Sob minha Pele
42 Capítulo Quarenta e Um
Notas iniciais
— Capítulo Quarenta e Um —
— Bella —
Edward e eu permanecemos na sala de música dos Cullen, apenas nos abraçando e beijando por um tempo, depois ele me pediu para que o ensinasse a tocar um pouco mais de piano e foi o que fizemos. Não queria deixar aquela sala, assim como não queria deixar meu noivo, foi o que me fez desistir da ideia de fugir.
Eu tinha pensado naquilo no momento que o juiz afirmou que meu caso iria a julgamento, pois sabia muito bem qual seria o próximo passo após aquilo, minha condenação. Anos encarcerada em um presidio, longe da minha família, dos meus amigos e de Edward.
Fugir tinha parecido uma saída fácil, eu iria para bem longe de New York, mas isso também queria dizer que teria de me afastar de todos ali. Renée continuava internada, nunca a incluiria em meu plano de fuga e como Edward, sendo tão Edward, aceitaria fugir? Não, ele era honrado demais para isso.
Soube que naquela manhã de domingo, quando ele falou que fugiria comigo, estava desesperado. Vi em seus olhos como ele odiou a ideia, que apenas a enfrentaria por mim, só que eu já tinha tomado minha decisão, não o sujeitaria a nada daquilo.
Eu não fugiria, iria encarar tudo que estava reservado para mim. Não roubei um dólar de todo o dinheiro do esquema sujo do meu avô e dos Black, mas iria pagar por aquilo, era o peso a se enfrentar por ser uma Higginbotham e aquela ainda era minha família.
Excluir o sobrenome não mudaria quem eu era, quem eu já tinha sido. Para sempre seria uma Higginbotham, sempre seria a neta de Marcus e levaria culpa pelos erros dele, bastava com que aceitasse meu destino imposto desde o momento que nasci.
Em algum momento, depois de eu ser presa, Edward veria que o mais sensato seria romper o nós. Aquilo iria me matar quando acontecesse, só que no fundo sabia que seria o melhor para ele. Eu já amava ser a noiva de Edward Masen, entretanto o amava mais e não iria querer o ver sofrendo, principalmente por minha culpa.
Eu o deixaria ir quando chegasse a hora, aceitaria que ele tinha uma vida a ser vivida, que eu não poderia compartilhar por conta da minha prisão. Ao menos uma parte do nós ficaria livre e bem, Edward ainda seria muito feliz, com ou sem mim ao seu lado.
— Você está se saindo muito bem — parabenizei, quando ele conseguiu tocar sozinho um bom trecho de Clair de Lune, Edward deu um sorriso pequeno para mim, ainda com lágrimas nos seus lindos olhos verdes.
Estava prestes a beijá-lo quando ouvimos uma batida na porta, olhamos para lá, vendo Jasper ali. Ele parecia envergonhado de ter nos interrompido, eu realmente detestei a aparição dele, pois queria continuar na minha bolha com Edward.
— Esme pediu para avisar que o almoço está pronto — ele falou.
— Valeu, cara, nós estamos indo logo mais — Edward o dispensou, Jasper hesitou, mas não deixou a sala de música.
— Podemos conversar? — perguntou para mim.
Dei de ombros, eu realmente não queria bater papo com Jasper naquele momento, mas tanto faz.
— Bella, eu acho que te arrumei um trabalho — ele anunciou. — Mas, preciso que você não surte e considere a ideia, ok?
— Você me arranjou um trabalho? — consegui perguntar, a mão de Edward voou até a minha.
— Sim, quer dizer, eu não arrumei nada ainda. — Jasper entrou por fim na sala de música. — A questão é que uma... Garçonete. — Eu arfei ao ouvir aquilo. — Lá do clube foi demitida, então a vaga dela está aberta agora e Alice falou que você não estava conseguindo encontrar nenhum emprego, então eu pensei que isso poderia ser uma boa.
— Uma boa? — perguntei num fio de voz. — Ser uma garçonete?
— Isabella! — Edward exclamou, suspirei, olhando para ele.
Me soltei dele, esfregando meu rosto. Tentando não surtar sobre tudo aquilo, mas estava bem difícil.
— Olha, sei que isso parece terrível para você, mas é um bom emprego — Jasper voltou a falar. — Ia ganhar um valor decente, trabalhar num lugar que já conhece... — O encarei, fazendo com que ele calasse a boca.
— Acho que Jasper está certo, isso poderia ser bom, Bonequinha — Edward falou. — Bom de alguma forma — acrescentou rapidamente quando voltei meu olhar para ele. — Sei bem que ser um garçom não é um sonho, mas você teria salário e gorjetas, pode ficar nisso por um tempo até conseguir algo melhor.
Fiquei de pé, saindo do banquinho diante ao piano.
— Não sei — murmurei.
— Que tal ir comigo lá para o clube amanhã? — Jasper propôs. — Eu te apresento para o cara que está coordenando tudo, quem sabe ele topa te entrevistar e ai vemos onde isso acaba.
— Não sei ser uma garçonete — sussurrei, Jasper riu, Edward lançou um olhar feio para o amigo.
— Bonequinha, é simples, com a prática você aprenderá o ofício em pouco tempo — Edward garantiu, colocando-se de pé também. — Se quiser posso te ajudar a treinar.
— Talvez um emprego seja bem visto no tribunal — Jasper falou, hesitante novamente.
— Claro, virar garçonete vai me manter longe da cadeia — debochei.
— Bella, não. — Edward afagou meu braço, mas Jasper não pareceu ofendido.
— Certo, vou fazer isso — falei para o namorado de Alice. — Irei até o clube com você amanhã.
— Beleza, eu te busco de manhã — ele disse. — Não demorem, o almoço já está pronto — repetiu, antes de deixar a sala de música, me deixando sozinha novamente com Edward.
— Garçonete — resmunguei.
— Você vai dar conta — Edward insistiu, depositando um beijo na minha testa. — Será por pouco tempo.
Pouco tempo, pois logo eu iria presa e não teria trabalho algum.
— Vamos almoçar de uma vez.
— Minha mãe e Clary vieram, a propósito — ele contou, eu deixei um grande sorriso tomar conta do meu rosto ao ouvir aquilo, amando a notícia de que veria as duas.
Não, eu com certeza não conseguiria fugir, não poderia deixar aquelas pessoas para trás.
***
O almoço na casa dos Cullen foi tranquilo, o apartamento estava lotado, mas nenhuma confusão aconteceu e eu adorei ter um tempo de paz. Não foi possível fugir totalmente do que estava por vir no meu caminho, mas todos ali tentaram me fazer sentir confortável enquanto compartilhávamos um tempo de qualidade.
Clary já estava enturmada com todos, Esme e Carlisle adoraram a menina e eles tinham até presentes para ela. Elizabeth tentou recusar, para evitar que a filha fosse ser mimada, mas ninguém conseguia contra Esme Cullen.
No meio da tarde, depois do almoço e de Edward e eu nos entupirmos com a torta de chocolate de Esme, Elizabeth e eu decidimos ir para o hospital, para que ela visitasse minha mãe. Como eu voltaria aquela noite para o Brooklyn com meu noivo, decidi passar mais um tempinho com Renée, até porque no dia seguinte eu estaria ocupada com o lance de garçonete.
Clarisse tentou ir conosco, pois ela queria conhecer minha mãe, mas Elizabeth e eu negamos. O hospital não era um lugar para crianças, fora que Renée era irmã dela, nós não queríamos complicar mais as coisas, não naquele momento, então a deixamos com Edward e os outros.
— Ah, eu pensei que iriamos pegá-la acordada — Elizabeth lamentou quando entramos no quarto de Renée, nos deparando com ela dormindo.
— Charlie? — chamei por ele, que encarava a parede com um olhar perdido e assombrado. — Pai? — insisti, ele me olhou, engolindo em seco.
— O que aconteceu? — Lizz indagou Charlie. — Renée está bem?
— Alguma piora no quadro dela? — perguntei temendo aquilo.
— Eu pedi que injetassem um calmante nela — o homem respondeu, estava pálido como se tivesse visto um fantasma. — Renée me contou algo terrível, Isabella.
Segurei na beirada da cama hospitalar, temendo o que Renée tinha dito. Senti uma mão de Elizabeth no meu ombro, mas não consegui me virar para olhar para ela.
— O que ela disse, Charlie? — Lizz tornou a indagá-lo.
Charlie respirou fundo, olhando para mamãe sedada.
— Ela me contou algo sobre a morte da mãe dela.
— Marie — murmurei. — O quê? Ela morreu em um acidente de carro — comecei a falar em disparada. — Renée era só uma criança na época, o que ela tinha para falar sobre isso?
— Não foi um mero acidente, filha — Charlie sussurrou, a mão de Elizabeth apertou meu ombro. — Marcus contou para Renée que foi ele quem mexeu no carro de Marie, o que causou o acidente que matou sua avó.
Não, não podia ser.
— Era a esposa dele — eu disse, tentando me agarrar no último fio de esperança de que meu avô não era um completo monstro.
— Bella, ele seria capaz — Elizabeth falou.
— Não, não seria — teimei, me soltando dela. — Ele a amava, ele com certeza a amava, não poderia matar a própria esposa — insisti.
— Isabella, Renée não teria porque mentir — Charlie voltou a falar.
— Ela está com a fala ruim ainda, você deve ter entendido algo errado, Charlie. — Lágrimas já corriam por meu rosto.
— Sim, a fala da sua mãe ainda não está clara e perfeita, mas ela se esforçou muito para me contar toda a história, Bella. — Charlie se levantou, andando até mim. — Renée contou que um dia, quando você ainda era uma criança e ela tentou convencer Marcus a deixá-la ir morar na Flórida com você, ele contou a verdade sobre a morte de Marie. Disse que Marie estava ameaçando pedir o divórcio, que ela não suportava mais aquele casamento e que queria levar Renée para longe, então Marcus a tirou de seu caminho, pois ele não deixaria ninguém levar Renée dele.
Eu me abracei, chorando baixinho, mas as lágrimas no meu rosto eram grossas.
— Ele ameaçou fazer o mesmo com Renée, matar ela para que pudesse ficar com você, Bella. — Charlie afagou meu rosto. — Eu não acho que ele mentiria sobre isso, sim, ele mentiu para Renée que tinha me matado, mas nós sabemos que Marie realmente morreu, então ele com certeza fez isso.
— Ele matou a mãe da filha dele? A esposa dele? — comecei a questionar, já tremendo. — E ameaçou matar a própria filha? Você disse que foi quando eu era uma criança? Isso foi o que levou Renée a se afogar mais ainda no vício dela, não foi? — Charlie assentiu.
— Foi, ela confirmou isso.
— Mas, não pode ser verdade! — Charlie suspirou. — Ele teria sido preso por homicídio, ele não foi, a perícia disse que foi só um acidente normal, o país inteiro saberia se fosse um homicídio!
— Bella, o seu avô tinha muito dinheiro e poder, querida — Elizabeth falou com a voz baixa. — Ele com certeza daria um jeito de encobrir a realidade por trás desse acidente...
— Ele não pode ser tão mau — a interrompi, a olhando, seus olhos verdes estavam preocupados. — Eu não posso acreditar que ele teria coragem de matar a própria esposa, de ameaçar matar a própria filha, isso... — Eu me calei, um instalo aconteceu na minha mente.
— Bella? — Elizabeth chamou por mim.
— Mamãe sofreu uma overdose de cocaína — contei. — Eu sempre soube que ela bebia muito, mas não que usava drogas. — Engoli em seco. — O que mais ela te contou? — questionei Charlie.
— Foi ele, Bella — Charlie respondeu a minha pergunta implícita, eu arfei. — Renée disse que Marcus deu a cocaína para ela, com certeza para que sua mãe ficasse cada vez mais fora de si e ele pudesse dominá-la por completo, mas ela decidiu... Você sabe.
— Não posso lidar com isso agora, eu simplesmente não posso! — exclamei, saindo apressadamente do quarto de Renée.
Alguém me seguiu, mas não sabia dizer se era Charlie ou Elizabeth. Eu apenas chorava muito e não consegui ir muito longe, então senti a pessoa me seguindo me puxar para um abraço.
Era Elizabeth, reconheci facilmente. Ela afagou meus cabelos, enquanto dizia frases de consolo, deixando com que eu desabasse no seu colo.
Meu avô era um monstro, pior do que eu tinha imaginado. Eu tinha medo dele, ódio, e raiva por ainda querer que ele estivesse bem, quando deveria desejar tudo de pior aquele sádico que tinha atormentado tantas pessoas.
Como eu ainda podia sentir qualquer coisa boa por aquele monstro?
— Você não é ele, Bella — Lizz sussurrou, fazendo com que eu me movesse para olhar para ela. — Ouviu bem? Você não é seu avô, não tem culpa de nada disso.
— Ele me criou — sussurrei. — Ele estava me tornando alguém muito parecida consigo mesmo.
— Mas, você não é ele — ela repetiu, beijando minha testa. — Você é uma garota maravilhosa, querida, não se esqueça disso.
Eu tentava acreditar naquilo, mas o peso nos meus ombros era demais para mim. Minha vida inteira tinha sido uma grande mentira, orquestrada por meu próprio avô que era a pior pessoa do mundo.
***
Edward não pareceu surpreso quando contei tudo aquilo para ele, mais tarde naquele domingo, entretanto não me importunou por toda aquela história. Eu já estava farta de chorar, então não cai em seus braços pedindo por mais consolo, principalmente porque ele tinha de ir trabalhar.
Na segunda-feira acordei cedo, disposta a ir mesmo ao clube com Jasper e tentar a vaga de garçonete que eu desprezava, mas que precisava para não morrer de fome. Não que eu estivesse precisando de algo — pelo menos não nada básico para se viver —, Rose e Edward estavam mantendo o apartamento nos eixos e com o dinheiro que já tinha recebido de Aro e parte de Arthur, pude comprar uma coisa e outra.
— Garoto do Brooklyn, Jasper mandou uma mensagem, ele está lá embaixo esperando por mim — falei para a figura adormecida de Edward, era cedo demais e não tinha muito tempo que meu noivo retornou da boate.
— Ok — ele murmurou, com sono demais para falar qualquer outra coisa.
— Amo você. — Depositei um beijo no seu maxilar. — Deseje-me sorte.
— Boa sorte! — desejou em um resmungo, remexendo-se na cama e se agarrando ao travesseiro que deixei para trás, eu ri, beijando-o mais uma vez, para sair do nosso quarto.
Arthur e Rosalie ainda estavam dormindo também, depois de terem sido bem barulhentos na última noite após a chegada da loira da boate.
— Pronta? — Jasper perguntou quando me encontrei com ele do lado de fora do prédio.
— Nenhum pouco, mas vamos lá!
Seguimos de metrô para Manhattan, em uma viagem silenciosa entre nós dois, já que não tínhamos de fato muito para conversar. Porém, eu não podia deixar passar despercebido o quão irônico aquela situação era, eu estava recebendo ajuda de Jasper — o instrutor de tênis — para conseguir um trabalho no clube que antes era sócia. Justo de Jasper, o cara que eu tratava como um escravo quando o encontrava pelo clube, pedindo para ele até pegar água para mim quando aquela não era sua função.
Nunca tinha estado tão cedo no clube, mas ao menos o fato de estar lá tão antes da hora que os associados começavam a chegar me deu mais calma, já que não toparia com ninguém conhecido. Sendo assim, pude ficar mais tranquila, um pouco que fosse.
— Ele topou falar com você — Jasper falou para mim, saindo da sala do cara que administrava parte do clube, a parte responsável pelo bar e restaurante. — Só vai terminar uma ligação e te chama.
— Ok — sussurrei, tensa demais e odiando o fato de estar prestes a implorar pelo emprego de garçonete, mas era necessário e eu tinha uma carta na manga.
— Ele se chama Eisten — Jasper disse, sentando-se ao meu lado.
— Como?
— O cara. — Apontou para a sala. — O nome dele é Eisten.
— Eisten? — Sufoquei uma risada, Jasper sorriu, assentindo.
— Uma bela homenagem, não? Ele também é vesgo, tente não reparar muito nisso.
— Pode deixar.
— Ah, elogie as fotos da família dele, você vai ver algumas sobre a mesa.
— Ok. — Não faria aquilo.
— Ah, ele usa peruca...
— Eu não devo reparar muito nisso também? — adiantei sua fala.
— Isso mesmo! — Jasper me lançou um sorriso ansioso. — Eu realmente sei que esse não é o emprego dos seus sonhos, Bella, mas realmente espero que você o consiga.
— Obrigada pela ajuda, Jasper. — O peguei de surpresa quando o abracei, mas o loiro retribuiu o abraço. — Sério, você está sendo um grande amigo.
— Eu sei que sim — ele disse com convicção quando nos soltamos.
A porta se abriu e Eisten, o cara vesgo, que usava peruca — torta em sua cabeça — e que talvez fosse ser meu novo chefe, apareceu.
— Isabella?
— Sim.
— Entre! — Apontou para o interior da sua sala.
Lancei um olhar nervoso para Jasper, mas segui Eisten. Sentei na cadeira diante sua mesa cheia de fotos, deixando o homem assumir seu lugar.
— Então, você já trabalhou como garçonete antes? — Notei o deboche em sua voz, ele com certeza sabia quem eu era.
— Não, mas eu estou muito animada para me tornar uma — debochei de volta, ele revirou os olhos, estendendo meu currículo para ele. — Eu sei que você sabe muito bem quem sou, no que estou envolvida, não espero que me julgue, pois já vão fazer isso no tribunal, só quero saber se vai me dar um emprego ou não.
— Eu... — ele começou a falar, mas o interrompi.
— Eu sei falar francês, um pouco de outras línguas também — comecei a falar. — Sei como as pessoas que frequentam esse clube são, conheço a maioria delas e suas peculiaridades. Sei dos homens que vem para cá e que usam o clube como pretexto para terem encontros com suas amantes, sei das mulheres que ficam aqui o dia inteiro, pois detestam suas vidas. Além do mais, sou bonita, algo que vai ser agradável para manter a classe do clube. Eu com certeza nunca fui uma garçonete antes, mas sei que um pré-requisito para ser uma garçonete aqui é a discrição, já que as pessoas nesse lugar tem tanto dinheiro quanto podres que escondem com muito afinco.
Eisten me olhou surpreso.
— Quando eu começo, Eisten? Ah, eu quero plano dentário também!
Ele suspirou, largando meu currículo sobre sua mesa.
— Você pode começar amanhã?
— Mal vejo a hora. Plano dentário?
— Sim, sim. — Ele bufou. — Você terá isso.
— Excelente! — exclamei animada, me surpreendendo por estar feliz em estar virando uma garçonete. Mas, bom, era minha nova vida.
***
Charlie e Renée ficaram muito felizes quando fui até eles no hospital e lhes contei que tinha conseguido o emprego, quis manter o bom astral e não mencionei nada sobre minha avó Marie. Não queria fazer minha mãe voltar a falar naquilo, como também não queria pensar sobre aquele assunto, não naquele instante.
Edward ficou ainda mais feliz do que meus pais sobre minha contratação, ele também ficou magoado por não podermos sair para comemorar, mas ainda teria de ir para a boate aquele dia. Aquela era a vida dele também, afinal nós dois tínhamos empregos e precisávamos dar tudo de nós para os manter.
Na terça-feira, deixei novamente um adormecido Edward no apartamento para ir trabalhar. Eu queria vomitar, devido à ansiedade por estar indo para o meu primeiro grande emprego. Pelo menos Jasper, que foi comigo, já que trabalharíamos no mesmo lugar a partir daquele dia, tentou me distrair o máximo possível durante o caminho para o clube.
Lá Eisten me entregou meu uniforme, que era terrível, diga-se de passagem. Ele já tinha me mandado usar tênis de cor escura, aquilo foi complementado por uma calça social de tecido vagabundo — que tinha um corte que não valorizava meu corpo —, uma camisa também social na cor branca, uma gravata estúpida e por cima um colete preto. Tive de prender meus cabelos em um coque discreto, que não me agradou em nada.
— Vai ficar circulando entre as piscinas e entre as quadras de tênis — Eisten anunciou, enfiando uma bandeja em minhas mãos. — Faça com que todos consumam muito, pode ficar com as gorjetas.
— Yay! — comemorei com falsa animação.
Evitei me olhar no grande espelho do restaurante do clube, sem querer odiar minha imagem refletida ali. Aquilo ainda parecia irreal, Isabella Higginbotham uma mera garçonete.
O trabalho como garçonete era horrível, como eu bem tinha imaginado. Os clientes reclamavam de tudo, eu precisava ser rápida enquanto carregava uma bandeja pesada e mesmo assim não podia xingar ninguém, como queria tanto. As gorjetas eram ridículas, mas me agarrei a elas, pois sabia que para meu novo estilo de vida aquele pouco dinheiro seria bem necessário.
Reconheci alguns clientes, outros me reconheceram. Eu podia sentir os olhares curiosos, como ouvir as conversas baixinhas. Todos abismados de verem uma Higginbotham num cargo como aquele, eu tentei os ignorar ao máximo, para que não desabasse e estragasse tudo.
Na hora do almoço me reuni com Jasper na área dos funcionários, ele foi um bom ouvinte e me escutou pacientemente reclamar sobre cada detalhe do emprego, enquanto comíamos sanduíches ruins que compramos para almoçar. Depois daquilo, o trabalho recomeçou e piorou significativamente.
Um grande grupo estava reunido na piscina, não precisei de muito para reconhecer a maioria deles. Eram antigos amigos meus, antigos amigos de Jacob também. Entre eles estava Paul, James e Victoria.
Eu tentei sumir da frente deles, mas era tarde demais, já tinha sido vista.
— Ora, ora! — Paul exclamou, andando até mim. — Isabella Higginbotham em roupas de garçonete? Isso é um belo fetiche, deixe-me dizer!
— Como foi na prisão, querida? — Victoria perguntou para mim com falsa camaradagem, enquanto se agarrava a James. O ex-namorado de Alice, Victoria nunca tinha gostado de verdade de mim, ou da minha melhor amiga, ela claramente estava de olho nos nossos namorados.
— Aposto que você deve ter adorado! — James emendou, em uma brincadeira idiota que só ele e seus amiguinhos acharam graça.
— O que posso trazer para vocês? — indaguei, tentando ignorar suas provocações, tentando me manter firme.
— Ah, você pode trazer muita coisa para mim, Bella — Paul disse, me lançando um sorriso malicioso. Como eu tinha ido para a cama com aquele cara? Ele era desprezível!
— Pra mim também! — James fez coro.
— Jimmy! — Victoria chamou a atenção dele, rindo como uma hiena. — Não ligue para os garotos, Bella, são tão imaturos!
— Algo para comer e beber? — insisti.
— Comer? Com certeza! — Paul piscou para mim.
— Se você continuar com isso eu vou...
— Vai o que, princesinha Higginbotham? — ele me cortou. — Esqueceu que eu tenho uma puta conta bancária recheada e você não passa de uma garçonete falida? Ah, caso não se lembre, meu pai é sócio majoritário daqui, se eu quiser em dois tempos você está fora.
Engoli em seco, entendendo que eu não podia lutar contra Paul. Na verdade, não podia lutar contra nenhum deles. Estávamos numa maldita pirâmide social, eles eram donos do topo, eles mandavam.
— Agora, você vai pegar cerveja para todos nós. — Paul ordenou.
— Como o senhor desejar — falei, sem conseguir conter o ódio em minha voz. Mas, dei meia volta e fui ao bar buscar pelas cervejas.
Passei o resto do expediente servindo aquelas pessoas imprestáveis, ouvindo as provocações deles e suas piadinhas, sentindo-me cada vez pior, principalmente por saber que um dia fui como eles. Quando meu expediente acabou corri para o banheiro dos funcionários, eu queria trocar de roupa e sumir, não voltaria nunca mais para aquele maldito clube.
Foda-se o emprego, eu não continuaria naquela merda.
Estava prestes a me livrar daquele uniforme ridículo quando o celular tocou, era uma mensagem. Relutante o peguei, vendo que era de Edward.
Garoto do Brooklyn: Vou ter de sair mais cedo para a boate, mas deixei seu jantar na geladeira. Também te comprei um creme de massagem, para seus pés, eles com certeza vão estar doloridos demais ao fim do dia. Espero que seu primeiro dia tenha sido bom, estou muito orgulhoso de você, Bonequinha. Eu te amo!
Suspirei, apoiando-me na parede atrás de mim, relendo a mensagem. Ele era tão cuidadoso, tão gentil e bom. Acreditava tanto em mim, eu podia confiar mais um pouco em mim também, não? Largar o emprego depois do primeiro dia seria desistir fácil demais, não deveria fazer aquilo.
Limpei as lágrimas que rolaram por meu rosto por conta da mensagem, digitando em seguida uma resposta para meu noivo.
Bonequinha: Obrigada por ser tão cuidadoso, amor. Bom trabalho, certo? Eu também amo você!
Olhei para meu reflexo no espelho, pela primeira vez ao dia desde que me coloquei no uniforme de garçonete. Eu detestei o que vi, mas conseguiria lidar com aquilo. Tinha Edward me apoiando, era capaz de superar qualquer coisa com ele ao meu lado.
***
Eu estava correndo contra o tempo naquele sábado no começo de agosto, pois aquela noite tínhamos a exposição de Arthur para comparecer e ele nos mataria caso não fossemos. Mas, quando se trabalha quase todo dia e ainda precisa arranjar um espacinho de tempo para visitar sua mãe no hospital, a rotina podia ser bem estressante.
Já estava trabalhando no clube a mais de uma semana, eu continuava odiando, mas me mantinha firme lá. O trabalho também afetava meu tempo com Edward, como ele trabalhava de noite e eu de manhã, nos vivíamos nos desencontrando. Pois, quando eu estava chegando a casa, ele estava saindo e vice versa.
Por sorte ele tinha conseguido aquela noite de sábado de folga, assim como Rose que já estava em Manhattan com o namorado dela desde cedo — ela iria conhecer os pais de Art —, então nós dois poderíamos aproveitar um pouquinho e eu não trabalharia na manhã de domingo, o que nos daria mais tempo juntos. Eu precisava daquilo, estava morrendo de saudades de um tempo maior com Edward.
Também precisava de um descanso do trabalho, entre servir no clube, ajudar Arthur com a exposição dele e desenhar para o estúdio de Aro, eu estava clamando por um dia de folga. Só que, não poderia reclamar muito, os três trabalhos estavam me dando dinheiro e faziam com que eu pensasse menos no julgamento que aconteceria no fim de agosto e em todo o resto que estava acontecendo em minha vida.
Mamãe estava melhorando, certo, mas continuava internada. Tinham os Black sumidos e a ameaça de Billy pairando sobre mim, assim como Caius e meu avô ainda foragidos.
Charlie e Edward tinham me convencido a contar sobre a morte de vovó Marie para Jenks, com o intuito de que aquilo pudesse ajudar na minha defesa. Eu contei, mas me recusei a conversar sobre aquilo com Renée, não tinha coragem, deixei com que Jenks conversasse sozinho com ela.
Os próximos passos foram dados, ele também colheu as histórias de Lizz e Charlie. Jenks estava se enchendo de provas contra meu avô, mas aquilo não necessariamente me livraria da condenação, eu sabia muito bem disso e meu advogado não mentiu para mim sobre o fato de não ter muito como me ajudar, ele estava de mãos atadas também.
— Você está tão atrasada! — Edward reclamou quando entrei no nosso apartamento no começo daquela noite.
Alice tinha insistido para eu seguir para o apartamento dela, junto com Jasper, para que nos arrumássemos para a exposição lá. Mas, teimosa como eu era, passei no hospital e decidi voltar para o Brooklyn para me arrumar em casa e poder ir de lá com Edward, Lizz e Clary — que Arthur tinha convidado quando as conheceu — para a exposição.
— Eu sei, eu sei — resmunguei para Edward, parando um segundo e o observando melhor.
Ele estava perigosamente sexy aquela noite, usava uma calça jeans escura, sapatos que não eram coturnos e uma camisa social azul marinho. Sexy, sexy pra caramba e todo meu.
— Uou, nós precisamos mesmo ir para essa exposição? — perguntei, arrancando meus tênis e os jogando de lado perto da porta de entrada. — Você está muito gostoso, Garoto do Brooklyn, eu quero te derrubar sobre nossa cama e montar em você.
Edward riu, arrumando as mangas de sua camisa.
— Você pode fazer isso quando voltarmos, Bonequinha, agora vá se arrumar antes que nos atrasemos mais ainda.
— Ok, ok. — Fui até ele, lhe dando um rápido beijo nos lábios.
Tentei me afastar, mas Edward segurou em minha cintura, fazendo com que eu continuasse junto dele. Ele me beijou novamente, com mais calma daquela vez, infiltrando sua mão por dentro da camiseta que eu usava, tocando meu seio esquerdo por cima do sutiã.
— Hum, vamos nos atrasar, se lembra? — sussurrei, entre gemidos, quando ele tirou seus lábios dos meus e os moveu para meu pescoço, beijando minha pele.
— Não podemos mesmo faltar, né?
— Não, Arthur ficaria reclamando sobre isso e Rose também.
— Mas, você ainda vai tomar banho. — Edward conseguiu abrir meu sutiã, tocando diretamente em meu seio.
— Claro — gemi a resposta.
— Posso ir tomar banho com você.
— Nem pensar. — O afastei. — Eu moro no Brooklyn agora, mas continuo detestando aquele banheiro pequeno.
Edward riu, passando a mão por seus cabelos que já eram uma grande bagunça.
— Você tem problemas.
— Vários — debochei, fazendo com que ele risse ainda mais. — Vou me apressar, já que ainda temos de ir buscar sua mãe e irmã.
— Ok, vai lá, gata.
— Eca, não me chame assim! — exclamei, já correndo para o banheiro.
— Bonequinha, então?
— Sempre!
Mais de uma hora depois, Edward e eu, junto de Clarisse e Elizabeth, chegamos à galeria que acontecia a exposição de Arthur. O local já estava cheio, mas foi fácil localizar nossos amigos.
Arthur e Rosalie estavam juntos, conversando com os pais do ex-líder de torcida, quando nos viram e foram até nós. Arthur usava roupas semelhantes às de Edward, enquanto Rosalie usava uma saia preta de cintura alta e uma blusa vermelha, com saltos Jimmy Choo em seus pés, eu sabia que tinha sido um presente forçado de Alice para sua cunhada.
— Finalmente vocês chegaram! — Rosalie reclamou.
— Está estressada por qual motivo, Rose? — indaguei, alisando a saia lápis que eu usava. Ela era estampada, nas cores branca e preta, eu usava uma blusa branca de mangas longas, que tinha um generoso decote, como sapatos que tinha pegado emprestado do armário de Alice dias antes.
— Quando ela não está estressada? — Lizz perguntou rindo, minha sogra usava um simples vestido preto e saltos baixos, o cabelo estava preso em um coque e ela até tinha um pouco de maquiagem no rosto. Mas, foi preciso muito convencimento de Edward e eu para fazê-la aceitar ir aquela exposição, ela simplesmente não queria sair e viver um pouco, sempre querendo ficar presa ao seu apartamento e ao marido babaca.
— Tia! — Rose chamou a atenção dela.
— Você está linda, Elizabeth — Arthur falou para a mãe de Edward, pegando a de surpresa quando beijou o rosto da mulher, que corou por conta do gesto. — Se Rosalie já não tivesse me tomado, eu tentaria algo com você. — Piscou para ela.
— Arthur! — Edward exclamou entre dentes.
— O quê? — Arthur lançou um sorriso para meu noivo. — E você, lindinha? Pronta para um pouco de arte? — Ele se voltou para Clary, que olhava com empolgação para tudo a sua volta. Minha cunhada, era difícil pensar nela como tia, usava um vestido florido, seus cabelos ruivos tinham sido presos em uma trança e ela parecia uma pequena princesa.
Por um segundo imaginei como teria sido se Clarisse tivesse crescido no seio da família Higginbotham, mas espantei aquele pensamento rapidamente da minha mente.
— Claro, estou sim! — Clary concordou prontamente.
— Venha comigo! — Arthur pegou a mão dela. — Divirtam-se! — ele falou para a gente, antes de se afastar com Clary.
— Vou cumprimentar os pais de Alice, com licença — Elizabeth se afastou também.
— A mãe do Arthur me convidou para passar o natal com a família Davis, esquiando em Aspen, acreditam nisso? — Rosalie disse com indignação na sua voz.
Edward e eu nos entreolhamos rapidamente.
— Qual o problema nisso, Rose? — perguntei sem entender.
— Isso é certo?
— Bom, eu não vejo porque seria errado. — Edward largou minha mão, contornando meu corpo com um braço, fazendo com que ficássemos mais próximos.
— Sim, uma viagem com a família do seu namorado não é nada demais, eu fazia isso direto com os Black. — Edward resmungou um palavrão. — Talvez eu não devesse, pois são todos criminosos terríveis, mas antes de saber disso tudo eu viajava com eles.
— Vocês acham que eu devo ir? — Rose perguntou, estalando seus dedos sem parar.
— Claro que sim! — exclamei.
— Se você não tiver um ataque de pânico até lá — Edward emendou, me soltando. — Tudo bem se eu beber algo? — perguntou para mim.
— Claro, vá em frente. — Ele beijou meu rosto, antes de ir até o bar, montado no fundo do espaço da galeria onde a exposição acontecia, encontrando-se com Jasper lá. — Arthur fez um bom trabalho — elogiei, andando com Rose pela exposição. — Você também foi uma excelente modelo.
— Uma modelo que vai esquiar em Aspen, com a família do namorado, em dezembro — ela murmurou, ainda aflita.
— Barbie, você vai ficar bem — garanti.
— Não me chame assim — ela protestou, beliscando meu braço, eu apenas ri.
A exposição foi um grande sucesso, eu só conseguia ouvir elogios para as fotos de Arthur. O fotógrafo estava muito orgulhoso, andando com Rosalie de cima para baixo, apresentando-a para todos como sua melhor modelo e namorada. Eu podia ver que no começo aquilo tudo estava a enlouquecendo, mas ela conseguiu aguentar.
Arthur também me incluiu em algumas entrevistas que deu citando minha participação no projeto, ele me deixou saber disso, já que evitei os jornalistas presentes ali. Não precisava de mais exposição, eu estava bem apenas conversando com os Cullen, comendo docinhos com Clary e explicando sobre fotografia para mãe de Edward.
Também cumpri muito bem meu papel de melhor amiga, ouvindo Alice reclamar por Carlisle não estar querendo deixar com que ela fosse morar com Jasper. Emmett tinha deixado o loft aquela semana, então Jasper tinha um espaço vago e precisava de um colega de quarto, Alice queria ser a colega de quarto dele, no caso eles com certeza dividiriam a mesma cama.
— O papai é tão irritante! — Alice exclamou pela milésima vez aquela noite. — Vou pegar mais champanhe — anunciou depois de ver sua taça seca.
— Por que ela esta tão brava? — Ouvi a voz de Edward atrás de mim, então ele deslizou uma mão por meu braço direito, em um afago gostoso. Logo ele inclinou sua cabeça, depositando um beijo atrás da minha orelha, fazendo com que eu me arrepiasse.
— Carlisle não quer deixá-la ir morar com Jasper — contei, Edward riu no meu ouvido.
— Ela vai convencer o pai, não vai?
— É Alice, claro que ela vai conseguir o que quer. — Aproveitei os beijos que ele distribuía no meu pescoço, enquanto olhava para a foto de Rosalie na frente da boate que ela e Edward trabalhavam.
Sorri, pensando em como eu estava grata por Alice ter me levado para a boate na noite que conheci o Garoto do Brooklyn.
***
Os dias pareciam estar se arrastando, em partes isso era bom, me dava mais tempo para aproveitar a liberdade antes do julgamento. Porém, toda a demora para o grande dia só me deixava ainda mais nervosa.
Eu estava ficando cada vez mais desesperada, as vezes querendo que aquela tortura acabasse logo, outras querendo congelar o tempo e nunca ser condenada. Minha mente era pura confusão, eu não sabia como não estava enlouquecendo.
Tudo ao meu redor parecia tranquilo, ao menos na superfície. Eu estava mantendo meu emprego, por mais que o odiasse, até mesmo pagando contas como uma garota responsável. Edward e eu estávamos indo bem, mesmo com os horários desencontrados, sempre aproveitávamos quando tínhamos tempo juntos.
Mamãe estava progredindo cada vez mais em sua recuperação, Carlisle e Esme estimavam que antes do meu aniversário em setembro ela já estaria fora do hospital. Charlie, que tinha perdido seu emprego em Forks, conseguiu um como segurança no hospital por intermédio dos Cullen e quando não estava lá com mamãe estava trabalhando.
Alice, como esperado, conseguiu convencer o pai a deixá-la ir morar no loft com seu namorado e se mudaria em breve. Arthur tinha alugado um apartamento no Brooklyn, mesmo que ele passasse muito do seu tempo com Rosalie no nosso.
As partes menos fáceis era o fato de que Edward e Elizabeth brigavam cada vez mais por conta de Richard, o desprezível marido que minha sogra se escondia atrás desde que estava acobertando a paternidade real de Clary. Como também, todos ainda continuarem foragidos, Caius, Billy, vovô, todos.
Eu ainda vivia com medo, um grande temor de que Billy se vingasse em mim, ou em alguém próximo. Sentia também receio de vovô voltar para me buscar, como ele tinha prometido naquele bilhete.
— Preciso de um grande copo de café — falei contra um bocejo para Lizz, estávamos no hospital naquele dezoito de agosto. Ambas estávamos de folga e decidimos ir visitar mamãe, deixando Clarisse sob responsabilidade do irmão no Brooklyn.
Fizemos uma parada na lanchonete, enquanto sabíamos que Charlie — que só trabalharia pela noite aquele dia — estava com mamãe nas sessões de fisioterapia e de fono dela naquela manhã. O trabalho no dia anterior tinha sido estressante ao extremo para mim, Paul e seus amiguinhos estiveram lá novamente, eu tive de me manter o mais profissional possível para não deixá-los me afetar ao ponto de me por em confusão.
— Com canela, certo? — Lizz perguntou para mim, assenti. — Pode ir pegar um lugar para a gente, eu pego nossos cafés, querida.
— Obrigada, sogrinha! — exclamei contente, saindo da fila.
Estava indo para uma mesa vaga, quando ouvi me chamarem, o sotaque britânico foi inconfundível.
— Hey, Joe! — Me virei na direção dele, andando até sua mesa.
— Olá, como você está?
— Cansada. — Desabei na cadeira diante dele. — E você? — Joe e eu tínhamos nos topado pelo hospital outras vezes, mas nunca paramos para conversar, pois eu ou ele estávamos sempre apressados.
— Cansado, acho que estou de plantão há uma semana — ele disse em um tom de brincadeira, bebendo um pouco do seu café em seguida.
— Oh, senhor cirurgião, lamento como sua vida e difícil! — exclamei rindo, ele riu também.
— Então, eu te vi nos jornais — ele falou, fiz uma careta ao ouvir aquilo. — Você assalta bancos também? — Voltei a rir quando percebi que ele estava brincando. — Isso tudo é serio mesmo? Estão mesmo te acusando de lavagem de dinheiro? Você é só uma garota!
— Pode apostar, é bem sério — falei, estendendo a mão para que Lizz que tinha pegado nossos cafés visse onde eu estava. — Vou a julgamento no dia trinta.
— Se você quiser testemunho ao seu favor — ele se ofereceu.
— Mal me conhece, Joe — lembrei.
— Bom, quando eu te conheci você estava chorando na garagem do hospital, triste, apaixonada e sozinha, o que torna uma pessoa totalmente exposta, pelo que vi ali com certeza não estou sentando junto a uma criminosa — ele falou, dando de ombros. — Você sabe, sou um conselheiro estudantil, sei ler as pessoas.
— Hum, Bella? — Lizz chegou até a mesa.
— Ei, Lizz, esse é o Joe! — Apontei para o médico sentado a minha frente, então peguei meu café da mão dela. — Cirurgião aqui no hospital.
— Apenas um hobby, Bella sabe que na verdade sou um conselheiro estudantil disfarçado — Joe disse sorrindo, esticando uma mão para Elizabeth. — Joseph Owen, mas pode me chamar só de Joe.
— Elizabeth, sogra da Bella — ela falou. — Talvez eu deva deixar vocês conversando, melhor ir...
— Não, sente-se conosco! — Joe se colocou de pé, indicando a cadeira dele, virando para a mesa ao lado e pegando uma cadeira vaga ali para ele.
— Ok — Lizz cedeu, sentando ao lado de Joe.
— Então, eu conheci seu filho, ele fez Bella chorar! — Joe disse, gargalhei, enquanto Lizz arregalava os olhos.
— Faz muito tempo — eu falei para ela. — Não se preocupe, ele não tinha a intenção de me machucar. Na verdade, Joe foi quem disse que eu estava apaixonada por Edward. — Suspirei ao lembrar do dia do meu primeiro beijo com o Garoto do Brooklyn.
— Eu disse, sou muito bom em ler as pessoas! — Joe se gabou.
— É inglês, certo? — Elizabeth perguntou a ele.
— Sim, espero que receba-me bem no seu país.
— Claro, seja bem vindo. — Ela sorriu, olhando para seu café.
Nós três entramos em uma conversa trivial sobre a Inglaterra, com Joe listando tudo que mais gostava de lá para Elizabeth, quando eu me distrai olhando para a televisão que tinha na lanchonete. Por um minuto congelei com a imagem na tela, até que me levantei correndo para mais perto, querendo ter certeza de que estava enxergando aquilo tudo direito.
A manchete dizia: Jacob Black, filho do senador Billy Black, se entrega para a polícia.
Reconheci onde a repórter estava, era a mesma delegacia para onde fui levada quando fui presa.
— Bella? — Lizz se juntou a mim, Joe estava com ela.
— Jacob se entregou — murmurei.
— Sim, vamos...
— Eu vou até la! — interrompi minha sogra.
— O quê? — ela indagou incrédula. — Para que você vai até aquela delegacia, Isabella? O pai desse homem te ameaçou, ameaçou as pessoas que você ama, lembra? Devemos voltar para o Brooklyn agora, se Edward já sabe disso ele deve estar surtando. Não sabemos onde Billy está, devemos...
— Não, eu só... — Percorri minhas mãos por meus cabelos. — Jacob se entregou — repeti. — Ele pode dizer que sou inocente.
— Isabella... — Já era tarde demais, eu deixei Elizabeth falando sozinha e corri para fora da lanchonete e do hospital.
Cheguei rapidamente a delegacia, o caminho inteiro até la recebendo ligações que recusei em meu celular. Como vi pela TV o lugar estava tomado por jornalistas, eles ficaram loucos quando me viram, mas consegui passar por eles e entrar na delegacia, que estava uma verdadeira confusão.
Aquilo me ajudou a ir até a sala do delegado, logo os policiais me viram e tentaram me deter, mas entrei lá mesmo assim. O delegado Headey estava lá, com Jacob Black, meu ex-noivo.
— Você sabia, seu filho da puta! — gritei para Jacob, ele me olhou com uma expressão culpada no rosto, seus olhos escuros estavam molhados por lágrimas. — Conte a ele! — Um policial me agarrou naquele momento, enquanto eu apontava para o delegado. — Conte que eu sou inocente! — exigi.
Jacob tirou algo de seu bolso, um pendrive, estendendo para o delegado.
— Ela é inocente — Jacob falou para o homem, a voz enrouquecida. — Você irá ver ai provas que confirmam isso, Isabella Higginbotham não sabia nada sobre o esquema, ela foi uma vítima.
O delegado pegou o pendrive, não parecendo nada contente com o que Jacob tinha para ele.
— Tire-a daqui! — ordenou para o policial, que me arrastou para fora.
O homem começou a falar comigo, brigando por eu ter invadido a sala do delegado, mas permaneci inerte no meu lugar. Provas, existiam provas, eu não seria condenada?
Toquei no colar em meu pescoço, deixando um pequeno sorriso nascer em meu rosto, enquanto começava a chorar.
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