Sob minha Pele
38 Capítulo Trinta e Sete
Notas iniciais
— Capítulo Trinta e Sete —
— Bella —
Era engraçado como a vida podia mudar tão rapidamente, em um fim de semana eu estava curtindo em Hamptons com meu namorado e amigos, no outro estava numa cela imunda, com duas presas que me assustavam. Eu, Isabella Higginbotham, estava no meu próprio fundo do poço, sem ter reais esperanças de escapar de lá.
O fim de semana na cadeia foi aterrorizante, não achava que podia ser diferente, claro. Eu estava apavorada com tudo, desde a companhia nada agradável das minhas companheiras de cela até mesmo aos policiais que não demonstravam segurança alguma para mim.
Mas, claro que isso acontecia, afinal para eles eu era a ameaça, não alguém a ser protegida. E pensar que eu já tinha andado com seguranças particulares, já tinha até mesmo sido escoltada pela polícia em eventos em Washington D.C junto de Jacob e sua família.
Eu tinha perdido todo o luxo, era como a Cinderela a meia noite que voltou a ser a gata borralheira e perdeu tudo. Porém, meu príncipe ainda estava lá fora esperando por mim, eu só podia implorar que ele não me deixasse sozinha entre os ratos.
Aqueles dias na cadeia, além de serem aterrorizantes, também foram péssimos para meu corpo. A comida era ruim, o banheiro era pior do que tudo, eu tinha minhas costas doloridas pela cama fornecida para mim e quase não conseguia dormir, pois temia o que as mulheres presas ali comigo tentassem algo enquanto eu estava inconsciente.
Minha mente não estava muito melhor, claro que não. Eu pensava a todo instante sobre o que me levou até aquele lugar, em como eu poderia sair e tudo que Edward tinha me contado quando me visitou só deixava minha cabeça pior.
Charlie, Elizabeth, Clarisse, meu avô. Aquelas quatro pessoas não saiam da minha mente, eu sempre estava pensando em pelo menos uma delas, tentando me convencer de que tudo que Edward disse era real, mas então eu regredia e não conseguia acreditar em nada daquilo.
— Você não é meu pai! — sussurrei para a foto que Edward tinha deixado comigo, na madrugada de segunda feira, enquanto não conseguia dormir. Kendra e Valerie tinham dormido não muito tempo antes, depois de fazerem coisas, depois me fazerem ouvir aquilo, eu ainda sentia uma grande vontade de vomitar, desejei implorar que elas parassem, mas me mantive quieta, tentando salvar minha própria pele.
Engoli a vontade de chorar, eu não podia chorar mais, não só por estar chorando sempre, mas por temer que meu choro acordasse Valerie e Kendra. Toda vez que eu chorava, elas ficavam putas da vida e eu não as queria mais irritadas comigo, não sabia até quando ficaria ali e até quando elas iam se manter longe de mim, mas não queria arriscar.
— Você não é meu pai! — repeti para a figura de Charlie Swan naquela foto. — Não, você não é meu pai. — Eu senti vontade de rasgar a fotografia, mas não tive coragem. Não queria perder o sorriso de mamãe, ela estava tão radiante naquela foto e o pequeno Edward em seu colo era uma gracinha, tão fofo.
Como seria um bebê de nós dois? Ele teria meus olhos e os cabelos de Edward? Ou teria meus cabelos e os olhos do pai? Seu rosto se pareceria mais com o meu, ou ele seria mais parecido com o Garoto do Brooklyn?
Bom, eu sabia que seria uma linda criança, com certeza. Aquela foi a primeira vez que pensei em ser mãe, uma mãe de verdade. Antes, qualquer pensamento que tive sobre ser uma mãe vinha acompanhado de uma obrigação, pois sabia que o casamento com Jacob uma hora ou outra ia requerer que tivéssemos bebês para mostrar a porra da sociedade como preservarmos a sagrada instituição familiar.
Só que, naquela madruga, enquanto via a fotografia com Edward bebê no colo da minha mãe, eu pensei realmente em ser uma mãe. Em como seria durante a gravidez, em montar detalhadamente o quarto daquela criança, no parto, em tê-la em meus braços e dizer a ela que a amava, pois se eu amava Edward, eu com certeza amaria um filho dele.
Entretanto, quais eram as chances de Edward e eu termos um futuro juntos ao ponto de podermos ter filhos? Eu não conseguia nem um habeas corpus, conseguiria ser inocentada? Duvidava disso, duvidava que teria um futuro, se um dia fosse solta iria estar velha demais e Edward não esperaria por mim, eu não iria querer que ele esperasse e talvez aquele foi meu pensamento mais altruísta durante minha vida toda.
— Sinto sua falta, Garoto do Brooklyn. — Toquei na imagem dele na fotografia. — Foda-se, você foi uma criança tão linda, eu quero ver mais fotos suas nessa idade.
Olhei para a quarta pessoa naquela foto, Elizabeth, minha sogra e mãe da minha tia? Porra, aquilo era tão complicado de entender, tão difícil de acreditar, como assim eu era sobrinha de Clarisse?
O meu avô tinha mesmo dormido com Elizabeth? Ela podia estar inventando, não podia? Eu amava Edward, mas talvez a mãe dele fosse uma maluca criadora de histórias. E se ela e aquele tal de Charlie tivessem algum plano louco? Se eles fossem os verdadeiros vilões? Meu avô podia estar sendo atacado, quando na verdade era um inocente, ele podia ser um inocente, não podia?
Engoli em seco, pensando na carta de despedida de mamãe, naquele dia que Jacob rompeu o noivado e meu avô me atacou, em como Phill se referia a ele com adjetivos negativos e no fato de meu avô ter me deixado para trás, em ter me feito assinar aqueles documentos todos. Ele tinha sido enganado também? Qual era a probabilidade disso? E se ele não sabia realmente nada daquilo por que teria fugido? Por que não só a polícia, mas Billy Black estava o caçando também por conta de todo o roubo?
Meus olhos pairaram sobre Renée na foto, sim, o sorriso dela era algo que me fazia sorrir de volta. Eu provavelmente não me lembrava de já a ter visto tão feliz daquele jeito.
— Ele é culpado, não é, mamãe? — perguntei para ela.
Eu estava tão exausta, fisicamente e mentalmente, que alucinei com sua resposta.
— Sim, ele é culpado.
Olhei mais uma vez para Charlie Swan naquela fotografia, ele era mesmo meu pai?
***
Na manhã da segunda-feira, após minha nova rotina matinal da cadeia, um policial apareceu anunciando que eu tinha visita. Como eu não recebi nenhuma visita desde Edward na sexta-feira, aquilo conseguiu me animar um pouco, seria bom ver alguém além de Kendra e Valerie para variar.
Sendo assim, eu obedeci cada comando dado pelo policial, para que nada atrapalhasse minha visita. Eu fiquei um pouco chateada quando entrei na sala e vi que não era Edward lá esperando por mim, mas ver Esme foi bom também, então eu forcei um sorriso para ela e fui ao seu encontro.
— Oh Deus, Bella! — Ela se levantou, me dando um forte abraço. — Não vou perguntar como está, querida, pois é óbvio, mas espero que saiba que estamos fazendo de tudo para conseguir te tirar daqui.
Eu me apertei ainda mais nela, aproveitando-me do conforto do abraço de Esme. Eu tinha Renée, eu sabia que ela me amava e eu a amava muito, mas Esme Cullen com certeza sempre foi uma pessoa importante na minha vida e estava sendo ainda mais no meio daquele furacão pelo qual estava passando, era sem dúvidas uma segunda mãe para mim.
— Eu sei, muito obrigada por não desistir de mim, Esme — agradeci em um fio de voz.
Ela se afastou o suficiente para tomar meu rosto em suas mãos, seus olhos estavam repletos por lágrimas, assim como os meus.
— Não vou desistir de você, Bella. — Ela afagou meu rosto. — Só gerei Alice em meu ventre, mas você é como minha filha, eu te gerei no meu coração todos esses anos, meu bem. Não importa o que esteja acontecendo, ou o que as pessoas falem, eu continuo sentindo muito carinho e amor por você, Isabella. Vi todas as vezes que você correu para nossa casa querendo fugir da sua realidade, eu sei que seu coração é bom, sei que você foi uma grande vítima de tudo isso. Um dia, no hospital, logo depois de Renée acordar pela primeira vez, eu prometi a ela que cuidaria de você, eu vou honrar a promessa que fiz a sua mãe.
— Obrigada, Esme, muito obrigada — agradeci chorando.
— Eu sei que hoje aquele habeas corpus sai, Bella, eu estou crente nisso. — Limpou as lágrimas do meu rosto, olhando para as algemas ao redor dos meus pulsos. — Isso está te machucando? E seu rosto? Ele ainda está marcado pelo o que o maldito Black fez!
— Eu vou ficar bem — menti, pois aquela altura duvidava de que ficaria bem, pelo menos não bem como era antes.
— Edward nos contou tudo sobre seu avô, sobre Charlie também — Esme falou, fazendo com que eu sentasse em uma das cadeiras que tinha na sala, meu choro piorou ao ouvir o que ela disse.
— Vo-Você acredita?
Esme suspirou, segurando em minhas mãos e ajoelhando-se no chão. Ela não parecia se importar nada que aquilo fosse sujar sua calça social, que com toda certeza custava uma fortuna.
— Eu acredito sim, Bella.
Inspirei fundo, tentando absorver a confiança que Esme passava naquela afirmação, mas não consegui.
— Edward iria para a rodoviária essa manhã, buscar por Charlie — Esme contou.
— Ele está vindo mesmo?
— Sim, ele parece muito disposto a finalmente conhecer você, querida — ela declarou. — Escute-me, você quer conhecê-lo?
— Não sei o que fazer, Esme — confidenciei, ela assentiu. — O que acha?
— Eu acho que você deveria conhecê-lo — disse com sinceridade em sua voz. — Você não precisa tratar esse homem como um pai logo de cara, nem sabemos mesmo se ele é seu pai, mas eu acho que deve ao menos dar uma chance a ele.
— E se ele for mesmo meu pai?
Esme sorriu.
— Você terá outra pessoa disposta a ajudá-la.
— Um pouco tarde demais, não? Ele está só dezenove, quase vinte, anos atrasado.
— E se ele for seu pai, você quer perder mais vinte anos? O conheça agora, Bella, dê uma chance a ele, dê uma chance a você também.
— Eu já tenho um pai — murmurei
— Nós sabemos muito bem que Caius nunca foi um pai de verdade para você, Isabella.
— Não estou me referindo a Caius, eu estou falando do meu avô.
Esme se afastou um pouco, seus olhos piscando. Ela tentou se manter confiante, mas vi a confiança se esvaindo dela.
— Bella, eu sei que é difícil aceitar isso, mas foi seu avô quem te colocou nessa situação. Precisa entender isso, ok? Até mesmo para sua defesa, se você continuar o protegendo, achando que ele é inocente, isso acabará te prejudicando ainda mais.
— Eu o amo — sussurrei. — Ele é meu avô, Esme, ele é meu avô!
— Eu sei, querida. — Os olhos dela se encheram de lágrimas novamente. — Mas, ele não é inocente.
— Eu quero acreditar nisso — confidenciei. — Mas, eu… — Dei de ombros.
— Mas você o ama — Esme completou. — Eu imagino o quão confusa sua mente deve estar, Bella, não será um caminho fácil até você reorganizar tudo em seu interior, mas precisa dar o primeiro passo para por tudo em ordem.
Eu assenti, voltando a encarar minhas mãos. Sabia qual era o primeiro passo, ele parecia assustador, mas me vi obrigada a dá-lo.
— Diga a Edward que eu quero conhecer Charlie.
***
Não muito depois do meu tempo de visita com Esme chegar ao fim, um policial apareceu na porta da cela que eu estava, com Jenks junto de si. Eu paralisei ao ver o sorriso no rosto do advogado, mas temi cantar vitória antes do tempo, sendo assim não comemorei qualquer coisa.
— Olá, Isabella! — Jenks me cumprimentou quando eu me movi até a grade da cela, agarrando-me as barras de ferro.
— Oi doutor, que tal cuidar dos nossos casos também? — Ouvi Kendra perguntar do seu lugar na cela.
— Tenho boas novas — Jenks disse para mim, ignorando o pedido de Kendra.
— Pode dizer.
— O habeas corpus saiu. — Eu soltei um suspiro alto, aliviada com o que tinha ouvido. — Estou cuidando de toda a papelada, mais meia hora e te tiramos daqui, prometo, pode ficar tranquila agora.
— Obrigada, Jenks! — agradeci, sem conseguir conter as lágrimas de rolarem por meu rosto.
— Vou indo agilizar tudo. — Ele sorriu amigavelmente para mim mais uma vez, antes de se afastar junto do policial.
— Olha só, parece que a princesinha vai nos deixar — Valerie falou, em um tom de voz debochado.
— Tenho certeza de que ela irá sentir nossa falta! — Kendra emendou. — Não quer uma despedida em grande estilo, Bonequinha? — Riu como uma hiena.
Eu quis mandar ela se foder, mas continuei quieta, agarrada a grade. Não ia estragar tudo, faltava pouco para deixar aquela prisão, em breve eu iria embora.
Não para o apartamento luxuoso em Manhattan, mas sim para o apartamento simples no Brooklyn. Eu estaria junto de Edward, eu estaria em casa.
***
Como prometido por Jenks, cerca de meia hora depois um policial aparecia para me tirar da cela. Eu estava tão feliz com aquilo, que por um segundo esqueci que não estava inocentada, só poderia responder em liberdade, mas por hora era o suficiente.
O policial me entregou uma sacola com roupas e deixou com que eu me trocasse em um banheiro da delegacia, tudo ali dentro não me pertencia. Então, eu presumi que Esme e/ou Alice, tinham feito compras para mim, minha amiga provavelmente teria usado aquilo como um escape para toda a confusão que acabei a envolvendo.
Depois de eu me vestir com a calça jeans e blusa, calçando sapatilhas e prendendo meus cabelos em um coque, guardando comigo a foto que eu estava mantendo no meu uniforme de presidiária, deixei o banheiro e fui levada pelo policial até a sala do delegado. O homem maldito que tinha me mantido presa ali todos aqueles dias, não parecia nada contente com a minha saída.
— Preciso que assine algumas coisas antes de ir, Isabella — Jenks, que também estava lá, falou para mim.
Eu estremeci com a ideia de assinar qualquer coisa que fosse, afinal não tinha sido aquilo que me colocou em maus lençóis?
— Pode assinar. — Jenks estendeu a caneta para mim.
A peguei, inclinando-me sobre a mesa do delegado para assinar os papéis ali. Minha mão ainda tremia, mas assinei tudo.
— Tome cuidado, senhorita, estou de olho em você! — o delegado exclamou, jogando um saco transparente, com os pertences que eu estava usando quando fui presa, para mim. Eu consegui o aparar no ar, antes que aquilo pudesse atingir meu rosto, que sabia que ainda estava marcado pela agressão de Billy.
— Pode deixar, eu me cuidarei muito bem — devolvi a fala, empregando sarcasmo no que falei.
— Vamos, Esme e Alice estão esperando por você. — Jenks indicou a saída, eu segui junto dele para fora da sala do delegado.
Minha melhor amiga e a mãe dela estavam do outro lado da porta quando sai, rapidamente Alice pulou em meus braços. Receber um abraço dela foi excelente, eu estava morrendo de saudades daquela garota, mais do que achava que fosse possível.
— Finalmente, vamos embora desse lugar horroroso! — Alice exclamou, ainda me apertando em seus braços.
— Querida, que tal passarmos lá em casa para que você possa tomar um banho e comer algo antes de te levarmos para o Brooklyn? Edward e Charlie estarão lá...
— Sim, eu aceito um bom banho e comida — cortei Esme, sem querer ouvir falar em Charlie naquele momento.
— Vamos. — Alice incentivou, entregando-me óculos escuros.
— Para que isso?
— Tem alguns jornalistas lá fora, sei que os óculos não vão resolver nada, mas.
Eles me ajudariam a mascarar o terror pelo qual eu estava passando, por isso os coloquei, seguindo com as mulheres Cullen para fora da delegacia depois que nos despedimos de Jenks. Eu sabia que iria o reencontrar em breve, se os Cullen continuassem pagando os honorários dele, claro.
Como Alice tinha avisado, a frente da delegacia estava tomada por jornalistas. Eu me desliguei deles, sem querer ouvir suas perguntas idiotas e deixei com que Alice me conduzisse até o carro da mãe dela, enquanto eu caminhava de cabeça baixa pela rua de Manhattan.
No carro, só voltei a falar quando já estávamos bem longe da delegacia.
— Como minha mãe está? — perguntei para Esme.
— Bem, eu falei com Carlisle ainda a pouco, ela fez as sessões de fonoaudiologia e fisioterapia. Edward esteve com ela no sábado, acredito que a visita dele tenha sido muito importante para ela.
Assenti.
— Alice, essas roupas?
— Novas, a policia interditou seu apartamento, então não pudemos tirar nada de lá.
Concordei com um aceno de cabeça, aquilo não era uma novidade, eu tinha perdido tudo. Bom, não tudo, olhei para o saco com minhas coisas que estavam na delegacia, pegando lá de dentro o colar que minha mãe tinha deixado para mim, o colocando em meu pescoço.
Assim que chegamos a casa dos Cullen Alice me mostrou três grandes malas com roupas, sapatos, assessórios de higiene e qualquer outra coisa básica que eu precisaria. Como pensei, ela tinha ido as compras para mim.
— Você não precisava fazer isso, eu não tenho como pagar...
— Cala a boca, Bella! — Alice ordenou, fechando uma das malas depois de tirar um vestido de lá, jogando-o para mim. — Você precisa de ajuda, não venha bancar a orgulhosa agora e negar nada que estamos fazendo por você, sabe que estamos fazendo tudo isso porque queremos.
— Ta ok, certo. Muito obrigada pelas compras, eu não sei o que seria de mim sem você e seus pais me ajudando com tudo isso, roupas, advogado, vocês são os melhores.
— Não precisa agradecer. — Alice indicou o banheiro da sua suíte. — Tome um longo banho de banheira, isso certamente ira te relaxar, depois nos encontre na cozinha para que você coma algo, nem tente escapar, vai comer sim!
Eu ri de Alice e suas ordens, com certeza estava com saudades da minha amiga. Acatando tudo que ela disse, eu fui para seu banheiro.
Era um paraíso, sem duvidas alguma aquilo parecia o céu se comparado ao banheiro da prisão. Como Alice mandou, eu também preparei um banho de banheira para mim, usando tudo que tinha direito, na tentativa que os produtos de beleza limpassem minha alma.
O banho certamente foi longo, mas não me tranquilizou como eu queria. Não muito depois de eu entrar naquela banheira já estava aos prantos, sentindo-me vulnerável.
Eu passei muito tempo na água, procurando entre os sais de banho uma solução para meus problemas, mas não tinha solução alguma, apenas mais e mais problemas. Depois de muito tempo, Alice bateu na porta do banheiro para se certificar de que eu estava bem, provavelmente temendo que eu me suicidasse, mas não, não seria capaz daquilo, era covarde demais para uma medida drástica como aquela.
Me forcei a sair do banho, sequei meus cabelos, usei os cremes corporais de Alice e me vesti com o vestido de verão azul que ela tinha me entregado, reutilizando as sapatilhas de antes. O colar de Renée era a única joia em mim, todo o resto aquela altura deveria estar sob proteção policial.
Eu me encontrei com Esme e Alice na cozinha, onde elas tinham um verdadeiro banquete esperando por mim. Não me fiz de rogada naquele momento, eu estava morrendo de fome e aproveitaria mesmo toda aquela comida, nunca comi tanto quanto naquele momento, mas depois de dias a base de comida terrível da cadeia, eu merecia um pouquinho de agrado, ainda que no fundo o que quisesse comer mesmo era o Hot Dog do Brooklyn.
— Estou pronta para ir para casa! — anunciei depois de comer meu segundo pedaço de torta de chocolate, Esme sorriu gentilmente para mim, afagando meu braço.
— Vamos deixar você lá, eu tenho certeza de que Edward esta louco para te ver.
Eu também estava, precisava ver, abraçar e beijar o Garoto do Brooklyn.
***
O caminho para o Brooklyn nunca foi tão longo, parecia que ele tinha duplicado, não, triplicado de tamanho. Eu estava no banco do carona do carro de Esme, me remexendo sem parar, impaciente demais para estar com Edward de uma vez, mas também por saber que além dele, eu veria o tal Charlie Swan no Brooklyn, o que sinceramente me apavorava.
Quando o carro entrou na rua que o apartamento de Edward ficava, onde eu iria morar também, eu já estava colada a porta pronta para saltar do carro e ir até meu namorado que estava deixando o prédio. Aquilo se comprovou quando Esme parou o carro, eu pulei para fora dele, correndo todo o curto espaço até estar pendurada no colo de Edward.
— Bem vinda ao Brooklyn, Bonequinha — Edward disse, me apertando contra ele, deixando suas mãos afagarem minhas costas. Eu afundei meu rosto em seu peito, começando a chorar. Não por estar mal em estar no Brooklyn, pelo contrário, eu me sentia em paz por estar lá, por ter Edward junto de mim.
— Bella? — Eu tremi ao ouvir a voz masculina que não conhecia, mas tinha uma grande suspeita de quem era o dono dela, por isso me soltei de Edward, olhando para o homem parado ao nosso lado. — Oi, filha.
Charlie Swan, meu pai?
Eu o analisei atentamente, roupas feias que eu jogaria no lixo, uma expressão abatida no rosto. Porém, qualquer detalhe em sua aparência ficou em segundo plano quando vi seus olhos, os meus olhos castanhos eram idênticos ao dele e aquela pintura de Renée no atelier, que por anos pensei ser uma representação do meu olhar era na verdade a representação do olhar de Charlie.
Charlie Swan, meu pai?
Mil coisas passaram por minha cabeça naquele instante, eu tinha outras mil para falar, mas não conseguia. O choque era imenso, era como se não tivesse qualquer controle sobre meu corpo e só fiquei ali parada, encarando Charlie, Swan, Charlie Swan, meu pai?
— E-Eu estou tã-tão feliz em te co-conhecer — Charlie gaguejou, começando a chorar. — Você é tão linda, Bella. Tão parecida com sua mãe!
Renée, minha mãe.
— Você está usando o colar que dei para sua mãe, eu...Meu Deus, ela te deu isso quando?
O colar em meu pescoço tinha sido um presente de Charlie para Renée?
— Bonequinha? — Edward chamou por mim, fazendo com que a paralisia fosse para o espaço.
Eu virei meu rosto na direção dele, querendo o olhar.
— Você está bem? — Neguei com um aceno de cabeça. — Que tal subirmos? — Um aceno positivo.
—...Esme e Alice Cullen — peguei o final da apresentação de Esme e Alice, que tinham deixado o carro, para Charlie. — Você já tem um lugar para ficar, Charlie?
— Eu liguei para um amigo, Aro Volturi, ele irá me receber por uns dias — ele respondeu.
O tatuador, me lembrei, Aro tinha me achado parecida com alguém. Com Charlie? Ou ele tinha conhecido Renée durante as voltas dela pelo Brooklyn?
— Você a amou?
Todos se viraram para me olhar, eu me questionei quem tinha feito aquela pergunta, até que percebi que tinha sido eu.
— Bella, o quê? — Edward indagou confuso para mim, mas eu não me voltei para ele daquela vez, focando no rosto de Charlie molhado por lágrimas diante de mim.
— Eu ainda a amo, nunca deixei de amar Renée — ele respondeu. — Ela é o amor da minha vida, Bella.
O choro piorou naquele momento, fazendo com que meu corpo todo tremesse. Edward tentou me colocar em seus braços, mas eu desviei dele e corri para dentro do prédio, seguindo rapidamente para o seu apartamento.
Casa, eu estava em casa, protegida.
Ninguém me encontraria lá, ninguém me machucaria, eu estava segura. Me empoleirei em cima do sofá, encarando a televisão, que passava uma besteira qualquer, por trás das grossas lágrimas que dificultavam minha visão.
Não muito depois Edward apareceu, carregando duas malas das que Alice tinha preparado para mim, atrás dele Charlie, carregando a terceira. Edward largou tudo no chão, indo até mim, me puxando para seus braços por fim, eu chorava no colo dele, enquanto mantinha meu olhar preso em Charlie no canto da sala.
— Talvez seja melhor eu ir embora — ele murmurou, seu rosto parecia aterrorizado.
— Você quer que ele vá? — Edward perguntou em um sussurro para mim.
— Onde Alice e Esme estão? — perguntei de volta.
— Elas voltaram para Manhattan, mas disseram que qualquer coisa e só você ligar. Eu devo pedir que Charlie vá embora? — tornou a perguntar.
— Não. — Ergui meu corpo, lembrando-me de Esme falando que eu tinha de dar o primeiro passo para organizar toda a bagunça no meu interior e ao meu redor. — Você pode nos deixar sozinhos por um tempo?
Pela expressão no rosto de Edward, ele tinha detestado meu pedido.
— Bella, eu não sei...
— Por favor, eu garanto que ficarei bem. — Afaguei seu rosto, sorrindo ao me lembrar da imagem dele bebê na fotografia em meu bolso. — Eu te amo.
— Amo você também, mas não quero deixá-la sozinha — falou, seus olhos verdes estavam apreensivos.
— Você pode ficar no quarto — sugeri, Edward suspirou, parecendo se dar por vencido.
— Me chame caso precise de qualquer coisa — declarou, beijando minha testa, então meus lábios. — Sério, Bonequinha, qualquer coisa.
— Eu te amo — repeti, mantendo-o perto de mim por mais um tempo para que pudesse o beijar novamente.
Porra, como eu sentia falta de beijá-lo, era maravilhoso.
Por fim Edward e eu nos separamos, ele me olhou preocupado uma última vez, encarou Charlie por alguns segundos e foi até seu quarto. Eu ainda chorava silenciosamente, me movi até o canto do sofá, desliguei a TV pelo controle remoto e indiquei o espaço vago ao meu lado para o Swan.
Charlie Swan, meu pai?
O homem, um desconhecido para mim, andou até o sofá, sentando-se lá. Continuei encarando a tela da TV, ainda perdida demais para falar, ou fazer qualquer coisa.
— Gostei do desenho — Charlie disse, atraindo minha atenção.
— Como? — indaguei sem entender.
— O da tatuagem de Edward, é um desenho bonito, você é talentosa como Renée.
Inspirei fundo, parecia tão errado o ouvir falar sobre minha mãe.
— Você está machucada — ele comentou, sabia que estava falando sobre meu rosto, mas o que doía mais era meu coração.
— O pai do meu ex noivo fez isso. — Charlie suspirou alto.
— Desculpe — ele pediu. — Por não ter estado ao seu lado por todos esses anos para te proteger, Bella, me desculpe.
— Co-Como? — gaguejei a pergunta, Charlie pareceu entender o que perguntei, pois começou a falar justamente sobre o que eu queria ouvir.
— Eu me apaixonei por ela à primeira vista, ela estava tão linda aquele dia, usava um vestido que a fazia parecer uma princesa, enquanto sorria com Edward em seu colo. Renée era a garota mais bonita que eu já tinha visto na vida, quando a vi de longe eu paralisei e pensei que não conseguiria ir até ela, mas Edward, o pai do seu Edward, riu da minha cara e disse que eu deveria ir lá falar com a garota. — Charlie sorriu, parecendo perdido em suas lembranças. — Foi tudo muito rápido, Bella, muito intenso também. Eu estava tão encantado por sua mãe, ela era o mundo para mim. Nós dois tínhamos planos, sabe? Queríamos casar, viajar o mundo... — Ele olhou para mim. — Ter filhos.
Engoli em seco, olhando para minhas mãos sobre meu colo.
— Mas, conforme o nosso envolvimento ia ficando ainda mais firme, Renée ficava mais temerosa sobre a reação do pai dela. Ela estava com muito medo de contar a ele sobre mim, pois Marcus parecia estar a empurrando para...
— Caius — completei, erguendo meu olhar para Charlie, que assentiu.
— Renée teve de ir algumas festas, Caius sempre estava presente e Marcus os fazia interagir sempre. Ela também contou o quão feliz o pai ficou quando soube que ela tinha terminado com o ex namorado, Phill alguma coisa, mas Marcus não sabia que ela tinha acabado para ficar comigo, um pretendente ainda pior na escala dele.
Limpei as lágrimas em meu rosto, vendo o quão tremulas minhas mãos estavam, aquilo tudo estava me deixando ainda pior. Só que eu precisava continuar, eu tinha.
— Como ele descobriu?
— Não sei. — Charlie deu de ombros, retirando o boné que usava da cabeça, o segurando firmemente em suas mãos. — Mas, Renée estava passando muito tempo no Brooklyn, comigo, com os Masen. — Ele gesticulou para o caminho que Edward tinha tomado. — Ela amava aquele bebê, dizia que queria ter um menino como ele, que era o garotinho mais lindo do mundo.
Eu ri, Charlie me olhou sem entender.
— Ela estava certa, ele com certeza foi o bebê mais lindo de todo o mundo.
— Eu tenho certeza de que você foi o bebê mais lindo de todos — Charlie rebateu, fazendo com que qualquer vestígio de sorriso deixasse meu rosto.
— Continue! — exigi, com a voz rígida.
— Marcus deve ter desconfiado, do fato de Renee estar saindo tanto, do jeito que ele é um psicopata — Charlie se calou, olhando com culpa para mim. — Eu...
— Continue!
— Talvez ele tenha colocado um detetive atrás de Renée, não me surpreenderia com isso. O fato é que ele descobriu, uma manhã eu acordei com batidas assustadoras na porta do meu apartamento, quando abri vi Marcus, acompanhado de dois capangas dele. Eu não tinha como fugir, não era uma opção, eles me trancaram no apartamento e Marcus disse que eu não devia chegar perto da garota preferida dele.
— Garota preferida? — perguntei com a voz rouca, Charlie assentiu.
— Era como ele chamava sua mãe, ela sempre falava que ele a tratava assim. — Expirei, sentindo-me enjoada.
— Então?
Charlie respirou fundo.
— Eu tentei argumentar, falar com Marcus que amava Renee, que cuidaria dela, que não tinha dinheiro, mas batalharia por uma vida digna para nos dois. — Charlie riu, soando amargo com aquilo. — Ele não me deu ouvidos, claro, ordenou que os capangas dele me dessem uma lição. Eu lembro das exatas palavras dele enquanto eu apanhava: quero que você sofra antes de eu te matar, quero que você agonize, quero que você implore para ficar vivo, mas eu te matarei ainda assim, seu pedaço de merda.
Eu me encolhi no sofá, sentindo-me ainda mais enjoada por ouvir aquilo.
— Os homens me bateram, muito, pelo o que pareceu durar horas. Depois, como Marcus queria, eu implorei por minha vida, enquanto ele tinha uma arma apontada para mim e repetia que Renée era dele, que ninguém ia tirar a garota preferida dele de si, principalmente eu.
— Não — murmurei, mas Charlie não pareceu ouvir, continuando a falar.
— Foi quando Edward apareceu, na hora certa, pois eu não estaria aqui se ele não tivesse aparecido. A aparição dele abalou Marcus, por um momento pensei que nós dois acabaríamos morrendo ali e me senti mal, pois Edward não tinha culpa de nada e ele precisava viver para cuidar do filho e de Lizz. — Charlie esfregou o rosto. — Mas, Edward implorou por minha vida, ele disse para Marcus que se ele me matasse, se matasse a gente, pediu que o homem pensasse em Renée. Disse que ela o amava, que ela o achava um herói e tudo mais, que ele não podia fazer aquilo. Ele cedeu, Marcus cedeu, Edward fez com que ele cedesse. Claro que nos ameaçou, todos nós, inclusive o pequeno Edward.
— Para — implorei. — Para! — Tapei meus ouvidos, apavorada com a ideia de Edward, o meu Edward, morto quando era apenas uma criança pelo meu avô.
Marcus Higginbotham, meu avô e o culpado por tantas coisas. Eu não conseguia mais negar, queria, mas não conseguia. Ele era o culpado, era um homem doente e psicopata como Charlie tinha dito.
— Me desculpa. — Charlie segurou em minhas mãos, as afastando dos meus ouvidos. — Eu devia ter enfrentado o Marcus, devia ter o denunciado, mas fui um covarde e fugi.
— Sim, você foi! — gritei contra as lágrimas. — Você deveria ter ficado em New York, devia ter ficado com a minha mãe! — continuei gritando, pela minha visão periférica vi Edward voltar a sala. — Renée pensa que você está morto, droga! — Levantei do sofá, passando a mão pelo rosto repetidamente. — E eu cresci com um maluco, você entende isso, Charlie Swan?
Ele soluçou, escondendo o rosto atrás das mãos.
— Eu vi minha mãe beber descontroladamente por anos, provavelmente para aplacar a dor por uma morte que não aconteceu, uma morte que ela provavelmente se sentia culpada. Enquanto isso eu tinha ao meu lado um psicopata, que além de sujar meu nome me incriminando, de ter quase matado alguém, de ter me entregado de bandeja para um cara um babaca por conta de negócios, de ter levado minha mãe a loucura a ponto de ela tentar se matar, foi o primeiro homem que bateu em mim!
— Isabella! — Olhei para Edward, que estava chocado com o que eu tinha falado. — Seu avô bateu em você?
— No dia que Jacob rompeu o noivado — contei o que tanto escondi, não só dos outros, mas de mim, pois estive em negação, encontrando desculpas para a violência praticada por aquele que devia me amar e me proteger. Eu deveria ter sido mais esperta aquele dia, ter seguido o conselho de Renée e não confiado em Marcus, não ter o perdoado, nunca deveria ter o perdoado, nunca.
— Porra, Bella! — Edward continuou parado no lugar, ainda chocado com minha revelação.
— Ele arruinou a vida da minha mãe — eu disse entre o choro devastador. — Ele arruinou minha vida também, Marcus Higginbotham, o meu avô, é um monstro.
Charlie se colocou de pé, fazendo com que eu o olhasse.
— Nunca pedirei perdão o suficiente por não ter lutado, por sua mãe, por você, por nós, Isabella — falou. — Você é muito mais forte do que eu, enfrentou tudo isso e...
— Eu não sou forte coisa alguma — o interrompi. — A minha vida foi uma completa mentira, agora não sei o que fazer.
Charlie segurou no meu rosto, pegando-me de surpresa. Mas, seu toque não era agressivo, sim gentil, carinhoso.
— Você me tem agora, eu sei que tudo deveria ter sido diferente, mas estou aqui ao seu lado agora, filha.
Diferente, tudo realmente deveria ter sido diferente. Se Marcus não fosse um completo psicopata, minha mãe e Charlie teriam casado e eu teria nascido e tido os dois comigo. Eu também teria Edward e Elizabeth Masen, como o pequeno Edward. Nós dois, Edward e eu, teríamos crescido juntos, nos apaixonado e tudo teria sido fácil. Nada de Renée alcoólatra, nada de Jacob ou qualquer outro Black, nada de Caius. Apenas minha família, apenas os amigos da minha família e Edward.
Mas, não, a vida não tinha sido daquele jeito perfeito. Foi um pesadelo, que por muito tempo eu fingi ser um sonho.
A vida ainda podia ser um sonho?
Tirei as mãos de Charlie do meu rosto, ele estava pronto para dizer algo quando o peguei de surpresa, o abraçando. Charlie tinha cheiro de café, seu abraço era quente e estranho ao mesmo tempo, mas eu me vi agarrada a ele, como se o homem fosse um bote salva vidas pronto para me socorrer da morte.
— Você é meu pai, Charlie Swan.
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