E os dias foram correndo calmamente. João e Bianca iam aprendendo a ter uma relação, enquanto se preparavam (e a casa) para a chegada do pequeno Lucca dali alguns dias.

A cadeirinha estava instalada no carro do jovem diretor, o carrinho já estacionado ao lado da porta de entrada. O quartinho havia sido finalizado recentemente, e as lembrancinhas e bolsa da maternidade já esperavam sob o trocador.

Tudo estava perfeito, com exceção de uma coisa: Alan Menezes. Apesar de ninguém saber do namoro explicitamente (Jade havia mantido a promessa de ficar de boca fechada), todos desconfiavam da proximidade dos dois e apoiavam. Até mesmo Gael, conhecedor da filha e enteado que tinha, teve que dar o braço a torcer. Pelo menos, Bianca e Lucca teriam alguém que os amaria e cuidaria, ainda que fosse o “esquisito do João”.

Alan, porém, não queria aceitar sequer a ideia. Apesar dos esforços de Nat em que o marido fosse se adaptando a possível relação amorosa entre a ex-cunhada e João, ele continuava se fazendo de cego. Insistia em querer mudar as coisas do quarto do bebê, especialmente quando haviam sido escolhidas por João; chegaram com lembrancinhas de maternidade com tema de Muay Thai, além de um enfeite de porta com bonequinhos caricaturados de Bianca e Duca, segurando um embrulhinho nos braços.

Gael repreendeu o antigo aluno diversas vezes, pedindo que ele respeitasse os limites, porém parecia estar falando com as paredes. Bianca por outro lado agradecia pelo carinho de Alan com o sobrinho, mas dizia preferir sua própria ideia. E isso o irritava profundamente.

No final de semana anterior à data prevista para o parto, Bianca e João convocaram um almoço na casa de Gael, para que todos pudessem conversar. A mesa de jantar, já a muito trocada por uma maior, estava vomitando gente. Renata e Agatha estavam comendo na mesinha da sala, se divertindo com a dinâmica nada usual. Entre os adultos, vários risos e piadas, exceto por Alan.

Ele encarava Bianca e João de forma dura, séria, analisando as interações entre eles. Ficava possesso ao ver o rapaz acariciar a barriga dela de tempos em tempos, os dois trocando um sorriso brilhante. Já havia decidido o que fazer há algum tempo, e achou que aquele momento era perfeito.

“Então, Bianca... O Lucca nasce essa semana, não?”

“Segundo a médica, a partir de terça pode ser a qualquer momento.” Concordou a morena, se servindo de mais salada.

“Bom, então eu queria te convidar para ficar lá em casa nesses últimos dias.” Todos o encararam surpresos, especialmente a esposa.

“E por que, Alan?”

“Quando a sua bolsa romper eu posso te levar para o hospital.” Ele disse casualmente.

“O João não está trabalhando, amor, ele mesmo pode fazer isso.” Nat foi direta.

“Eu faço questão. Assim como faço questão de acompanhar o parto do meu sobrinho, no lugar do meu irmão. Afinal, era isso que ele iria querer.” Ele ignorou o beliscão que a esposa lhe deu, enquanto a mesa caia em total silêncio.

Todos se viraram para Bianca e João, que estavam com um olhar tranquilo. A atriz limpou a boca com o guardanapo calmamente, enquanto João deu mais uma garfada em seu risoto.

“Quem irá me acompanhar durante o parto será o João, Alan, e vai ser assim daqui para a frente. Nós estamos namorando há pouco mais de um mês, e já decidimos que iremos continuar morando juntos.” Ela explicou calmamente, já antevendo os gritos.

“Você não tem esse direito.” O lutador se levantou de supetão, derrubando a cadeira e assustando as duas crianças na sala. Karina e Pedro correram até elas, na tentativa de acalmá-las. “Você é esposa do meu irmão, e esse filho é dele.”

“Alan, o Duca está morto.” João lembrou, com um olhar solidário.

“E você mal esperou o cadáver esperar, não é, Spinelli? Nem o dele, nem o daquela sua namoradinha.”

“Você pode falar comigo da forma que quiser, mas eu não vou permitir que você insulte a Vicki, especialmente por ela não estar aqui para se defender.” João ergueu um pouco mais a voz, enquanto Bianca segurava sua mão por baixo da mesa.

“Se ama tanto ela, por que está se apossando do lugar do meu irmão?”

“Alan, chega.” Gael se pronunciou. “Por favor, sente. Bianca, o que você e o João pretendem, se me permitem perguntar?”

“Bom, eu vou registrar o Lucca como meu filho.” Alan tentou se manifestar, mas Nat o impediu. “A ideia era adotá-lo, mas o advogado disse que, levando em conta que o pai biológico está morto, ficaria elas por elas mesmas, só daria menos trabalho burocrático.”

“Eu posso entrar com o reconhecimento da paternidade.” Grunhiu Alan.

“Sim, você pode tentar fazer isso. Porém, mesmo que ele seja registrado como filho do Duca, o João vai adotá-lo depois, não tem o que você fazer.” Bianca começava a perder a paciência.

“Eu posso pedir a guarda do meu sobrinho, criá-lo como meu irmão iria querer.”

“Alan, chega.” Nat perdeu a paciência, apanhando o casaco. “Agatha, pega as suas coisas, querida, por favor.”

“Onde você vai, Natalia?”

“Nós vamos embora, Alan, agora. Chega dessa baixaria ridícula.” Ela avisou.

“Ridícula? Ridículo é ela querer me privar do filho do meu irmão.”

“Ah, aí é que está... Em momento algum eu disse que iria te privar do Lucca. Nós concordamos que ele vá saber toda a verdade, quando tiver idade para tal. Tentar explicar isso para um bebê de três meses não fará sentido, e você sabe que a Agatha e a Renata não entenderiam também. Mas ele vai saber que você e a Nat são tios dele, assim como meus irmãos, e quando chegar a hora, explicaremos tudo para ele.” Bianca tentou se acalmar novamente.

“Isso não muda nada.”

“E nem vai mudar agora. Nós vamos para casa, Alan, agora.” Nat pegou Agatha, se virando para os anfitriões. “Desculpem por isso, Gael, Dandara... Até mais.”

Ela saiu marchando pela porta, carregando a filha que parecia um pouco assustada. Alan ficou alguns segundos parado, antes de apanhar seu casaco e a seguir para fora da casa dos Duarte.

Na casa dos dois, a antiga moradia de Dalva, entraram parecendo furacão. Nat colocou a filha no chão, pedindo que ela fosse para o quarto e ficasse ali enquanto conversava com Alan. O marido chegou logo depois, batendo a porta da frente com extrema força.

“Que droga é essa, Natalia? Você deveria me apoiar, que saco.” Ele gritou, jogando as mãos para o alto.

“E eu vou te apoiar, Alan, sempre... Quando você estiver sendo racional. Agindo como você está agindo, como uma criança imatura, pelo amor de Deus, não tem como pensar em te apoiar. Ameaçar tentar tirar a guarda do Lucca da Bianca? Qual o seu problema?”

“Meu irmão iria querer que o filho fosse um lutador, um esportista... A Bianca e o João vão transformar ele em um atorzinho.” Ele tentou explicar, mas isso só irritou mais a esposa.

“Você está jurando que essa frescura toda é pelo preconceito ridículo que você e seu irmão tinham com o pessoal das artes? Por que você acha que o certo é que o bebê seja um lutador, e se eles não fizerem isso, não podem cuidar dele?” A voz dela saiu esganiçada e alta, irritada. “Que merda, Alan, e se a Agatha resolver que quer ser bailarina? Ou atriz? Ou, sei lá, uma pintora? Então ela não vai servir para ser sua filha? Ou eu que vou ter falhado como mãe?”

“Uma coisa não tem nada a ver com a outra, Nat.”

“Tem, tem sim, Alan. Por que isso se aplica ao Lucca e não...”

“Porque não é esse o motivo da minha raiva.” Ele gritou, a assustando. “Se eu deixar o João ficar com a Bianca, registrar o Lucca e o diabo que seja, eu vou estar admitindo e aceitando que o Duca está morto, Nat. E eu não consigo fazer isso!”

Ele começou a arfar, enquanto caia sentado no sofá e escondia o rosto entre as mãos. A morena suspirou, bagunçando os cabelos, antes de ir sentar em frente ao marido.

“Alan, quase um ano já se passou, meu amor. Mesmo que seu irmão não tenha morrido na hora, você acha que ele teria aguentado tanto tempo?”

“Já ouvimos casos piores, Nat.”

“E essa esperança vai deixar nossas vidas estagnadas para sempre? Alan, meu amor, nós precisamos aceitar que o Duca, provavelmente, não irá voltar. E que todos merecemos a chance de sermos felizes. Incluindo a Bianca e o Lucca.” Ela acariciou o rosto dele, mais calma.

“Você acha que o João vai cuidar bem deles?”

“Ele já está cuidando, querido. Ele tem cuidado deles nos últimos cinco meses, assim como a Bianca tem cuidado dele... Aliás, não foi legal você ter zombado da Vicki.”

“Eu sei. Quando for o momento propício, eu pedirei desculpas à ele por isso. Eu só estava nervoso, irritado, não consegui pensar direito.” Ele concordou, secando os olhos. “Eu assustei a Agatha, não foi?”

“Ela deve estar na escada em silêncio. Acho que vou ali conversar com ela, enquanto você se acalma.” Ela se levantou, mas o barulho do seu celular a chamou de volta. “É uma mensagem da Karina. Ai, caramba.”

“O que foi?”

“A bolsa da Bianca acabou de romper, eles estão indo par o hospital. O Lucca está nascendo.”

Notas finais
Heeeeeello Alan foi colocado no lugar dele pela Nat, apenas adorei. E adorei Johnny sendo todo firme, sou gamada nisso *.* E aí? estão gostando? A primeira fase está no fim, logo teremos uma pequena passagem de tempo. Fic minha tem que ter passagem de tempo, aceitem. See you ;*