Sob minha Pele

16 Capítulo Quinze


Notas iniciais
Capítulo dedicado a Mary Miranda que recomendou SmP, muito obrigada, flor ♥ Boa leitura :)

— Capítulo Quinze —

— Bella —

A mão dele era quente ao redor da minha fria, nossos dedos estavam entrelaçados em um toque firme, eu me sentia amparada com ele por perto. Era como se todo aquele pesadelo que estava vivendo, desde que encontrei minha mãe inconsciente, pudesse ser menos assustador com Edward Masen ao meu lado.

Edward me tirou daquela sala de espera, o lugar que eu estava desde que cheguei ao hospital e fui obrigada a deixar Renée seguir com os médicos, sozinha. Não saia da minha cabeça a imagem da minha mãe jogada naquele chão gelado do banheiro, com o coração parado e sem respiração.

Ela ficaria realmente bem como todos diziam? Tinha passado tanto tempo sem sinais vitais, o quanto aquilo atingiu seu cérebro? E se ela tivesse uma nova parada cardíaca? E se seu cérebro morresse? Eu teria de autorizar o hospital a desligar os aparelhos? Seria como deixá-la morrer em minhas mãos uma segunda vez, como se fosse eu a matando.

— Bella?

Inspirei fundo, olhando para Edward ao meu lado, que me encarava de forma preocupada. Nós estávamos parados no corredor do lado de fora da sala de espera, eu tinha travado ali, minha mente tão focada em Renée que todo o resto tinha se tornado um borrão ao meu redor.

— Ela vai morrer, não vai? — Minha voz era rouca, como se eu tivesse fumado uma cartela inteira de cigarros. — Renée não irá resistir a isso. — Engoli em seco, pensando em como seria terrível perdê-la de vez, não queria aquilo, me recusava a isso. Eu precisava da droga de uma máquina do tempo, voltaria pouco, apenas vinte e quatro horas antes, só para poder ir ao quarto dela novamente como naquela noite de sábado e dizer que a amava, se eu tivesse dito, Renée com certeza não teria tentado se matar na manhã seguinte, teria visto que eu estava ali ao lado dela.

Edward suspirou, levando sua mão livre ao meu rosto, o afagando e limpando algumas lágrimas perdidas no meio do caminho. Eu não entendia o que ele estava fazendo ali, principalmente sendo tão gentil e doce, Edward não devia me detestar? Eu tinha passado os últimos dias desde que o conheci o rondando sempre que nos encontrávamos e toda vez ele me afastava, de diferentes formas, sempre achando um jeito novo de me esnobar. Por que ele estava ali? E principalmente, por que eu o queria tanto por perto?

— Ela ficará bem, okay? Você ouviu Alice e a mãe dela, o senhor Cullen irá cuidar de Renée e já ouvi Jasper falar que ele é um grande médico — falou suavemente, como se estivesse cantando cada palavra que saia de sua boca, sua mão ainda em meu rosto, acariciando minha pele com delicadeza. — Eu posso imaginar como está nervosa e preocupada com sua mãe, Bella. — Seus olhos verdes infiltraram-se de tristeza ao dizer aquilo e soube que ele estava pensando no pai naquele momento. — Mas, você precisa pensar um pouco em si, ao menos por um par de horas, só para que possa ser forte por Renée depois. Se você acabar doente, não terá como ficar com sua mãe.

Assenti, querendo acreditar nas palavras dele, mas aquilo ainda era difícil. Desviei o olhar para meus pés, amaldiçoando os saltos ali, eu já estava um caco emocionalmente, meu físico indo logo atrás. Suspirei alto com aquilo, tentando controlar o choro que ameaçava voltar.

— Ei. — Edward apertou minha mão na sua, fazendo com que eu voltasse a olhar para ele. — Vai ficar tudo bem, certo? Confie em mim, Bonequinha de Luxo. — O sorriso em seu rosto ao dizer aquilo me impediu de ficar com raiva pelo apelido, na verdade Edward tinha o dito de forma diferente das outras vezes, menos julgador e ofensivo, mas sim divertido.

— Eu tenho de tirar as lentes — murmurei.

— Você tem sim — ele concordou com um aceno de cabeça. — Seus olhos estão extremamente vermelhos, vamos. — Indicou o caminho que estávamos seguindo antes que eu parasse, puxando-me para seu destino final que logo percebi ser o do banheiro. — Bella, não, é um banheiro feminino — ele disse sobressaltado quando o puxei lá para dentro, Edward rapidamente parou na porta, sendo difícil demais o puxar para o interior do banheiro.

— Dane-se, você disse que não me deixaria só, não descumpra sua promessa — exigi.

Ele respirou fundo, olhou rapidamente para as enfermeiras no posto médico no fim do corredor e por fim entrou comigo.

— E se aparecer alguém? — ele perguntou tenso, olhando para os reservados, mas não tinham pernas aparecendo nos vãos das portas.

— Não vai entrar ninguém. — Tranquei a porta, indo até uma das pias em seguida.

Meu estado era terrível, cabelos desgrenhados, maquiagem borrada, olhos extremamente vermelhos e rosto pálido. Eu parecia uma morta viva ali, não sabia como as pessoas não estavam fugindo de mim aos gritos.

Rapidamente abri minha bolsa, ignorando a carta ali e buscando pelo colírio que sempre carregava comigo caso fosse necessário tirar as lentes, assim como uma caixinha com mais delas para trocar quando preciso. Coloquei tudo sobre a pia, sentindo o olhar de Edward em mim através do espelho.

Lavei meu rosto, tentando tirar ao máximo toda a maquiagem estragada. Edward rapidamente me entregou toalhas de papel para que eu pudesse secar minha face, então peguei o colírio para facilitar a remoção das lentes.

— Precisa de ajuda? — Edward perguntou debruçado sobre o balcão da pia, provavelmente notando o quanto minhas mãos tremiam e que eu estava a um passo de voltar a chorar.

Apenas entreguei o colírio a ele, Edward era tão alto que eu somente precisei inclinar minha cabeça um pouco para trás para que ele conseguisse colocar a solução em meus olhos, fazendo aquilo com precisão e rapidez. Logo tirei as lentes, aproveitando a facilidade que o colírio proporcionava, Edward estendeu para mim então a caixinha com as lentes novas.

Peguei aquilo em mãos, questionando-me porque diabos usava lentes se eu não precisa delas. Minha mãe preferia meus olhos como eles eram ao natural, até isso tirei dela quando comecei a usar as estúpidas lentes.

— Não vou precisar mais disso — falei, irritada, atirando as lentes e o colírio no cesto de lixo.

— Você tem certeza? — Edward indagou.

— Elas não são lentes para melhorar minha visão — respondi, encarando-me no espelho. — Talvez elas que tenham me deixado tão cega. — Expirei alto. — Eu teria prestado mais atenção em Renée, caso não estivesse apenas preocupada comigo mesma por anos.

— Isabella? — Olhei para Edward, que estava próximo demais de mim. Não sabia se queria beijá-lo, ou apenas o abraçar mais uma vez. — Não se culpe — ele disse.

— Eu sou a culpada, Edward, você sabe disso — falei desesperada. — Você mesmo disse que eu deveria...

— Isabella, não! — exclamou, colocando um dedo sobre meus lábios, seus olhos fixos nos meus. — Ficar se culpando agora não resolverá absolutamente nada, só respire fundo e seja forte é o que precisa para poder ajudar sua mãe.

Tirei sua mão da minha boca, mais uma vez olhando para nossos dedos entrelaçando-se. Por que eu gostava tanto daquilo?

Batidas na porta nos sobressaltaram, Edward xingou baixinho e me puxou em direção a saída do banheiro.

— O que estavam fazendo trancados ai dentro? — Era Alice do lado de fora, lançando um olhar curioso para a gente.

— Eu estava apenas me livrando das lentes, você conseguiu falar com Jacob? — Edward largou minha mão no instante que ouviu o nome daquele que tecnicamente era meu noivo.

— Sim, falei. — Alice ficou automaticamente emburrada, cruzando os braços na frente do corpo. — Ele não vai poder vir.

— O quê? Você disse que minha mãe se drogou e quase se matou por conta disso? Disse isso tudo a ele? — Que merda Jacob tinha na cabeça, ele deveria estar ali comigo, era meu noivo, isso não era o mínimo que podia fazer por mim? Edward sequer era um amigo e estava ao meu lado.

— Eu disse. — Alice mal conseguia esconder sua completa insatisfação com aquilo, ela detestava Jacob e parecia estar detestando ainda mais aquele dia. — Jacob falou que foi orientado pelo Senador Black a ficar em casa, não me deu mais detalhes além disso, desculpe.

— A mãe da noiva dele está internada na UTI e ele ficará em casa por que a porra do senador o orientou a isso? — Edward indagou, eu o olhei, vendo raiva em seu rosto.

— Como você sabe que eu estou noiva de Jacob? — o questionei.

— Merda! — Alice praguejou.

— Você não podia ter contado isso a ninguém, Alice. Terá uma festa de anunciação e... — Eu parei, percebendo a estupidez em cada palavra, minha mãe quase morreu aquele dia e eu estava pensando numa festa idiota de noivado. — Que se foda o Jacob, ele é um imprestável. — Sai marchando pelo corredor. — Recebeu alguma noticia da minha mãe? — perguntei a Alice, que praticamente precisava correr para alcançar a mim e Edward, que tinha me ultrapassado facilmente.

— Não, mas mamãe e papai estão lá com o médico que a atendeu primeiro, qualquer coisa irão nos informar — Alice falou, desviando o caminho e parando próxima ao elevador, o chamando. — Enquanto isso, você irá comer algo, mocinha.

— Não estou com fome. — Teimei, mas não pude andar mais já que Edward bloqueou meu caminho, apontando para o elevador. — Você não pode me obrigar a comer!

— Sim, você está certa, mas sou mais alto e mais forte do que você, posso carregá-la até a lanchonete se preferir assim e quando sentir cheiro de comida acabará cedendo e comendo. — Ele deu de ombros, colocando as mãos nos bolsos da calça jeans.

Bufei, girando em meus saltos, indo até o elevador.

— Boa, Masen! — Alice parabenizou Edward, os dois entrando no elevador junto de mim.

— Às suas ordens, Cullen — falou para ela.

— Você não deveria estar no trabalho? — perguntei a Edward, não que eu quisesse que ele fosse embora, ainda tinha aquilo dentro de mim que queria o ruivo por perto, mas sabia que ele tinha um trabalho e que provavelmente deveria estar lá.

— É meu dia de folga — Edward falou, recostando-se na parede do elevador. — Nós tocamos ontem e antes disso eu trabalhei, meu chefe foi bonzinho em liberar Rosalie e eu hoje...Merda! — ele xingou, pegando o celular do bolso da calça, ele digitou por um tempo e controlei meus instintos de espionar o que tanto ele digitava, até porque Alice em pé do meu outro lado, estava afagando minhas costas e acabei indo para seus braços, querendo mais um pouco de conforto que sabia que ela podia me oferecer.

— Vamos, tentará comer apenas um sanduíche que seja, amiga. — Ela me puxou para fora do elevador quando este parou no térreo, guiando-me até a lanchonete do hospital. — Peguem uma mesa, eu vou buscar algo para comermos — Alice disse para Edward e eu. — Masen, alguma restrição alimentar? — perguntou a ele, que negou com um aceno de cabeça, me conduzindo em seguida para uma mesa que tinha acabado de ficar vaga na cantina lotada.

Alice era pequena e estava quase desaparecendo entre as pessoas esperando serem atendidas, então soube que aquilo ia demorar, peguei um lápis em minha bolsa — já que quase sempre acabava com um quando saia — e um dos lencinhos do suporte ali, começando a desenhar flores e estrelas para tentar fazer o tempo passar mais rápido. Minha mão esquerda estava agarrada ao colar em meu pescoço, a joia que minha mãe tinha deixado para trás.

— É dela? — Edward perguntou em um tom de voz baixo, fazendo com que eu tirasse os olhos dos meus desenhos em um lencinho idiota.

— Desculpe, o quê? — perguntei confusa.

— O colar. — Gesticulou para a joia.

— Sim — confirmei. — Pelo menos eu acho que era. — Dei de ombros. — Nunca tinha o visto antes, mas ela estava com ele em mãos, junto a carta que tinha para mim. — Engoli em seco ao dizer aquilo, eu nunca esqueceria, aquela imagem de Renée morrendo iria me perseguir para todo o sempre, também nunca me perdoaria, por mais que Edward dissesse que eu não era a culpada daquilo sabia que era ao menos parcialmente minha culpa. — Eu deveria descobrir quem é o traficante dela.

— Bella, o que isso resolveria agora? — Edward suspirou. — Você só arranjaria mais e mais dor de cabeça.

— Acho que deveria fazer algo quanto a isso. — Deixei os desenhos de lado. — Você não ficou maluco tentando descobrir mais sobre a morte do seu pai?

— Não, foi em um incêndio acidental, não precisava de muito para saber como isso ocorreu. — Ele desviou o olhar para suas mãos sobre a mesa. — O apartamento vizinho teve um vazamento de gás, meu pai não conseguiu se socorrer a tempo e faleceu, isso foi tudo.

— E você não culpa o vizinho que deixou isso ocorrer pela morte do seu pai? — perguntei incrédula, Edward negou com um aceno de cabeça.

— Meu pai não foi o único a morrer naquele incêndio, Bella. O cara que alugava o apartamento onde o vazamento começou e a namorada dele também morreram, uma senhora de outro apartamento morreu dias depois no hospital graças a inalação de fumaça, foi tudo um grande acidente, eu não posso culpar ninguém.

— Okay, mas isso é diferente do que aconteceu com Renée — insisti, ele voltou a me olhar. — Algum babaca vendeu cocaína para ela, Edward, cocaína. — Esfreguei meu rosto, as lágrimas pareciam ter dado um tempo, mas eu estava começando a me sentir cheia de raiva. — Esse filho da puta que sobrevive a base de tráfico quase levou a minha mãe a morte, ele merece pagar por isso, merece ir para a porcaria de um presídio e apodrecer lá dentro.

— Tudo bem, certo. — Edward se inclinou sobre a mesa, ficando muito mais próximo a mim. — Não compactuo com o tráfico, mas o cara que vendeu a droga para sua mãe não é o culpado dela ter tido uma overdose, Isabella. Ela foi atrás da droga, ele apenas vendeu, é um trabalho sujo e é isso. Sua mãe estava passando por uma fase alcoólatra, como você mesma me disse e também falou que ela não estava nada bem no meio disso, ninguém mandou Renée se matar, ela estava mal e procurou por isso achando que seria uma solução para seus problemas.

— Como ela pode chegar a esse ponto? — indaguei em um tom de voz baixo, mas desesperado.

— Um psicólogo, ou psiquiatra pode te responder isso melhor. — Ele suspirou mais uma vez. — Ela precisará de ajuda para a saúde mental dela, Bella, isso vai ser extremamente necessário na recuperação da sua mãe. — Assenti, sabendo que ele estava certo quanto a isso.

— Meu bisavô cometeu suicídio — sussurrei, Edward me olhou surpreso ao ouvir isso.

— O que foi presidente?

— É, esse mesmo. — Cruzei os braços na frente do corpo, sentindo-me com frio e desprotegida, ainda que tivesse o xalé de Esme ao redor de mim. — Um tiro na cabeça, pouco depois de sair da presidência — falei mecanicamente, nunca tive qualquer tipo de aprofundamento aquele bisavô, ele tinha se matado quando meu avô ainda era jovem e ninguém nunca falava sobre ele. Até mesmo em livros de histórias seu nome era pouco falado, eles apenas frisavam o quanto o governo George Higginbotham tinha sido um ruim para a economia. — Talvez isso, o suicídio, seja algo de família — disse, minha voz cheia de humor negro, encarando a tatuagem no pulso de Edward que tinha sido em homenagem ao seu pai.

— Não, isso para aqui, tudo bem? — O senti tocar em meu rosto, o erguendo, fazendo com que nossos olhares se encontrassem. — Não faça nenhuma besteira, Isabella — foi praticamente uma ordem.

— Eu não vou — sussurrei.

— Você promete? — indagou.

— Prometo. — Toquei em sua mão em meu rosto, ainda concentrada em seus olhos verdes quando Alice surgiu próxima a nós, tendo dificuldade em equilibrar uma bandeja com nossas comidas.

— Opa, sabemos que você seria uma péssima garçonete! — Edward exclamou, rapidamente me soltando para ir ajudá-la.

— É, se eu não arranjar um trabalho na área financeira quando me formar, pelo menos já sei que ser uma garçonete está descartado — ela disse, sentando-se ao meu lado. — Olhe só, eu acho que vai gostar disso. — Tirou da bandeja, do meio dos sanduíches e dos copos de café, uma torta de chocolate, a aparência era maravilhosa, mas eu me sentia enjoada demais para comer.

— Alice, eu não quero, estou completamente sem fome — reclamei.

— Ótimo, eu como. — Edward tirou a torta das mãos de Alice, pegando o garfo e começando a comer imediatamente, fazendo um grande teatro enquanto mastigava, cheios de sons e olhares indicando o prazer sobre aquilo. — Não sabe o que está perdendo, Bella. — Lambeu os lábios, eu contive um gemido ao ver aquilo, sem saber se ele estava se referindo a torta, ou a si mesmo.

— Me dê — implorei, estendendo a mão para a torta, pois sabia que aquilo era a única coisa que ele iria me dar.

Edward entregou-me a torta, com um sorriso vitorioso no rosto por ter me convencido a comer. Eu tive de forçar a comida para dentro, realmente sem fome, mas sentindo-me um pouquinho mais cheia de energia.

Nós todos comemos em silêncio, Alice ao meu lado abriu a boca para falar algumas vezes, mas ela sempre voltava a se manter calada, ocupando-se com a comida. Depois de comermos, nós três voltamos para o andar da UTI, a sala de antes, onde Esme e Carlisle já esperavam.

— Olá, você deve ser o Edward. — Carlisle estendeu a mão para Edward, que rapidamente o cumprimentou de volta.

— Olá, senhor Cullen.

— Como você está, Bella? — Carlisle perguntou, analisando-me atentamente com seu olhar médico.

— Bem — menti.

— Ela comeu? — Esme perguntou a Alice.

— Sim, ela conseguiu se alimentar. — Alice afastou meu cabelo do rosto.

— Alguma noticia de Renée? Eu posso vê-la? — perguntei ansiosa, cansada dos Cullen estarem enrolando para me darem novas informações.

— O quadro de Renée ainda é grave — Carlisle disse. — Ela está em coma, Bella. — As lágrimas rolaram por meu rosto rapidamente ao ouvir isso. — Nós estamos procurando a estabilizar primeiro, para que possamos efetuar os cuidados mais específicos depois. Ainda não temos ideia de o quanto o cérebro dela foi afetado durante a parada cardíaca, mas sim, há uma grande chance de ela ter sequelas.

— Que tipos de sequelas? — Edward perguntou, sua mão na base das minhas costas.

— Fala, motora, há muito o que pode acontecer decorrente disso — Carlisle falou. — Bella, nós estamos empenhados em trazer Renée de volta, em dar a ela todo o suporte necessário para que ela melhore, querida.

— Eu sei. — Assenti. — Alguma ideia de quando ela pode acordar?

— Não, infelizmente não é uma medida de tempo que posso lhe fornecer, pode demorar muito, ou não.

— Quanto mais tempo ela ficar assim, maiores os riscos, certo?

Carlisle respirou fundo, hesitante em dar sua resposta, mas concordou.

— Sim.

— Eu quero vê-la — pedi.

— Bella está tarde, talvez fosse melhor você ir para casa descansar um pouco — Esme sugeriu. — Pode ir para nosso apartamento com Alice.

— Não, por favor — implorei. — Eu preciso vê-la.

— Okay, eu entendo, vou levá-la até Renée — Carlisle concordou, conduzindo-me para fora da sala.

Ele fez com que eu lavasse as mãos bem em uma sala especializada para tal, então me levou para o quarto de UTI que Renée estava. O choro só piorou ao vê-la deitada naquela cama, ligada a tantos fios, com uma mascara de oxigênio no rosto, quase desaparecendo por trás de toda a parafernália médica que a mantinha viva.

— Ela está em um quadro de hepatite alcoólica. Renée está debilitada demais, de várias formas — Carlisle disse para mim, enquanto eu continuava parada na porta, sem conseguir ir até minha mãe. — Eu não quero assustá-la, Isabella, mas...

— Mas ela está mal pra valer, né? — consegui falar, Carlisle assentiu. — Você pode nos deixar a sós? Eu só preciso falar com ela por um instante.

— Você tem alguns minutos — falou para mim, deixando o quarto.

Reuni o resto das forças em mim, caminhando até o lado de Renée. Peguei sua mão esquerda, livre de agulhas, na minha. Era gelada e completamente sem movimento, não conseguia ver qualquer traço de vida em minha mãe além do fato dela estar respirando, era como se ela nunca fosse voltar a abrir os olhos, a falar, a viver de verdade.

— Eu sinto muito, mãe — falei soluçando graças ao choro. — Desculpe-me por tudo. — Afaguei sua mão, esperando que ela despertasse como em um passe de mágica, mas não aconteceu. — Volte pra mim, Renée. Nós podemos recomeçar, podemos mudar tudo. Você se lembra que vivia querendo viajar comigo para um retiro de artes? Aquele que foi quando tinha quinze anos? Eu sempre disse que achava isso uma total perda de tempo, mas quero ir, mãe, quero ir com você. — Toquei em seu rosto sem expressão alguma. — Prometo mudar, mamãe, prometo ser uma pessoa melhor por você, apenas volte para mim. Eu não sei o que fazer — confessei. — Estou me sentindo completamente perdida, completamente sem saída, eu preciso que volte. Por favor, mãe, por favor.

Continuei chorando por um tempo, minhas palavras para Renée cada vez mais me assombrando. Eu não sabia o que fazer, sentia-me sozinha e desamparada.

— Não estou mais de lentes — contei a ela. — Você estava certa, não? Eu fico melhor de olhos castanhos. Edward também acha isso. — Suspirei, voltando a olhar para o rosto dela. — Você não sabe nada sobre Edward, mas algo me diz que iria gostar dele. Ele é tão doce e gentil, ele está lá fora com os Cullen, ele tem me mantido de pé durante esse tempo todo. — Fechei os olhos, pensando em Edward me ajudando durante aquele dia. — Por favor, acorde, mãe. Talvez Edward ainda esteja por perto para que você possa conhecê-lo — falei, talvez dizendo aquilo mais para mim do que para ela. — Quero que ele esteja — murmurei.

— Bella? — Alice apareceu ali, os olhos também cheio de lágrimas.

— Ela tem que acordar, Al. — Apertei a mão de Renée mais uma vez, antes de me afastar da cama dela e ir para os braços da minha melhor amiga. — Eu preciso dela, Al, estou com tanto medo.

— Estou aqui, Bella. — Alice me apertou contra si. — Você não está sozinha.

Recomecei a chorar, agarrando-me ainda mais a ela. Alice não ia mesmo me deixar? E Edward? Ele tinha prometido aquilo também.

— Vamos, nós não podemos passar tanto tempo aqui. — Ela me puxou para fora do quarto, fechando a porta, levando-me de volta a sala de espera. — Meus pais foram para casa, descansar um pouco, mas estarão aqui logo no começo da manhã.

— Edward? — perguntei em um murmúrio, acreditando que ele já tinha ido embora, Alice sorriu para mim, então abriu a sala, revelando Edward lá dentro, sentado no sofá, aparentemente dormindo, ou quase isso.

Eu não pude deixar de sorrir em saber que ele tinha ficado.

— Nós ficaremos com você essa noite — Alice disse. — Tudo bem?

— Sim — concordei rapidamente, sorrindo para ela também. — Obrigada, por não me deixar sozinha.

— Não sairei do seu lado. — Alice piscou para mim. — Quer dizer, eu preciso muito ir ao banheiro agora, então a não ser que queira ir comigo, vou te deixar sozinha por uns minutos.

— Estou bem — falei. — Você pode ir.

— Certo, já volto — ela saiu da sala rapidamente.

Eu fui até Edward sentando ao seu lado, controlando a vontade de tocar em seu rosto sereno.

— Bella? — Ele abriu os olhos verdes, sonolento.

— Volte a dormir, deve estar muito cansado também.

— Você pode me fazer de travesseiro se quiser, sem problemas — disse voltando a fechar os olhos.

— Bom, você que permitiu — falei, mexendo-me no sofá até estar deitada com a cabeça na coxa de Edward.

— Apenas durma um pouco, Bella — ele ordenou, sua mão indo até meus cabelos, fazendo um cafuné que aceitei muito bem.

— Obrigada, Edward — agradeci antes de pegar no sono.

***

A primeira coisa que senti na manhã seguinte quando acordei, foi a mão de Edward em meus cabelos. Por um instante pensei que podia ter acordado apenas alguns minutos depois de pegar no sono, mas quando senti meu corpo dolorido por ter dormido no sofá, percebi que aquilo não podia ter durado pouco tempo para já estar daquele jeito.

— Bom dia, Raio de Sol! — Alice sentada no outro sofá, com um copo de café em mãos, exclamou quando abri os olhos. Ergui minha cabeça da coxa de Edward, então sentei, meu corpo inteiro gritando de dor pela noite mal dormida.

— Que horas são? — indaguei ainda confusa.

— Pouco mais de seis da manhã — Edward respondeu, estendendo para mim um copo de café, depois de tomar um gole. — Alice disse que você também bebe com canela.

— É, alguns acham estranho. — Peguei o copo, tomando um gole.

— É muito estranho — Alice disse. — Como se sente, Bella?

— Toda quebrada, meu pescoço principalmente — reclamei. — Teve alguma noticia da minha mãe? — perguntei, evitando um gemido quando senti a mão de Edward massagear meu pescoço.

Porra, ele não podia fazer isso sem esperar que eu acabasse maluca.

— Falei com uma das enfermeiras cerca de dez minutos atrás, Renée está na mesma — Alice disse, o sorriso em seu rosto desaparecendo. — Não quer ir até seu apartamento? Tomar um banho, trocar de roupas.

— Não, eu vou ficar aqui — afirmei. — Não saio daqui até ela melhorar. Vocês podem ir se quiserem.

— Eu preciso mesmo ir, Bella — Edward murmurou, tirando a mão de mim. — Tenho que trabalhar de noite e...

— Eu sei, tudo bem. — Forcei um sorriso para ele, minha vontade era mantê-lo ali comigo, mas Edward tinha uma vida.

— Me veja aquele lápis — ele pediu, eu o tirei da minha bolsa, junto a carta de Renée. — Tem certeza? — Apenas acenei positivamente, Edward escreveu um número de celular no verso da carta, então seu nome embaixo. — Ligue-me se quiser conversar. — Devolveu o lápis e a carta para mim, inclinando-se em minha direção para beijar meu rosto, que pareceu queimar com o toque dele. — Até mais, Bella.

— Até.

Ele se levantou, bagunçou o cabelo de Alice que riu e o chamou de Eddye, então deixou a sala de espera.

— Ele é um cara muito legal — ela falou, tomando um gole do seu café.

— Eu sei. — Guardei a carta em minha bolsa, antes que Alice pudesse descobrir o que era. — Vá para casa Ali, deve estar um trapo.

— Eu vou passar rápido lá em casa, mas vou para seu apartamento, buscar roupas para você trocar — ela disse, ficando de pé. — Tem uma cabine telefônica no térreo, pode usar para me chamar caso precise de algo, ou ligar para Edward, eu não acho que ele se importaria em te ajudar mais. Quer alguma roupa em especial?

— Não, qualquer coisa serve.

— E lentes?

— Não, eu não voltarei a usá-las — declarei, pegando Alice de surpresa, então ela assentiu e foi embora logo depois.

Passei cerca de uma hora só naquela sala de espera, exausta demais para sair de lá, até que por fim alguém apareceu. Ele tinha um olhar furioso no rosto, sua expressão conseguindo assustar até a mim.

— O que deu nela? — vovô questionou para mim.

— Vovô. — Comecei a chorar, levantando e o abraçando.

— Não temos tempo para isso, Isabella. — Ele me afastou.

— Mas...

— O que você sabe sobre o estado dela?

— Grave — sussurrei. — Ela está em coma, pode ter sequelas ao acordar. — Toquei no colar em meu pescoço, atraindo a atenção dele para ali.

— Onde conseguiu isso? — perguntou sobre o colar.

— Estava com Renée, quando aconteceu — contei.

— Tinha algo a mais com ela? — indagou com a voz inflexível.

Pensei na carta que mamãe tinha escrito, no pedido dela que eu não confiasse em meu próprio avô. Por quê? O que ele tinha que o torna alguém que eu não podia confiar? Ou aquilo era apenas um surto de Renée entre o álcool e a cocaína? Ela sabia que vovô detestava o modo que ela estava indo nos últimos anos, podia estar apenas com raiva dele por isso. Era apenas aquilo?

— Não — menti, fazendo aquilo tão bem que sabia que ele não desconfiaria. — Nada a mais, apenas o colar.

Eu não sabia o real motivo por trás do pedido de Renée, mas ela era minha mãe e percebi que devia confiar nela pela primeira vez em minha vida.

Notas finais
Beijos! Lola Royal. 18.02.17