Sob a Cinza do Gelo
4 Recompensa Não É Perdão
Dante soube que algo havia mudado quando dois guardas apareceram antes da sirene da manhã.
Na prisão, guardas antes da sirene significavam três coisas: punição, interrogatório ou morte.
Às vezes, as três vinham juntas.
Ele estava sentado no catre inferior, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos soltas entre as pernas, quando o ferrolho da cela abriu. Não se levantou depressa. Pressa demais parecia medo. Demora demais parecia desafio.
Dante escolheu o meio.
O oficial entrou primeiro.
Não era um guarda comum. O casaco tinha forro grosso, os botões estavam polidos, e as botas não carregavam a mesma lama dos corredores inferiores. Usava luvas de couro limpas, o que em uma prisão já era uma espécie de declaração.
Atrás dele, dois guardas seguravam cassetetes.
— Oficial: D.S. — 17.
Dante ergueu os olhos.
— Dante: Hoje não faço aniversário.
Um dos guardas sorriu de lado, mas o oficial não se deu ao trabalho.
— Oficial: De pé.
Dante levantou.
Na cela, os outros presos acordaram em silêncio. Brann estava no catre oposto, com um olho ainda roxo da pancada nas barras. Merek, encolhido perto da parede, puxou o cobertor fino até o peito e observou sem dizer nada.
O oficial olhou para a placa presa ao casaco de Dante.
— Oficial: Suas condições de alojamento foram alteradas.
Dante ficou imóvel.
— Dante: Isso costuma significar que alguém perdeu a paciência.
— Oficial: Desta vez, significa que alguém ganhou utilidade.
O oficial abriu uma pasta e leu como se recitasse a medida de uma peça.
— Oficial: Por recomendação técnica da engenheira Tu Ousch, sua designação penal foi revisada. A partir de hoje, será transferido para a Ala Leste de Condenados Laborais. Cela térmica de segundo nível. Trabalho designado: serraria externa, turno de corte e transporte. Supervisão armada mantida.
Por um instante, ninguém falou.
Cela térmica de segundo nível significava parede menos úmida, canos ainda vivos, talvez um cobertor que não parecesse ter sido retirado de um morto. Serraria era trabalho duro, perigoso, capaz de arrancar dedos e braços se a lâmina mordesse errado, mas era melhor que linha química. Melhor que mineração profunda. Melhor que posto contaminado.
Melhor que apodrecer na ala sul.
Dante não olhou para os outros presos.
Olhou para o oficial.
— Dante: Recomendação técnica.
— Oficial: Foi o que eu disse.
— Dante: Por quê?
O oficial ergueu os olhos da pasta.
— Oficial: Não cabe a você perguntar.
— Dante: Costumo perguntar quando alguém melhora minha gaiola.
Um dos guardas deu um passo.
O oficial ergueu dois dedos, impedindo-o.
— Oficial: A engenheira registrou que você demonstrou aptidão operacional, obediência sob risco e capacidade de estabilizar equipamento pesado em situação crítica.
Dante sentiu a mandíbula endurecer.
Obediência.
Era isso que haviam escolhido guardar.
Não a pressão do gás.
Não a válvula cedendo.
Não os homens tossindo atrás das máscaras.
Não a engenheira pulando plataformas como se tivesse sido criada em telhados..
A cidade tinha um talento especial para transformar sobrevivência em qualidade de ferramenta.
— Dante: Bonito relatório.
— Oficial: Deve agradecer. A Ala Leste é mais quente.
— Dante: Vou tentar chorar.
O guarda à esquerda apertou o cassetete.
O oficial fechou a pasta.
— Oficial: Recolha suas coisas.
Dante olhou ao redor da cela.
Suas coisas cabiam em uma mão.
Um pedaço de pano. Uma colher torta. A lasca de metal escondida sob o colchão. Um botão sem camisa. Nada que parecesse vida, mas tudo que ele possuía dentro daquele buraco.
Ele se abaixou para pegar o pano.
Foi quando Brann falou.
— Brann: Olha só. D.S. ganhou quarto quente.
Dante não respondeu.
Dobrou o pano devagar.
Brann se sentou no catre, sorrindo com a boca inchada.
— Brann: E a engenheira Tu Ousch ainda recomendou. Que honra.
Merek murmurou:
— Merek: Cala a boca, Brann.
Brann ignorou.
— Brann: Diz pra gente, Sparda. O que você fez pra ela gostar tanto?
Dante pegou a colher.
Guardou no bolso interno do casaco.
— Brann: Segurou bem a ferramenta? Carregou a malinha dela? Ou chupou a engenheira pra conseguir cela quente?
O silêncio caiu inteiro.
Até os guardas pararam de respirar por um segundo.
Dante ficou de costas para Brann.
A mão dele repousava sobre a borda do catre.
Quase gentil.
Merek fechou os olhos.
— Merek: Burro.
Brann riu.
— Brann: O quê? Falei errado? Casa nobre gosta de bicho treinado. Talvez ela tenha botado coleira nele e—
Dante se moveu.
Não houve aviso.
Ele girou com a colher torta entre os dedos e atravessou a distância curta da cela antes que Brann terminasse a frase. O primeiro golpe não foi com a colher. Foi com o ombro, entrando no peito de Brann e jogando o homem contra a parede.
O ar saiu dele num som feio.
Dante prendeu o pulso de Brann, torceu para fora e empurrou o antebraço contra a pedra. A colher veio depois, não como lâmina, mas como promessa: a ponta torta encostou logo abaixo do olho bom de Brann.
Os guardas avançaram.
— Guarda: Sparda!
Dante não olhou para eles.
Não precisava.
Manteve os olhos em Brann.
— Dante: Repete.
Brann tentou respirar.
Não conseguiu direito.
A colher pressionou um pouco mais.
— Dante: Repete com a boca inteira. Quero ouvir se você tem coragem quando não está falando para a cela.
Brann arregalou o olho.
O oficial ergueu a mão, impedindo os guardas de baterem.
Talvez por curiosidade.
Talvez porque também quisesse saber até onde Dante iria.
— Brann: Foi... uma piada.
— Dante: Não.
A voz de Dante estava baixa.
Quase sem emoção.
— Dante: Piada precisa de alguma coisa afiada. Você só tem inveja e bafo.
Algum preso riu baixo.
Dante inclinou a cabeça.
— Dante: Você pode me chamar de assassino, cão da cidade, condenado, o que quiser. Mas coloca a sujeira da sua boca em cima de uma mulher que você nem tem coragem de olhar, e eu tiro esse olho.
Brann engoliu seco.
— Brann: Ela é engenheira.
Dante pressionou a colher mais um pouco.
— Dante: Eu sei o que ela é.
A resposta saiu antes que ele pensasse.
E, por isso, incomodou.
Ele não sabia.
Não de verdade.
Sabia apenas o visor limpo. A voz firme. As mãos rápidas. A forma como ela dissera “homens” quando os outros diziam “recursos”. A forma como pulara pelo metal, pelo gelo e pelo gás como se o corpo dela lembrasse de lugares que o sobrenome Tu Ousch jamais deveria conhecer.
Sabia o bastante para não querer ouvir Brann transformá-la em sujeira de cela.
Isso também incomodou.
Muito.
Dante soltou Brann de uma vez.
O homem caiu sentado no chão, levando a mão ao rosto.
Os guardas enfim entraram com os cassetetes erguidos.
Dante deixou a colher cair.
O metal bateu no chão com um som pequeno.
— Dante: Tropecei.
Merek soltou uma tosse que talvez fosse riso.
O oficial olhou para Dante por alguns segundos.
— Oficial: A engenheira também registrou instabilidade disciplinar.
Dante encarou o oficial.
— Dante: Ela sabe escrever bonito.
— Oficial: Talvez tenha sido generosa.
— Dante: Talvez queira que eu continue útil.
— Oficial: E isso incomoda?
Dante olhou para Brann no chão, depois para o pano dobrado em sua mão.
— Dante: Recompensa sempre cobra juros.
O oficial pareceu satisfeito com a resposta, como se houvesse confirmado alguma teoria particular.
— Oficial: Algemem-no.
Os guardas prenderam as correntes em seus pulsos.
Mais apertadas que o necessário.
Dante não reclamou.
Enquanto era levado para fora, Merek chamou baixo:
— Merek: D.S.
Dante parou no limite da cela.
— Merek: Serraria corta menos pulmão que gás. Aceita o quente enquanto dura.
Dante olhou para o velho.
— Dante: Nada quente dura aqui.
Merek deu de ombros.
— Merek: Por isso a gente encosta perto quando aparece.
Dante não respondeu.
Os guardas o puxaram pelo corredor.
Atrás dele, Brann cuspiu sangue e não disse mais nada.
A Ala Leste ficava dois níveis acima.
Dante percebeu a diferença antes de chegar. O ar continuava ruim, mas não mordia tão fundo. As paredes tinham menos mofo. Os canos passavam vivos por dentro da pedra, estalando com calor irregular. Não era conforto. Conforto era palavra de quem ainda podia escolher onde dormir.
Mas era menos frio.
E isso bastava para parecer indecente.
A nova cela era menor, com dois catres e uma janela alta coberta por grade dupla. Havia um calefator de parede, fraco, mas aceso. A luz alaranjada dele tremia atrás da proteção de ferro.
Dante ficou parado diante da chama como se ela fosse uma armadilha.
O guarda empurrou suas costas.
— Guarda: Entra.
Dante entrou.
As correntes foram retiradas.
O oficial permaneceu à porta.
— Oficial: Ao amanhecer, você seguirá para a serraria. Turno externo. Se tentar fugir, será abatido. Se agredir supervisor, volta para a Ala Sul. Se causar dano ao equipamento, perde a designação.
Dante olhou para o calefator.
— Dante: E se eu trabalhar bem?
O oficial sorriu sem humor.
— Oficial: Então continua trabalhando.
A porta fechou.
O ferrolho deslizou.
Dante ficou sozinho.
Por alguns segundos, apenas ouviu.
O cano vivo.
O vento na janela.
O próprio fôlego menos doloroso dentro do peito.
Depois tirou a placa do casaco e a virou entre os dedos.
D.S. — 17.
Recomendado pela engenheira Tu Ousch. Dante fechou os dedos em torno da placa.
Uma parte dele queria odiar a engenheira por aquilo.
Pelo calor na parede.
Pela serraria em vez da linha química.
Por ter movido uma peça do tabuleiro e feito parecer escolha.
Outra parte, menor e mais perigosa, lembrava da voz dela dizendo que homens não eram ferramentas.
Dante encostou a testa na parede quente ao lado do calefator.
E, no fundo, talvez fosse isso que mais o irritasse, que a engenheira Tu Ousch não o salvara.
Não exatamente.
Apenas o colocara em outro lugar da máquina.
Mas, naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, Dante dormiu sem acordar tremendo.
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