, acamparia por um ano naquele hospital se fosse preciso, mas só deixaria aquele lugar quando minha mãe acordasse, quando ela pudesse ouvir o quanto a amava.
Aquilo provavelmente não me impediria de cair até o inferno, mas eu não estava fazendo por absolvição, sim para conseguir me redimir ao menos com a pessoa que tinha me dado à vida.
— Não foi uma sugestão, eu estou afirmando que você tem de ir para casa — vovô falou. — Ela — apontou para Renée sobre a cama hospitalar. — É um vegetal agora, Isabella. Se desligássemos esses malditos aparelhos, estaria morta em questão de horas. Não se preocupe com Renée, ela finalmente parará de nos dar dor de cabeça.
Deixei a mão de Renée cair sobre a cama, ainda encarando meu avô próximo a porta de entrada do quarto.
— Ela é minha mãe — murmurei. — Não vou abandoná-la. — Balancei a cabeça em uma negativa.
— Quantas vezes Renée já não lhe abandonou, Isabella? — ele rebateu, eu me encolhi embaixo do xale de Esme que continuava comigo, sentindo-me desprotegida com as palavras ditas. — Vamos, diga! — ordenou. — Quantas vezes Renée não te deixou para trás, ou jogada de lado, para que ela pudesse beber e festejar? Quantas vezes ela já não nos humilhou? É com essa mãe que está preocupada, Bella? Pois, não vejo sentido algum nisso, Renée nunca se importou com você, deixe-me lhe dizer a verdade.
Engoli em seco, minha mente travando uma batalha entre acreditar em vovô e lutar contra as palavras dele.
— Ela procurou pelo o que teve ontem, não perca seu tempo com essa mulher egoísta, que nunca pensou sequer na própria filha. Se você não tivesse a mim, estaria completamente sozinha, Isabella. Pois, Renée é uma alcoólatra e pelo que descobrimos agora, uma viciada em cocaína também. Ela não se importa com você, nem mesmo comigo, sempre se importou apenas com si mesma.
— Ela me ama — sussurrei, as lágrimas acumulando-se em meus olhos. Ela amava, certo? Todas as vezes que ela tinha dito aquilo não foram apenas da boca para fora, não? Não podia ser, eu não aceitaria aquilo.
— Se ela te ama, por que ela tentou se matar? Por que não ficou ao seu lado?
Olhei para Renée, ela me amava, ela tinha de me amar. No que eu me seguraria sem aquilo? O maior objetivo da minha vida naquele momento era esperar ela acordar para dizer o quanto amava também, sem aquilo eu seria nada. Literalmente nada, eu era absurdamente vazia e estava me dando conta daquilo.
— Você quer dizer que o seu pai também não te amava quando ele acertou uma bala na própria cabeça? — perguntei a vovô, ainda com os olhos sobre Renée, com receio de olhar para ele ao falar aquilo.
— Você perdeu seu juízo, garota? — ele gritou. — Olhe para mim, Isabella!
Hesitante, levantei meu olhar. Vovô estava furioso, como nunca tinha visto antes, não relacionado a mim, ele nunca tinha ficado com raiva de mim aquele ponto.
— Nunca mais repita o que disse, ouviu? — exigiu, eu permaneci calada, assustada demais com seu tom de voz para falar. — Isabella! — gritou, fazendo com que eu tremesse com o grito.
A porta se abriu no mesmo segundo, eu vi Carlisle entrar no quarto, seu olhar atento indo do meu avô para mim.
— Está tudo bem por aqui? — indagou sério. — Bella?
— Tudo, tudo bem, Carlisle — me apressei em responder, forçando um sorriso para ele. Era só uma discussão em família, o Cullen não precisava ser envolvido naquilo. Famílias discutiam a todo instante, era normal, principalmente em momentos tão delicados quanto aquele.
— Eu vou fazer algumas ligações — vovô resmungou, saindo do quarto e batendo a porta com força.
— Bella, está mesmo tudo bem? — Carlisle insistiu, andando até o outro lado da cama de Renée, checando as máquinas ligadas a ela. — Ouvi seu avô gritando com você, pode falar se algo acontecer, sabe que é como se fosse da minha família, querida.
Assenti, sustentando o sorriso falso em meu rosto.
— Tudo bem, de verdade — garanti. — Vovô e eu apenas estamos emocionais demais sobre mamãe, nada além disso. — Voltei a segurar na mão dela, ela me amava, eu sabia disso. Era isso, vovô estava apenas nervoso com a coisa toda, não podia julgá-lo por aquilo. Ele já tinha perdido o pai para um suicídio, eu tinha sido insensível e idiota falando algo daquele tipo. — Ela não morreria se desligassem esses aparelhos, não é, Carlisle? — indaguei, querendo ter certeza de que vovô estava errado quanto aquilo também.
— Sua mãe ficará bem, Isabella — ele falou. — Ela não tem morte cerebral, provavelmente o cérebro dela foi bem afetado pela parada cardíaca, mas ele ainda está funcionando e estamos certos de que ela acordará.
— Quando?
Carlisle suspirou.
— Não sei, Bella. Gostaria muito de ter uma resposta concreta para lhe dar, mas não posso. Apenas foque-se nisso, certo? Em torcer para que Renée acorde quanto antes.
Olhei para minha mãe, querendo que ela ouvisse Carlisle e despertasse naquele instante, seria o melhor dia da minha vida logo após o pior quando quase a perdi.
— Alice está lá fora, ela trouxe suas coisas — ele avisou, ainda examinando minha mãe. — Você tem certeza de que não quer ir para nosso apartamento? Esme virá trabalhar mais tarde, mas pode passar um tempo com ela e Alice em nossa casa, seria bom para você relaxar e descansar agora.
— Não, estou bem aqui — menti, eu odiava aquele hospital, mas não queria deixar minha mãe. Carlisle assentiu, mesmo que não parecesse contente com minha decisão.
— Seu avô é o responsável legal por Renée, agora que ela está impossibilitada de tomar decisões médicas — contou, lendo aquilo nos documentos que tinha consigo.
— Ele é? — perguntei sem sequer ter ideia daquilo, Carlisle concordou com um aceno de cabeça, olhando para mim.
— Seria melhor se fosse você, usualmente é o que mais vemos, os filhos maiores de idade tendo esse tipo de responsabilidade sobre os pais em casos de incapacidade. — Ele folheou os documentos. — Renée também não tomou nenhuma medida preventiva, todas as decisões médicas a respeito dela devem ser aprovadas por seu avô.
— Ele é o pai dela, fará o melhor para que ela fique bem — sussurrei.
Ele tinha de fazer e Renée tinha de estar errada sobre o que escreveu naquela carta, vovô era confiável, não o contrário. Eu me recusaria a viver em um mundo que não poderia confiar nele, seria ainda mais confuso e bagunçado do que já estava.
— Bom, já que não quer ir para casa descansar, você devia ao menos ir comer algo — Carlisle falou, fazendo anotações.
— Não é necessário, eu tomei um pouco de café junto de Edward antes de ele ir embora — contei, Carlisle voltou a me olhar.
— O garoto parece ser uma boa pessoa — falou. — Eu tenho de confessar, estava preocupado com esse novo namorado de Alice, Jasper. Em Alice indo vê-lo no Brooklyn em uma casa noturna e tudo mais, mas pelo que vi de Jasper eu confio bastante nele e é bom ter visto Edward também, dá para ter uma ideia das pessoas que estão cercando minha garota agora.
— Edward é incrível, Carlisle — declarei, falar aquilo foi extremamente fácil, pois era uma verdade. — Não precisa ter qualquer preocupação quanto a ele, Alice está segura com Edward por perto.
— Eu pensei que vocês dois não se dessem bem — Carlisle falou confuso. — Sabe, pelo o modo que falou dele lá em casa outro dia. — Gesticulou para a saída do quarto, indicando que eu devia sair, afaguei mais uma vez a mão da minha mãe, desejando poder abraçá-la, mas sabendo que não era seguro para o bem de sua saúde.
— Até depois, mamãe — sussurrei para ela. — Eu venho vê-la o quanto antes — prometi. — Tente acordar, certo? Preciso que me escute dizer algo.
— Sinto muito não deixá-la ficar aqui por mais tempo, mas é realmente o melhor para Renée não ter muita exposição — Carlisle falou, mantendo a porta do quarto aberta para mim, deixando com que eu saísse para me seguir.
— Eu percebi que estava errada — comentei, Carlisle franziu o cenho. — Sobre Edward — expliquei. — Ele não é convencido, quer dizer, um pouco, mas ele é uma pessoa muito boa. Meu próprio namorado não veio até aqui me dar apoio algum, enquanto Edward que sequer é meu amigo virou a noite ao meu lado. — Encarei o chão branco do corredor do hospital, pensando em quão estúpida eu já tinha sido com Edward.
Desde a primeira vez, agindo com ele como se o garoto me devesse qualquer tipo de tratamento especial. Querendo o usar como usava qualquer cara, ou qualquer pessoa que cruzava meu caminho, apenas para beneficio próprio. Eu tinha até mesmo sido uma idiota com a irmã dele, Clary tinha me tratado super bem e o que fiz? Recusei uma pedrinha que uma pobre garotinha me deu, eu era uma vadia até com crianças.
— Bom, eu não o conheço tão bem, mas duvido que ele fosse passar a noite no hospital por alguém que não fosse uma amiga dele — Carlisle falou, apertando meu ombro. — Talvez vocês não tenham dito as palavras, mas já sejam amigos e nem perceberam isso ainda.
— Duvido muito que ele me considere tanto assim.
Apesar de ele ter dito que não me deixaria só no dia passado, era o mesmo que Alice tinha dito e ela era minha melhor amiga. Será que Edward e eu poderíamos ser amigos mesmo? Okay, eu ainda o queria de outras formas, mas aquela com certeza não era uma das minhas prioridades no momento.
— Acho que está errada quanto a isso, Bella. — Carlisle sorriu para mim. — Vou ir conversar com a equipe que está atendendo sua mãe agora — anunciou. — Procure por Alice, tente comer algo e repense sobre ir para nosso apartamento descansar um pouco, Esme não hesitaria um minuto em fazer sua torta de chocolate preferida, se quer saber — disse.
— Obrigada, Carlisle — agradeci.
— Pode me chamar se precisar de algo. — Carlisle afagou meu braço. — Quero que saiba que Renée é minha prioridade agora, Bella e que você é mesmo como parte da minha família, não hesite em vir até mim ou Esme caso qualquer coisa aconteça.
Apenas assenti, o deixando seguir seu caminho. Então, retornei até a sala de espera que estava tornando-se praticamente minha segunda casa, Alice estava ali, segurando uma de minhas mochilas e parecendo preocupada.
— O que houve? — indaguei.
Não aguentava mais, o que tinha acontecido daquela vez? Eu estava farta de tudo estourando em minha cabeça, só queria um pouco de paz.
— A imprensa descobriu sobre Renée — Alice murmurou, também exausta, passando minha mochila para mim.
— Claro, não estou nada surpresa quanto a isso. — Bufei, a porta da sala de espera se abriu em um rompante, eu estava de costas, mas logo soube quem era.
— Isabella, nós vamos para casa, agora! — vovô exclamou.
— Eu quero ficar com a minha...
— Casa, agora, eu já estou farto desse hospital — disse com rispidez, colocando-se a minha frente. — Nós não ficaremos presos aqui, principalmente com a imprensa lá embaixo nos cercando.
— Vovô, eu...
— Bella, minha querida. — Ele tocou em meu rosto gentilmente, o que me mostrou que ele também estava só confuso e cansado com tudo aquilo, já que estava sendo carinhoso comigo novamente. — Você precisa ir para casa descansar, ficar nesse hospital não te fará bem algum, entendeu? Renée está cercada por médicos e estou gastando muito para manter toda essa gente de olho nela, enquanto isso, você pode ir para nossa casa ter um pouco de sossego.
— Acho que seu avô está certo, Bella — Alice disse, seu olhar para meu avô não era o dos mais gentis, mas ela tinha um tom de voz educado. — Vá para casa descansar um pouco, meu pai está aqui e logo mais minha mãe virá, eu prometo te avisar se qualquer coisa mudar no quadro de Renée.
— Viu? A Cullen concorda, agora nós temos de ir, Isabella — vovô insistiu.
— Claro, tudo bem — concordei por fim.
Alice e eu nos despedimos, com ela prometendo mais uma vez que me manteria informada sobre qualquer mudança no quadro de Renée. Então, vovô me conduziu para fora do hospital, a imprensa estava em peso ali, todas suas câmeras e perguntas sendo extremamente invasivas, o que só me fazia sentir pior sabendo que toda aquela gente sabia sobre minha mãe e a overdose que quase a matou.
— Como ela conseguiu aquela maldita droga? — perguntei a vovô quando entramos no carro, o motorista logo dirigindo para nosso apartamento.
— Está tudo bem, querida. — Vovô me puxou para seus braços, deixando com que chorasse em seu colo pelo resto do caminho até nossa casa.
Assim que chegamos lá, Sue me forçou a comer algo, eu estava sentada sozinha a nossa grande mesa de jantar, quando vovô apareceu. Ele tinha ido até seu escritório fazer algumas ligações, o trabalho como sempre o consumindo.
— Aqui. — Ele me estendeu um frasco de remédios.
— Para que isso? — perguntei confusa, encarando o frasco, lendo o rótulo ali vi que eram calmantes.
— Tome um e durma, te fará bem — ele indicou, abrindo e colocando uma pílula em minha mão. — Guarde o resto, tome uns dois por dia, vai mantê-la calma.
— Mas...
— Vamos, querida, estou apenas pensando no melhor para você — insistiu, esticando o copo de água a minha frente.
Suspirei, aceitando o copo, engolindo o comprimido com a ajuda da água.
— Você irá dormir, irá se sentir relaxada e mais disposta quando acordar. — Beijou o topo da minha cabeça. — Eu tenho de fazer mais algumas ligações agora, ficarei em meu escritório, qualquer coisa me chame.
— Tudo bem.
O calmante não demorou a fazer efeito, logo me senti cheia de sono e fraca. Deixei o resto do lanche de lado, arrastando-me até meu quarto, com o frasco de remédios em mãos. Encarei aquilo, pensando em minha mãe caída no banheiro por conta de cocaína.
Qual era a real diferença entre aqueles remédios e a cocaína? Apenas que um tinha licença de ser vendido, enquanto o outro era parte de tráfico.
— Não, eu não vou precisar disso — falei para mim mesma, indo até o banheiro do meu quarto, jogando os remédios no vaso sanitário, dando descarga.
Eu preferia lidar com minha mente agitada, com a dor e tudo mais, não faria como Renée e me renderia a uso de entorpecentes para fugir da realidade. Porém, antes de lidar com tudo aquilo, o remédio ingerido foi mais forte e acabei dormindo.
Um sono sem sonhos, apenas escuridão e solidão.
***
A primeira coisa que eu fiz ao acordar foi pegar meu celular, liguei para Carlisle após ler as mensagens de Alice garantindo que minha mãe estava bem. O pai dela repetiu aquilo, dizendo que Renée estava estável e fora do estado grave de antes, que a partir dali todos estavam mais confiantes com ela acordando a qualquer hora.
Eu fiquei tão animada com aquilo, que assim que desliguei, liguei para Edward querendo deixá-lo saber sobre a melhora de Renée. A carta de minha mãe, onde o número dele estava, foi devidamente guardada em um livro de artes no fundo do meu closet, onde sabia que ninguém iria encontrá-la.
Liguei diversas vezes para o Masen, mas ele não me atendeu, as ligações sempre indo para a caixa postal, mas preferi não deixar mensagem de voz alguma. Enviei uma mensagem de texto falando que era eu, querendo que ele entendesse que devia retornar.
Isso é, será que ele ainda ia querer falar qualquer coisa comigo?
Tomei um banho e me vesti, pronta para voltar ao hospital. Sabia que vovô queria que eu me poupasse do estresse do hospital, mas precisava ver minha mãe. No entanto, meus planos foram por água a baixo quando vi a família Black na sala de estar do apartamento.
— Oh, você acordou! — vovô exclamou, levantando-se e indo até mim, me dando um forte abraço. — Descansou?
— Sim, estou bem melhor, pronta para ir ao hospital novamente — afirmei.
— Você irá amanhã, já estamos no meio da tarde e o local continua cheio de imprensa, Bella — ele disse, soltando-me, sendo substituído por Jacob.
Quis vomitar, como ele tinha a audácia de aparecer ali depois de não ter ido me ver no hospital?
— Ei, sinto muito por essa confusão — falou, tentando me beijar, mas desviei dos seus lábios.
— Nós todos sentimos muito, Bella — o pai dele disse. — Mas, Marcus...
— Eu já disse, o estado de Renée não irá interferir no noivado de Jacob e Isabella — meu avô disse com firmeza para o Black. — Nós estamos mantendo a data da festa de noivado e é isso, nada com o que se preocupar.
Eu devia ter ficado feliz ao ouvir aquilo, em saber que algo em minha vida estava no mesmo rumo de antes, mas não consegui esboçar sequer um sorriso para a situação.
— Eu quero que entenda, que se isso fugir mais dos limites, o noivado terá de ser adiado, ou até mesmo cancelado — Billy declarou, fazendo com que eu o ouvisse atentamente. — Sabemos que não foi Bella que tentou se matar, mas foi a mãe dela e todos estão achando isso terrível, inevitavelmente associando a tentativa de suicídio de Renée a imagem de Bella e Jacob, o que liga diretamente a mim e a minha carreira política, estou tentando uma reeleição, não posso correr riscos e nem estar no meio de crises.
Apertei o celular em minha mão ao ouvir aquilo, enchendo-me de ódio dos Black, todos eles.
— Por mim esse noivado pode ser cancelado — falei, fazendo com que Jacob, seus pais e meu avô me encarassem.
— Isabella, quieta! — vovô ordenou.
— Bella, acalme-se, isso tudo se resolverá — Jacob ao meu lado falou, afagando minhas costas, esquivei meu corpo dele, tomando distância daquele cara que a cada dia sentia mais repulsa.
— Não me importo com a merda desse noivado, não com minha mãe doente, eu não irei mexer um dedo sobre isso até Renée acordar — afirmei, dando as costas a todos ali, voltando a subir para meu quarto.
Jacob me seguiu, mas eu me tranquei em meu quarto, o deixando do lado de fora. Ele ficou chamando por mim durante algum tempo, mas logo se cansou e foi embora.
Passei o resto do dia trancada ali, trocando mensagens com Alice, tentando desenhar um pouco e evitando ser uma psicopata e ligar para Edward a cada minuto. Já era de noite, quando vovô entrou no meu quarto, sua expressão não era das melhores, ele sentou diante de mim na cama, enquanto eu mexia impacientemente no colar deixado por mamãe.
— Você é tudo para mim, Isabella — ele falou, eu não ousei interrompê-lo. — Não faz ideia de o quanto amo você, Bella. — Segurou em minha mão, a afagando. — Nós estamos passando por um momento muito difícil agora, não? — Assenti em concordância. — Sim, estamos, por isso preciso que você fique ao meu lado, querida, não contra mim.
— Não sei se ainda quero me casar com Jacob — contei baixinho, vovô respirou fundo.
— Bella, você está apenas emotiva demais sobre sua mãe, nada além disso, entendeu? O noivado ainda não acontecerá, temos três meses até a festa como já tínhamos decidido, tudo estará melhor até lá. Não perca isso, minha garota preferida. — Beijou meu rosto. — Esse noivado fará muito bem para você, para mim e nossa família, não perca sua grande chance de vida.
Apenas concordei com um aceno de cabeça, mesmo querendo insistir que não queria casar de forma alguma com Jacob.
— Eu posso ir até o hospital? Queria passar a noite lá.
— Você pode ir amanhã, pela manhã — ele prometeu. — Agora, tome um daqueles comprimidos e durma mais um pouco. Eu trouxe algumas joias para você de Dubai, quando acordar poderá tê-las, acho que irá amá-las. — Vovô tocou no colar em meu pescoço. — Essa coisa velha poderá ir para o lixo, não tem valor algum. Boa noite!
— Boa noite, vovô. Eu também amo você, vovô — o deixei saber daquilo, antes que fosse tarde como estava sendo com minha mãe. — Amo muito. — Ele me abraçou mais uma vez e saiu do quarto em seguida, deixando-me só.
Eu me senti mal por ter pedido que Alice não fosse para meu apartamento como ela ofereceu mais cedo, mas não a queria perdendo tanto tempo comigo. Mas, ali de noite, naquele silêncio na cobertura, eu me sentia carente demais querendo minha melhor amiga, ou minha mãe por perto.
Sem os calmantes para me doparem, tentei assistir algum filme e ler na tentativa de dormir, mas nada adiantou, não conseguia parar de pensar em minha mãe. Sabia que ela continuava na mesma, ainda sem qualquer indicio de que estava acordando, o que me deixava mais nervosa.
Já era de madrugada, quando meu celular tocou, eu estava chorando de saudades de Renée. Me engasguei um pouco vendo o nome de Edward ali, pensei que ele nunca retornaria.
— Ed-Edward? — atendi gaguejando, controlando o choro por hora.
— Hey, eu acordei você? — perguntou cauteloso.
— Não, eu não consegui dormir nada hoje — sussurrei. Bom, não sem a ajuda de remédios, mas não queria que ele soubesse sobre os calmantes.
— Como ela está?
— O quadro está estável, mas nenhuma mudança significativa no coma — respondi voltando a chorar.
— Você está em casa?
— Sim, meu avô não quer que eu passe a noite no hospital, principalmente agora que a porra da imprensa descobriu sobre o caso dela.
— Sinto muito por isso. Alguma ideia de como a informação vazou?
— Seria impossível manter isso em segredo por muito tempo, muita gente atendeu Renée no hospital. É o mínimo dos meus problemas agora, eu só consigo pensar na minha mãe, em como a queria em casa.
Eu chorei por um tempo, ainda com Edward do outro lado da linha.
— Sonhei com você — ele contou.
— Um pesadelo, eu suponho.
— Não foi tão ruim — garantiu. — Em parte dele fiquei feliz de vê-la.
— Desculpe, Edward — pedi. — Desculpe ter sido uma pessoa insuportável antes, isso está servindo para me mostrar o quão estúpida já fui, sobre tudo. Eu sou tão idiota que até mesmo joguei fora aquela pedrinha que sua irmã me deu, isso foi tão babaca da minha parte, ela é só uma criança e inocentemente me deu um presente, eu...
— Clary te adora — ele me interrompeu — E ela é a pessoa com o coração mais puro que já conheci, Isabella. Então, acho que você tem seu lado bom, já que minha irmã consegue ver isso.
Meu choro voltou, mais alto ainda.
— Você vai ficar bem, Bella. Tem uma vida inteira pela frente, pode aprender com seus defeitos. Não precisa se tornar uma garota perfeita, só precisa saber lidar com eles.
Como ele podia ser tão bom? Eu suspeitava de que Edward nem tinha defeito algum, ele era altruísta, gentil, carinhoso. Como ele podia se importar comigo? Eu não me importaria com ninguém, mas percebi que era aquilo que nos diferenciava, Edward não pensava apenas em si mesmo, talvez eu devesse aprender algumas coisas com o Masen.
— Ontem — murmurei. — Você disse que não me deixaria sozinha, eu preciso saber se posso tê-lo como um amigo, Edward.
Eu o queria tanto por perto, o dia anterior tinha sido muito mais suportável com Edward junto de mim. Ele tinha algo em seu caráter, em sua personalidade que me deixava calma, que me dava forças. Era estranho pensar que o vocalista do Brooklyn estava sendo tão importante para mim, mas não podia negar que ele estava sendo sim, muito importante e que eu queria que continuasse sendo.
— Sim, Bella, eu posso ser seu amigo.
Aquilo me fez sorrir, um grande sorriso.
— Obrigada por isso — agradeci. — Por ser meu amigo.
— Não precisa agradecer, é algo que quero — falou, fazendo com que eu sorrisse ainda mais. — Você disse que não estava conseguindo dormir, não?
— Sim, eu estou tão exausta mentalmente, mas não consigo pegar no sono de maneira alguma — reclamei. — Talvez esteja sentindo sua falta — confidenciei, pensando em como tinha sido fácil dormir no hospital com Edward ali ao meu lado.
— Bom, eu ia te recomendar um banho quente para dormir, mas já que é de mim que precisa — ele falou em um tom divertido, soando convencido. — Deite sua grande cabeça em um de seus travesseiros caros e feche os olhos.
Fiz aquilo prontamente, acomodando-me em minha cama.
— Agora, diga-me uma música que gosta — pediu.
— Dream a Little Dream Of Me — falei depois de pensar um pouco. — Do Louis Armstrong, você conhece?
Edward riu baixinho, um som que adorei ouvir.
— Bella, você tem uma fé baixíssima em mim. Sim, eu obviamente conheço Louis Armstrong, ele é uma lenda.
— Desculpe.
— Fique em silêncio — exigiu, cantarolando a música, procurando o tom certo. — Stars shining bright above you¹ — começou a cantar, eu não fiquei surpresa que mesmo sendo vocalista de uma banda de rock, Edward conseguiria cantar qualquer outro estilo musical muito bem.
Mantive meus olhos fechados, minha concentração totalmente voltada para Edward enquanto ele cantava para me ajudar a adormecer.
— Say nighty-night and kiss me².
Foi um sono com sonhos daquela vez, sem mais escuridão e solidão. Mas, sim com Edward e beijos de boa noite, foi como ser resgatada do inferno e ir ao paraíso.
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