Sob a Neve

2 Capítulo 2


Tudo que posso dizer sobre a estranha e inesperada partida de Eliza é que fiquei parada com cara de boba até meu nariz ficar dormente e vermelho, a ponto de não conseguir senti-lo mais.

─Onde você estava? Te procurei o intervalo inteiro. ─Mason me abraçou quando entrei na sala de aula.

─Agora você me encontrou, podemos esquecer isso? ─Falei, mas ele não estava com cara de que aceitaria isso, então apenas inventei uma desculpa idiota, como sempre faço. ─Não estava me sentindo bem e fui até uma farmácia.

─A farmácia fica a alguns metros daqui.

─Não para uma pessoa que estava se sentindo mal. Eu estava horrível, então tive que dirigir devagar, é claro que a neve não ajudou muito.

─Você sempre tem uma desculpa, que tal começar a me contar a verdade?

─Eu estou falando s verdade.

─Alunos sentem-se em suas cadeiras. ─Corri para meu lugar querendo acabar com a conversa o mais rápido possível. ─Mason, Chloe, Kenny e Louise o diretor quer ver vocês logo após essa aula.

Xinguei-me mentalmente por estar no gruo dos populares, mesmo sem fazer nada acabava me ferrando do mesmo jeito, estava pensando seriamente que se eu fizesse coisas erradas, talvez valesse mais a pena.

─Professor, eu não posso ir, tenho treino logo após essa aula. ─Mason falou, o que era, em parte, verdade, e em parte mentira, ele tinha sim treino, mas tinha uma diferença de 15 minutos.

─E eu tenho que esperar meus tios no aeroporto, tanto que terei que sair antes. ─Kenny mentiu.

─Tenho que tirar raios-X de meu tornozelo para poder ter certeza de que poderei competir com as lideres de torcida. ─Louise falou, e o melhor de tudo foi que ela estava falando a verdade.

─E você, Chloe?Tem algum compromisso também? ─O professor falou já se estressando.

─Na verdade, não. Apenas o treino com as lideres de torcida, mas estava pensando em faltar mesmo. ─Ele me olhou confuso, achando que eu estava brincando. ─Olha professor, acontece que eu não tenho com o que me preocupar, eu não fiz nada mesmo.

─Se continuar a mentir e se fazer de inocente terei que mandá-la agora para um papinho com o diretor!─Revirei os olhos para ele e suspirei.

─Eu não fiz nada! Não é Kenny? ─Ela ficou calada e eu percebi o brilho maligno em seu olhar, aquele de que as pessoas tanto temiam. Ela desviou o olhar para Louise e depois para Mason. ─Lou? Masi?Qual é? Vocês sabem que eu não fiz nada! Contem para ele!

Eles apenas ficaram em silencio e balançaram a cabeça, peguei minhas coisas e me levantei.

─Estou indo para a sala do diretor.

─Você não tinha direito de fazer aquilo com Eliza, são atitudes como as suas que a fazem fazer o que faz. ─Tentei o ignorar, falar que eu não fiz nada não dava muito certo então o jeito era usar fones. ─Ela não voltou mais para a escola e não foi para a casa, alguma ideia de onde ela possa estar?

─Como eu saberia?

─Pelo simples motivo de você ser uma das culpadas pelo seu desaparecimento.

─A última vez que a vi ela estava... ─Minha garganta ficou seca, havia a visto pela ultima vez no cemitério, e ela então me deixou plantada enquanto a neve caia, não queria contar isso a ele, de algum modo, parecia particular demais, algo que eu queria que fosse apenas meu e dela. ─Ela estava na escola, e havia saído correndo.

─Conte-me a verdade Chloe e chega desses joguinhos seus. ─Revirei os olhos para ele e respirei fundo, ele estava me estressando.

─Então já que você não está gostando desse joguinho, vou fazer outro. ─Antes de ele poder falar continuei. ─Funciona da segunda maneira: posso chamar meu pai aqui com apenas uma ligação e como você deve saber, meu pai praticamente sustenta esta escola, então ou você me libera agora e eu vou procurar Eliza, ou...

Tudo bem, já entendi, você está liberada. ─Sorri para ele que me olhava de cara feia agora.

─Obrigada por entender diretor.

Sai correndo pelos corredores com a minha bolsa no ombro, tinha vários lugares para procurá-la, mas tinha suspeita de dois principalmente, em dois lugares que eu já há tinha visto.

Entrei no carro e dirigi rapidamente até o cemitério, precisava achá-la e para isso precisava verificar em todos os lugares possíveis, sem essa de “Dirijo devagar quando a neve está caindo.”

Fui até o cemitério e a procurei atrás dos túmulos ou escondida em algum canto, talvez chorando ou se xingando, então fiquei em silêncio e somente às vezes gritava pelo seu nome para conferir que ela não estava. Corri de volta para o carro, meu nariz estava congelando e a neve em minhas roupas começava a derreter, deixando-me ainda pior, provavelmente ficaria gripada por pegar tanto frio.

Coloquei meu antigo suéter de natal e deixei-me relaxar com o cheiro de biscoitos e café nele, me lembrava muito bem como ele havia ficado assim. Respirei fundo e acelerei em direção ao antigo playground abandonado perto de minha casa, já havia visto ela algumas vezes lá então esperava ter sorte e achá-la finalmente.

Estacionei o carro e corri até o playground, sem essa de correr esquenta, pois o frio que batia em meu rosto e a neve que entrava em contado com a minha pele me faziam bater os queixos.

─Eliza?Você está ai?

─Vá embora! ─Ouvi o grito da garota e corri mais rápido ainda, estava tão aliviada, meu coração dando pulos em meu peito. ─Não se aproxime daqui Chloe!

─Meu Deus! Você está fumando? ─Tossi ao me sentar ao lado dela, a fumaça acabaria com o cheiro de biscoitos de meu suéter, mas talvez isso fosse valer à pena.

─Por que está aqui? ─Ela falou com a voz fraca.

─Eu estava te procurando, os professores estavam ficando preocupados, e colocaram a culpa em mim, o que não foi nada justo. ─Ela revirou os olhos e encostou suas costas no escorregador, ignorando o fato de ele estar molhado e a neve que batia em seu rosto. ─Eu falei algo errado antes, você saiu correndo lá no cemitério e eu fiquei um pouco preocupada depois que vi... ─Pigarreei. ─Sabe, os seus pulsos e o poema.

─Por que se preocupa tanto? Nós não somos amigas.

─Podemos não ser amigas, ─Por enquanto. Pensei. ─Mas você precisa de ajuda, e eu gosto de ajudar as pessoas com problemas, pois me sinto bem assim.

─Como você consegue? Você é tão segura de si e parece ter passado por tanta coisa, você devia estar tão quebrada.

─Eu estou quebrada Eliza, mas eu não posso deixar que a dor me consuma, não permitirei que eu seja tão fraca.

E então ela apenas me olhou e eu me encostei-me ao escorredor assim como ela estava fazendo, talvez um pouco mais desconfortável com o frio do que ela, mas isso estava bom, e mesmo que meus olhos ardessem, não permiti que nenhuma lagrima saísse deles.