A serraria recebeu Neliel com o som de ranger de lâmina.


As serras giravam dentro da estrutura principal, roendo troncos congelados com um grito longo de metal contra madeira dura. A cada corte, o chão tremia. A serragem subia em nuvens pálidas, grudava nas roupas, nos cílios, nas máscaras, misturava-se ao vapor das máquinas e virava uma névoa amarela sobre tudo.


Neliel parou sob o arco de entrada por um instante.


Atrás dela, dois técnicos carregavam pranchetas. Um guarda do setor técnico mantinha a mão sobre o cassetete, olhando para os condenados como quem esperava ser atacado apenas para poder provar que sempre tivera razão.


À frente, homens empurravam toras para as linhas de corte. Alguns eram trabalhadores registrados. Outros usavam placas metálicas no peito.


Iniciais.


Números.


Correntes nos pulsos ou nos tornozelos.


A Lei de Colônia Penal havia chegado ali em forma de corpos.


Neliel sentiu o bilhete dentro do bolso interno do casaco.


D.S. — 17 solicita presença técnica na serraria.


Ela não olhou para ele ainda.


Primeiro olhou para as crianças.


Havia três perto das pilhas de madeira. Uma menina de gorro grande demais, um menino ruivo e outro menor, com as mãos enfiadas sob os braços para conservar calor. Não brincavam exatamente. Crianças em Nova Londres raramente brincavam sem outro propósito. Observavam. Esperavam descuido. Mediam a distância entre um guarda e uma lasca de madeira aproveitável.


Neliel virou-se para o encarregado.


— Neliel: O que crianças fazem dentro da área de corte?


O encarregado, um homem de barba grisalha e ombros gastos, olhou para elas como se as visse pela primeira vez naquele dia.


— Encarregado: Entram pelas frestas da cerca. A gente expulsa. Elas voltam.


— Neliel: Então a cerca não funciona.


— Encarregado: Nada aqui funciona por muito tempo, senhorita Tu Ousch.


Ela olhou para as lâminas.


Depois para o trilho de carga.


Depois para a passarela suspensa com gelo acumulado nas bordas.


O lugar inteiro parecia uma sequência de acidentes aguardando permissão.


— Neliel: Onde está D.S. — 17?


O encarregado hesitou apenas o bastante para ser notado.


— Encarregado: Linha oeste.


O guarda atrás dela se adiantou.


— Guarda técnico: Recomendo distância. É um condenado de risco elevado.


Neliel não respondeu.


Começou a andar.


Os homens notaram sua passagem aos poucos. Primeiro os trabalhadores, que baixaram o olhar rápido demais. Depois os presos, que olharam sem baixar nada. Alguns sorriram. Outros cuspiram no chão. A palavra Tu Ousch viajava antes dela, abrindo caminho e fechando rostos.


— Preso: Olha só. A engenheira veio buscar o favorito.


— Outro preso: Cuidado com a postura, rapazes. Casa nobre não gosta de serragem no tapete.


Neliel seguiu sem mudar o ritmo.


A lâmina oeste travou no momento em que ela se aproximou.


O som foi brutal.


Um rangido alto, seguido por um estalo. O tronco preso pulou no trilho, e dois homens recuaram depressa. Um guarda gritou. O vapor escapou por uma válvula lateral.


No meio da confusão, Dante Sparda segurou a alavanca principal com as duas mãos e forçou o mecanismo de segurança antes que a tora despencasse.


O corpo dele entrou contra o peso da máquina como se a violência fosse uma língua conhecida.


O metal gemeu.


A lâmina parou.


Dante ficou parado alguns segundos, respirando forte, com a máscara pendurada no pescoço e serragem presa ao cabelo escuro. O casaco prisional estava gasto, os punhos marcados pela corrente, a placa metálica batendo contra o peito.


D.S. — 17.


Neliel viu a placa primeiro.


Depois viu a mão.


Depois o rosto.


O mundo não parou.


A serraria continuou barulhenta ao redor.


Mas alguma coisa dentro dela ficou absolutamente imóvel.


Dante ergueu o rosto, irritado, pronto para dizer algo ao encarregado.


Então viu a engenheira Tu Ousch.


A frase morreu antes de nascer.


Por um instante, nenhum dos dois se moveu.


Neliel não viu o condenado do Posto Sete.


Não viu D.S.


Viu um homem adulto com os ombros largos demais para caber na lembrança que ela tinha dele. Viu a mandíbula marcada, a boca mais dura, os olhos que haviam perdido qualquer suavidade fácil. Viu cicatrizes que não conhecia. Viu o menino dos telhados transformado em alguém que a prisão mastigara sem conseguir engolir.


Dante também viu.


Não a criança pequena que tropeçava atrás dele.


Não a menina com dedos curiosos, joelhos ralados e olhos sempre acesos diante de qualquer engrenagem proibida.


Viu uma mulher.


Casaco técnico bem cortado. Luvas boas. Cabelo preso com precisão. O nome Tu Ousch costurado nela como uma segunda pele. Uma máscara limpa pendurada no pescoço. O rosto mais fino, mais controlado, bonito de um jeito que parecia ter sido lapidado pelo frio em vez de destruído por ele.


Neliel.


A palavra apareceu na cabeça dele, mas veio com fogo, fumaça e silêncio de duas crianças que não correram rápido o bastante. Depois um homem empurrando Dante para fora quando o teto cedia. Uma menina surgindo tarde demais, com as mãos cheias de desastre.


Dante apertou a alavanca até os dedos embranquecerem.


Nenhum dos dois disse o nome preso na garganta.


O encarregado aproximou-se, alheio à queda invisível entre os dois.


— Encarregado: D.S., a senhorita Tu Ousch veio pelo seu bilhete.


Dante riu uma vez curto.


— Dante: Claro que veio.


A voz dele era a mesma do comunicador. Sem a máscara, sem a estática, sem a distância segura do Posto Sete, havia mais coisa nela. Havia ferro. Havia noites sem sono. Havia o que ele fazia para não pedir nada ao mundo.


Neliel endireitou a postura.


Foi um movimento pequeno e defensivo.


— Neliel: Você solicitou avaliação técnica.


— Dante: Solicitei a engenheira.


Ele olhou ao redor, para os técnicos atrás dela, para o guarda, para o casaco, para as luvas.


— Dante: Não sabia que mandariam uma lembrança.


A palavra acertou antes que ele calculasse.


Neliel não piscou.


— Neliel: D.S. — 17.


Ele sorriu devagar, ferido demais para ser só deboche.


— Dante: É assim agora?


Ela olhou para a placa no peito dele.


— Neliel: Parece que sim.


A resposta foi fria.


Fria o bastante para esconder que seus dedos estavam rígidos dentro das luvas.


Dante soltou a alavanca. Deu um passo na direção dela.


Os guardas se moveram, atentos, mas ele parou antes que precisassem tocar nele.


— Dante: Tu Ousch.


O sobrenome saiu da boca dele como uma peça que não encaixava.


— Dante: Então era isso que tinha do outro lado da cidade. Vidro duplo, chá quente e um nome limpo.


Neliel sentiu o golpe, não porque fosse mentira. Mas porque ele não sabia o que havia custado.


— Neliel: E você virou placa de inventário.


A frase saiu antes que ela conseguisse decidir se queria dizê-la.


Os olhos de Dante mudaram.


— Dante: Virei muita coisa depois que você destruiu tudo.


Neliel ficou pálida.


O ruído da serraria pareceu se afastar.


Atrás do rosto adulto dele, ela ouviu outra voz. Mais jovem. Mais desesperada. Cruel porque estava quebrada.


Você estraga tudo.


Fica longe de mim.


Foi culpa sua.


Neliel ergueu o queixo.


— Neliel: Depois que eu destruí tudo?


Dante percebeu tarde demais que havia pisado em algo vivo.


Mas já era tarde.


Ela deu um passo na direção dele.


— Neliel: Interessante ouvir isso de quem me deixou.


Dante franziu o cenho.


— Dante: Eu não—


Ela cortou, mas a voz não subiu o tom.


— Neliel: Não termine. Você nunca teve muito talento para terminar o que começava.


Dante ficou imóvel.


A frase encontrou lugares dentro dele que ainda sangravam.


Os técnicos se entreolharam. O encarregado ficou sem saber para onde olhar. O guarda técnico apertou o cassetete.


Dante riu de novo, mas dessa vez havia algo quebrado no som.


— Dante: Olha só. Ensinaram você a falar bonito enquanto eu aprendia a dormir sem virar alvo.


Neliel ouviu acusação onde havia também espanto.


Ouviu desprezo onde havia dor.


Ouviu abandono se repetindo com roupas novas.


— Neliel: Não me culpe porque alguém finalmente percebeu que eu servia para mais do que correr atrás de você.


Ele absorveu a frase como um golpe no peito.


Por um segundo, ela viu o menino do olhar ferido antes da raiva cobrir tudo.


Então Dante deu um passo.


— Dante: Correr atrás de mim?


O guarda avançou.


— Guarda técnico: D.S., recue.


Dante ouviu e não se importou.


— Dante: é assim que você chama agora?


Neliel não recuou. Porque recuar diante dele, naquele momento, seria admitir que alguma parte dela ainda esperava a mão estendida na beira do telhado.


— Neliel: Chamo de coisa de criança. Você talvez chame de inconveniência.


A palavra acertou fundo.


Dante avançou.


Foi rápido.


Rápido demais para os técnicos reagirem.


Ele não levantou a mão para feri-la. Não buscou o rosto, nem a garganta, nem o braço. Apenas atravessou a distância entre os dois e agarrou a lateral da bancada de madeira ao lado dela, prendendo-a entre o corpo dele e a máquina parada.


A bancada rangeu sob a força da mão dele.


Neliel sentiu o calor do corpo dele antes de sentir medo.


Isso a enfureceu.


Os guardas caíram sobre Dante.


Um segurou seu braço. Outro puxou a corrente presa ao pulso. O terceiro bateu o cassetete contra suas costas.


Dante não gritou.


Apenas virou o rosto para Neliel, tão perto que ela pôde ver a cicatriz fina no canto da boca. Tão perto que a lembrança tentou, com crueldade, encaixar aquele rosto adulto no menino que um dia rira com ela sobre telhados congelados.


— Guarda: No chão!


Dante resistiu meio segundo.


O bastante para mostrar que poderia dar trabalho.


Então deixou que o puxassem.


Não por submissão.


Por escolha.


Os guardas o seguraram com os braços torcidos para trás. Um deles pressionou o cassetete contra sua nuca.


Dante manteve os olhos nela.


— Dante: Olha bem, engenheira.


Neliel não respondeu.


— Dante: Eu estou preso. Contido. Numerado. Cercado por homens que esperam uma desculpa para me quebrar.


Ele sorriu.


— Dante: E ainda assim você é o perigo de verdade.


A serraria ficou silenciosa demais para um lugar cheio de máquinas.


Neliel sentiu cada olhar sobre ela.


Trabalhadores, condenados, técnicos, guardas.


Todos esperando que a engenheira Tu Ousch provasse que estava acima daquilo.

Ela endireitou os ombros. Arrumou a luva como se a aproximação dele tivesse sido apenas poeira no tecido.


— Neliel: Se eu fosse o perigo, D.S., você não teria chegado perto o bastante para avisar.


Dante parou de sorrir.


Ela odiou a si mesma por sentir alívio.


O encarregado pigarreou, tentando recuperar alguma ordem.


— Encarregado: Senhorita Tu Ousch, os problemas da linha oeste—


— Neliel: Ficam para outro momento.


Dante olhou para ela.


Algo como incredulidade passou pelo rosto dele.


— Dante: Vai embora?


Ela pegou a pasta que um dos técnicos segurava.


— Neliel: Minha presença aqui já causou distração suficiente.


— Dante: Claro.


A voz dele baixou.


— Dante: Vocês engenheiros chamam fugir de escolha.


Neliel sentiu a frase entrar onde não devia e voltou-se para ele devagar.


— Neliel: Cuidado.


— Dante: Com o quê? Outro dos seus projetos?


Os dedos dela apertaram a pasta.


Havia tanta coisa que ela poderia dizer.


Que vagou pelas ruas depois.


Que esperou.


Que odiou cada sombra com o formato dele.


Que foi recolhida como peça quebrada por um homem que viu nela utilidade antes de ver uma criança.


Que aprendeu a ser necessária porque ser amada parecia uma coisa que podia explodir nas mãos.


Mas nenhuma dessas frases saiu.


Porque Dante também não disse nada.


Não disse que não pôde voltar.


Não disse que foi preso.


Não disse que carregou culpa, sangue e sentença por uma tragédia que nenhum dos dois ainda era capaz de olhar inteira.


Entre eles, tudo que não foi dito se tornou mais forte do que o barulho das lâminas.


Neliel se virou.


— Neliel: Vamos.


Os técnicos obedeceram depressa.


O guarda técnico hesitou, ainda olhando para Dante.


— Guarda técnico: Devemos registrar agressão?


— Neliel: Não houve agressão.


Dante soltou uma risada baixa.


Quase imperceptível.


Ela continuou andando antes que o som a alcançasse de verdade.


Os presos abriram caminho.


Mira estava perto das caixas, abraçada ao próprio casaco. Viu Neliel passar e não disse nada. Nos olhos da menina havia a pergunta que ninguém naquela serraria saberia formular sem ferir.


Por que adultos sempre estragam as coisas antes de consertar?


Neliel atravessou o pátio e entrou pelo corredor lateral reservado aos técnicos, longe dos condenados, longe dos trabalhadores, longe da área onde alguém ainda poderia vê-la como a casa Tu Ousch, impcável, perigosa e inteira.


Deu cinco passos.


Depois mais três.


Parou perto de uma janela estreita coberta de gelo.


A pasta escorregou de seus dedos e bateu no chão.


Neliel apoiou uma mão na parede.


A outra foi à boca, tarde demais para conter o primeiro soluço.


Ela fechou os olhos, mas isso só piorou.


Dante agora adulto, preso e olhando para ela como se sua sobrevivência fosse uma traição.


Pensou nele dizendo que ela era o perigo e, por baixo disso, o menino na borda do telhado dizendo para ela pisar onde ele pisava.


Neliel tentou respirar direito.


O choro veio baixo, preso, violento pela tentativa de não existir. Ela mordeu a luva para abafar o som, como se ainda fosse uma criança escondida em algum beco depois de fazer tudo errado.


Não durou muito.


Só suficiente para odiá-lo.


O suficiente para sentir saudade.


O suficiente para lembrar por que as duas coisas, nela, sempre haviam aprendido a andar juntas.


Quando ergueu o rosto, os olhos estavam vermelhos.


Ela limpou as lágrimas com a parte interna da luva, recolheu a pasta e endireitou o casaco.


A engenheira Tu Ousch voltou antes que alguém entrasse no corredor.


Voltou fria.


Do outro lado da parede, a serraria continuava e ela ainda precisava conseguir madeira antes da próxima assembleia.