So Close That I Cant Breath

3 This uncertainty of mine


Notas iniciais
Presentinho no meio da madrugada! Podem dar mil beijos na MelKeigo, que betou todo esse capítulo mesmo estando em viagem /o/ Não se esqueçam das notas finais, viu? :) E, ah! Eu queria agradecer à Lis Pinheiro, que tão gentilmente recomendou essa fanfic! Obrigada mesmo *______________*

Eu... Eu quero terminar, Kanda.

A verdade é que é extremamente difícil conviver com você.

No começo era até divertido.

Você parecia ser carinhoso, mas...

O tempo passou e você ficou distante.

Não esboçava reação alguma.

Só para brigar ou fazer sexo.

Não dá pra viver com alguém assim.

Mordi o lábio bem discretamente, ainda me perguntando por que tais pensamentos vinham me sondar em um momento como aquele.

Assustei-me quando os dedos grossos tocaram minha bochecha, arregalando levemente os olhos. Ele inclinou o corpo para cima, alcançando meus lábios, tocando-os com os seus bem levemente.

Pressionou-os, então, fortemente, fazendo-me oferecer passagem para a sua língua que, levada como o dono, veio explorar minha boca, sem pressa, deliciando-me com esse sabor e essa sensação inebriante que somente ele me fazia sentir. Puxei-o mais para perto, fazendo com que ficasse sentado em meu colo.

Não sei precisar quanto tempo nós ficamos chupando os lábios um do outro, as línguas se enroscando, os seus dedos brincando com meus cabelos. Só fui perceber algo quando ele parou, a boca ainda colada na minha, os olhos claros praticamente me secando.

– Você está longe... – Ele disse, escorregando as mãos para as minhas bochechas. – Aconteceu alguma coisa?

Arregalei mais uma vez os olhos, surpreso pela sua percepção apurada. Nesses anos todos, conheci pouquíssimas pessoas com esse mesmo senso observador. Conseguia contá-las nos dedos, até.

Infelizmente, essas pessoas não me traziam boas lembranças.

– Nada. – Menti, desviando de suas íris claras. Elas eram um azul acinzentado, quase chegando a ser prateadas de tão belas que eram.

Por alguma razão, tais íris me davam medo.

Por isso mesmo evitava encará-las.

– Tem certeza mesmo? – Questionou uma segunda vez. Afirmei com um gesto de cabeça, sentindo seu polegar rodar sobre minha bochecha. – Então... Que tal o senhor sair de dentro de mim? Pode ser?

Voltei meu olhar para sua face, encontrando-o com um sorriso quase debochado. Isso fez uma veia saltar da minha testa.

– E se eu não quiser...?

– O senhor vai se foder, então. Já deu tempo, Kanda. Anda, não enrola! – Deu um tapa no meu ombro, incentivando-me a me mexer.

– Se está com pressa, então saia você, feijão desgraçado! – Rosnei, sentindo a veia da minha testa saltar mais ainda, quase latejando. Sem esperar um segundo convite, ele se levantou, deixando-me escorregar para fora de seu corpo, ficando de joelhos.

– Como você é indelicado, Kanda. Já te disseram isso? – Ironizou, indo sentar-se à beira da cama. Revirei os olhos, nem um pouco a fim de discutir.

A última coisa que me preocupei em observar foi sua figura se espreguiçando, antes de levantar. Depois, virei o rosto de lado, para qualquer outro canto do quarto.

Ver os músculos de suas costas se contraindo lentamente conforme se espreguiçava era uma visão um tanto quanto tentadora. E eu precisava me concentrar em outra coisa, antes que ficasse excitado de novo.

Falando em “excitar”, eu ainda precisava jogar o preservativo fora. Mas e a preguiça de levantar e ir até o banheiro para isso?

Depois que o retirei e amarrei, comecei a procurar pelo quarto, só garantindo que não havia nenhum cesto de lixo por ali. Foi quando eu reparei em um, escondido um pouco abaixo da escrivaninha dele. Sorri de canto, arteiro.

Peguei o preservativo pela ponta amarrada e, depois de contar até três, arremessei-o em direção ao cesto de lixo; acertei o alvo em cheio.

– Cesta! – Comemorei, o sorriso quase atravessando o rosto.

Até sentir uma mão bater na minha orelha.

– Ai! Filho da puta! – Virei para encarar o britânico com uma expressão de quem comeu algo azedo.

– Não xinga a minha mãe, seu lazarento! – Ele bufou.

– Por que me bateu?

– Por que eu te bati? – Colocou as mãos na cintura, indignado. – Você viu o que você acabou de fazer?

– Jogar o preservativo fora? – Fiz um gesto como quem dizia “não era óbvio?”

– Você atirou o preservativo no meu cesto de lixo!

– E daí?! – Questionei, sentindo aquela veia saltar de novo na minha testa.

– E daí que se aquela coisa estoura, eu faço você limpar com a língua!

– Porra, é só um lixo! – Exclamei, irritado.

O que diabos tinha demais em uma merda de um lixo?

– É o lixo do meu quarto, japonês! Depois sou eu quem vai dormir com cheiro de pinto não lavado, não você! – Ele bateu de novo na minha orelha.

AAAh, ele pediu.

Avancei para cima dele, com intenção de pegá-lo pelo pescoço, mas o maldito conseguiu segurar meus braços. Acabamos com as testas encostadas, os olhos faiscando tamanha era a raiva que estávamos sentindo um pelo outro.

– Você está insinuando o quê, vagabundo?!

– Que você não lava o pinto, talvez? – Sua expressão chegava a ser zombeteira. AAAh, como eu queria enchê-lo de porrada.

– Você gosta bastante dele, então, para colocá-lo na boca mesmo com essa alegação. – Sai por cima, arqueando as sobrancelhas. Essa ele não revidaria.

– Eu vi você indo tomar banho antes de metê-lo na boca, querido. – Walker se livrou dos meus braços, jogando-me um pouco para trás. – Que, por sinal, seria uma coisa excelente de você ir fazer agora, não é mesmo?

– Porra, então me deixa usar seu banheiro, cacete!

– Não! Eu vou tomar banho nele. Se quiser, use o seu. – Apontou para fora do quarto. Bufei e saí de lá batendo o pé.

Como aquele feijão me tirava do sério. Era impossível alguém, além dele, conseguir tal proeza.

Como eu consegui conviver três malditos anos com ele?!

Parei à porta do quarto, encostando a testa ali.

Será que a questão era aquela mesmo? Como eu consegui?

Ou será que o certo seria: “Como ele conseguiu conviver três anos comigo?”

É extremamente difícil conviver com você.

Bati com as mãos no rosto, sacudindo a cabeça. Não era hora, nem momento, para eu me lembrar daquelas coisas!

Nós estamos há dois meses enrolados. Era um progresso, não? Eu ficar com a mesma pessoa por dois meses consecutivos...

Abri a porta do quarto e corri para o banheiro, abrindo o chuveiro de água fria mesmo e entrando embaixo dele.

Desde que eu o conheci, três anos atrás, nunca esperei por nada de sua parte. Na minha visão, o britânico não passava de um colega de quarto que, provavelmente, eu não veria devido aos horários dos cursos.

Com o passar do tempo, fui percebendo que nossos horários coincidiam até demais. E, por alguma razão, aquilo não me incomodava... Tirando as mulheres, ele era uma pessoa que quase não implicava com os meus hábitos.

Mesmo que mal nos falássemos enquanto estávamos só nós dois.

Para dizer a verdade, o que mais me assustou naquele dia, dois meses atrás, não fora ser beijado por um homem – não, isso não. Já havia experimentado essa sensação antes.

Mas ele me beijar foi surpreendente. Nunca imaginei que essa ação partiria de sua pessoa.

Principalmente de uma forma tão... Necessitada.

Foi como se ele tivesse ansiado por aquilo desde que colocou os olhos em mim.

Aquela semana em que ele desapareceu foi o tempo exato que eu precisei para criar algum interesse em sua figura.

Era como se, finalmente, ele tivesse “aparecido” para os meus olhos.

O que se desenrolou depois foi só consequência desse “aparecimento”.

Só que, mesmo com ele, essa sensação não desaparece.

Essa sensação de incerteza.

Medo.

Ansiedade.

Insegurança.

Desde muito tempo eles me perseguem. São quase como a minha sombra. Do primeiro relacionamento até agora...

Bati com a cabeça de leve na parede, suspirando pesadamente.

– Por isso que relacionamentos curtos são melhores. Eles não dão trabalho. – Sussurrei, como se lembrasse a mim mesmo uma escolha que eu fizera anos atrás.

Ela estava caindo por Terra fazia algum tempo já. Era questão de meses para eu me enroscar com alguém.

O resultado... Bom, eu o estava vivendo agora, não é mesmo?

Apesar de todas as brigas, Walker nunca havia me dito que eu era uma pessoa difícil com quem se conviver.

Pelo menos isso.

Desliguei o registro do chuveiro, amarrando a toalha em volta da cintura enquanto ia para o quarto. Abri o guarda-roupa e peguei a primeira calça flanelada que aparecera na minha frente, junto de uma camisa e uma cueca boxer. Arranjei uma segunda toalha para enxugar os cabelos depois de secar o corpo e vestir-me.

Andei calmamente do meu quarto até a sala, constatando que o britânico ainda deveria estar no banho. Fui até a lavanderia e deixei a toalha molhada no pequeno varal que ali havia, voltando novamente para sala e atirando-me contra o sofá.

Fiquei sentado com a cabeça contra o encosto, olhando o teto. Passaram-se um, dois, três minutos e, cansado de ficar naquela posição, caí para o lado, ajeitando-me com a barriga para cima. Fechei os olhos para que a luz não incomodasse tanto.

Você parece uma casca oca!

Não demonstra sentimento nenhum.

Isso é frustrante.

– Frustrante, é...? – Sussurrei para a minha própria pessoa, abrindo uma fresta dos olhos.

Por que palavras tão antigas ainda machucavam tanto?

Talvez fosse porque eu sentia que estava acontecendo de novo.

A sensação da pessoa de que você gosta “escorregar” por entre seus dedos.

Como se ela caminhasse tão à frente, que fosse impossível de alcançar.

Ergui minha mão esquerda contra a luz, observando a sombra que meus dedos faziam diante dos meus olhos.

Ele era como aquela luz que passava por entre os meus dedos. Mesmo que eu os juntasse, ela ainda escaparia pelos lados.

Será que Walker estava tão distante assim? Ou será que era tudo coisa da minha imaginação?

O som de passos cortou meus pensamentos. Baixei a mão, colocando-a atrás da cabeça junto com a outra. Os passos foram até a lavanderia, depois vieram em direção ao sofá.

– Cheguei! – O britânico cantarolou, subindo no meu corpo no sofá. Arqueei as sobrancelhas, como quem perguntava o que ele estava fazendo. Sua resposta fora um sorriso. – Sentiu saudades? – Deu uma bitoquinha dos meus lábios.

Aproveitei a deixa e os capturei em um beijo mais aprofundado, chupando sua boca, sua língua. Levei as mãos até seus cabelos, alisando-os, logo em seguida bagunçando-os, seus dedos vindo enroscar-se nos meus fios negros, passeando pela minha bochecha no processo.

Fui descendo as mãos por suas costas à medida que o beijo ganhava mais sensualidade, mais ritmo. Apertava levemente a pele sob meus dígitos, por cima da blusa mesmo. Até que, finalmente, cheguei à sua bunda, fincando as unhas com mais vontade do que o necessário.

Ele rompeu o contato das bocas para soltar um gemido. Depois, olhou-me com uma expressão de um adulto quando pega uma criança fazendo arte.

– Ah, senhor Kanda. – Apertou meu nariz, fazendo-me torcer a face. – Nós já transamos hoje. Chega, não é?

– E o que tem debais? – Perguntei, fanho devido aos seus dedos ainda estarem tampando minhas narinas.

– O que tem, senhor Kanda... – Ele aproximou os dentes da minha bochecha, arranhando levemente antes de darem uma mordida suave. – É que meu cu não é de aço. – Largou meu nariz, sorrido feito bobo.

– Tsc. – Virei o rosto de lado, para não olhar a cara de tonto dele, voltando os braços para trás da minha cabeça.

O albino balbuciou qualquer coisa sobre querer ver a novela, esticando o braço para pegar o controle e ligar a TV. Depois, aconchegou-se confortavelmente sobre o meu corpo, os cabelos bem próximos do meu rosto.

E, naquele exato momento, com ele tão próximo, chegava a ser insuportável a vontade de tocá-lo. O problema morava aí...

Eu não sabia como tocar sem ter uma conotação sexual.

Sempre que eu tentava, parecia forçado... Ou acabava passando dos limites.

Depois de algum tempo eu simplesmente desisti de tentar encostar-me às pessoas carinhosamente.

Aliás, a intensidade do toque era outro problema com a minha pessoa.

“Mais de leve”, umas diziam. “Mais devagar”, outras repetiam. “Com mais vontade”.

No fim, acabei deixando que os outros ditassem o ritmo das coisas. Dessa forma, não teria de mudar tudo no meio da ação.

E eu também me resguardava a encostar-me às pessoas somente quando algumas delas pediam.

Eu estava amarrado.

O menor começou a se espreguiçar feito um gato em cima de mim, cortando todos os meus pensamentos uma segunda vez.

– Eu sou uma almofada, por um acaso? – Comentei, seco.

– Não. Você é duro demais para ser uma almofada. – Ele respondeu. A minha vontade foi de dizer: “foi você quem quis deitar aí”, mas resolvi ficar calado, para não arranjar mais briga. – Acho que vou dormir.

– Você não disse que iria ver a porra da novela?

– A “porra da novela” não vai ser exibida, porque vai ter uma “porra de um especial” de um programa chato. – Ele disse, mostrando-me a língua. Fechei a cara para a sua atitude. – E eu acordo cedo amanhã.

– Eu entro no mesmo horário que você, caso não saiba.

Peeen! Resposta errada! – Walker deitou-se de novo sobre meu corpo, encostando o nariz no meu. – Eu entro mais cedo amanhã. Tenho duas aulas a mais que você: uma no primeiro período, outra no último. – Roubou mais um beijo meu, impedindo-me de prolongá-lo quando se afastou bruscamente. – Por isso, vou dormir mais cedo.

Levantou-se, saindo de cima de mim. Desejou um “boa noite” e desapareceu pelo corredor, encostando a porta do quarto.

Ergui-me, ficando sentado sobre o sofá, o rosto caindo sobre as mãos, suspirando.

Por que lidar com sentimentos era tão complicado?!

– Se eu tivesse um terço da simplicidade dele nas ações, tudo ficaria mais simples. – Disse, esclarecendo as coisas para mim mesmo.

Mas eu não tinha. E não parecia que iria desenvolver tão cedo.

Levantei e fui para o meu próprio quarto, depois de apagar todas as luzes.

Dormir sempre era um bom remédio, afinal.

xxx

Dois dias haviam se passado e nada dos meus pensamentos aquietarem. Não havia horário, sequer momento adequado para eles aparecerem.

Estavam me atormentando constantemente.

Eu me perguntava o porquê de tudo isso só acontecer agora, depois de dois meses.

Parecia praga.

Dedos finos com unhas grandes começaram a se enroscar em meus cabelos. Agarrei o pulso da pessoa, sem qualquer delicadeza, virando-me rudemente para trás querendo descobrir quem era.

Deparei-me com uma ruiva de corpo sinuoso, lábios carnudos e cabelos presos em um rabo de cavalo.

– Oh, desculpe. – Ela falou, assustada. – Esqueci que você não gosta que toquem no seu cabelo.

– O que você quer, Lisa? – Soltei seu braço, coçando a cabeça.

– Te entregar isso aqui. – Ela estendeu um panfleto. Peguei-o de suas mãos, podendo ver escrito, em letras gigantescas e bem decoradas, o nome de uma festa. – Vai ser aqui no colégio, na virada de sexta para sábado.

– Sexta-feira agora? – Arqueei ambas as sobrancelhas, surpreso. Por que não me contaram antes?

– O quê? Sério que não estava sabendo? Nossa. Pensei que alguma das outras meninas já havia te entregue o panfleto.

– Não. – Suspirei, encarando meio desanimado o papel. – Ninguém me entregou nada.

– Hmm... Será que é por conta dos rumores? – Lisa fez uma expressão pensativa, chamando minha atenção.

– Rumores?

– De que você arranjou uma namorada! – Ela sorriu. – Mas eu acho que é mentira. O “japa” mais pegador da escola não arranjaria uma namorada assim tão cedo. – Deu uma piscadela para mim. Ignorei fervorosamente. – Bom, de toda forma, acho que você deveria aparecer. Vai ser legal!

– Vou pensar sobre isso. – Disse, pegando a minha pasta e me levantando.

– Posso ir à sua casa hoje à noite?

– Não. Estou ocupado com a matéria da faculdade.

– Hmmm... Okay então...

Saí da sala o mais rápido que consegui, para não dar chances de Lisa seguir-me.

Em outras épocas, eu não me importaria, mas atualmente isso seria um problema.

Continuei encarando o pedaço de papel à medida que deixava a faculdade e, durante todo o percurso até o apartamento, fiquei me perguntando se deveria realmente aparecer por lá.

Minha fama de garanhão já estava formada fazia muito tempo. Desfazê-la da noite para o dia seria impossível e era óbvio que rumores surgiriam.

E, em uma festa desse porte, era óbvio que eu era um dos garotos mais visados. Ainda que tenha ficado surpreso por terem demorado tanto tempo para me chamarem.

– Só dor de cabeça. – Destranquei a porta e entrei, atirando os sapatos para qualquer canto, indo deixar as coisas sobre a mesa da cozinha mesmo.

Olhei ao redor e não demorou para eu constatar que havia sido o primeiro a chegar. Suspirei, resolvendo começar os afazeres antes mesmo.

Fui fazer o mais chato, que era estender a roupa. Walker havia colocado tudo para lavar antes de sair de manhã, eu só teria de colocá-las no varal quando chegasse.

Gostaria de ter ficado com a parte dele.

À medida que comecei a tirar as peças da máquina, lembranças antigas começaram a pipocar esporadicamente, trazendo-me uma sensação amargurada.

Essa não era a primeira vez que eu dividia o apartamento com alguém. E minhas companhias anteriores pareciam ter sérios problemas com os meus hábitos.

Você é extremamente preguiçoso! Não faz nada na hora.

Será que seu braço vai cair se você fizer isso para mim?

Como se não bastasse me deixar sozinha, ainda não ajuda a fazer nada.

– Tsc. – Reclamei, puxando mais a peça de roupa em minhas mãos, quase rasgando-a.

Por que tais pensamentos tinham de reviver só quando eu estava em um relacionamento mais sério?

Por conta das cobranças, talvez?

– Ou porque eu sou um idiota. – Sussurrei, apertando mais a peça entre os dedos.

– Idiota eu sempre achei que você fosse, mas falar com a cueca é demais. – Ouvi aquela voz rouca do britânico e virei subitamente para o lado, encontrando-o parado próximo à porta, fechando-a.

– Como é? – Torci a face, já ficando irritado.

– É isso aí. Ou vai negar que estava falando com a cueca? – Ele apontou para minhas mãos. E só agora fui reparar que eu estava segurando uma cueca.

– Tsc. – Virei o rosto, sentindo-o queimar, enquanto estendia a peça no varal. – Eu não estava falando com a cueca, imbecil.

– Tudo bem, dessa vez eu deixo passar. – Ele tirou minhas coisas de cima da mesinha, sentando-se ali. – Quer que eu faça o almoço? Ou prefere pedir algo pronto?

– Não vou comer agora. Depois eu faço um lanche.

– Você é quem sabe, então. – Ele deu de ombros, indo até a geladeira pegar as coisas para preparar algo.

Voltei ao meu trabalho, terminando de estender um lençol. Fechei a tampa da máquina; meu objetivo agora era lavar toda a louça acumulada desde ontem à tarde.

– Por que eu sempre fico com a parte mais chata? – Indaguei, não para obter resposta, só pra extravasar minha frustração.

– Não reclame! Eu vou ter de passar aspirador na sala no sábado. – Walker recrutou, fazendo-me revirar os olhos.

– Você quem quis dividir as tarefas assim. – O britânico nada disse, mais interessado em comer o sanduíche que havia preparado.

Fui até a pia, encarar aquela enorme pilha de louça suja. Suspirei, erguendo as mangas e abrindo a torneira. Comecei pelos pratos que eram mais simples.

O silêncio logo se instalou entre nós. Era assim desde o primeiro dia em que viemos dividir o apartamento: nada de conversas desnecessárias.

Estava começando a achar que esse era o ponto mais agravante naquele relacionamento. A falta de diálogo.

Mas o que eu poderia conversar com ele, afinal? Nunca fui uma pessoa de muitas palavras. Não seria por ele que eu mudaria.

Seria?

– Hm, você também recebeu esse panfleto? – Walker comentou, fazendo-me virar levemente a cabeça, vendo-o com o papel em mãos. – Eu estava pensando em ir. Parece ser divertido. O que você acha?

– Sei lá. Se você quiser. – Voltei minha atenção para a pia novamente, esfregando uma panela que estava realmente suja. Nem precisava citar o dono dessa arte, não é?

– Ah, vai ser bom. A galera estava comentando que eles vão montar um quiosque lá no salão, para fazerem batidas.

– Hmm...

– Que bicho mordeu você? – Arregalei os olhos, mesmo ele não podendo ver. – Parece desanimado. As meninas devem estar te enchendo o saco, não é?

– Nem tanto... – Mordi o lábio, esfregando com mais força o prato que tinha em mãos. Para que levantar um assunto desses justo agora? Aquilo era problema meu, de toda forma. – Além do mais, você convive com o mais chato de todos e não reclama de nada.

– Como? – Ele pareceu surpreso, como quem não acreditava na pergunta. Revirei os olhos, impressionado com a lerdeza dele.

– Comigo. Quero dizer, até hoje você não reclamou de viver sob o mesmo teto que eu, se é que me lembro bem.

– E por que você diz isso? – Ele pareceu meio irônico, mas eu ignorei. Pode ser só impressão minha afinal.

– Por que conviver comigo é difícil, não é? – Joguei um verde, só para ver o que ele respondia.

Não tinha razões para isso agora. Mas eu senti que deveria fazê-lo.

Se não fosse agora, não seria nunca então.

– Convier com você? Difícil? – Ele pareceu surpreso, mas quem começou a ficar surpreso fui eu. – Imagina! – E, por um segundo, eu senti um alívio no meu peito, soltando o ar que eu sequer havia reparado que estava preso. – Conviver com você só beira o impossível.

Soltei o prato que estava segurando na pia, um barulho enorme enchendo o ar. Senti minha respiração falhar por um segundo, a saliva cortando minha garganta quando a engoli.

Ele... Estava brincando, não estava?

Não estava?

– Nossa, o que foi isso? – Walker perguntou, parecendo assustado. – Mais cuidado com a louça, Kanda! Não estou com dinheiro para comprar um kit de cozinha novo.

Apoiei os braços sob o mármore, as mãos tremendo um pouco.

Aquilo era só brincadeira. Eu precisava me acalmar.

Acalmar, acalmar, acalmar, acalmar.

Não dá pra viver com alguém assim.

Você é uma pessoa muito difícil de se conviver.

Pensava que você fosse diferente.

– Aconteceu alguma coisa, Kan- – Senti os dedos do britânico sobre o meu ombro e na hora afastei seu braço. Ele arregalou os olhos, surpreso.

E, de novo, aquele par de íris prateadas me encarando.

Secando.

Lendo.

Decifrando.

Desviei o rosto para o chão, não querendo mais olhar sua face.

– Nada. Não aconteceu nada. – Menti, voltando a pegar o prato, abrindo a torneira para retirar o sabão. – Eu só me descuidei. Só isso.

– Se você diz. – Sua voz não era muito crente, só que ele não insistiu no assunto. – Eu preciso sair agora, vou copiar umas coisas da faculdade. Na volta eu passo no mercado para comprar algo para a janta, está bem? – Só assenti. Walker não disse mais nada, também.

Ouvi-o pegar as chaves e sair. Quando a porta se encostou, senti meus braços fraquejarem novamente, apertando mais a louça em minha mão, para que ela não caísse de novo.

O que havia de errado comigo, afinal? Eu não era daquele jeito.

Era só uma brincadeira; uma brincadeira. O tom dele era irônico.

Não era? Não era?

E se não fosse?

– E se... Não fosse... – Apoiei novamente os braços no mármore, mordendo fortemente os lábios.

Será que ele realmente estava escapando pelos meus dedos?

Será que ele... Já havia desistido de mim, tão rápido?

Mas então o que era tudo aquilo?

Os toques, os carinhos, a atenção, o sexo...

Sexo.

Ele não queria só uma foda comigo desde o começo? Quem garante que ele não estava me usando até agora?

Afinal, nós transamos praticamente todos os dias nesses últimos dois meses. Raras eram as vezes em que não fazíamos algo.

Será que Walker era mesmo alguém que fizesse tamanha chantagem?

As pessoas eram disso, afinal.

– Você precisa se acalmar, Kanda. São só os fantasmas do passado. Passado. – Sacudi a cabeça, voltando a me concentrar na louça.

Walker, definitivamente, não era uma pessoa daquela índole. Ele não sofreria tanto só para fazer um teatro. Existe limite para essas coisas.

O telefone começou a tocar. Bufei, olhando para a panela em minhas mãos, elas por sua vez cheias de sabão, a pia aberta. Estreitei a vista, não gostando nada daquilo.

– Ah, foda-se. Tem secretária eletrônica pra isso. – Rosnei, voltando a esfregar a panela. Era impressionante como aquele broto de feijão conseguia sujar as coisas.

Sempre quando eu iria lavar a louça.

Era de propósito, só pode.

A secretária apitou, avisando que haviam deixado mensagem. Revirei os olhos, perguntando-me quem diabos ligaria aqui a essa hora. No mínimo, deveria ser telemarketing, porque as meninas me ligavam no celular, normalmente.

Supunha que os contatos de Walker faziam a mesma coisa.

Supunha.

“Allen? Sou eu, Lena. O que aconteceu com seu celular? Te liguei a manhã toda e você não atendeu! Bom, só para te lembrar que nós temos um encontro marcado no sábado. Vê se não esquece, hein! Beijinhos.” – Arregalei os olhos, deixando a panela cair na pia, quase derrubando o resto da louça também.

O que diabos foi aquilo?

Encontro no sábado? Aquele feijão?

Na certa deveria ser só uma amiga, mas...

E se não fosse?

– Uma... Amante? – Arregalei os olhos, perplexo com os meus próprios pensamentos.

Eu só poderia estar ficando louco. Por favor, foi ele quem quis começar com tudo isso! Como diabos ele poderia arranjar uma amante, depois de ter finalmente conseguido ficar comigo?

Eu tenho um amante sim, e daí?

Eu arranjei outro. Você deveria estar esperando, não é mesmo?

Se você não fosse assim, talvez eu não precisasse de outra pessoa.

– Que... Ódio. – Bati com a mão no mármore, ajoelhando-me à frente deste, encostando a testa ali.

Eram só fantasmas. Malditos fantasmas! Não estava acontecendo de novo. Não era para acontecer de novo!

A secretária continuou apitando, avisando da mensagem gravada.

Não estava mesmo acontecendo de novo? Será que estava sendo tudo diferente? Ou era eu quem estava me iludindo com tudo aquilo?

Levantei e caminhei até o aparelho, com as mãos úmidas mesmo. Parei em frente a ele, olhando-o fixamente.

Desde o começo eu sabia que poderia não dar certo. Que tudo poderia ir por água abaixo. Que ele poderia estar só me usando, assim como todas elas me usaram.

Que ele, assim como elas, iria se cansar de mim e me descartaria.

Mas tão rápido assim...?

Levei a mão até o botão vermelho, pressionando-o lentamente.

Deseja apagar a mensagem? A voz robótica perguntou. Apertei novamente o botão. – Mensagem apagada.

Eu sabia de todas aquelas hipóteses. Mas, ainda sim, eu me iludi.

– Ele estava realmente escapando por entre os meus dedos.

Dor.

Receio.

Angústia.

Fui terminar de lavar a louça. No fim, era desse jeito mesmo que acabava.

Só eu junto das minhas incertezas.


Notas finais
Então... Por favor, fangirls do meu coração, não briguem comigo, ok? UASHDUASHDSA Aqui estamos com o terceiro capítulo de "So close"! Queria agradecer a todas vocês por todos os reviews ♥ Esse capítulo ficou meio vago, na minha humilde opinião, mas é que os pensamentos do Kanda são muito vagos, mesmo.
Eu queria desculpar-me também pela demora nesse capítulo. Como vocês sabem, eu estava com complicações de saúde. Eu estou melhor, graças a Deus, mas ainda terei de voltar ao médico. Enfim, a boa notícia: eu já escrevi o capítulo 4! Se tudo der certo, em uma semana ele estará online para vocês!
Chega de ladainha, né? Como todos vocês sabem, reviews fazem o coração dessa autora ficar aquecido e inspirado! O que vocês gostaram? O que desgostaram? O que poderia melhorar? O que vocês queriam que fosse reforçado? Gostaram da formatação? Da ideia? Ficou tudo tão vago quanto eu pensei...? UASHDUASH São só parâmetros! Eu adoraria ouvir toda e qualquer opinião de vocês!