Sob a Cinza do Gelo
1 Invasão
No segundo dia sem Neliel aparecer na siderúrgica, Dante começou a contar as horas contra a própria vontade.
No primeiro dia, aceitou a ausência como afronta.
Ela era boa nisso.
Aparecia quando queria, ia embora quando queria, deixava instruções precisas, abria feridas com duas frases e depois desaparecia atrás de relatórios, assembleias e portas que o nome Tu Ousch ainda fazia girar.
No segundo dia, a afronta começou a parecer outra coisa.
Os técnicos vieram com as plantas da siderúrgica avançada. Mediram o conversor leste, reposicionaram marcações, discutiram a canaleta de resfriamento e mandaram Dante confirmar se a rota nova reduziria o cruzamento pela zona de escória.
Ele ajudou, resmungando, mas ajudou.
Quando perguntou pela engenheira responsável, um técnico disse apenas:
— Técnico: A senhorita Tu Ousch está ocupada com outro projeto.
Em Nova Londres, isso quase sempre significava outro desastre.
Na terceira noite, Dante deixou a siderúrgica com fuligem nos braços, calor preso sob a pele e uma irritação que não sabia mais fingir ser desprezo. Foi ao setor dos engenheiros sem autorização, sem convite e sem a menor intenção de pedir qualquer uma das duas coisas.
A casa Tu Ousch era alta, austera e iluminada por dentro.
Dante ficou algum tempo olhando para as janelas não porque tivesse medo de entrar. Porque odiava o quanto aquele lugar parecia protegido.
Vidro duplo. Cortinas pesadas. Portas ajustadas. Calefatores funcionando. A casa inteira respirava um calor que, no setor dos trabalhadores, seria suficiente para manter cinco famílias vivas sem chorar durante a noite.
Ele escalou pela lateral, como antes. Não daquela casa, mas de muitas outras na infância.
Telhados pobres, chaminés tortas, beirais congelados, janelas de gente que tinha demais e não notava o que faltava a quem roubava.
O corpo lembrou antes:
Mão na calha.
Pé na saliência.
Peso distribuído.
Não olha para baixo.
Por um segundo, ouviu uma voz pequena na memória:
“Eu consigo.”
Dante cerrou a mandíbula e subiu.
A janela do quarto de Neliel estava apenas encostada e isso o irritou.
— Dante, baixo: Continua deixando caminho aberto para o problema entrar.
Ele entrou sem ruído.
O quarto estava meio escuro, aquecido por um calefator discreto, com uma lâmpada ainda acesa sobre a mesa. Havia livros abertos, folhas espalhadas, instrumentos de medição, esquemas de tubulação, cálculos térmicos e desenhos de estruturas envidraçadas.
Neliel dormia sentada, debruçada sobre o projeto.
A cabeça apoiada no braço.
A mão ainda segurando uma pena seca.
O cabelo, que ela costumava prender com precisão quase militar, havia se soltado em mechas contra o rosto. A gola da camisa estava aberta apenas o bastante para denunciar cansaço, não descuido. Havia uma marca de tinta perto do pulso. Outra no queixo.
Dante parou.
A raiva perdeu o eixo. Não desapareceu. A raiva dele raramente tinha educação suficiente para ir embora. Mas mudou de forma.
Ela parecia menor dormindo, não criança, a mulher diante dele que agora tinha o corpo adulto, a exaustão adulta, o rosto de quem sustentava uma cidade inteira por orgulho e teimosia. Mas, sem os olhos frios e a boca pronta para ferir, havia nela algo desarmado.
Ele correu os olhos pelas roupas dela, mais finas e confortáveis agora. Era mais perigoso ver ela sem as roupas pesadas que usava para andar pelas vielas congeladas da cidade.
Dante se aproximou da mesa e leu o título no alto de uma das folhas.
Projeto preliminar: estufa térmica de cultivo controlado.
Ao lado, havia listas de ração, projeções de fome, rendimento de caçadores, perdas por armazenamento, substitutos alimentares.
Ele entendeu pouco, mas o bastante.
— Dante, baixo: Então era isso.
Neliel se mexeu, mas não acordou.
A pena escorregou dos dedos dela e caiu no chão.
Dante ficou olhando por um instante.
Depois passou um braço por trás dela, com cuidado, tentando afastá-la da mesa para que não acordasse com o rosto marcado por régua e papel.
Quando sentiu o corpo dele, Neliel acordou. Não devagar. Acordou como quem espera um ataque.
A mão dela foi direto para o abridor de cartas sobre a mesa.
Dante segurou seu pulso antes que a lâmina subisse.
— Dante: Sou eu.
Neliel respirava rápido.
Os olhos dela demoraram a entender o quarto.
Depois entenderam Dante.
O braço dele atrás de suas costas e a mão dele no pulso dela.
O corpo dele próximo demais.
— Neliel: O que você está fazendo aqui?
Dante soltou o pulso dela imediatamente, mas não se afastou tanto quanto deveria.
— Dante: Invadindo.
— Neliel: Isso era óbvio.
— Dante: Então pergunta direito.
Neliel levou a mão ao rosto, tentando acordar por completo. Ao perceber a posição em que estava, endireitou-se depressa, recolhendo folhas como se papéis pudessem protegê-la.
— Neliel: Saia.
— Dante: Recebi solicitação de melhorias da siderúrgica para ajudar na execução.
— Neliel: E isso exigia entrar pela minha janela?
— Dante: Você não apareceu para ver sua criação.
Ela parou.
Dante apoiou um dedo na mesa.
— Dante: Os técnicos apareceram. O supervisor apareceu. Até Halewick mandou um homem para fingir que entendia alguma coisa. Você não.
— Neliel: Eu estava ocupada.
— Dante: Percebi.
O olhar dele desceu para as folhas da estufa, depois voltou ao rosto dela.
— Dante: Fiquei preocupado.
Neliel revirou os olhos e soltou uma risada curta, sem humor.
— Neliel: Você ficou preocupado.
— Dante: Sim.
— Neliel: Pelo quê? Que eu tivesse ficado com raiva pelo que você fez na taverna?
Dante não respondeu depressa o bastante.
Ela sorriu com aquele sorriso pequeno, frio, que usava quando queria que a própria ferida parecesse lâmina.
— Neliel: Dante Sparda preocupado com minhas reações. Que evolução comovente.
— Dante: Não força.
— Neliel: Você nunca pede desculpas pelas besteiras que faz. Por que estaria preocupado agora?
Ele apoiou uma mão na borda da mesa.
— Dante: Eu não vim pedir desculpas.
Neliel ergueu os olhos.
— Neliel: Claro que não.
— Dante: Não me arrependo.
A frase ficou entre eles, não como orgulho, como provocação.
Neliel ficou imóvel por tempo demais.
— Neliel: Então veio fazer o quê? Conferir se eu estava ofendida o bastante para satisfazer seu ego?
— Dante: Vim ver se você estava viva.
Ela abriu a boca, mas não encontrou resposta.
Dante percebeu. E, por uma vez, não sorriu.
O silêncio seguinte foi mais difícil que qualquer insulto.
Neliel desviou primeiro, pegando uma folha e tentando alinhá-la com as outras.
— Neliel: Estou viva. Pode ir.
Dante olhou para o projeto.
— Dante: No que está trabalhando?
— Neliel: Nada que diga respeito a você.
— Dante: Tem lista de ração na sua mesa.
Ela fechou a pasta rápido demais.
— Neliel: Estou desenvolvendo uma alternativa para aumentar produção de alimentos.
— Dante: Isso é resposta de assembleia.
— Neliel: É a resposta que você tem.
Dante pegou uma das folhas antes que ela pudesse impedir.
Neliel se levantou.
— Neliel: Dante!
— Dante: Calma. Não vou fingir que entendo metade dessas linhas.
Ele olhou o desenho da estrutura principal. A estufa era feita em módulos, com armação de aço, painéis de vidro reforçado, tubulação térmica desviada de calor residual e camadas de cultivo.
— Dante: Vidro, calor, água e planta. Isso eu entendo.
— Neliel: Que alívio para a botânica.
Ele ignorou.
— Dante: Por que está trabalhando dia e noite nisso?
Neliel pegou outra folha, fingindo procurar algo.
— Neliel: Porque precisa ficar pronto.
— Dante: Tudo precisa ficar pronto. Você não dorme em cima de tudo.
Ela ficou quieta.
Dante estreitou os olhos.
— Dante: O problema está feio.
— Neliel: Não dramatize.
— Dante: Só chamam você assim quando a bomba já explodiu.
A colocação de palavras atingiu um lugar mais fundo entre os dois. A lembrança de fogo, fumaça e mortes.
Neliel virou-se para ele, cansada demais para responder como deveria.
Dante viu e a raiva dele recuou outro passo.
— Dante: Fala comigo.
— Neliel: Não.
— Dante: Então fala com o projeto e eu escuto.
Ela soltou um ar pelo nariz.
— Neliel: Os caçadores estão voltando com menos comida.
Dante ficou sério.
— Neliel: As rotas estão mais longas. As armadilhas congelam antes de pegar qualquer coisa. Parte da carne se perde no transporte ou no armazenamento. Se reduzirem as rações na periferia, vai haver revolta.
Ela parou. Tinha dito demais, mas Dante não pareceu surpreso, só cansado.
— Dante: Já estão com fome.
Neliel olhou para ele.
— Dante: Não precisa esperar comunicado para isso.
Ela baixou os olhos para as folhas.
— Neliel: A estufa pode ajudar no médio prazo. Cultivo controlado, fungos seguros, algumas hortaliças resistentes, talvez raízes em bandejas aquecidas. Mas precisa de estrutura, calor, água tratada, vidro reforçado, manutenção constante. Mesmo que aprovem rápido, não resolve o próximo ciclo.
Dante pegou a planta e olhou sem entender os símbolos menores.
Mas seguiu as linhas.
— Dante: Então não começa pela estufa.
Neliel ergueu os olhos.
— Neliel: Como?
— Dante: Começa pelos caçadores.
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