Sob a Cinza do Gelo

2 A Lei dos Corpos


Alguns dias antes...

A notícia chegou à prisão antes do pão.

Em Nova Londres, até a miséria obedecia uma ordem: primeiro o carvão, depois os homens, depois a comida. Se haviam interrompido a distribuição da manhã para fazer um anúncio, era porque alguém na Assembleia encontrara uma forma nova de transformar desespero em lei.

Dante Sparda ouviu o primeiro ferrolho se abrir deitado no catre inferior.

Não abriu os olhos de imediato.

A mão dele já estava fechada em torno da lasca de metal escondida sob o colchão.

Na prisão, quem acordava devagar acordava sem botas, sem dentes ou sem ar. Dante aprendera isso cedo. Mais cedo do que deveria. Agora, aprendia de novo todos os dias, como se a cidade tivesse medo de que ele esquecesse.

O guarda bateu o cassetete contra as barras.

— Guarda: De pé. Todos.

Ninguém obedeceu depressa.

Não por coragem.

Coragem era cara demais para ser desperdiçada antes do café ralo.

Os presos se moveram aos poucos, como animais tirados de buracos estreitos. Correntes arrastaram no chão. Alguém tossiu. Alguém xingou baixo. Um homem no fundo da ala riu sem motivo, ou com todos eles.

A ala sul não tinha aquecimento desde o último motim.

Havia canos mortos nas paredes, cobertores úmidos e o tipo de frio que não mordia de uma vez. Ele ficava. Sentava-se sobre os ombros, entrava nas juntas, afinava os dedos. Depois esperava que um homem precisasse lutar.

Dante sentou-se.

Do outro lado da cela, Brann olhava para ele havia tempo demais.

Brann era largo, sem pescoço, com braços pesados e uma cicatriz atravessando a boca. Gostava de usar o tamanho antes das palavras. Na prisão, isso funcionava com quase todos.

Com Dante, funcionara uma vez.

Só uma.

— Brann: Ouvi dizer que vão escolher os fortes.

Dante passou a língua pelo corte antigo no canto da boca. O gosto de sangue seco nunca ia embora completamente ali dentro.

— Dante: Então finja melhor.

Brann sorriu. Dois dentes faltavam na frente.

— Brann: Talvez eu diga que você está doente. Fico com sua vaga.

Dante olhou para ele pela primeira vez naquela manhã.

Não havia raiva no rosto dele.

Raiva era barulho. Raiva avisava.

Dante guardava coisas melhores.

— Dante: Tenta.

Brann deu um passo.

O guarda bateu outra vez nas barras.

— Guarda: Eu disse de pé.

Dante levantou-se.

Era alto o bastante para obrigar alguns homens a calcularem distância antes de provocá-lo, mas não era só altura. Havia nele uma economia de movimento que incomodava. Nada sobrava. Nada anunciava. Ele não se espreguiçava, não bocejava, não fingia calma. Apenas ocupava o espaço como se já tivesse decidido onde cada corpo cairia caso precisasse.

Brann também percebeu.

Por isso não avançou.

Ainda.

As celas foram abertas uma a uma. Os presos saíram para o corredor central, alinhados entre guardas com cassetetes, máscaras penduradas no peito e casacos melhores do que qualquer cobertor da ala sul.

Dante entrou na fila.

O chão estava tão frio que atravessava a sola das botas. As dele tinham um buraco perto do calcanhar. Ele havia preenchido com pano e graxa endurecida. Duraria mais alguns dias, se ninguém roubasse.

À esquerda, um preso magro demais tremia sem controle.

À direita, um velho chamado Merek esfregava as mãos uma na outra como se pudesse fazer fogo com ossos.

No alto da plataforma de inspeção, o diretor da prisão apareceu protegido por dois guardas.

Usava um casaco grosso, limpo, com gola de pele. Não usava máscara.

Não precisava.

O ar ruim ficava para baixo.

O diretor desenrolou um papel com o selo da Assembleia. O papel era branco. Inteiro. Sem manchas de umidade. Dante ouviu alguns homens respirarem diferente ao ver aquilo. Na prisão, até papel limpo parecia insulto.

— Diretor: Pela autoridade do Conselho Administrativo de Nova Londres, fica aprovada a Lei de Colônia Penal.

A ala inteira mudou de som.

Não foi grito.

Foi pior.

Foi o silêncio de homens fazendo conta.

— Diretor: A partir deste dia, condenados aptos ao trabalho físico poderão ser designados a postos externos, minas, linhas de reparo, triagem química e setores de risco térmico extremo.

O velho Merek fechou os olhos.

Alguém murmurou uma palavra curta demais para ser prece.

Dante manteve o rosto parado.

Postos externos significavam frio sem parede.

Minas significavam soterramento.

Linhas químicas significavam pulmões queimados por dentro.

Risco térmico extremo significava que alguém importante decidira que era melhor perder presos do que trabalhadores registrados.

— Diretor: O serviço prestado será considerado contribuição à cidade. Conduta satisfatória poderá resultar em redução de pena.

Dessa vez, alguém riu.

A risada veio do fundo da ala, seca, quebrada, quase um engasgo.

O diretor esperou o som morrer.

— Diretor: A recusa será considerada insubordinação grave. Tentativa de fuga será punida por execução sumária. A seleção começará imediatamente.

A palavra seleção atravessou os presos como lâmina fria.

Brann inclinou-se perto do ouvido de Dante.

— Brann: Redução de pena. Talvez eu volte a ver o sol sem grade.

Dante não olhou para ele.

— Dante: O sol acabou.

Brann soltou uma risada baixa.

— Brann: Então você não quer ir.

— Dante: Eu não disse isso.

Era verdade.

Dante não queria morrer numa linha química, nem congelar num posto esquecido, nem ser usado até os ossos rangerem e depois devolvido à neve como descarte.

Mas havia algo fora dos muros.

Mesmo que fosse frio.

Mesmo que fosse sentença com outro nome.

A prisão ensinava uma coisa simples: qualquer porta aberta merecia atenção, mesmo quando dava para um abismo.

Guardas começaram a caminhar pela fila, examinando braços, ombros, dentes, olhos. Um médico prisional vinha atrás deles com uma prancheta. Médico era generosidade de linguagem. O homem cheirava a álcool barato e pomada velha, e olhava para os presos como se todos fossem máquinas danificadas de valor duvidoso.

O primeiro selecionado foi Pavel, da cela três.

Depois Merek.

Depois dois irmãos que haviam roubado carvão de um depósito militar e perdido a mãe no mesmo inverno.

Quando o guarda parou diante de Dante, não precisou pedir que ele abrisse os braços.

Dante já sabia.

O médico apertou seu ombro, examinou a cicatriz no antebraço, levantou sua pálpebra inferior.

— Médico: Idade?

— Dante: O suficiente.

O médico suspirou.

— Médico: Idade.

— Dante: Vinte e seis.

O médico anotou.

— Médico: Histórico de doença pulmonar?

— Dante: Não.

— Médico: Fraturas recentes?

Dante olhou para a própria mão.

Os nós dos dedos estavam inchados desde a briga da semana anterior. O outro homem ainda comia sopa por uma abertura entre os dentes.

— Dante: Nada que tenha impedido alguém de andar depois.

O médico ergueu os olhos por um instante.

O guarda ao lado sorriu.

— Guarda: Esse aqui aguenta.

Dante virou o rosto para ele.

— Dante: Quer testar?

O sorriso do guarda sumiu.

O cassetete subiu apenas um pouco.

Dante viu o movimento inteiro antes de ele terminar. Viu o pulso apertar, o ombro inclinar, o peso mudar para a perna esquerda. Teria sido fácil entrar por dentro da guarda, tomar o cassetete e quebrar o joelho do homem antes que o segundo guarda chegasse.

Fácil.

Inútil.

Na prisão, nem toda luta vencida era uma vitória. Algumas eram apenas formas mais rápidas de morrer.

O diretor observava de cima.

Dante abaixou os olhos primeiro.

Não por submissão.

Por cálculo.

O médico marcou algo na prancheta.

— Médico: Apto.

Brann, ainda na fila, riu baixo.

— Brann: Parece que ganhou sua vaga.

Dante olhou para ele.

Brann não estava na lista ainda. Dante viu isso no rosto dele. A inveja. O medo. A necessidade de transformar medo em violência antes que alguém percebesse.

Quando os selecionados foram separados no lado direito do corredor, Brann se moveu.

Não foi grande coisa.

Um ombro contra Dante.

Um pé colocado no caminho.

Um empurrão calculado para fazê-lo cair diante dos guardas, parecer fraco, parecer doente, parecer menos apto.

Dante deixou o corpo seguir meio passo.

Só meio.

Depois girou.

O cotovelo dele entrou curto, seco, abaixo das costelas de Brann. O ar saiu do homem antes do som. Dante prendeu a corrente entre os dois dedos, puxou, usou o próprio peso de Brann contra ele e bateu o rosto dele nas barras.

Uma vez.

O suficiente.

Brann caiu de joelhos, tentando respirar.

Os guardas avançaram.

Dante já estava parado outra vez.

Mãos visíveis.

Olhos baixos.

O movimento inteiro durara menos que uma ordem.

— Guarda: Sparda!

Dante não respondeu.

Brann cuspia sangue no chão, curvado, grande demais para parecer tão pequeno.

O diretor desceu dois degraus da plataforma.

— Diretor: O que aconteceu?

O guarda olhou para Brann, depois para Dante.

Dante respondeu antes que o guarda escolhesse uma mentira.

— Dante: Ele tropeçou.

Alguns presos riram.

Baixo.

Riso de gente que sabia que qualquer prazer precisava ser escondido depressa.

O diretor encarou Dante por um longo momento.

— Diretor: Você acha isso engraçado?

— Dante: Não, senhor.

— Diretor: A colônia penal não será um pátio de recreio para animais violentos.

Dante ergueu os olhos.

Só um pouco.

— Dante: Então escolheram o lugar errado para recrutar.

O corredor inteiro congelou.

O guarda mais próximo apertou o cassetete.

O diretor desceu mais um degrau.

Por um instante, Dante pensou que ele mandaria bater. Talvez mandasse. Talvez fosse esse o objetivo: medir até onde o condenado suportava antes de ser enviado para um lugar onde dor era ferramenta de trabalho.

Mas o diretor apenas sorriu.

Um sorriso pequeno.

Administrativo.

— Diretor: D.S., não é?

Dante não respondeu.

O diretor conferiu a prancheta do médico.

— Diretor: Dante Sparda. Condenação por invasão de instalação pública, agressão a oficiais, dano estrutural, participação em fuga, desacato, reincidência disciplinar.

Cada palavra caiu no corredor como pedaço de metal.

Dano estrutural.

Participação em fuga.

Havia mais por trás daquelas palavras. Muito mais. Havia fumaça, gritos, o cheiro de pedra quebrada e pólvora ruim. Havia mãos que Dante não conseguira segurar. Havia um homem que o puxara para fora quando deveria ter se salvado.

E havia uma menina com olhos assustados, bombas nos braços e o rosto iluminado por fogo.

Dante fechou a mão.

A lembrança se partiu antes de ficar inteira.

O diretor continuou:

— Diretor: A cidade vai encontrar uso para você.

Dante olhou para o papel branco nas mãos dele.

— Dante: A cidade sempre encontra.

O sorriso do diretor sumiu.

— Diretor: Algemem os selecionados. Duas correntes por fileira. Máscaras no portão externo. Quem cair antes do transporte perde a vaga.

— Merek: E quem perde a vaga fica?

O velho havia perguntado sem levantar muito a voz.

O diretor olhou para ele.

— Diretor: Quem perde a vaga prova que não serve para trabalho.

Ninguém perguntou o que acontecia com quem não servia.

Em Nova Londres, certas respostas eram economizadas porque todos já as conheciam.

Os presos selecionados foram empurrados para a área de triagem. Um guarda passou com uma caixa de placas metálicas numeradas. Não eram nomes. Nomes exigiam memória. Placas exigiam apenas inventário.

Quando chegou a vez de Dante, o guarda prendeu uma identificação no couro gasto de seu casaco.

D.S. — 17.

Abaixo, em letras menores:

Apto para trabalho externo. Supervisão armada. Risco elevado.

Dante olhou para as iniciais.

D.S.

Pareciam limpas demais.

Curtas demais.

Como se o homem inteiro pudesse ser reduzido a duas letras e um número. Como se Dante Sparda tivesse sido uma inconveniência longa demais para caber nos formulários da cidade.

Talvez fosse verdade.

Talvez Dante Sparda tivesse acabado anos antes, numa noite de explosão, prisão e neve.

Talvez o que restara fosse apenas aquilo.

D.S.

Uma ferramenta violenta.

Uma mão de obra perigosa.

Um corpo útil.

O guarda empurrou uma máscara contra o peito dele.

— Guarda: Coloque.

Dante passou os dedos pelo visor riscado. A borracha estava endurecida. O filtro, velho. Havia uma rachadura fina perto da válvula lateral.

— Dante: Está vencido.

O guarda sorriu.

— Guarda: Então respire pouco.

Dante olhou para ele.

Dessa vez, não respondeu.

Guardou o rosto do homem.

Guardou a voz.

Guardou o sorriso.

Na prisão, memória era uma arma.

Os portões externos começaram a se abrir.

O som atravessou a ala como um gemido de metal cansado. Ar frio entrou com força, trazendo neve fina, fumaça de carvão e o rugido distante do gerador. Alguns presos se encolheram. Outros ergueram o rosto, quase famintos, como se até aquele vento cortante fosse uma forma de liberdade.

Dante colocou a máscara.

O mundo ficou menor atrás do vidro.

Mais estreito.

Mais abafado.

Mais fácil de suportar.

As correntes puxaram. A fileira andou.

Lá fora, Nova Londres esperava.

Não como promessa.

Como máquina.

E, naquela manhã, a máquina havia aprendido a chamar condenados de solução.

Notas finais
Genteee, sou super nova nisso, então agradeço qualquer crítica pois estou aprendendo com vocês!