Sob a Neve
3 Capítulo 3
Acordei pior do que todos os outros dias, não sabia dizer bem ao certo por que, só sabia que sentia como se alguém estivesse apertando meu coração e quanto mais eu gritasse para que ele parasse, com mais força ele era apertado.
Infelizmente a minha conversa com Eliza havia despertado em mim minhas maiores tristezas, aquelas que eu tentei esconder durante anos, todas as dores presas em uma prisão com grades feitas da mesma frase que tive que repetir durante tantos anos, “eu estou bem”.
Muitas pessoas, infelizmente, não conseguem entender o verdadeiro dessas palavras tão vazias, e ainda mais infeliz é pensar em como essas palavras, que deviam me ajudar, apenas me machucaram ainda mais.
Lembrei-me quando cheguei a um ponto tão critico de minha conversa com Eliza, que ali na neve, com a neve se acumulando ao nosso redor ─agradeci muito pela pequena e antiga cobertura do playground ─, que fechei os olhos e finamente deixei que a lágrima que estava tentando esconder a tanto tempo escorresse pelo meu rosto, formando um rastro de meus olhos até o meu cabelo, respirei fundo e tentando evitar um soluço sussurrei para ela às palavras de que tanto temia.
─Eu não aguento mais.
E fora assim, depois de passar uma tarde inteira entre algumas palavras, eu simplesmente me senti bem com ela, Eliza não era o tipo de garota que sairia contando para todos que eu estava me desesperando em um playground abandonado.
Olhei-me no espelho de meu quarto, sentindo-me familiarizada com o frio do piso aos meus pés, eu estava realmente acabada, com os cabelos despenteados e os olhos vermelhos com grandes olheiras embaixo deles, minha pele estava mais pálida que o habitual e meu nariz parecia mais com um pimentão de tão vermelho.
Passei uma água em meu rosto e tentei ajeitar-me um pouco, sem muito sucesso. Revirei os olhos para mim mesma, estava me rendendo a tristeza, e eu não poderia fazer isso, eu não faria isso. Fingi mais uma vez o meu sorriso habitual e vi como meus olhos com certeza não combinavam com ele, pressionei um lábio contra o outro e olhei para cima.
Não farei isso comigo mesma.
Tive meu momento para desabafar, agora seguirei em frente como sempre faço.
Corri até o meu celular quando ouvi o toque familiar, respirei fundo e fiquei tentada a deixar a música tocar para depois atendê-lo, mas assim que vi o nome na tela atendi com rapidez.
─Eliza, achei que não fosse me ligar, principalmente tão cedo... ─Ouvi os soluços do outro lado da ligação e calei-me, não sabia o que dizer e meus dedos começaram a tremer.
─Eu não sei o que fazer Chloe. E-eu não sabia para quem ligar então eu vi o seu número e pensei que talvez pudesse ligar para você, mas foi uma péssima ideia, eu sei disso, é só que... ─Ela ficou em silêncio, e eu quase gritei para que ela continuasse, meu coração estava disparado. ─ Eu preciso de ajuda. Eu fiz uma grande cagada, eu pensei que fosse aguentar, mas a verdade é que eu não consegui, então eu tentei fugir de meus problemas, e agora... agora tem sangue espalhado por toda a casa e eu não estou mais conseguindo me levantar.
─O que diabos você fez Eliza? ─Perguntei com raiva, eu já sabia a resposta, mas precisava ouvir com os meus próprios ouvidos.
─As navalhas estavam tão próximas, e eu as usei mais uma vez, mas dessa vez foi pior, estava com tanta raiva de mim, de todos. Mas quando me olhei no espelho eu pensei em você. ─Liguei o telefone no viva-voz e desci as escadas correndo, precisava chegar em sua casa o mais rápido possível. ─Sabe, quando você me olha parece até ter esperança de que eu possa mudar, e eu pensei em como ficamos até de noite conversando e você estava tão sincera, parecia confiar em mim. E agora estou ligando para você, pois sei que daqui a pouco irei perder a pouca consciência que tenho e talvez até mesmo morrer...
─Você não irá morrer. ─Falei mais para convencer a mim mesma do que ela. ─Apenas... continue falando comigo, não pare. Eu estou chegando. Vai dar tudo certo.
─Quer dizer, você não devia ter ficado comigo naquele dia, ia congelar naquele brinquedo. ─Ela deu uma risada fraca. ─E eu pensei em como era azarada, no único momento em que poderia ficar sozinha, você chegou. Mas daí, no final do dia, eu estava tão impressionada com você. Quer dizer, quem é que consegue se sair bem fingindo ser feliz e vivendo em um mundinho de populares enquanto está totalmente quebrada por dentro? Eu refleti muito sobre o que você disse, mas no momento em que eu toquei na navalha, só existia a navalha e os cortes em meu pulso, era como se nada ao meu redor parecia ter importância. ─Podia ouvir seu choro fraco, mesmo que ela tentasse o impedir. ─Eu sinto muito por ter pensado assim, agora você está vindo até mim, mesmo depois de eu ter sido tão estúpida com você. Você é uma idiota Chloe. Você é uma grande idiota.
─Obrigada Eliza. ─Um último riso fraco soou e então o silêncio. Me desesperei e acelerei ainda mais.
Cheguei a casa dela e quase me desesperei ao ver o sangue espalhado pelo local, estava um caos, segui o rastro até um quarto no fundo do corredor e me preparei para o momento em que veria o corpo de Eliza no chão, e mesmo tentando imaginar a cena antes de tomar coragem e entrar no quarto, a minha reação não poderia ser pior.
Gritei por ajuda mesmo sabendo que ninguém ia ouvir, então gritei o nome de Eliza tentando acordá-la, nada. Tentei não pisar no sangue que estava no quarto mas para chegar até ela eu era obrigada a passar por uma enorme poça de sangue. Respirei fundo e fui até ela, colocando-a apoiada em meus ombros e agradeci silenciosamente pela sua casa não haver escadas e ela ser incrivelmente leve.
─Hey Eliza, você precisa acordar, eu vou te levar ao médico. ─A larguei no banco do carro e acelerei, meus dedos tremendo e apertando com força o volante.
Mesmo querendo evitar olhá-la, parecia impossível, eu estava me desesperando cada vez mais e o caminho até o hospital nunca parecera tão longe.
─Por favor, eu preciso de ajuda. ─Gritei ao chegar ao hospital, não sabia se teria forças para carregá-la novamente. Os médicos vieram até minha direção correndo, meu coração deu um pulo de alegria, ótimo, agora eu só precisava que ela estivesse mesmo viva ainda. ─Ela me ligou e disse o que estava acontecendo, eu fui a buscar e a vi assim, por favor, a ajude. ─Olhei quase chorando para o homem que abria a porta do carro e a segurava com facilidade no colo.
─Eu farei o possível.
Quis gritar com ele falando que não era para ele fazer o possível, e sim salvá-la, mas tive que me controlar, gritar com médicos não me ajudaria em nada naquele momento.
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