Sob minha Pele
34 Capítulo Trinta e Três
Notas iniciais
— Capitulo Trinta e Três —
— Bella —
Eu queria que fosse um pesadelo, como aqueles que o Garoto do Brooklyn tinha. Não queria que os policiais, a delegacia, ou as algemas geladas em meus pulsos fossem reais.
Também não queria que a forma que cheguei até ali, ou o culpado por aquilo, fosse real. Não queria ter parado naquele lugar, principalmente por culpa do meu avô.
Minha mãe estava certa, Renée tinha me alertado sobre aquilo, eu não deveria ter confiado em Marcus Higginbotham.
***
Entrei no hospital naquela tarde de quarta-feira exalando alegria, era muito bom estar de volta a New York, a Manhattan. Principalmente quando isso significava que eu poderia ver minha mãe, estava morrendo de saudades de Renée, precisava vê-la. Era incrível como eu estava ligada a ela, nossos laços de mãe e filha estavam se reconstruindo, nós superaríamos todo o tempo perdido do passado.
Eu estava esperando pelo elevador na garagem do prédio quando avistei Joe deixando seu carro, eu sorri e acenei para ele, que acenou de volta. Logo ele chegou até mim, sorrindo também.
— Como você está, Bella?
— Bem e você? Trabalhando muito como conselheiro?
Joe riu.
— Você sabe, as crianças na escola precisam de ajuda.
Nós conversamos durante todo o caminho do elevador, contei que tinha acabado de voltar de uma viagem para Hamptons, sugeri o lugar para Joe para sua próxima folga, então nos separamos quando cheguei no andar que minha mãe estava internada. Eu estava quase entrando no quarto de Renée quando Esme apareceu, chamando por mim.
— Bella?
Voltei meu olhar para ela, eu ainda sorria, mas o sorriso morreu quando vi o homem ao seu lado.
— O que você está fazendo aqui? — indaguei irritada para Phill junto de Esme.
— Bella, eu...
— Eu disse que não te queria aqui, Phill Dwyer! — falei entre dentes. — Não quero você aqui, principalmente perto da minha mãe, você é um grande idiota — acusei, Phill suspirou.
— Eu devo chamar a segurança, Bella? — Esme me perguntou apreensiva. — O senhor Dwyer apenas me disse que ele é um amigo de sua mãe, mas falei que não poderia deixar ninguém entrar aqui sem sua autorização, ou a do seu avô.
— Marcus Higginbotham não me deixaria ver Renée, ele sempre me detestou — Phill resmungou, eu ri debochadamente.
— Meu avô tem motivos para isso, você já devia ser um idiota completo quando namorou minha mãe, ele bem que devia saber que você não era um bom cara para minha mãe estar junto.
— Bella e os seguranças? — Esme insistiu, repousando uma mão em meu ombro, seu toque me acalmou um pouco. Olhei para ela, lembrando-me de antes quando eu fugia para a casa dos Cullen para fingir que meu mundo era mais fácil, quando eu fingia que era uma parte daquela família perfeita deles, estive mentindo para mim mesma por tanto tempo.
— Só quero conversar com você, Bella — a fala de Phill fez com que eu voltasse meu olhar para ele. — E ver Renée se você permitir, não quero criar uma confusão, prometo.
Respirei fundo, apertando a ponta do meu nariz em seguida.
— Que seja, Phill, você tem alguns minutos para conversar comigo — cedi. — Me espere na lanchonete lá embaixo, eu estive fora por dias, quero ver minha mãe antes de qualquer outra coisa.
O produtor musical sorriu, assentindo.
— Eu te espero lá, obrigado por aceitar conversar, Bella — ele disse. — Obrigado por ter me recepcionado também, Doutora Cullen — completou para Esme, que assentiu de volta para ele, deixando Phill seguir para o elevador antes de se voltar para mim.
— Ele é aquele cara da gravadora que recusou a banda dos meninos? — me perguntou. — Alice me contou sobre o que aconteceu outro dia.
— É sim, um idiota total — reclamei. — Acredita que minha mãe o namorou? Meu pai, Phill, Renée sempre teve um péssimo gosto para homens! — Bufei. — Mas, realmente preciso vê-la agora, como ela está? — perguntei para Esme.
— Bem, como te disse ontem a fisioterapia e a fonoaudiologia estão sendo pela manhã agora, então infelizmente você perdeu isso hoje.
— Eu me sinto mal por isso — murchei. — Mas chegamos ao Brooklyn e de última hora Edward resolveu fazer uma tatuagem, acabei o acompanhando no estúdio.
— A viagem foi boa?
— Ótima. — Sorri para Esme. — Tirando o fato de que Jacob apareceu no luau de Quatro de Julho. — O rosto da Cullen se fechou em uma careta. — Eu sei, né? Foi assim mesmo que me senti quando o vi lá, ele é outro idiota total. Meu gosto também era péssimo como o da minha mãe, sorte que isso mudou agora com Edward.
Esme sorriu carinhosamente para mim, afagando meus cabelos.
— Ele é um garoto ótimo, Bella. Você com certeza está com alguém incrível agora, bem diferente daquele menino tolo dos Black. — Esme revirou os olhos ao mencionar Jacob. — Agora, sobre sua mãe, como eu disse, ela está muito perto de falar, mais algum tempo e ela logo estará dizendo o quanto te ama.
Diante a perspectiva da fala da minha mãe, meu peito se tornou um lugar pequeno para meu coração. Renée estava melhorando, um pouco mais e nós cairíamos fora daquele hospital para nunca mais voltar, então a vida seria perfeita.
— Meu avô já sabe disso? Ele deve estar nas nuvens também! — exclamei entusiasmada, vendo Esme franzir o cenho.
— Bella, querida, o seu avô não esteve aqui um dia desde que você foi para Hamptons?
— Não? — perguntei, sem entender aquilo, já que antes de eu viajar ele tinha me prometido visitar Renée diariamente. — Vovô está sempre tão ocupado com o trabalho! — reclamei, Esme me lançou um sorriso amarelo.
— Vá ver sua mãe, ela está dormindo agora, mas sei que está com saudades dela.
— Mal sabe o quanto. — Beijei a bochecha de Esme, que piscou para mim, então me voltei para a porta do quarto de Renée, entrando ali.
Minha mãe dormia tranquilamente sobre a cama hospital, eu tive de me conter para não falar alto demais, sem querer despertá-la. Sendo assim, caminhei a passos silenciosos até o seu lado, tocando seus cabelos cor de mogno como os meus.
— Oi, mãe — falei, depositando um beijo em sua testa.
Renée parecia mesmo melhor, um tanto quanto menos pálida e com um pouco mais de peso. Ainda tínhamos um longo caminho até a recuperação total dela, mas minha mãe estava sendo uma vencedora e lutando para ficar bem.
— Hamptons foi incrível — contei, mesmo sabendo que repetiria tudo aquilo quando ela acordasse e pudesse de fato me ouvir. — Foi a melhor viagem da vida, ter Edward comigo foi excelente. Nós iremos para a praia assim que você sair daqui, certo? Provavelmente alguma na Flórida, já que são suas preferidas. Tenho certeza de que essa se tornará minha mais nova viagem favorita, eu convencerei Edward a ir. Sabe, o vovô também, nós quatro iremos nos divertir aos montes.
Sentei ao seu lado na cama, ainda afagando seus cabelos tão parecidos com os meus. Eu me via tanto em Renée, com exceção dos olhos, mas de todo resto era bem parecida com ela. Aro, o tatuador de Edward, tinha me achado parecida com alguém, ele provavelmente tinha visto minha mãe nos jornais e revistas quando ela foi internada depois da overdose.
— Irei contar para vovô hoje sobre Edward — continuei conversando com mamãe. — Eu mal vejo a hora dos dois se conhecerem, vai ser bom, não é? Vovô vai gostar de Edward, mamãe?
Ele tinha de gostar, a minha ideia de mundo perfeito incluía vovô e Edward tornando-se melhores amigos.
— Bom, eu preciso me ausentar rapidinho, mãe. Adivinha quem está ai? Phill Dwyer, é, seu ex idiota que negou a The Dragons. Ele é um imbecil, mas vou tirá-lo dos nossos pés agora, prometo. — Beijei a testa de Renée outra vez, antes de seguir para fora do quarto, dirigindo-me até a lanchonete onde Phill esperava por mim, com um copo de café diante de si. — O que tanto quer falar comigo? — questionei.
— Quer um café? Eu pago — ele se disponibilizou.
— Eu tenho dinheiro suficiente para comprar tudo dessa lanchonete, Phill Dwyer, não preciso que você ou qualquer outro pague nada para mim — o desafiei.
— Você se parece com ele — Phill disse, parecendo um pouco enjoado.
— Com quem? — indaguei, confundindo-me ali. — Caius? — Aquilo era um absurdo, eu não era nada parecida com aquele homem, meu pai para todos os efeitos.
— Não, eu nunca cheguei a conhecer Caius pessoalmente. — Phill tomou um pouco do café. — Com Marcus, você se parece muito com seu avô, seu jeito de falar, é exatamente como o dele.
— Aonde quer chegar com isso, Phill? — o confrontei, notando o tom de repreensão na sua voz.
Ele deu de ombros.
— Apenas dizendo.
— Eu posso notar seu tom julgador!
— Bella. — Phill largou o copo de café. — Sei que você mal me conhece, mas eu conheço muito bem sua mãe, ou pelo menos a antiga Renée, conheci seu avô também. Ele sempre foi um homem muito intolerante, arrogante, mesquinho...
— Cala a boca, Phill, cala a boca! — praticamente gritei, sentindo alguns olhares pairando sobre mim, mas sequer me importei. — Você realmente veio até aqui só para falar mal do meu avô? O que vai ganhar com isso?
— Eu só estou preocupado com sua mãe e com você, Bella. Olha onde Renée chegou, eu aposto que seu avô deve ter sido um dos culpados pelo vicio dela.
Ri, bem alto, achando Phill mais babaca ainda.
— Você é mesmo só um idiota, mamãe chutou sua bunda para ficar com meu pai, agora está ai todo cheio de dor de cotovelo remoendo o passado. Bom, deixe-me dizer, mesmo quando ela estiver cem por cento bem não a deixaria voltar a ter nada com você, não depois de ter desprezado a banda do meu namorado.
Phill franziu o cenho.
— Renée não terminou comigo para ficar com seu pai.
— Claro que sim, pela época que você me disse que terminaram até o casamento dela com Caius as datas batem. — Renée e Caius casaram, em uma cerimonia pequena para menos de cinquenta convidados, uma semana antes do natal, a lua de mel deles tinha sido na Austrália, um mês depois mamãe se descobriu grávida.
— Não, Bella, não. — Phill negou com um aceno de cabeça. — O cara com quem Renée namorou depois de mim se chamava Charles, ou Charlie. — Phill coçou o queixo. — Charlie, com certeza Charlie.
— Isso é loucura sua, deve estar confundindo Charlie com Caius.
— Não, eu sei que não estou. Escuta, Renée não me contou o sobrenome desse tal de Charlie, nem como se conheceram, ou outra coisa, mas quando terminou comigo ela disse que estava muito apaixonada por ele, que o amava demais e que queria viver esse amor.
— Ela amou Caius, você está confundindo os nomes — teimei.
— Não estou, foi uma surpresa para mim também quando eu vi nos jornais que sua mãe estava casando com o Caius. Eu não o conheço pessoalmente como falei, mas o sobrenome dele mesmo naquela época já tinha certo peso e foi impossível não saber que a herdeira Higginbotham tinha casado. O envolvimento deles foi bem repentino, pergunte isso ao seu pai.
— Que se dane, isso não muda nada. — Levantei. — Renée sempre foi muito instável, ela com certeza estava cansada de você, deve ter usado esse tal de Charlie de escape, depois se envolveu com Caius. — Encarei Phill. — Nosso papo morre por aqui.
— Bella, eu queria dizer que sinto muito por não ter aceitado a banda do seu namorado, mas não podia, eles não estão prontos.
— Não importa agora, você está totalmente fora das nossas vidas. — Lancei um sorrisinho sarcástico para Phill. — Se tentar ver minha mãe de novo eu irei avisar meu avô, ele vai cuidar de te manter longe dela, Dwyer, então é melhor você nunca mais tentar se aproximar de Renée, entendeu?
Phill apenas me encarou de volta, sem dizer uma palavra. Acenei para o homem, o deixando para trás na lanchonete, voltando até minha mãe.
Eu abri um grande sorriso quando entrei no quarto e vi que Renée tinha acordado, aquilo era como um doce sonho. Soltei um gritinho animado, correndo em meus saltos até a lateral da cama, dando um beijo no rosto dela, que sorriu para mim, o movimento parecia muito mais fácil do que quando eu a vi pela última vez.
— Oi, mamãe! — saudei. — É tão bom estar de volta. — Lhe beijei outra vez.
— O-Oi — Renée gaguejou o cumprimento, fazendo com que eu abrisse a boca em surpresa, ela estava mesmo conseguindo falar?!
— Mamãe, você está falando — comemorei, deixando as lágrimas de felicidade escorrerem por meu rosto.
— Bel — notei o esforço que ela teve de fazer para conseguir dizer só aquilo, mas era incrível vê-la voltando ao normal.
— Bella, isso! — Tornei a beijá-la.
Eu passei a próxima meia hora narrando — pulando Jacob, e todo o sexo com Edward — a viagem para mamãe, ela me ouvia atentamente, vez ou outra tentando falar uma palavra, às vezes conseguindo dizer metade. Então, eu acabei falando sobre Phill ter estado ali mais cedo.
— Ele disse algo sobre você ter namorado outro cara antes de se envolver com meu pai — murmurei, rolando os olhos. — Phill é louco, ou o que? — Olhei para Renée, que estava pálida, perdendo toda a cor de antes. — Tudo bem, mãe? — Ela assentiu com um fraco aceno de cabeça, apertando o quanto conseguiu minha mão na sua.
— Phi...
— Phill — completei. — É, ele esteve aqui e falou sobre esse seu namorado. Charlie era o nome dele? — Os olhos claros de Renée se infiltraram de lágrimas. — Mãe, o que foi? — perguntei temendo sua reação.
— Mo...
— Mo? O que isso significa? — indaguei sem entender, as lágrimas nos olhos dela deslizaram por seu rosto, eu rapidamente tratei de limpá-las. — Mãe? Por que você está chorando?
— Mo... — repetiu.
— Moda? O que está tentando me dizer? — Ela apertou minha mão novamente, fazendo com que olhasse para lá, seu dedo desenhou uma cruz na palma. — Uma cruz?
— Mor... — Renée praticamente sufocou ao insistir na palavra.
— Mor? — Franzi a testa. Mor...Morto! — Morto? — Ela concordou com um aceno de cabeça, chorando ainda mais. — Charlie morreu, foi isso? — deduzi.
Renée confirmou com um aceno de cabeça, antes de explodir em novas lágrimas.
— Ah, eu entendi tudo agora, mãe. — Tornei a limpar seu rosto. — Charlie e você namoraram e ele morreu, ai você se apaixonou pelo Phill. — Afaguei novamente seus cabelos. — Tudo bem, mãe, esqueça Charlie agora, certo? — Ela continuava chorando, o que começou a me assustar, até porque ela estava ficando sem ar. — Mãe, você tem de parar de chorar — falei em desespero.
— Bel... — ela tentava dizer meu nome em meio ao choro e sua dificuldade. — Bel...
Sem saber o que fazer, temendo que algo de grave acontecesse, apertei o botão que chamava a enfermeira. Eu praticamente o quebrei, na verdade, mas queria logo alguém ali para me ajudar com Renée.
Para meu alivio, além de uma enfermeira, Esme também apareceu. Eu vi o susto em seu rosto quando percebeu o choro de Renée, o que também estava me assustando muito.
— O que aconteceu? O que a deixou assim? — Esme perguntou, depois de mandar a enfermeira buscar por um calmante.
— Nós estávamos falando sobre Phill, ela ficou assim depois disso — falei nervosa com o estado de Renée. — Ele é um idiota, falei que ele era um babaca!
A enfermeira logo voltou com o calmante, agilmente Esme o ministrou na veia de Renée. Eu vi minha mãe cedendo aos poucos ao medicamento, se acalmando conforme ele fazia efeito, até que ela apagasse de vez, ainda com lágrimas no rosto.
***
O resto do dia foi um inferno, eu estava tão preocupada sobre o estado de Renée que não consegui pisar fora daquele quarto por um minuto que fosse. Ela dormiu o tempo todo, mas ainda assim não queria deixa-la, temendo que ela acordasse e voltasse a ter uma crise de choro.
Era pouco mais meia-noite quando Esme acabou seu plantão, o que a fez me arrastar para fora do quarto de Renée, dizendo que ou eu ia descansar por bem, ou ela me proibiria de visitar minha mãe. Eu estava exausta, pois não foi muito difícil ceder.
Esme queria que eu fosse passar a noite no apartamento dela, onde Alice e Carlisle estavam, mas ainda queria ver meu avô — que também passou aquele dia inteiro incomunicável —, então dispensei aquilo. Mas, aceitei que ela me forçasse a comer algo na lanchonete do hospital, daquela forma quando finalmente deixei o carro de Esme — que insistiu em me dar uma carona — e fui para minha casa, já era quase uma da manhã.
Minha mente confusa de sono e cansaço não notou a porta destrancada, foi um erro, talvez se eu tivesse percebido aquilo teria conseguido me livrar de todo o caos que aconteceu depois. Ou, o destino, carma, ou qualquer merda dessas, sempre me levaria de volta a toda merda que aconteceu.
O barulho de passos para todos os lados foi a segunda dica de que algo estava fora do comum, eu devia ter me atentado melhor ali. Então, quando cheguei a sala de estar e os vi, logo notei que era tarde demais para qualquer fuga.
— O que diabos vocês estão fazendo aqui? — eu indaguei perplexa a ver Jacob, Billy e a senhora Black, junto dos três dois seguranças. — Que merda! — exclamei, vendo a bagunça que o apartamento estava, tudo revirado, como se um maldito furacão tivesse cruzado a sala. — Cadê meu avô?
Billy e a esposa tinham olhares de puro ódio para mim, enquanto Jacob parecia assustado.
— Cadê seu avô? — Billy gritou, cruzando a sala até mim, eu não tive tempo de correr, o Black envolveu suas mãos em meu pescoço, sufocando-me. Tentei afastá-lo, mas ele era mais forte, o ar já não chegava aos meus pulmões de forma nenhuma, eu sentia que podia desmaiar em segundos. — Diga-me onde aquele velho filho da puta está, sua vadiazinha! — continuou gritando.
— Pai, por favor — ouvi o pedido nervoso de Jacob, que parou junto Billy e eu, tentando tirar as mãos do pai de mim também. — Não a mate, isso só complicaria tudo, por favor.
Billy urrou, largando-me no chão, fazendo com que eu caísse de qualquer forma. Minha cabeça bateu firme contra o piso, fazendo com que eu choramingasse de dor.
O que estava acontecendo? Onde estava meu avô?
— Vamos, sua vagabunda, diga! — Billy se agachou junto de mim, segurando meu braço com força, sacudindo-me. — Fale onde está seu vovô.
— E-Eu não sei — gaguejei, já chorando de medo.
Eu precisava que vovô aparecesse e me salvasse.
— Sabe sim, aquele velho tem total obsessão por você, ele não te deixaria para trás e fugiria só.
Fugir? Por que vovô fugiria?
— Fale! — Billy gritou, seu punho acertando minha bochecha em um soco, o que me fez gritar alto. Aquela altura meu corpo todo doía, mas o pânico pelo o que estava acontecendo era pior.
Onde estava meu avô? Por que ele não aparecia e me salvava?
— Mate-a de uma vez, o velho Higginbotham merece isso — ouvi a voz entediada de Sarah.
— Não, não! — Jacob tornou a gritar. — Pai, não mate a Bella, por favor!
Mesmo entre minhas lágrimas vi Billy encarar o filho.
— Você ama mesmo essa vagabunda, não é?
— Pai...
— Eu não deveria ter deixado o velho Higginbotham deixá-la entrar em sua vida, Jacob, ela é uma puta desgraçada como todos dessa maldita família. — Billy se voltou para mim, eu tremia, mas não era de frio, apenas pânico. — Eu só vou te deixar viva porque quero meu dinheiro de volta, sua puta, entendeu?
Que dinheiro? Do que ele estava falando?
— Você vai dar um jeito de deixar seu vovô saber disso, compreendeu o que falei? Não sei o que vai acontecer com você amanhã quando a policia cumprir os mandatos de prisão, mas sei que se eu não tiver meu dinheiro logo, eu volto e acabo com o que resta de vida para Renée e daquele seu namoradinho. — Billy sorriu diabolicamente, afagando meu rosto dolorido por conta do seu soco. — Jacob ficou bem irritado quando descobriu que você já estava fodendo com outro, você tem sorte que eu estou muito bonzinho hoje e não mato seu namoradinho agora mesmo, puta. Mas, não se esqueça, ou eu tenho meu dinheiro em breve, ou todos próximos de você vão morrer e a última bala será sua.
O que ele queria? Por que aquilo estava acontecendo?
Onde estava meu avô?
E Edward estava correndo perigo?
— Leve minhas joias — consegui falar, se ele queria dinheiro aquilo devia pagar o que ele queria, Billy riu, mas sem real humor. Ele mexeu em sua calça, então vi tirar uma arma de lá.
— Joias que seu vovô também levou? Eu quero cada dólar que seu avô roubou de mim. — Billy colocou a arma na minha cabeça, o cano do revolver fazendo com que eu paralisasse. — Ele passou a perna em mim, mas vai me devolver tudo, nós não tínhamos negócios em comum para ser traído por meu sócio. Eu até gostava do velho, mas agora quero que ele morra, depois de me dar todo o dinheiro, claro. — Billy desceu a arma por meu rosto, a forçando entre meus lábios, eu sequer conseguia respirar. — Se ele te ama mesmo vai me dar o dinheiro e garantir sua vidinha de merda, puta.
— Senhor Black — ouvi uma voz estranha, que devia ser de um dos seguranças. — O helicóptero está pronto, temos de ir agora — anunciou.
Billy tirou a arma de mim, causando-me um alivio momentâneo.
— A policia estará nas ruas as sete, não temos tempo a perder com essa vagabunda, Billy — Sarah completou, ouvi seus saltos, então senti a ponta de um deles na minha bochecha. — Você, Isabella, cuidado com o que vai falar para a policia.
Ela soltou minha bochecha, eu quis matar aquela mulher, mas no segundo seguinte Billy me deu um tapa, então outro, parecendo descontrolado. Eu estava quase perdendo a consciência, quando Jacob afastou o pai.
— Chega, ela já entendeu!
— Vamos Billy, temos que cair fora dessa cidade de merda — Sarah ordenou, ouvi passos, mas não tive tempo de pensar que todos foram embora, pois Jacob ajoelhou junto de mim.
— Sinto muito, Bella. — Tocou no meu rosto ferido, antes de partir e me deixar desmaiar por fim, ainda me perguntando o que estava acontecendo e principalmente, onde estava meu avô.
***
Quando despertei, implorando para tudo ser fruto de um pesadelo, eu continuava largada no chão. Era real, não um pesadelo.
Com dificuldade, com meu corpo todo doendo, eu consegui sentar no chão da sala. Ainda toda dolorida, avistei minha bolsa largada ali perto, com muito esforço a apanhei, pegando meu celular.
Meu reflexo na tela me assustou, eu estava com o lado direito do rosto inchado, roxo e vermelho, até mesmo com um corte na bochecha. Em meu pescoço marcas das mãos de Billy. Parecia um monstro, tudo aquilo culpa dos Black.
Ainda não entendia o que tinha acontecido horas antes — já era quatro da manhã —, não entendi mesmo nada. Que dinheiro era aquele que Billy queria desesperadamente? E por que vovô tinha fugido e levado minhas joias?
Eu disquei o número do meu avô, implorando para que ele me atendesse daquela vez. Não aconteceu, a gravação telefônica me informou que aquele número de celular encontrava-se fora de área de serviço ou desligado, como esteve pelo resto do dia, o que me apavorou ainda mais.
Pensei em ligar para os Cullen pedindo por ajuda, pensei em ligar para Edward. Não consegui, eu estava tão confusa e apavorada, com medo das ameaças dos Black, que temia fazer qualquer coisa.
— Ai, ai. — Choraminguei quando levantei, tentando chegar até as escadas.
Eu as subi, vendo a bagunça no segundo andar. Meu quarto, o de Renée, o de vovô e o de hospedes, assim como o escritório estavam revirados. Os Black tinham feito tudo aquilo, era minha única certeza.
Fui até o atelier do apartamento, que como todo o resto do lugar também estava revirado. O que aqueles monstros queriam da gente?
Muitos dos meus desenhos e pinturas tinham sido destruídos, rasgados e as telas quebradas também, eles destruíram minha arte. Nossa, na verdade, o trabalho de Renée que ainda residia ali também estava acabado.
Sai dos meus saltos, pisando diretamente na bagunça do chão, sentindo o estrago deixado para trás por conta da família Black. Eles bagunçaram tudo, minha casa, minha mente, mas não de uma forma positiva como o Garoto do Brooklyn fazia.
— Você sobreviveu — sussurrei, vendo a pintura dos meus olhos que Renée tinha feito, estava embaixo de outras, eu a puxei ali, parando quando vi um bilhete anexado à tela.
Era a letra de vovô e dizia:
“Eu voltarei para buscá-la, minha garota preferida.”
Para onde ele tinha ido? E por quê?
***
Ainda perdida e sozinha, me forcei a tomar um banho quente, tentando amenizar a dor que sentia, como invadi o armário do banheiro de Renée e peguei ali alguns remédios para dor. Ignorando a bagunça exterior e interior, eu me deitei na cama da minha mãe e me vi vencida pelo sono novamente.
Eu queria um bom sonho, para fugir daquele pesadelo.
Ao acordar outra vez, nem me importei em me iludir sobre a realidade, eu sabia que os Black tinham estado ali, que Billy quase me matou e que prometeu matar todos perto de mim caso não tivesse o que mais queria. Eu me sentia fora do meu corpo com tudo aquilo, sem saber o que fazer.
— Bella? — Olhei para a porta do quarto de Renée — eu devia ter passado uma hora encarando o teto, absorvendo tudo aquilo —, vendo Sue. — Menina, o que aconteceu aqui? O que aconteceu com você? — perguntou apavorada.
— Eu não sei — foi tudo que consegui responder.
A campainha tocou, Sue hesitou, mas foi atender. Ela não voltou sozinha, junto dela dois homens mal encarados, com brilhantes distintivos em seus peitos, assim como em suas roupas os dizeres: Policia de New York.
Os Black tinham mencionado a policia.
Aos tropeços eu levantei da cama, encolhendo-me dentro da camiseta e short que usava. Não eram pijamas, mas ainda assim eu me sentia uma garotinha indefesa neles.
— Isabella Marie Higginbotham Sawyer, você está presa por lavagem de dinheiro — um dos policiais informou, Sue arfou.
O quê?
— Não — neguei prontamente.
Um Higginbotham preso? Aquilo era loucura, meu bisavô tinha sido um presidente, porra!
— Tem algo errado, sou Isabella Higginbotham, não vou presa coisa alguma!
— Isabella Marie Higginbotham Sawyer — o policial repetiu. — Seu nome está certo e você está presa, pode vir conosco agora. — Chamou por mim com a mão, apontando com a outra para a saída do quarto, Sue chorava baixinho. — Vamos, garota, não tenho todo tempo do mundo — ele insistiu, andando até mim, eu pulei por cima da cama, tentando fugir dele e chegar ao banheiro, mas fui capturada pelo outro policial.
Sue choramingava meu nome, pedindo que eles me soltassem.
— Não, não, vocês estão prendendo a pessoa errada! — gritei, me debatendo nos braços do homem. — Meu avô é Marcus Higginbotham, ele vai acabar com vocês quando descobrirem que querem me prender!
Os policiais riram, eu estremeci.
— Seu avô também está sendo procurado pela policia, senhorita, ele irá preso assim que o encontrarem.
O quê?
— Não, não — sussurrei desesperada, sentindo o policial deslizar algemas em meus pulsos. — Isso não, por favor! — implorei.
— Você tentou fugir, nos ameaçou e está descontrolada, fora que me acertou uma cotovelada, irá algemada sim. — Com brusquidão o policial me forçou a andar para fora do quarto de Renée.
— Bella. — Sue tentou pegar em mim, mas foi impedida pelos homens.
— Peça ajuda, Sue, peça ajuda — clamei, já aos prantos.
Eu queria minha mãe, queria Edward e mesmo sem entender nada, queria meu avô também.
***
Não fui levada direto para a delegacia, sim para o Instituto Médico Legal onde passei por um exame de corpo de delito. Segundo a médica que me atendeu — enquanto ela falava só, pois eu estava em choque demais para dizer qualquer coisa —, aquilo era um procedimento padrão realizado em detentos.
E eu era uma detenta.
Depois do exame, que foi constrangedor, humilhante e durou mais de uma hora, os policiais novamente me colocaram na viatura. Alice uma vez, quando éramos pré adolescentes, tinha comentado que devia ser emocionante andar numa daquelas, bom, eu poderia dizer a ela que não era, de forma alguma.
As emoções sentidas ali eram angustia, medo e raiva. Os policias se negaram a falar comigo, apenas me dizendo novamente, quando perguntei, qual era o motivo da minha prisão: Lavagem de Dinheiro.
Lá estava eu envolvida naquilo sem nem saber como.
A chegada à delegacia foi pior, meu coração começou a bater alucinadamente dentro do peito quando vi a frente do local tomada por jornalistas. Novamente tentei me livrar dos policiais, mas eles facilmente me tiraram do carro, fazendo com que todos os olhos se voltassem para mim, assim como as perguntas começassem.
— Isabella por que não fugiu com seu avô?
— Quem lhe bateu?
— Alguma pista do paradeiro dos Black?
— O embaixador Sawyer também fugiu, onde ele está?
— Por que compactuou com o esquema de lavagem de dinheiro?
Eu não tinha, não sabia de merda nenhuma daquela.
— Vamos, o delegado está louco para falar com você, senhorita — o policial, falou. Ele me forçou a andar, eu estava descalça desde que sai de casa, parecendo uma qualquer.
Foi até bom entrar na delegacia e deixar para trás toda a confusão do lado de fora, mas o pesadelo recomeçou quando eu me vi realmente naquele lugar. Uma delegacia, policiais e algemas.
— Ora, ora, aqui está você — aquele que deduzi ser o delegado, exclamou quando fui colocada em sua sala. — Sou o delegado Headey. — Se apresentou, esticando uma mão para mim, se eu não estivesse no inferno teria rido de sua brincadeirinha estupida. — Oh, desculpe-me, suas mãos estão ocupadas.
— Ela deu trabalho — um policial informou o delegado, soltando meus pulsos, rapidamente os massageei quando eles foram libertos das algemas, estavam doloridos como todo o resto do meu corpo.
— O que diabos estou fazendo aqui? — gritei com o delegado, recuperando parte da minha força.
— Sem gritos, senhorita Sawyer, não queremos que seja acusada por desacato também, não é? — Sorriu para mim. — O que aconteceu com seu rosto?
— O senad... — eu me interrompi, era seguro acusar Billy depois de ele ter ameaçado todos ligados a mim. — Não importa, quero saber o que estou fazendo aqui?
— Não finja que não sabe, Isabella. — O delegado remexeu em uma pilha de papeis sobre a mesa, estendendo um para mim, no fim da folha vi minha assinatura. — Lavagem de dinheiro, é por isso que está presa. Você, seu avô e a família Black estão envolvidos em um esquema bilionário.
Peguei o papel da mão dele, trêmula, analisando minha assinatura. Era minha mesmo, não uma falsificação. Eu só assinava papeis para uma pessoa, vovô.
Ele tinha me envolvido naquilo? Ou tinha sido enganado também?
— O meu avô é inocente — sussurrei, chorando.
— Você sabe que ele não é, Isabella. — Olhei para o delegado, vendo o sorriso feliz dele. — Eu também não acredito na sua inocência, por isso você está presa e não pretendo soltá-la tão cedo.
— Eu quero um advogado, chame meu advogado! — exigi, passando o documento de volta para ele. — Ele irá provar que sou inocente, que meu avô é inocente.
— Você terá de ser representada por um defensor público, já que todos os bens da sua família estão aprendidos e congelados a partir de hoje.
— Nã-Não — gaguejei, aquilo queria dizer que eu estava pobre?
— Ah sim, pode apostar que sim. — O delegado se sentou em sua cadeira. — Arrependida de ter tentado ganhar dinheiro fácil, senhorita?
— Eu não sei de esquema nenhum — afirmei.
— As assinaturas! — o policial ainda ali lembrou.
— Não sabia que elas eram para algo ilícito, juro. — Ele e o delegado gargalharam, enquanto eu me lembrava do aviso de Renée na carta de despedida.
“Não confie em seu avô.”
Ela estava certa, sempre esteve.
Eu estava a um ponto de desmaiar quando ouvi a movimentação, foi tão rápido que logo a porta da sala se abriu. Olhei para trás, primeiro vendo Esme, Alice ao seu lado e atrás delas Edward.
O Garoto do Brooklyn as ultrapassou, ignorou o policial e o delegado, que gritavam furiosos pela invasão, e me colocou em seus braços. Eu desabei em seus braços, começando a chorar, sentia-me traída, usada, suja, por aquele que amava, meu próprio avô.
— Vai ficar tudo bem, Bonequinha.
Não acreditei na fala de Edward, eu não acreditava que o mundo pudesse voltar a fazer sentido depois daquilo.
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