So Close That I Cant Breath
8 The secret behind that scar.
Notas iniciais
- Agradeço MUITO mesmo à Mel Keigo por ter betado esse capítulo, mesmo estando atolada de coisas! MUITO obrigada mesmo, Mel! De coração! ♥ E... Bom, ela pediu desculpas a todos pela demora x_x Mas ela se esforçou bastante! Então nós desculpamos ela! ♥
- Alguns pontos podem não condizer com a realidade, mas foram mantidos para o bom andamento da história.
- Sem mais delongas, aproveitem o capítulo! E LEIAM AS NOTAS FINAIS, POR FAVOR!
– Né, Allen. Não vá por aí. Venha cá. – Minha mãe dizia, puxando-me gentilmente pelo braço, pegando-me no colo, fazendo-me sentar em suas pernas.
A verdade era que nós não tínhamos uma moradia fixa. O lugar onde estávamos agora era um albergue. Junto de nós, várias outras pessoas se acomodavam nas diversas camas e colchões espalhados pela imensa sala.
Eu era muito pequeno para entender que, ali, eu não poderia fazer o que bem entendia. Também não conseguia compreender os olhares às vezes de raiva, outras vezes de perversão, que eram lançados para a minha pessoa e para a minha mãe.
Assim que me acomodou em seu colo, minha mãe deitou-se, trazendo meu corpo para bem perto do seu, os grandes cabelos castanhos caindo suavemente pelo meu rosto, fazendo-me virar e encará-la.
– Você não pode ir para as outras camas, Allen. Tem que ficar aqui, juntinho a mim, está bem? – Ela dizia, acariciando minha cabeça, beijando-a levemente. Apertou-me mais contra seu peito, encolhendo-se, naquele seu ato típico de fazer de si mesma um escudo para mim.
Não saberia dizer o motivo exato de nós estarmos naquela situação, largados à mercê da sorte e da caridade de Deus. Se fosse para supor alguma coisa, eu diria que a culpa era minha. Por ter nascido da forma que nasci – albino – minha mãe provavelmente fora rejeitada pelo marido, quem eu julgo ser um ignorante. Claro que minhas afirmações são infundadas, mas pelo que eu soube muitos anos depois, essa foi a única resposta que eu pude captar.
Nem todos os dias nós tínhamos um teto para nos proteger. Por vezes, sequer achávamos comida. Nessas ocasiões, ela deixava o pouco que encontrava para mim – sempre acariciando meus cabelos, fazendo parecer como se aquilo fosse o certo. Não querendo que eu sentisse culpa pelo estado em que nos encontrávamos.
Se lugar para dormir e algo para comer fossem as nossas únicas preocupações, eu diria que ainda teríamos alguma sorte. Mas não... Infelizmente, naqueles becos em que andávamos, havia demais coisas com as quais deveríamos nos preocupar. Ou mais especificamente: com as quais minha mãe deveria se preocupar.
Pessoas de má-fé, contrabandistas de crianças, de órgãos, outros mendigos... Ela queria me proteger de todos eles. Eu lembro vagamente que, por onde passava ao seu lado, chamava olhares. Despertava curiosidade. Eu... Não entendia bem a situação na época. Poderia dizer que até ficava admirado vendo tantas pessoas repararem em mim.
Claro, mamãe sempre fez questão de ressaltar que não era algo bom. Eu acatava suas palavras, ainda sem entender bem. Lembro-me de certa vez quando eu deixei o colar, que eu tinha desde bebê aparecer por cima da única roupa que eu tinha. Ela me puxou, de forma doce, para perto de seu corpo, escondendo-o bem embaixo da camisa para que ninguém o visse.
– Você não deve mostrá-lo aos outros, Allen. – Ela ressaltou, enfática, com um tom delicado.
– Por que eu não posso, mamãe? – Questionei, inocentemente.
– É algo importante... – Ela sussurrou em meu ouvido, com ternura, como se fosse um segredo só nosso. – Mas os outros podem querer tomá-lo de você. Você não deve deixar, porque esse é um presente que mamãe te deu. Por isso, sempre esconda-o dos olhos dos outros. – Quando ela terminou, eu balancei a cabeça em concordância, recebendo aquele seu beijo carinhoso entre os cabelos.
Apesar de toda aquela situação complicada, mamãe sempre tentou me ensinar tudo o que podia, com o pouco de recursos que possuíamos. Ela apontava as coisas, explicava como elas funcionavam. Como a sociedade ao nosso redor funcionava, de uma maneira simples e doce, não para me criar medo – somente para não me deixar alienado.
Só que... Ela nunca comentou que as pessoas poderiam ser ruins ao ponto que eram. E isso foi algo que eu aprendi duramente com o passar dos anos.
A minha primeira experiência amarga foi em uma noite de verão. Lembro que estava bem quente, as ruas principais movimentadas de pessoas, carros, barulho, luzes. Escondidos no beco, estávamos somente eu e minha mãe. Ela estava me carregando no colo, porque eu já estava cansado e não conseguia andar rápido.
Nessa época, eu deveria ter sete anos mais ou menos. Entendia um pouco mais, só não o suficiente para compreender tudo o que se passou naquele momento.
Lembro-me de ter visto vultos movimentarem-se entre as pessoas das ruas principais, parecendo entrar nos becos. Agarrei mais firme a blusa da minha mãe, sentindo-a andar mais rápido.
– O que está acontecendo, mãe? – Indaguei, receoso. Eu parecia sentir a tensão que estava sobre ela, mas não entendia bem o porquê.
– Nada, meu amor. Só precisamos achar um lugar confortável para descansar, só isso. – Ela disse, sua voz tranquila, serena. Ao menos, foi o que meus ouvidos captaram.
Mas era o total oposto do que o seu corpo expressava.
Quando chegamos a uma encruzilhada, ela parou, colocando-me no chão. Agarrei-me à barra da sua saia, temeroso. Alguma coisa me dizia que eu não deveria sair de perto dela, de maneira alguma.
Olhei para o lado e pude ver silhuetas de homens. Deveriam ser uns quatro e, em mãos, portavam alguma coisa que, de longe, eu não consegui identificar.
Estremeci quando mamãe se abaixou. Ela abraçou-me ternamente, sussurrando em meu ouvido:
– Allen... Quando a mamãe mandar, você corre e não pare até que esteja na avenida principal, tudo bem? – Foi o que ela me disse, em um tom que parecia brincadeira.
– Mas mamãe... E você? – Questionei, alguma coisa me dizendo que aquela não era uma boa ideia. Ela beijou minha testa, como sempre fazia, acariciando meus cabelos, com um carinho tão precioso que me faz lembrar até hoje de seu toque macio.
– A mamãe alcança você depois... Tudo bem? – Engoli em seco, com medo de concordar. – Vamos, Allen. Faça por mim, sim? – Cedi, concordando.
Ela deu uma olhada para o lado e, num instante, virou-se para mim, dizendo baixinho: “Vá, agora!”.
Fiz exatamente como ela mandou, acreditando que viria atrás de mim. Pela visão periférica, eu via as paredes sujas do beco passarem com rapidez, sequer identificando o que havia ao meu redor, além de alguns borrões que eu suspeitava ser lixo e entulho.
Não precisei quanto exatamente eu corri, mas foi um bocado bem grande. Não sabia que aquele caminho era tão longo, pois parecia que eu estava muito próximo da avenida principal. Assim que cheguei nela, trombei com a perna de alguém, caindo sentado. Mas essa pessoa sequer parou para me ajudar, continuando seu caminho.
Olhei em volta, procurando por minha mãe. Ela disse que viria atrás de mim e eu estava certo de que ela não iria mentir. Andei um pouco pela avenida, achando um lugar para me acomodar enquanto a esperava. Era uma escadinha de uma pequena casa.
Sentei-me no primeiro degrau e ali fiquei, esperando, observando as pessoas passarem. Esperei uma, duas, três... Tantas horas que não sabia mais nem contar. Ouvi o barulho de alguns carros de polícia passarem, mas ignorei.
Gradativamente, o número de pessoas foi diminuindo, as ruas ficando menos movimentadas, mais silenciosas. As lojas foram se fechando uma a uma. Mas eu continuava lá, sentado, esperando minha mãe.
Deu certo horário, não havia mais ninguém por lá. Desconfiado, resolvi fazer o mesmo caminho pelo qual viera, dentro do beco. Fui andando devagar, olhando em volta, mais atentamente. Só que, o que eu não havia percebido da primeira vez, era que havia mais encruzilhadas e bifurcações pelo longo caminho que eu percorri.
Eu... Não sabia mais em qual lugar eu havia me separado dela. Olhei em volta, começando a correr em linha reta, parando cada vez que o beco se dividia, procurando ávido pela mulher de longos cabelos castanhos que eu tanto amava.
– Mamãe? – Chamei e continuei a procurar quando não obtive resposta. – Mamãe! Onde você está? – Olhava tudo ao meu redor, até para cima, apesar de inútil. – O jogo já acabou! Pode aparecer! Mãe?!
Quando me dei conta, havia saído em outra avenida, que agora estava vazia. E não havia sinal algum da minha mãe em nenhum lugar.
– Ma-mãe... – Sussurrei, sentindo as grossas lágrimas escorrerem dos meus olhos, molhando meu rosto e minhas roupas. – Mamãe, mamãe... – Encolhi-me ali mesmo e fiquei chorando, por muito, muito tempo.
Depois daquele dia, eu nunca mais vi a minha mãe. Eu ainda demorei algum tempo, mas eu entendi que, naquele dia, ela havia morrido. E morreu para proteger a minha vida.
E eu sequer fui capaz de saber o paradeiro de seu corpo.
A partir daquele dia, eu estava totalmente sozinho para me virar em um mundo que não era nada acolhedor. Quando eu ainda a tinha ao meu lado, as coisas pareciam bem mais simples, bem menos assustadoras.
Com o tempo, fui percebendo o quanto ela fizera por mim, em sete anos de vida. Minha primeira dificuldade foi achar algo para comer. Eu lembrava que mamãe revirava o lixo, às vezes por horas e em vários deles, até achar algo que pudéssemos comer e não nos fizesse tão mal.
Nas primeiras vezes que tentei fazer sozinho, acabei comendo coisas nada boas, o que resultou em vômitos e, às vezes até, febre. Quando me sentia assim, procurava um canto escuro, no qual pudesse me enfiar e ficar escondido.
Aprendi também que esses locais – atrás de caçambas encostadas às paredes, embaixo de escadas, embaixo de bancos, etc. – eram extremamente seguros para uma criança pequena como eu, sem proteção de algum maior.
As ruas e as pessoas que moravam nelas, por vezes, podiam ser extremamente hostis. Em uma ocasião, um grupo de garotos, não muito mais velhos do que eu, prensaram-me contra a parede, ameaçadores:
– Passa tudo o que você tem. – O “líder” deles disse.
– Eu não tenho nada! – Esbravejei e fui recebido com um murro.
– Você tem que ter alguma coisa! Vamos, passa pra cá! – Outro rosnara. Neguei veemente com a cabeça, porque eu realmente não tinha nada. – Que inútil.
– Anda, vamos dar uma lição nele! – O “líder” comandara e os outros avançaram.
Aquela vez, eu realmente apanhei muito. Chutes no estômago, no joelho, nas costas, socos... Por muita sorte, não bateram na minha cabeça também. Foram misericordiosos. Quando se sentiram satisfeitos, partiram, deixando-me lá. Fiquei horas quieto, encolhido, sentido o corpo todo doer.
Passei semanas com os hematomas, praguejando internamente. Às vezes, sentava em um canto e chorava, desesperançoso. Pensava se valia mesmo a pena ter saído vivo daquela vez, se era para sofrer desse jeito.
– Mamãe... – Eu me pegava sussurrando algumas vezes, fincando as unhas nos braços, a cabeça escondida entre eles.
Não era fácil. A saudade de sua voz serena e seus toques doces sufocava, principalmente à noite, quando eu me sentia mais sozinho. Cheguei a passar em frente a uma casa e, da janela, ver a criança feliz com os pais. Eu a invejava tanto por conta disso...
Daria tudo para ter minha mãe de volta, mesmo se fosse para continuar levando a vida que tínhamos. Só... Queria ela ao meu lado.
Apesar de muito jovem, eu sabia que não iria encontrá-la novamente. Quando a realização batia à porta da consciência, eu chorava ainda mais. Soluçava. Fazia isso até pegar no sono.
Os meses foram se passando e, aos poucos, eu fui pegando a manha da rua. Sabia como encontrar comida e não passar mal. Consegui achar, em meio ao lixo, algumas roupas que me serviam, descartando as minhas antigas. Consegui também achar uma coberta, da qual eu não descolei, porque estava começando a esfriar.
Mas nem tudo era as mil maravilhas. Eu ainda não tinha toda a malícia de um adulto ou mesmo dos garotos mais velhos, para passar por certas situações. Com frequência eu apanhava, sem forças para revidar. Não tinha nada de valor, mas eles ainda insistiam.
Levei mais um tempo até aprender a fugir e despistar essa gente. Mudava de bairro com frequência para que eles não ficassem abusando de mim. Apesar de ser jovem, as pessoas pareciam me olhar com repudia nas ruas. Não sabia dizer se era por eu ser um mendigo ou se era pela minha aparência... Por eu ser albino.
Perguntava-me até quando eu iria ficar daquele jeito, ao arbítrio da sorte. Muitos na minha situação não o faziam, mas eu rezava todos os dias, pedindo para que uma luz aparecesse na minha vida. Qualquer coisa para que ela pudesse ser melhor.
Às vezes, também, eu pegava o colar que minha mãe havia me dado. Olhava-o com encanto e pedia proteção a ele. Porque eu sentia que a minha mãe estava sempre perto de mim, graças a essa terna lembrança. Até então, eu não sabia o que estava escrito nele, mas sabia que era uma palavra.
Uma palavra que minha mãe havia escolhido, somente para mim. Apesar de não entendê-la, ela era meu maior conforto. Era sua lembrança mais querida, que me dava forças para continuar naquela batalha diária, tentando sobreviver, quase como um animal.
Eu pensava que ainda levaria muitos e muitos anos para que o meu pedido fosse atendido – se é que um dia ele seria. Mas a minha surpresa surgiu alguns meses depois.
Dezembro, quase meados do Natal. As ruas daquela cidade opressora para mim estavam todas enfeitadas, esperando a chegada das datas comemorativas do fim do ano. Já havia começado a nevar e eu usava a coberta, que achara uns tempos atrás, como aquecedor. Ela estava bem velha, mas era felpuda, conseguindo me aquecer daquele frio que, a cada dia, castigava ainda mais.
Até aquele momento, estava com relativa sorte. Só que eu ainda era ingênuo demais para muitas coisas e, em um descuido, enquanto fui procurar comida, alguém passou a mão na minha coberta.
– Droga. – Praguejei baixinho, começando a tremer de frio. Eu não estava completamente sem roupa, mas aquela coberta me ajudava muito. – Eu... Sou muito burro.
Não havia achado nada para comer, estava sem minha coberta e vagando sem rumo pelas ruas de Londres numa fria e escura noite de dezembro, véspera de natal. Suspirei, pensando que as coisas não poderiam piorar.
Passei próximo a uma lata de lixo e vi ali uma caixinha, deixada de lado. Apesar de a cena, para qualquer um, ser estranha, eu achei interessante. Porque nela poderia ter qualquer coisa – inclusive algo que me aquecesse naquela noite fria.
Com cuidado a tirei dali de perto, indo para um beco qualquer, abrindo-a quando me certifiquei estar sozinho. Qual não fora minha decepção ao notar que, lá dentro, havia somente enfeites natalinos. Alguns quebrados, ainda por cima.
– Será que... Alguém quer isso? – Perguntei retoricamente. Comecei a retirar os enfeites quebrados, descartando-os no lixo próximo. Ao terminar, fiquei com alguns poucos, mas muito belos, na caixa.
Eu não entendia bem como funcionava o sistema de compra e venda, mas eu tinha uma leve noção de que talvez – e só talvez – alguém aceitasse trocar aquilo por algo. Que fosse um casaco velho ou uma coberta, até mesmo comida.
Então, em um tiro no escuro, eu comecei a andar com aquela caixinha, tentando achar alguma loja aberta e que se interessasse por aquilo. Já havia pedido algo nas lojas antes, mas nunca fora bem recebido. O máximo que conseguia era alguns olhares tristes e mais nada.
Meu ânimo foi sumindo aos poucos, quando reparei que a maioria estava fechada ou encerrando os serviços. Olhei para o relógio da rua e, apesar de não saber que horas eram exatamente, eu sabia que era bem tarde, pela forma como os ponteiros se posicionavam. Havia decorado que, a partir de tal posição, as pessoas se retiravam e as lojas fechavam.
Suspirei, desacreditado, parado em frente a uma loja de cobertas, sem uma alma viva dentro. Fiquei observando o vidro por incontáveis minutos. Ainda passavam algumas pessoas na rua, mas eu estava acostumado a ser totalmente ignorado por elas.
Só que, exclusivamente nessa noite, uma pessoa reparou em mim.
– Ora, parece que está fechada. – Ele comentou, a voz suave e serena. – É uma pena, né? – Virei-me, seguindo os olhos por sua figura.
Era alto, estava vestindo uma calça preta, uma blusa branca, cobertos por um grande sobretudo marrom, adornados por um cachecol branco, desfiado na ponta. Seu rosto era jovial, longos cabelos cor de chocolate desciam até quase sua cintura, fazendo suaves curvas, presos em um rabo de cavalo. Quando meus olhos cruzaram com os seus, tão marrons quanto a cor de seu cabelo, ele sorriu.
– Olá. – Abaixou-se, para que ficasse mais próximo da minha altura, apesar de não ter dado muito resultado. – O que você tem nessa caixinha? – Ele perguntou, curioso.
– Enfeites... – Sussurrei, meio incerto. Fazia muito tempo que eu não falava direito com alguém. Estava até meio sem jeito, principalmente com ele tão perto.
– Sério? E o que você pretende fazer com eles? – Continuou, parecendo genuinamente interessado.
– Eu... Queria trocar... – Continuei sussurrando, num fio de voz. – Por... Uma coberta ou comida... Quem sabe...?
– Sério? – O homem pareceu surpreso. – AAAh, mas a essa hora, provavelmente não vai achar nenhuma loja aberta. – Coçou o topo da cabeça, torcendo a expressão em uma quase careta, fazendo-me rir discretamente. – Oh, já sei! – Ele bateu com a mão fechada na palma de sua outra, em um gesto de alguém que teve uma brilhante ideia. – Eu posso trocar com você! Que tal?
Arregalei os olhos, surpreso. Pensei em responder, mas por alguma razão, minha voz simplesmente desapareceu. Quando percebeu meu nervosismo, o homem também arregalou os olhos, mas logo eles voltaram ao normal, sua expressão tomando um ar doce, sereno... Bondoso.
– Se você quiser... Mas você precisaria ir até a minha casa. Tem problema com isso? – Questionou.
Eu demorei um pouco para responder. Era uma oferta perigosa. Eu não sabia quem ele era nem o que realmente queria. Qualquer pessoa na minha posição ficaria muito desconfiada e, provavelmente, rejeitaria a oferta.
Mas em seus olhos eu via uma bondade tão grande, um brilho tão sereno e doce, que chegava a ser encantador. Fazia meses desde que eu tinha visto um olhar assim. O último que eu havia visto era o da minha mãe.
– Então? Vamos? – Ele perguntou novamente, estendendo-me a mão. Com um pouco de receio, eu a segurei. O sorriso no rosto dele se alargou ainda mais, parecendo genuinamente feliz por eu ter aceitado a proposta.
Com cuidado ele se levantou, sem largar minha mão. Foi me guiando, andando calmamente, como se o tempo fosse um privilégio somente nosso. Por alguma razão, eu me senti bem com aquilo. Lembrava demais os tempos em que eu estava com a minha mãe.
Paramos em um ponto de ônibus e ficamos esperando até que este chegasse. Devagar, o homem me ajudou a subir as escadarias, pagando ambas as passagens. Deixou que eu sentasse ao seu lado, cedendo-me o lugar na janela.
Eu vi o ônibus sair aos poucos da grande cidade, deixando-a para trás. Meus olhos, ávidos e curiosos, admiravam cada paisagem nova, vez ou outra olhando para o homem ao meu lado, o qual parecia se divertir com a minha experiência.
Já era bem de noite quando o ônibus parou no novo ponto e nós descemos. O local em que estávamos agora era bem menor e mais tranquilo do que a agitada Londres. Surpreendi-me com aquele lugar, sentindo-me acolhido de certa forma.
Novamente, ele pegou a minha mão, guiando-me ao seu lado. Andamos o que foi mais ou menos umas quatro quadras, até chegarmos ao portão de uma grande casa. Arregalei os olhos, deixando a boca abrir um pouco em espanto, tirando uma gargalhada dele.
– Bonita, não é? Meu pai deixou para mim. – Ele comentou, parecendo nostálgico. – Ele fez uma bela planta para essa casa. – Eu concordei, não entendendo realmente o que ele quis dizer com aquilo.
Ele abriu o pequeno portão, deixando-me passar primeiro. Depois, seguiu um pouco a frente. Antes de abrir a porta, ele esticou os braços, como quem pedia para eu subir em seu colo. Dei um passo para trás, receoso.
– Ora vamos, por favor. – Ele pediu, fazendo uma expressão que uma criança faria. E, novamente, aqueles seus olhos castanhos cheios de bondade me convenceram.
Esse homem esbanjava bondade por cada poro do corpo.
Pegou-me delicadamente no colo, ajeitando-me em um de seus braços. Depois, com a mão livre, abriu a porta, entrando em casa.
– Oe, Mana, onde você– – Alguém veio recebê-lo, mas interrompeu a frase bem no momento em que nos viu. Mais precisamente, quando me viu. – Quem é esse? – Perguntou, os olhos arregalados, incrédulo.
– Nosso convidado especial. – O homem, cujo nome era Mana, respondeu sorridente. – Esse é meu irmão Nea. – Virou-se para mim, comentando.
Voltei meu olhar para o homem chamado Nea. Ele era um pouco mais baixo do que Mana, mas tinha um corpo igualmente belo como o dele. Os cabelos cor de chocolate eram bem mais curtos, um pouco mais arrepiados e sua expressão facial – e corporal – eram bem despojadas, quase relaxadas. Diferentes das de Mana, que pareciam sempre muito graciosas, pelo que eu observara até aqui.
Ainda fiquei trocando olhares com Nea por alguns minutos, quando Mana resolveu trancar a porta e continuar entrando na casa.
Passamos por aquele pequeno corredor até chegarmos perto de seu irmão. De lá, passamos por outro pequeno corredor, que tinha uma porta de vai e vem bem no meio, dando acesso a outro local da casa. Continuamos e saímos em uma enorme sala, com duas enormes portas de vidro que davam para o quintal dos fundos.
Na sala não havia tanta coisa, mas a disposição dos móveis causava uma sensação agradável. Vendo de frente para as janelas de vidro, à esquerda encontrava-se o sofá, branco. À direita, uma enorme estante com vários livros e alguns enfeites, troféus e medalhas. Ao lado da estante tinha uma mesinha bem longa de madeira, com um vaso em cima.
Mana virou-se e eu notei um enorme balcão que dividia a sala e a cozinha, que era o cômodo para o qual a porta de vai e vem dava acesso. Fiquei encantado com os azulejos brancos que a cercavam praticamente toda, combinando com os móveis em igual tom, com alguns poucos detalhes em marrom.
Quando menos esperei, ele me colocou no chão, pegando delicadamente a caixa das minhas mãos e deixando-a sobre o enorme balcão.
– Ainda está um pouco cedo para cear... Que tal tomar um banho antes, hein mocinho? – Ele perguntou e eu arregalei os olhos. Baixei um pouco a cabeça, escondendo a vergonha, mas... Concordei. – Tudo bem então.
Mana pegou-me pela mão, guiando-me mais para dentro da casa. Mais um corredor, dessa vez com várias portas – cinco, para ser mais preciso. Duas de cada lado e uma ao final. Paramos na segunda porta à direita, entrando. Era o banheiro, um pouco pequeno, mas bem decorado.
Ao fundo, havia uma banheira. Mana foi até ela, abrindo o registro e deixando-a encher. Olhou para mim, sorrindo de leve.
– Pode ir se despindo enquanto eu pego uma roupa, está bem? – Concordei com a cabeça, vendo-o sair. Suspirei, envergonhado.
Poucas foram as vezes em que eu fiquei nu na frente de alguém. Somente... Da minha mãe. Iria ser bem complicado. Tirei coragem sabe Deus de onde e retirei a roupa, aproveitando para entrar logo na banheira, mesmo ela não estando cheia. Tudo para que ele não me visse sem as roupas.
Mana logo voltou com uma enorme camiseta de malha branca, sorridente, parecendo feliz por eu não ter feito cerimônias e entrado logo na banheira. Calmamente ele veio e desligou o registro.
– Consegue se banhar sozinho? – Perguntou e eu baixei a cabeça, corado. Não estava muito acostumado, mas achava que dava conta. Concordei com a cabeça. – Tudo bem então... Oh! – Ele arregalou os olhos, fazendo-me assustar. Sua mão veio até mim e eu gelei com a percepção do que ele faria.
E, tal qual eu havia pensado, ele tocou meu colar. Fiquei totalmente paralisado, com medo que ele resolvesse tirá-lo dali. Mas, ao contrário do que imaginei, ele só sorriu ainda mais largo, encantando.
– Allen... É seu nome, não é? – Arregalei os olhos, não acreditando no que ele havia perguntando.
– Como você... – Parei a frase.
– Seu colar. Está escrito o seu nome nele. – Mana disse, parecendo extremamente feliz. Arregalei mais ainda os olhos, sentindo uma lágrima solitária escorrer pelo meu rosto com a realização que passou por mim naquele momento. – Quem... Deu ele a você?
– Minha mãe... – Sussurrei, tão baixo que eu sequer sabia se ele havia ouvido. Baixei a cabeça, sentindo mais lágrimas se seguirem da outra, soluçando de leve. Pude sentir seus dedos, carinhosos, passarem pelo meu cabelo, acariciando de leve.
– É um belo presente. – Mana disse, levantando-se. – Vou deixar a roupa em cima da pia. Quando terminar, pode vestir-se com ela. Infelizmente, não tem uma roupa de baixo que te sirva... – Fiz um gesto como se não tivesse importância. – Aproveite o quanto quiser. – Dito isso, saiu, deixando-me sozinho no banheiro.
Fiquei uns bons minutos para me recuperar da surpresa. Nunca pensei que naquele colar estivesse o meu nome. Realmente, era um belo presente. Depois de um tempo, passei a mão nos olhos, esfregando as lágrimas para longe.
Peguei um sabonete que havia ali perto e comecei a me ensaboar. Fiz isso no corpo todo, tirando devagar depois. Somente molhei os cabelos, pois não sabia como lavá-los.
Após terminar tudo, abri a tampinha do ralo e deixei a água escorrer, até a banheira esvaziar. Estava para sair, quando Mana apareceu novamente, fazendo-me corar ruidosamente, voltando para dentro dela.
– Eu... Esqueci a toalha. – Fez uma expressão de engraçada, coçando a nuca. – Desculpe. – Deixou-a sobre a pia, saindo e encostando a porta logo em seguida.
Suspirei, aliviado. Saí então de onde estava, pegando a toalha e me enxugando devagar. Era extremamente macia e felpuda, muito diferente de tudo o que eu já havia encostado até então. Depois de estar devidamente enxuto, peguei a blusa que ele me dera, vestindo-a. Como era de um tamanho muito maior do que o meu, ia até depois dos meus joelhos, obrigando-me até a dobrar as mangas compridas, para liberar minhas mãos.
Abri a porta devagar, encostando-a logo em seguida. Fui à procura de Mana, sentindo-me quase um invasor em sua casa. Encontrei-o na porta do corredorzinho da sala, conversando com seu irmão, o qual não fazia expressões muito boas. Quando notaram minha presença, ambos arregalaram os olhos, depois Mana sorriu para mim, enquanto Nea dirigiu-se para a cozinha.
– Allen, venha cá. – Ele estendeu os braços, convidando-me a ir para eles. Fui, ainda que receoso. Mana abraçou-me com carinho, pegando-me no colo. – Está com fome, não é? Vamos comer agora, que tal? – Esfregou o nariz no meu, brincalhão, fazendo-me corar uma vez mais.
Fomos então para a cozinha, encontrando Nea já sentado à pequena mesa redonda. Mana colocou-me em uma das cadeiras e foi pegar os pratos para nos servirmos. Quando voltou, a primeira coisa que fez foi colocar o meu prato.
Cortou o enorme Peru que estava em cima do fogão, colocando um bom pedaço para mim, cortando-o em pequenas tiras. Depois, pegou um pouco de farofa e macarrão, colocando molho vermelho por cima da massa. Por fim, colocou o prato à minha frente, dando-me um garfo.
– Coma à vontade e o quanto quiser. – Cochichou, passando a mão pelos meus cabelos. Assenti com a cabeça, não esperando mais do que isso para atacar o prato.
E eu posso afirmar que nunca comi com tanta vontade como naquela noite de véspera de Natal. Nea parecia um pouco incomodado, mas não disse uma palavra sequer durante a ceia toda. Mana, por vezes, ria do meu desespero em comer, como se fosse a minha última chance na vida.
Era o que eu acreditava ser, de coração.
Após todos terminarmos, Nea retirou os pratos, deixando-os na pia. Bocejei, sem querer, sentindo meu corpo todo cansado. Normalmente eu já estaria dormindo há muito tempo naquele horário. E, como não costumava comer tanto, sentia meu corpo mais mole do que o normal.
– Né... Que tal você passar a noite aqui hoje? – Mana perguntou, fazendo meus olhos brilharem em animação. – Vou considerar isso como um sim, então.
Devagar, ele me pegou no colo uma vez mais. Dessa vez, diferente das anteriores, eu passei os braços em volta de seu pescoço, como costumava fazer com a minha mãe. Ele foi me levando calmamente até o quarto antes do banheiro. Abriu a porta, mas não acendeu a luz.
Caminhou comigo até a cama, sentando-se à beira desta. Devagar, colocou-me deitado, puxando as cobertas debaixo de meu corpo e cobrindo-me com carinho e ternura. Aconcheguei melhor a cabeça no travesseiro, nem lembrando mais qual fora a última vez que me encostara a um.
– Essa noite, você pode relaxar, tudo bem? – Ele disse, baixando-se e depositando um beijo na minha testa, um gesto que me lembrara da minha mãe. Em seguida, acariciou meus cabelos e se levantou, caminhando até a porta devagar.
Mana deixou-a encostada, com uma fresta para que entrasse um pouco de luz no quarto. Eu estava quase dormindo, quando captei um pedaço da conversa que ele estava tendo com Nea:
– Você endoidou, Mana?! Isso vai dar um problema lascado! – Ele dizia.
– Nea, vamos, relaxe. Eu sei o que estou fazendo. – Mana respondeu, sereno. – Se quer continuar, então vamos até a sala, certo?
A última coisa que eu ouvi, antes de cair no sono, foram os seus passos indo para a sala. Depois fui embalado nos mais doces sonhos, após meses e meses de espera.
xxx
Acordei no dia seguinte com as frestas de luz que entravam levemente pela veneziana. Espreguicei-me devagar, esfregando os olhos. Ainda demorei um pouco para perceber onde estava, mas quando a percepção veio, arregalei os olhos.
Olhei tudo ao redor com cautela, tocando na cama, no travesseiro, na roupa... Tudo para saber se era mesmo real.
Assustei-me quando a porta se abriu. Mana arregalou os olhos, parecendo estar surpreso também. Estava com uma bandeja de café da manhã nas mãos.
– Te acordei? – Perguntou, preocupado. Neguei com um aceno de cabeça. – Que bom então. Trouxe café para você. – Aproximou-se, colocando a bandeja à minha frente, um lindo café todo posto nela, o que me deixou com água na boca. – Né, Allen... Antes de comer, responda-me uma coisa.
Senti meu corpo todo se retesar. Eu... Não fazia a menor ideia do que ele pretendia. Mas eu já pensava na hipótese de ter de voltar para a rua novamente. Aliás, desde um pouco antes de dormir, eu já havia cogitado essa possibilidade. Olhei bem para os olhos de Mana, esperando a pergunta derradeira.
– Bom menino. – Acariciou meus cabelos, descendo os dedos pelo meu rosto, até afastar totalmente a mão de mim. – Allen... Será que você... Trocaria aquela sua caixinha de enfeites... Por um lar?
Eu nunca vou esquecer o sentimento que me invadiu ao ouvir aquelas palavras.
Foi um misto de felicidade, expectativa, gratidão e muitos outros sentimentos bons, os quais eu não conseguiria nomear, mesmo que quisesse listá-los.
Só sei que, sem produzir som nenhum, eu comecei a chorar. O olhar de Mana continuava sereno, como ele havia olhado para mim pela primeira vez. Era o olhar de... Um pai.
– U-uhum. – Concordei também com um aceno de cabeça, baixando o rosto e chorando mais, dessa vez mais audível.
Os braços acolhedores de Mana vieram até mim, abraçando-me e me trazendo para seu peito. Agarrei-me a ele, como agarrava a minha mãe e chorei por vários e vários minutos.
E, naquele dia de Natal, depois de vários meses, eu havia recebido um único presente, mas o meu melhor nos últimos tempos: uma família.
Notas finais
- E... Eu sinto dizer, mas vou retirar o aviso de "um capítulo por semana", porque com a chegada do fim do ano, muitas coisas vão começar a amontoar e talvez os próximos capítulos venham a atrasar. Mas não se preocupem! Eu continuarei escrevendo a So e pretendo terminá-la quem sabe até o fim do ano (em ritmo frenético UHASUDA). Mas, se não der até lá, ela continuará sem maiores problemas, só que com períodos de atualizações um pouco maiores.
- Quero também agradecer a TODOS os reviews recebidos nos últimos tempos, todas as recomendações (gente, eu estou com 6 recomendações agora ;A; SEUS LINDOS! ♥), os favoritos e aqueles que começaram a acompanhá-la. Cada um de vocês é MUITO importante para mim e eu me esforço cada dia mais para trazer capítulos melhores para vocês!
- E, como sempre, gostaria de saber o que vocês acharam! Tudo o que vocês pensarem, podem falar: da narrativa, dos fatos, o comecinho do passado do Allen... Deem-me suas opiniões! Ficarei MUITO feliz de ler cada uma delas!
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