Sob minha Pele

19 Capítulo Dezoito


Notas iniciais
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— Capítulo Dezoito —

— Edward —

Naquele dia cinco, no começo da noite, eu me despedi dos meus amigos depois de uma tarde maravilhosa. Jasper e eu tínhamos tocado por um longo tempo, eu tentei ensinar Rose tocar algo, mas ela não conseguiu e quando cansamos da guitarra, nós três saímos e tomamos sorvete com a mãe dos gêmeos.

Era para ter sido um dia como qualquer outro, uma tarde com amigos, então voltar para casa com minha mãe e reencontrar meu pai. Nós iríamos preparar o jantar juntos, meu pai iria colocar algumas músicas antigas para tocarem, provavelmente iria tirar minha mãe para dançar na cozinha como quase sempre acontecia e nós encerraríamos nosso dia com muita felicidade. Mas, isso tudo foi interrompido pelo incêndio.

Mamãe e eu fomos andando para casa, era uma noite quente, mas ainda assim agradável e não queríamos perder a oportunidade de curtir um pouco do Brooklyn em um tempo bom. Nós passamos o caminho inteiro conversando, eu estava contando sobre algo bobo, mas ainda assim ela encarava aquilo tudo com muita atenção e diversão, sempre rindo de qualquer coisa que eu julgava ser engraçada.

— Então, o Jasper... — Eu me interrompi no meio de uma frase, vendo um caminhão de bombeiro passar por nós em extrema velocidade. — Uau! Eles são bem rápidos, não é, mãe?

Eu me virei para olhá-la, vendo-a parada alguns passos de distância, os olhos focados em algo no céu. Ergui meu olhar, vendo a fumaça cruzando o azul escuro da noite de New York. Foi como se todos meus outros sentidos se apurassem naquele momento, pude sentir o cheiro da fumaça, o barulho dos caminhões de bombeiro e a mão da minha mãe se unindo a minha, enquanto ela me forçava a correr pelas ruas restantes.

No momento que entramos na rua que morávamos, foi como entrar no inferno. Não só pelo calor, pelo fogo e pela fumaça. Sim por estar indo direto para o meu pior pesadelo, aquele dia que nunca sairia da minha mente.

— Não, não! — mamãe gritou em desespero ao ver o prédio que morávamos, os bombeiros continham o fogo ali com seus jatos de água, a maior parte das chamas apagadas, mas o local praticamente em ruína completa.

Eu tentei achar meu pai no meio das pessoas atrás das barreiras de proteção, estiquei-me em meus pés olhando para as pessoas ali, procurando pela única que queria ver. Não o encontrei, comecei a chamar por ele quase ao mesmo tempo que mamãe começou a gritar seu nome, arrastando-me junto a ela entre os curiosos, ou moradores da rua que tiveram de deixar seus lares por medidas de segurança.

— Edward! — ela gritava, sua mão na minha tremia e suava, o aperto era frágil. — Edward!

— Mãe, cadê o papai? — perguntei assustado, já sentindo as lágrimas acumulando-se em meus olhos.

Ela apenas me olhou, apavorada, seu rosto inteiro molhado por lágrimas.

— Senhor, diga-me que tiraram todos os moradores do prédio com vida — ela perguntou a um bombeiro próximo a contenção, sua voz era hesitante.

Ele nos olhou, um olhar cheio de pena.

— Eu sinto muito. Só conseguiram salvar uma senhora, os outros moradores, eles...

— Não, não — mamãe o interrompeu, gritando ainda mais, jogando-se no chão, sua mão soltando-se da minha. — Edward, por favor — ela clamou, eu sabia que ela estava chamando por meu pai ali, não por mim. — Edward, volte, por favor.

Foi quando eu percebi que papai nunca mais voltaria.

***

Rosalie falava sem parar naquela tarde, enquanto caminhávamos até o loft de Emmett e Jasper para mais um ensaio. Era sexta-feira, dois dias antes de mais um aniversário de morte do meu pai. Sendo assim, minha mente estava dividida entre pensar na data que se aproximava e em Isabella.

Era inegável o quanto ela tinha rondado minha mente nos últimos dias, principalmente desde a madrugada de terça-feira daquela semana quando concordamos em sermos amigos. Eu não tinha a encontrado desde o dia que a deixei no hospital, após todo o caos com Renée, mas nós trocávamos mensagens e nos ligávamos quando tínhamos tempo, em rápidas conversas que baseavam-se basicamente nela me atualizando sobre o estado da mãe e eu a confortando.

Afinal, eu tinha um trabalho e ela fez do hospital sua segunda casa. Ia para lá logo no começo da manhã e só saia quando anoitecia. Eu falei com Alice algumas vezes também, certificando-me que Bella estava bem e a baixinha tinha confirmado que a amiga estava no limite.

Por isso, eu as convidei para irem assistir o ensaio naquela sexta-feira. Alice não me deu uma certeza de que iriam, já que ela também passava a maior parte do seu tempo com Isabella no hospital, mas ela prometeu tentar convencer a amiga — nossa amiga — a ir para conseguir se distrair um pouco.

— Você está me ouvindo, Edward? — Rose perguntou, enquanto entravamos na rua do loft, o local onde eu e meus pais moramos um dia não era muito longe dali, apenas mais duas ruas à frente. No espaço onde um dia o prédio esteve, foi construído um pequeno hotel.

Toda recordação material que tinha sobrado daquele lugar foram alguns pertences do quarto dos meus pais, o único local do apartamento menos afetado pelo fogo. No dia seguinte ao incêndio, minha mãe recebeu uma caixa com o que foi salvo e nós tivemos de seguir em frente apenas com algumas roupas dela e do meu pai, álbuns de foto e uma caixinha de música que ele tinha dado a ela quando nasci.

Era bom que as fotos tivessem sobrevivido ao fogo, era bom ter um pouco do meu pai pelo menos ali, mas eu sempre iria trocar qualquer uma delas por ele vivo. Eu daria tudo para ele ter estado no seu quarto na hora do acidente, não trancado no banheiro.

O laudo pericial tinha comprovado que ele morreu por asfixia por conta da fumaça do incêndio e que não conseguiu deixar o banheiro por conta do fogo que já estava cercando o cômodo.

— Não, desculpe, Barbie — pedi a Rose, engolindo em seco. — Eu estava pensando em meu pai. — E em Isabella, mas Rosalie não ficaria muito contente em ouvir com aquilo. Eu tinha lhe contado sobre Bella e eu amigos e Rose apenas riu, declarando que aquele rótulo só serviria para a Higginbotham pular em minha cama o quanto antes.

— É domingo, não? — ela perguntou, afagando minhas costas.

Eu apenas assenti, sem querer falar sobre meu pai. Nunca queria realmente falar sobre ele, podia tê-lo enterrado, mas para mim aquela dor nunca passaria e ficar falando a respeito só piorava. Já tinha desistido de cicatrizá-la, ela melhorou muito com Clary e sei que minha mãe também teve sua dor abrandada com a filha, mas eu também sabia que nós dois nunca nos recuperaríamos daquele incêndio.

— Posso acompanhá-lo ao cemitério se quiser — Rose sugeriu.

— Não, é pesado demais lá, melhor não se envolver nisso. Eu vou com minha mãe mesmo — murmurei, vendo um táxi estacionar diante o loft e Alice Cullen e Isabella Higginbotham deixando o carro.

Alice tinha um grande sorriso no rosto, mas Bella parecia mais abatida do que quando a vi pela última vez. Usava um grande óculos de Sol e encolhia-se, abraçando a si mesma, parecendo muito frágil.

Seu olhar voltou-se para mim, quando Alice batendo a porta do carro a sobressaltou, Bella deu um pequeno sorriso. Então, correu em minha direção, atirando-se em meus braços. Eu a abracei de volta, sentido Bella enterrar o rosto em peito e agarra-se a mim.

— Ei, que bom que você veio — sussurrei para ela.

Bella apenas assentiu, apertando ainda mais nosso abraço.

— O que estão fazendo aqui? — Rosalie perguntou de forma rígida.

— Edward nos convidou — Alice respondeu também ali perto, eu afastei Bella, podendo olhar minha melhor amiga e a sua.

— Você...

— Eu achei que seria bom, para Bella ter um pouco de distração — respondi cortando Rosalie, ela suspirou, parecendo entender. Com a imprensa noticiando a respeito de Renée, não foi possível esconder dela, ou de mais ninguém o que tinha acontecido a mãe de Isabella e logo ela ficou sabendo sobre a coisa toda da overdose, mas eu não esclareci que não tinha sido uma simples overdose, sim uma ação de Renée com a intenção de se matar.

— Sinto muito pela sua mãe, Isabella — Rosalie falou para Bella, ainda com seu tom de voz sério, Bella apenas assentiu, voltando a abraçar a si mesma.

— Como ela está? — perguntei.

— A equipe médica está bem confiante — Alice falou entusiasmada. — Ela está apresentando muitas melhoras em seus exames, estamos esperando que ela acorde nos próximos dias — completou, lançando um sorriso empolgado para Bella. — Você pode convencer Bella a acreditar nos médicos? Ela está sendo bem pessimista.

— Ela passou minutos sem batimentos cardíacos, Alice — Bella rebateu, sua voz era rouca e chorosa. — Eu tenho pesquisado sobre isso tudo, tá legal? Não posso acreditar que minha mãe será um milagre e que sobreviverá a isso quando muitos não suportaram. E se ela acordar e for apenas um vegetal? É essa vida que eu devia esperar para ela?

— Você devia apenas esperar que ela fique bem — Rosalie sugeriu, fazendo Bella encará-la por trás dos óculos. — Independente de como.

— Renée ficará bem, okay? — Afaguei o braço de Bella. — Ela acordará em breve, com ou sem sequelas e você estará lá para apoiá-la no que for necessário.

Bella apenas assentiu.

— Vamos entrar, nós temos de ensaiar — Rosalie ordenou, gesticulando para o loft.

Bella segurou em meu braço, eu não fui capaz de afastá-la. Ela parecia precisar muito de um apoio e dei aquilo a ela, nós seguimos Rosalie e Alice para dentro do loft, onde Emmett e Jasper esperavam pela gente.

— Ei, o que está fazendo aqui? — Jasper perguntou surpreso a ver a namorada, cruzando a sala do loft até Alice, a tomando nos braços e a beijando, deixando-a incapaz de responder.

— Eu as convidei — contei, sentindo o olhar de Emmett sobre Isabella e eu, ele não parecia nada contente com aquilo. Não com as garotas ali, em outra situação ele teria adorado, o que meu amigo não estava gostando era de me ver com Bella, mesmo que eu só fosse um amigo para ela.

— Hum, sinto muito por sua mãe, Isabella — Jasper disse quando se soltou de Alice, Bella apenas acenou com a cabeça, ainda agarrada a mim.

— Vamos começar, eu ainda tenho de ir trabalhar essa tarde! — Emmett exclamou, soando muito irritado. Sério que ele ficaria todo puto por Bella estar próxima de mim? Primeiro que ela e eu éramos apenas amigos. Segundo que Isabella tinha um namorado, Emmett não devia estar querendo qualquer coisa com uma garota comprometida.

Alice puxou Bella até o sofá, onde as duas ficaram pelo tempo que tocamos. Alice animada com tudo aquilo, mas Bella visivelmente presente ali apenas em corpo. Nós quatro da banda estávamos em um péssimo acordo aquele dia e, Emmett claramente sem vontade alguma de tocar, o que nos fez acabar o ensaio muito antes do previsto.

— Eu vou para a academia — ele falou, depois que trocou de roupas, saindo do loft. Jazz e Rose estavam tocando ainda, ela estava trabalhando em uma composição nova e o irmão estava a ajudando naquilo, então eu os deixei ali, as garotas no sofá presas em uma conversa baixa e segui Emmett.

— McCarty?!

— O quê? — Emmett me encarou, enquanto mexia em sua moto.

— Eu não estou com Isabella, tá legal? Você não precisa ficar puto por isso.

— Você sequer gostava daquela garota, agora ela está agarrada a você. Disse que eu podia tentar algo com ela, agora cortou meu caminho — ele disse raivoso. — Obrigado por ser um fodido traidor e ter furado meus olhos, Masen.

— Ela tem um namorado, eu não estou com Isabella! — exclamei, muito perto de gritar.

— Por favor, você viu como essa menina tem estado ao seu redor? Ela está pouco se fodendo para o namoradinho dela.

— Emmett...

— Não, não me venha com desculpas, Edward. — Ele subiu na moto, colocando o capacete. — Volte lá e se agarre a Higginbotham no meu sofá, eu estou feliz demais com essa merda, sejam felizes também — ironizou, antes de ligar a moto e sair dali.

— Babaca! — xinguei.

— Tudo bem? — Eu me virei ao ouvir a voz de Bella, ela tinha seus óculos de Sol sobre a cabeça, deixando com que visse seu rosto completamente sem maquiagem e cansado, assim como seus olhos castanhos vermelhos.

— Sim, Emmett só foi um idiota por algo estúpido — justifiquei, inspirando fundo.

— Eu estou indo embora, não tenho muito o que fazer aqui — falou, parando a minha frente. — Obrigada pelo convite, Edward. Ele foi bem útil para Alice, ela tem sido de grande ajuda, mas estava começando a me preocupar com ela tanto tempo presa naquele hospital comigo.

— É para lá que você está indo? — perguntei, ela concordou com um aceno de cabeça.

— Meu avô viajou essa madrugada para Alemanha, com ele aqui eu não podia dormir no hospital, mas agora posso.

— O seu avô viaja tanto assim? — Ela assentiu.

— Muitos negócios a lidar — esclareceu. — Eu preciso ir agora, para poder ficar com minha mãe e...

— Nós vamos dar um passeio. — Segurei em sua mão, puxando-a pela calçada.

— Edward, eu tenho de ir para o hospital, só estive lá pela manhã por uma hora.

— Bella, sua mãe está bem, você precisa sair um pouco daquele hospital e respirar o ar péssimo de New York. — Gesticulei ao nosso redor, conseguindo que ela risse um pouco. — Sequer tem ido à faculdade?

— Minhas aulas terminaram semana passada, pareceu um bom golpe do universo que eu tivesse mais tempo para estar com Renée — falou, aproximando seu corpo do meu. Automaticamente soltei sua mão, contornando seus ombros com meu braço, mantendo-a perto. — Eu estou tentando ser otimista — disse depois de um tempo de apenas caminhada pelo Brooklyn. Ela estava de sapatilhas aquele dia, então não reclamou como na outra vez. — Sobre Renée, mas eu não consigo, parece que toda e qualquer felicidade que um dia senti, foram varridas para longe de mim. Não sinto como se um dia pudesse voltar a ser feliz, por isso não consigo me sentir otimista, nem mesmo por ela.

Parei de andar, o que a fez parar também. Coloquei-me diante de Bella, segurando seu rosto entre minhas mãos, seus olhos castanhos focando-se em mim.

— Você ainda pode ser feliz, Bella.

— E se ela morrer, Edward? Eu conseguirei ser feliz se ela morrer? Eu conseguirei mesmo sentido todos os dias que é minha culpa ela estar naquele hospital?

— Não é sua culpa, Isabella. Já falamos sobre isso antes, mas eu repetirei quantas vezes for necessário, você não é a responsável pelo o ocorrido a sua mãe. E sim, você poderia ser feliz caso ela não sobrevivesse, mas eu tenho certeza de que Renée sobreviverá.

— Você é feliz? — Bella me questionou. — Mesmo depois de ter perdido seu pai. — Minhas mãos caíram de seu rosto, senti meus olhos arderem ao pensar em meu pai.

— A dor ainda está aqui — contei, Bella afagou meu rosto delicadamente. — Eu não acredito que um dia ela realmente vá embora.

— Você sabe como me sinto, então.

— Sua mãe está viva, Isabella — rebati. — Em coma, mas viva, ela vai acordar. — Vi em seus olhos o quanto ela já estava desacreditada sobre aquilo.

— Você não respondeu minha pergunta — ela lembrou, tirando a mão do meu rosto. — Ou sua dor é forte o suficiente que lhe deixa incapaz de ser feliz?

— Eu sou feliz — declarei. — Sou feliz quando estou no palco cantando, quando estou com meus amigos, ou minha família. Sou feliz quando estou com alguma garota curtindo a noite. — Bella engoliu em seco ao ouvir aquilo. — Sou feliz quando simplesmente posso andar por New York.

— Mas? Eu sei que tem um vindo ai.

— Mas, eu ainda sinto a falta dele, absurdamente. — Cruzei os braços na frente do corpo. — Fará onze anos que ele morreu no domingo e ainda não posso acreditar que o perdi, Isabella. Então, sim, eu sou feliz na maior parte do tempo, mas eu não acho que um dia poderei me recuperar de ter perdido meu pai.

— Não vou resistir se ela morrer, Edward. — Bella respirou fundo, recolocando os óculos no rosto novamente. — É por isso que quero estar lá, vinte e quatro horas, pois eu preciso estar junto a ela caso não resista. Espero que isso diminua a minha dor um dia, espero que ela me perdoe por não ter estado ao lado dela antes, quando podia ter evitado tudo isso.

— Bella...

Ela me interrompeu, aproximando-se de mim e beijando meu rosto, demorando um longo tempo até se afastar.

— Obrigada, de verdade, pelo convite — sussurrou, ainda próxima de mim, eu podia sentir o cheiro do seu perfume e de morangos emanando dos seus cabelos. — Você tem sido um amigo muito melhor do que mereço, Edward. Mas, preciso voltar para minha mãe agora. — Se afastou de mim, deixando-me sozinho no mesmo lugar enquanto ia embora.

***

Acordei cedo no domingo, mesmo tendo ido trabalhar na noite anterior e ter chegado em casa de madrugada. Eu simplesmente não conseguia passar mais tempo na cama, não com tantos pesadelos me assombrando.

Eles foram todos sobre meu pai, ou em mim assumindo o lugar dele naquele incêndio.

Então, acordei, tomei um banho quente na tentativa de me acalmar e sai do apartamento rumando ao cemitério. Mamãe e eu tínhamos combinado de nos encontrar lá, na tarde do dia anterior, quando fui até lanchonete passar um tempo com ela e Clary. Ela, minha mãe, já estava tão péssima tanto quanto eu, então sabia que aquele não seria um dia fácil para nenhum de nós.

Caminhei mecanicamente pelo cemitério através dos túmulos. Eu já conhecia aquele lugar muito bem, já que ia lá todos anos. Não precisei de nada além de reflexo, para deixar meus pés me guiarem até o túmulo do meu pai.

Minha mãe ainda não estava ali, então sentei na grama ao lado do lugar onde o primeiro Edward Masen estava, tocando sobre a inscrição gravada ali. Querido pai e marido.

O choro veio rápido, apenas fiquei ali, chorando, enquanto tentava superar a perda. Onze anos e ela ainda era recente, onze anos e a ferida ainda estava aberta.

Por que ele tinha de ter partido tão cedo? Por que eu tinha perdido meu pai quando era apenas uma criança? Aquilo não era certo, não era justo.

Meu pai era um homem bom, carinhoso, ele sempre fez de tudo por minha mãe e eu. Nós não merecíamos ter o perdido, ele não merecia ter tido um fim trágico.

— Todo ano penso que será mais fácil, nunca é. — Ouvi a voz de minha mãe, então a vi se sentando ao meu lado, depositando uma rosa branca sobre o túmulo. — Olá, amor. — Tocou na foto dele, seus lábios tremendo, enquanto as lágrimas escorriam por seu rosto.

— Por que, mãe? — consegui perguntar sobre meu choro. — Por que ele morreu?

Ela fechou os olhos, respirando fundo.

— Ele te amava tanto, Edward — foi o que ela respondeu. — Você era tudo para seu pai, filho. — Voltou a abrir os olhos, inclinando-se para mim e me abraçando com força. — Quando você nasceu ele disse que te daria o mundo. — Eu solucei, apoiando meu rosto no ombro dela.

— Eu só queria meu pai, eu não me importo com a porra do mundo — reclamei. — Devia ter morrido com papai, mãe. Era para eu ter ficado em casa aquele dia, era para ter estado com ele. Talvez nós dois tivéssemos conseguido escapar juntos, ou eu teria ido com ele e não doeria tanto quanto dói agora — falei em desespero.

Ela me afastou, segurando em meu rosto.

— Nunca mais repita isso, Edward, você me ouviu? Não seja louco, você não deveria ter morrido aquela noite coisa alguma, imagine como eu teria ficado se tivesse perdido vocês dois. Você ainda tem muito o que viver, filho. Uma carreira, uma família, eu preciso vê-lo feliz. Era o que seu pai ia querer também, que você ficasse seguro e feliz.

— Dói tanto, não há nada que faça parar.

Mamãe beijou minha testa, voltando me abraçar.

— Eu o entendo, não há nada que faça parar para mim também.

***

Mamãe teve de ir embora não muito depois de chegar ao cemitério, ela tinha deixado Clary com uma vizinha e não podia demorar a ir buscá-la. Eu continuei no cemitério, sem querer ir para qualquer outro lugar.

O meu celular tocou em algum momento daquela manhã, com raiva por estar sendo interrompido, eu o tirei do bolso da calça, pronto para recusar a chamada. Até que vi o nome dela ali, era Isabella me ligando. Sendo vencido pela curiosidade, eu atendi. Afinal, não nos falávamos desde a sexta-feira.

— Alô. — Minha voz era baixa e rouca, graças a todo o choro. Além do mais, era um dia de tempo ruim em New York, céu nublado e frio, mesmo com a proximidade do verão.

— O-Oi — Bella gaguejou, limpando a garganta. — Eu só liguei para saber como você está — falou. — Sabe, porque hoje é o dia...Como você está? — Ela se impediu de falar sobre meu pai.

— Estou no cemitério desde as sete da manhã — confidenciei. — Não acho que isso signifique que estou bem. — Funguei. — Já está no hospital?

— Desde as sete também — ela contou, soando realmente cansada. — Esme tentou me mandar para casa quando me viu chegar, já que eu sai daqui ontem depois da meia-noite, mas não consigo ir embora.

Nós ficamos em silêncio por um tempo, eu queria falar qualquer coisa para Bella, mas aquele dia estava me sugando.

— Sinto muito pelo seu pai, Edward — Bella falou por fim.

— Eu sinto muito pela sua mãe, eu realmente queria que ela acordasse logo.

Bella riu e podia imaginá-la sorrindo.

— Eu adoraria que um dia vocês dois pudessem se conhecer, sabe? — Soou sonhadora. — Tenho certeza de que Renée ia te adorar, já que é um pouco difícil não gostar de você.

— Você gosta de mim, Isabella?

— Sim, eu gosto — respondeu hesitante.

Eu suspirei, esfregando minha testa, sem saber o que dizer.

— Venha até o hospital, Edward — Bella pediu. — Não sei se minha mãe realmente sobreviverá e queria mesmo que você pudesse a conhecer.

— Você tem certeza?

— Sim, estarei te esperando.

— Eu estou indo — concordei, finalizando a ligação.

O caminho do Brooklyn a Manhattan foi rápido aquele domingo, logo eu estava no hospital que Renée estava internada. Sem Alice para me fazer passar por ali sem paradas, eu segui receoso até a UTI, tentando passar despercebido por qualquer funcionário do hospital, fingido que tinha permissão para estar ali.

Acabei conseguindo chegar até a UTI, então até a sala de espera onde estive a última vez com Bella. Encontrando-a lá, ela não parecia nada feliz, aparentando estar ainda mais exausta de quando a vi no outro dia.

— Hey, obrigada por ter vindo — ela agradeceu.

Eu confesso que fiquei um pouco surpreso dela não correr para mim, como tinha feito nas duas últimas vezes que nos encontramos. No lugar disso, ela apenas caminhou tranquilamente até a porta da sala, guiando-me para fora.

Nós passamos por algumas enfermeiras, tivemos de fazer uma boa lavagem de mãos e por fim pudemos entrar no quarto que Renée estava. Minha mãe estava certa, ela e Bella eram mesmo parecidas, o que me doeu muito, pois ambas estavam fracas e vulneráveis, mas uma delas não estava em uma cama de hospital e estava entregando-se a toda aquela dor.

— Oi, mamãe. — O sorriso de Bella foi real, ela se aproximou da cama, tomando a mão de Renée na sua. — Eu trouxe alguém para que conheça, já falei nele antes, lembra-se? É o Edward, Edward Masen. — Bella se virou para me olhar, indicando que eu devia me aproximar.

— Ela pode lhe ouvir? — perguntei.

— Não há nada que comprove isso, mas eu tento acreditar que ela é capaz. Você não precisa falar com ela, sei que isso deve ser estranho para os outros. — Ela beijou a mão de Renée. — Mamãe, esse é o Edward, ele veio conhecê-la.

— Olá, Renée. — Coloquei minha mão sobre a dela, junto a de Isabella, que sorriu para mim ao ver que eu falava diretamente com Renée. — É um prazer conhecê-la. Eu estou realmente feliz em estar aqui, você é tão bonita, agora sei de quem Bella puxou tanta beleza. — Bella riu baixinho ao meu lado. — Espero que acorde em breve, Renée. Eu adoraria conhecê-la melhor, Bella me disse que você a ensinou a desenhar, adoraria ver um de seus trabalhos. Meu pai me ensinou a tocar e eu adoraria tocar para você qualquer dia, sua filha também me ensinou um pouco de Clair de Lune, é sua favorita, não? Nós dois somos artistas, acho que nos daríamos muito bem.

Bella começou a chorar, alto.

— Mãe, por favor, eu preciso que você acorde — ela implorou. — Mãe, por favor, volte para mim.

Eu ouvi os batimentos cardíacos de Renée, que estavam sendo monitorados, aumentarem. Bella também olhou para o monitor, parecendo em pânico com aquilo.

— Mamãe, você está bem? Mãe?

— Bella, vamos chamar uma enfermeira — sugeri, com medo do que aquilo podia significar, não queria que Bella estivesse por perto, outra vez, se a mãe dela passasse mal. — Vem, Bella. — Tirei nossas mãos da de Renée.

Foi quando aconteceu, Renée abriu os olhos. Bella gritou, apertando minha mão com extrema força, enquanto seu corpo todo tremia em choque.

— Mamãe? Mãe, mãe!

Renée parecia perdida, seus olhos claros encarando o teto, movendo-se com lentidão e sem um rumo certo.

— Bella, sua mãe acordou — eu disse o óbvio.

— Mãe, eu te amo, eu te amo tanto — Bella declarou, tocando no rosto de Renée, tomando cuidado com a máscara de oxigênio ali. — Você consegue me entender? — Os olhos de Renée se voltaram para a Bella. — Eu amo você, mãe — Bella repetiu entre lágrimas. — Obrigada por voltar para mim. — Beijou a testa de Renée, que voltou a fechar os olhos. — Não, mãe! — gritou em desespero.

— Ela está bem, Bella. — Não era um médico, mas Renée continuava respirando e nenhum aparelho ligado a ela apitou indicando algo fora do normal. — Ela está bem. — Repeti, afagando seus braços.

— Ela está viva — Bella se colocou de frente para mim, seu rosto molhado por lágrimas. — Minha mãe está viva, ela ficará bem. — Se pendurou em meu pescoço, eu a abracei, sentindo-me feliz por ela e Renée.

— Eu disse que ela ficaria bem. — Beijei sua bochecha, então, senti Bella virar seu rosto, seus lábios encontrando-se com os meus.

Notas finais
Beijos! Lola Royal. 19.03.17