Sob a Cinza do Gelo
3 Setor dos Engenheiros
No setor dos engenheiros, a Lei de Colônia Penal não chegou como notícia.
Papel limpo. Selo seco. Assinaturas alinhadas. Três cópias distribuídas sobre uma mesa comprida, entre mapas térmicos, xícaras de chá e instrumentos de medição polidos.
Lá fora, Nova Londres rangia sob o gelo.
Ali dentro, ninguém usava luvas.
Neliel Tu Ousch estava sentada à direita do pai adotivo, com a postura impecável e as mãos cruzadas sobre o colo. O vestido escuro sob o casaco técnico era simples, mas bem cortado. O cabelo preso deixava seu rosto mais severo do que sua idade sugeria. Em volta dela, homens mais velhos discutiam a nova lei como se falassem de tubulações, reservas de carvão ou perda aceitável de pressão.
O Conselho Técnico chamara a reunião antes da primeira sirene de trabalho.
Isso, por si só, já dizia muito.
O engenheiro Austerlitz abriu a ata com dois dedos.
— Engenheiro Austerlitz: A aprovação foi confirmada ao amanhecer. A partir de hoje, condenados aptos poderão ser designados a postos externos, minas, linhas químicas, manutenção sob risco térmico e triagem pesada.
Ninguém na mesa pareceu surpreso.
Alguns pareceram aliviados.
Neliel notou isso primeiro.
O alívio discreto. Quase elegante. Homens que haviam passado semanas exigindo mais braços para reparar uma cidade doente agora fingiam pesar consequências morais porque a solução chegara com correntes.
— Engenheiro Halewick: A medida resolve parte do problema de pessoal. Especialmente nos postos onde os trabalhadores registrados têm se recusado a estender turno.
— Engenheira Rose: Recusado é uma palavra generosa. Eles ameaçam greve.
— Engenheiro Halewick: Ameaçam porque descobriram que a cidade ainda tem medo de ficar sem mãos.
Neliel ergueu os olhos para ele.
Halewick percebeu, mas continuou.
— Engenheiro Halewick: Prisioneiros não negociam. Isso torna a logística mais estável.
O pai de Neliel, o engenheiro Tu Ousch, não respondeu de imediato. Estava sentado na cabeceira, a bengala de metal apoiada ao lado da cadeira. Era um homem magro, de cabelos grisalhos e olhos que raramente se apressavam. Quando olhava para um projeto, parecia enxergar não a máquina, mas a falha que ela ainda cometeria.
— Engenheiro Tu Ousch: Estabilidade não é o mesmo que segurança.
— Engenheiro Halewick: Naturalmente. Por isso precisamos de supervisão técnica.
Austerlitz virou uma página.
— Engenheiro Austerlitz: O primeiro destacamento penal será enviado ao Posto Avançado Sete. A linha auxiliar de compressão apresenta oscilação há dias. Depois da queda térmica desta noite, os calefatores entraram em regime intermitente.
— Engenheira Rose: Posto Sete já estava no limite antes dos presos.
— Engenheiro Halewick: Justamente por isso eles foram enviados para lá.
A frase ficou sobre a mesa.
Não pesada o bastante para derramar chá.
Pesada demais para ser esquecida.
Neliel descruzou as mãos devagar.
— Neliel: O Posto Sete tem histórico de vazamento?
Austerlitz folheou o dossiê.
— Engenheiro Austerlitz: Pequenas liberações de gás. Nada fora dos parâmetros.
— Neliel: “Pequenas” segundo quem?
Halewick inclinou-se para trás.
— Engenheiro Halewick: Senhorita Tu Ousch, todos os postos externos têm algum nível de comprometimento. Se paralisarmos trabalho a cada leitura irregular, o gerador ficará sem suprimento antes do fim da semana.
— Neliel: Não perguntei sobre o gerador. Perguntei quem classificou o vazamento.
Um silêncio curto.
Austerlitz conferiu o rodapé do relatório.
— Engenheiro Austerlitz: Supervisão local. Halewick assinou a última inspeção.
Neliel olhou para Halewick.
Não sorriu.
Não precisava.
— Neliel: Então talvez devêssemos chamar de “pequeno” apenas depois que alguém que não deseja manter a triagem aberta medir o ar.
A mão de Halewick se fechou ao redor da xícara.
— Engenheiro Halewick: A senhorita está sugerindo que alterei leituras?
— Neliel: Estou sugerindo que o senhor tem uma relação excessivamente otimista com números inconvenientes.
Austerlitz pigarreou.
— Engenheiro Austerlitz: A questão imediata não é essa.
— Neliel: Quase nunca é.
Tu Ousch virou os olhos para a filha.
Havia advertência no gesto.
Também havia algo próximo de orgulho, embora nenhum dos dois fosse descuidado o bastante para mostrá-lo em público.
Austerlitz passou ao próximo documento.
— Engenheiro Austerlitz: Precisamos decidir quem fará a avaliação presencial do posto. O relatório penal indica chegada de vinte e quatro condenados ainda hoje, acompanhados por escolta armada. O ambiente será instável.
— Engenheira Rose: Instável é pouco. Teremos gás residual, frio severo, calefatores falhando e prisioneiros recém-retirados da cadeia. Enviar um engenheiro sênior seria imprudente.
— Engenheiro Halewick: Enviar qualquer engenheiro seria imprudente.
— Engenheiro Austerlitz: Sem avaliação técnica, não podemos autorizar a extensão de uso da linha.
— Engenheiro Halewick: Então suspendemos a avaliação até que o destacamento penal estabilize o setor.
Neliel soltou uma respiração quase inaudível.
Estabilize.
Como se homens acorrentados, jogados no frio e cercados por guardas fossem naturalmente se tornar parte da mobília do posto depois de algumas horas.
— Engenheira Rose: Não pretendo enviar minha equipe para ser hostilizada por condenados.
— Engenheiro Halewick: Nem eu.
— Engenheiro Austerlitz: Alguém precisa ir.
Ninguém respondeu.
O silêncio que se seguiu era diferente do silêncio da prisão.
Ali não havia fome roendo o estômago, nem correntes no chão, nem homens esperando o golpe seguinte.
Ali havia cálculo.
Uma forma mais limpa de covardia.
Neliel olhou pela janela alta.
O vidro duplo distorcia a cidade. Do lado de fora, trabalhadores atravessavam a passarela inferior em fila, pequenos sob a neve, carregando caixas que não pertenciam a eles para setores onde nunca seriam convidados a sentar.
Por um instante, ela viu outra coisa.
Não a passarela.
Não a neve.
Mãos pequenas.
Uma porta que se fechava.
Uma voz dizendo para ela ficar onde estava.
A lembrança veio. A sensação antiga e inútil de ter ficado do lado errado de uma porta.
Neliel piscou e a sala voltou.
Chá. Mapas. Homens limpos. Uma ata sobre corpos condenados ao trabalho.
— Engenheiro Austerlitz: Talvez devêssemos solicitar proteção adicional.
— Engenheiro Halewick: Guardas não impedem contaminação química.
— Engenheira Rose: Nem facas improvisadas.
— Engenheiro Halewick: Nem motins.
— Engenheira Rose: Nem doenças trazidas da prisão.
Neliel virou-se lentamente.
— Neliel: Curioso.
Todos olharam para ela.
— Engenheiro Austerlitz: Curioso?
— Neliel: Quando eram apenas trabalhadores tossindo no alojamento, o posto era operacional. Agora que há presos no local, tornou-se perigoso demais para os senhores atravessarem a porta.
Halewick endureceu.
— Engenheiro Halewick: Há diferença entre trabalhadores registrados e criminosos condenados.
— Neliel: Sim. Trabalhadores registrados ainda podem fingir que têm escolha.
Tu Ousch fechou os olhos por um segundo.
Não o bastante para interrompê-la.
— Engenheiro Halewick: A senhorita fala com muita simpatia por homens que provavelmente mereceram suas sentenças.
Neliel pousou a mão sobre a ata.
O gesto foi leve.
Preciso.
— Neliel: A maioria daquelas pessoas roubou pra alimentar os filhos. O gás não pergunta antecedentes antes de entrar nos pulmões.
Austerlitz inclinou a cabeça.
— Engenheiro Austerlitz: Ainda assim, a segurança da equipe técnica precisa ser considerada.
— Neliel: Então considerem.
Ela puxou o dossiê do Posto Sete para perto. Virou três páginas. Encontrou a planta.
— Neliel: Se a pressão subir durante a chegada do destacamento penal, teremos guardas armados, trabalhadores assustados, condenados sem treinamento e uma linha química instável no mesmo corredor.
— Engenheira Rose: Exatamente por isso devemos aguardar.
— Neliel: Não. Exatamente por isso alguém precisa chegar antes que a combinação cause pânico.
Ela marcou a planta com o dedo.
— Neliel: O vazamento não vai esperar que os senhores se sintam moralmente confortáveis.
Austerlitz observou a mesa.
— Engenheiro Austerlitz: Então quem?
Ninguém se ofereceu.
O relógio de parede marcou a próxima hora com um estalo seco.
Neliel ouviu o som como se fosse uma trava sendo fechada.
Tu Ousch olhou para ela.
Dessa vez, não havia advertência.
Havia conhecimento.
Talvez sempre soubesse quando ela estava prestes a se lançar contra alguma coisa afiada demais para ser segurada com as mãos.
Neliel fechou o dossiê.
— Neliel: Eu vou.
A sala mudou.
Não muito. Engenheiros treinavam o rosto para não entregar espanto, mas as mãos os traíram.
A xícara de Rose parou antes de alcançar o pires.
— Engenheiro Halewick: Senhorita Tu Ousch, o posto estará cheio de presidiários.
— Neliel: Eu li a ata.
— Engenheiro Halewick: Condenados recém-designados. Homens violentos. Muitos sem disciplina de trabalho externo.
— Neliel: Felizmente, não pretendo pedir que me acompanhem até um baile.
— Engenheira Rose: O ambiente é insalubre.
— Neliel: O ambiente é insalubre para todos que já estão lá.
— Engenheiro Austerlitz: A senhorita é especialista em sistemas de pressão, mas o risco social—
— Neliel: O risco social aumenta quando técnicos discutem por meia hora quem deve respirar o ar que trabalhadores e presos já estão respirando.
Silêncio.
Dessa vez, mais duro.
Halewick olhou para Tu Ousch, não para ela.
— Engenheiro Halewick: Engenheiro Tu Ousch, talvez seja prudente—
— Neliel: Estou aqui, engenheiro Halewick.
Ele voltou os olhos para ela.
Neliel sorriu de modo quase educado.
— Neliel: Não sou uma extensão administrativa do meu pai.
Tu Ousch apoiou as duas mãos sobre a bengala.
— Engenheiro Tu Ousch: Não. Nunca foi.
A frase deveria ter encerrado a questão.
Mas Halewick ainda tentou.
— Engenheiro Halewick: A presença da senhorita pode ser interpretada como provocação. A casa Tu Ousch representa uma autoridade técnica importante. Se algo acontecer—
— Neliel: Se algo acontecer, vocês não vão perder tempo discutindo em vez de agir.
Austerlitz olhou para Tu Ousch.
— Engenheiro Austerlitz: O senhor autoriza?
Neliel sentiu a velha irritação subir.
A pergunta não era inesperada.
Tu Ousch não respondeu imediatamente. Seu rosto continuou calmo, mas os dedos se fecharam um pouco mais sobre a bengala.
— Engenheiro Tu Ousch: Eu não possuo a competência técnica da senhorita Tu Ousch.
Neliel olhou para ele.
Foi uma defesa e uma distância.
Ambas necessárias.
— Engenheiro Tu Ousch: Se ela avalia que deve ir, o Conselho pode contestá-la tecnicamente. Não paternalmente.
Ninguém contestou.
Porque seria preciso provar que ela estava errada.
E Neliel raramente oferecia esse prazer a alguém.
Austerlitz baixou a pena.
— Engenheiro Austerlitz: Muito bem. Supervisão técnica do Posto Avançado Sete atribuída à senhorita Tu Ousch. Partida imediata. Dois técnicos de apoio. Escolta mínima.
— Neliel: Sem escolta dentro do subnível.
Halewick soltou uma risada curta.
— Engenheiro Halewick: Isso é imprudente.
— Neliel: Guardas nervosos, presos recém-designados e gás instável são uma equação ruim. Quero segurança no perímetro. Dentro da linha, quero espaço para trabalhar.
— Engenheira Rose: E se um condenado tentar atacá-la?
Neliel recolheu o dossiê, alinhando as páginas com cuidado.
— Neliel: Então ele terá escolhido um momento péssimo para descobrir que engenheiras também carregam ferramentas cortantes.
A frase não foi dita alto.
Não precisou.
Por um instante, todos naquela sala pareceram lembrar que conhecimento técnico não servia apenas para consertar coisas.
Também servia para saber exatamente onde quebrá-las.
Neliel levantou-se.
O tecido de seu casaco caiu reto. As botas não fizeram som no tapete grosso. Ela parecia uma mulher criada para salas aquecidas, mesas polidas e linguagem precisa.
Era isso que eles viam.
Era isso que era útil que vissem.
Neliel olhou para a ata da Lei de Colônia Penal.
As palavras estavam ali, limpas e oficiais, como se não tivessem cheiro.
Condenados aptos.
Trabalho externo.
Contribuição à cidade.
Redução de pena.
Ela teve vontade de rir.
— Neliel: Sim.
Tu Ousch ergueu os olhos.
— Neliel: Quero a lista de designação penal enviada ao posto.
Halewick franziu o cenho.
— Engenheiro Halewick: Para quê?
Neliel vestiu uma luva, dedo por dedo.
— Neliel: Para saber quantos corpos a Assembleia espera que eu mantenha respirando.
Neliel caminhou até a porta.
Antes de sair, ouviu a voz do pai.
— Engenheiro Tu Ousch: Senhorita Tu Ousch.
Ela parou, mas não se virou completamente.
— Neliel: Sim?
Tu Ousch observou-a por um momento longo demais para ser apenas formal.
— Engenheiro Tu Ousch: O Posto Sete não é uma sala de cálculo.
Neliel olhou por cima do ombro.
— Neliel: Eu sei.
— Engenheiro Tu Ousch: Lá, decisões corretas ainda podem matar pessoas.
O rosto dela não mudou.
Mas algo, por baixo, se fechou.
— Neliel: Aqui também.
Tu Ousch aceitou a resposta em silêncio.
Neliel saiu.
O corredor externo era mais frio que a sala de reunião, mas ainda muito mais quente do que qualquer posto avançado. Técnicos passavam carregando pastas, peças pequenas, instrumentos de latão. Um assistente abriu caminho ao reconhecer seu sobrenome antes de reconhecer seu rosto.
— Assistente: Senhorita Tu Ousch.
Ela não respondeu.
Desceu a escadaria principal sem pressa, embora cada segundo parecesse contado. À esquerda, através das janelas altas, a cidade descia em camadas: o setor técnico, as oficinas, os alojamentos operários, os depósitos, os muros, a prisão distante como uma mancha escura contra o gelo.
Neliel parou por um instante diante do vidro.
A prisão quase desaparecia na neve.
Quase.
Havia lugares em Nova Londres que a cidade preferia esquecer, mas continuava alimentando com gente.
Por um segundo, uma imagem atravessou sua memória: dedos menores que os seus agarrando madeira quebrada, o cheiro de fumaça, alguém gritando para ela não vir.
A lembrança passou rápido.
— Neliel, baixo: Não hoje.
A frase não era para ninguém.
Ela continuou andando.
Quando chegou à oficina, os equipamentos já estavam sendo separados. Máscara selada. Filtro duplo. Grampos de pressão. Vedante químico. Medidor portátil. Mala leve.
Tudo em ordem.
Tudo preparado para entrar num lugar onde ordem era a primeira coisa que morria.
Então ela vestiu o casaco, pegou a máscara e saiu em direção ao frio.
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