Notas iniciais
Eu acho que eu devo muitas explicações. Mas vamos deixá-las para o final, certo? Enfim, finalmente, o capítulo 9!

– Mana! – Chamei-o, empurrando a porta de vai e vem da cozinha.

Mas como eu era muito pequeno naquela época – e a porta muito pesada – ela acabou voltando na minha face antes mesmo que eu pudesse pensar.

– Allen! – Mana gritou, assustado, rapidamente atravessando para o pequeno corredor, vindo ao meu socorro. Levantou-me, segurando meu rosto com ambas as mãos, fitando meus olhos – Você está bem? Se machucou muito?

– Não... Eu acho... – Respondi, levando a mão até o nariz, esfregando-o. Pela expressão de Mana, eu supunha que ele deveria estar, no mínimo, vermelho.

– Dois idiotas. – Fora o que Nea resmungara, ainda de dentro da cozinha.

Naquele momento estaria fazendo três meses desde que eu começara a morar com Mana e Nea. Para o eu daquela época, ainda era difícil de acreditar em toda aquela situação; afinal, nem todo mundo tinha uma mudança tão drástica da noite para o dia.

Tentava aproveitar cada minuto de atenção que Mana me oferecia. Ao longo daquele tempo, ele havia me comprado roupas novas, brinquedos, livros... Tudo o que você pudesse imaginar. Ele também se sentava todos os dias ao meu lado na mesa de centro da sala para me ensinar, aos poucos, a ler e escrever.

– Você não deveria mandá-lo para a escola? – Nea chegara a perguntar certa vez, enquanto nós estávamos em um desses momentos de estudo.

– Ainda não. Deixe-o aprender o básico primeiro. – Mana sorriu, doce como sempre era. – Ou você acha que não sou um professor adequado para ele?

– Você é um cabeça de vento, isso sim! Está longe de um professor! – Mana gargalhou, parecendo se divertir. – Oe! Não aja assim! – Nea até tentou, mas Mana continuou rindo, fazendo-o bufar. – Faça como quiser, então.

– Não se preocupe, Nea! Allen é esperto, irá aprender logo. Não é mesmo, filho? – Olhou para mim, sorrindo serenamente. Concordei bem de leve com a cabeça, encabulado.

Mana havia, também, reformado o quarto o qual eu ocupava. Colocara estantes para os livros, prateleiras para os brinquedos, comprara roupas de camas temáticas, dentre outras coisas. Tudo para que eu pudesse sentir aquilo que todos conheciam como “infância”.

E que, até então, eu não tive oportunidade de usufruir.

Prometeu-me também que logo me colocaria na escola, pois o convívio com outras crianças da mesma idade faria bem para mim. Confesso que tinha receio, afinal minhas experiências passadas não eram muito agradáveis, mas o jeito de Mana me impulsionava a tentar uma vez mais.

Entre um mês e outro, naquele primeiro ano de convivência com eles, eu começara a reparar no comportamento de Nea. Por muitas vezes o via irritado com a atitude de Mana, principalmente com relação à minha pessoa. Isso me incomodava a maior parte do tempo.

Desde o Natal, quando eu fora para aquela casa, ele me tratava dessa forma. Com Mana era a mesma coisa.

Estava começando a achar que o problema era a minha pessoa.

E tudo se reforçou ainda mais em um dia de verão, enquanto eles arrumavam a casa.

O quarto de Mana era em frente ao meu. Ao lado dele, encontrava-se o quarto de Nea. E, no final do corredor, existia um que eu não tinha visitado até então, pois a porta nunca estava aberta.

Devido a limpeza, naquele dia ela estava. Curioso, resolvi espiar para ver o que encontrava por lá. Existia bastante entulho, de fato: quadros velhos, cadeiras, bicicletas, aparadores de grama, etc. Mas o que mais me chamou a atenção fora um piano branco, exibindo-se de longe, de frente para a porta.

– Wow! – Exclamei, surpreso. Olhei um pouco mais para cima, observando prateleiras que subiam acima do piano.

Não vou me lembrar exatamente o quê me chamou a atenção nelas. Talvez um porta-retratos ou algo do gênero. Mas eu sei que eu resolvi pegar algo em uma daquelas prateleiras.

Para isso, resolvi subir em cima da caixa do piano. Primeiro, apoiei-me na cadeira, logo subindo para a parte das teclas – as quais estavam tampadas, óbvio – e, por fim, apoiei-me na caixa, esticando bem o corpo para poder alcançar o que queria pegar.

Nesse momento, Nea inrrompeu, quase gritando:

– O que você pensa que está fazendo?!

Com o susto, eu havia perdido o equilíbrio. Ainda lembro da sensação que tive: o coração foi até a boca, o ar pareceu faltar e tudo o que eu pude perceber foi meus olhos saindo da prateleira e começando a encarar o teto.

Só não senti o baque contra o chão, porque eu não cheguei de fato a cair. Nea havia me segurado pelos ombros, os braços meio trêmulos. Com uma agilidade que eu não sabia que ele tinha, colocou-me no chão, tão pálido quanto eu mesmo estava.

– Ficou louco?! – Esbravejou, olhando-me irritado. – Você poderia ter se machucado com isso! Nunca mais faça algo assim, me entendeu?!

Minha única reação na hora foi começar a chorar. Acredito que qualquer criança naquela idade faria o mesmo, principalmente pelo tom de voz e o olhar que Nea me lançava.

Não demorou para Mana aparecer, afoito. Agachou-se ao meu lado, afagando meus cabelos.

– O que aconteceu, Allen? – Questionou-me, mas eu não conseguia responder, porque o soluço falava mais alto. – Nea, por que gritou com ele?!

– Eu não gritei! Eu o alertei! Ele estava escalando o piano para subir na estante. Onde você estava com a cabeça em não explicar para ele que não se faz uma coisa dessas? – Nea esbravejou novamente, o que fora um motivo a mais para que eu continuasse chorando. A mão de Mana não parava de acariciar meus cabelos, tentando me acalmar.

– Tudo bem, ele estava errado, mas não grite com ele dessa forma, Nea.

– Não quero saber, Mana. Existem limites. Se você não os colocar, eu coloco!

– Certo, certo. – Senti os braços de Mana passarem por meu corpo, erguendo-me. – Depois conversamos sobre isso, está bem? – Ele saiu do quarto, levando-me consigo.

Não tardou para chegarmos até o meu aposento. Ele colocou-me sentado na beira da cama, abaixando-se e ficando de joelhos à minha frente. Eu fungava e soluçava, as lágrimas ainda escorrendo pelo rosto.

– Allen, olhe para mim, filho. – Eu pisquei, tentando me acalmar. Mana sorriu quando viu meus olhos encarando os seus. – Muito bem. Agora escute: o tio Nea não quis ser mau com você, tudo bem? Ele só estava preocupado. Foi um susto para ele também. – Voltou a acariciar meus cabelos. – Por isso, não precisa chorar. Ele gosta de você tanto quanto eu. Certo? Agora, prometa-me que não vai repetir o que fez, tá? – Concordei de leve, ganhando um beijo na testa e um abraço logo em seguida.

Apesar de tudo o que Mana me dissera daquela vez, não acreditava que Nea gostava de fato de mim. Pelo contrário: tinha certeza de que minha presença era um incômodo para ele.

Depois daquele episódio, passei a evitar Nea o máximo que eu podia. Fazia tudo para que ele não se incomodasse comigo. O sentimento era bem parecido com o medo que eu tinha quando estava sozinho nas ruas.

Tudo começou a mudar quando eu entrei para a escola, logo após o Verão. A primeira semana transcorreu bem, mas as seguintes não. Eu lembro até hoje.

Os meninos da sala começaram a me ignorar. O motivo hoje eu entendo. Mas naquela época, era impossível de compreender. O estopim de tudo foi em um final de tarde, enquanto eu voltava para casa.

– Ei, moleque. Você mesmo, o de cabelo branco. – Olhei para trás, vendo a figura de Jamie Jones, mais conhecido na vizinhança como JJ. Claro que, naquele momento, eu não sabia de toda a sua fama, mas anos mais tarde fui compreender tudo isso. Ele era briguento por natureza. – Vem cá, por que você é esquisito assim?

– Eu... Nasci assim. – Respondi, com a voz meio baixa. Ele estava acompanhado de mais uns dois garotos. Todos me olhavam com certo desprezo.

– Nasceu assim? Como sua mãe deixou uma aberração feito você nascer?! – Ele disse, mostrando a língua. – Credo, menino nojento.

– Menino nojento! – Repetiram os outros dois, no embalo.

– Eu... Não posso fazer nada... – Murmurei, baixando um pouco a cabeça, entristecido.

Apesar de atualmente ser difícil de acreditar, eu era uma pessoa de poucas brigas. Principalmente naquele momento de readaptação. Preferia ignorar – ou a mesmo fugir – ao simplesmente bater de frente com alguém.

Eles continuaram a me insultar, gargalhando com a situação. Ajeitei melhor a mochila nas costas, segurando firmemente as alças, prestes a dar meia volta e sair dali.

Foi quando eles começaram a me agredir.

– Um pivete como você nem deveria existir! – O JJ esbravejou, tacando em mim um saquinho amassado. – Saia daqui! A gente não precisa de você na rua, nem na escola!

Os outros dois seguiram fazendo a mesma coisa. Só me defendi com o braço e comecei a dar leves passos para trás.

Até que eu senti algo muito duro atingir minha testa. Cambaleei, caindo no chão. De repente, sangue começou a pingar em minha mão, escorrendo por entre meu nariz. Fechei o olho esquerdo para que não respingasse dentro dele.

– Suma daqui! Aberração! – James ainda disse.

Mas sua figura ficou branca com o grito que ele ouviu.

– O QUE DIABOS ESTÁ ACONTECENDO AQUI?! – Era a voz de Nea. Até eu havia gelado com o tom dela. Os passos logo surgiram, parando exatamente atrás de mim. – O que diabos vocês pensam que estão fazendo, hein?! Onde estão seus pais?

Os três meninos, de prontidão, saíram correndo. Ainda pude ouvir Nea gritar, ameaçando correr atrás deles. Mas ele parou no exato instante em que viu minha situação.

– Mas o quê– – Ele arregalou os olhos, desesperado. – Eles tacaram uma pedra em você?! – Quando eu percebi, Nea já estava agachado à minha frente. – Calma, não se desespere, Allen. Aqui. – Ele tirou o colete que usava, colocando-o sobre a minha testa. – Segure assim, vamos. Firme.

Antes que eu pudesse questionar algo, Nea pegou-me no colo e começou a correr, repetindo sempre para eu manter o colete pressionado sobre o meu ferimento.

Não tardou para chegarmos até um pequeno pronto-socorro que havia ali na cidade. Nea fez quase um estardalhaço, explicando a situação para as enfermeiras. Quando dei por mim, estava sentado em uma maca, esperando para fazer um raio-X, sendo bombardeado de perguntas.

No intervalo entre o raio-X e a posterior sutura do corte, a mãe de Jamie chegou até o local. Ao colocar seus olhos sobre ela, Nea pareceu ficar ainda mais irritado do que já estava.

– Meu Deus... Eu... – A moça tentou dizer, mas Nea interveio:

– Escute aqui! Você não dá educação para o seu filho não? – Ele chegou perto dela em segundos, os olhos faiscando de nervoso. – Ele tacou uma pedra no meu sobrinho. E por qual motivo? Por ele ser diferente? – Rangia os dentes, apontando o dedo para ela. – Olha, eu não quero saber de desculpas suas nem nada disso. Eu vou registrar uma ocorrência na delegacia, entendeu? E a senhora trate de ensinar direito o seu menino, para ver se ele vira gente!

O que se seguiu dali eu não quis ouvir. Tapei minhas orelhas com as mãos bem forte, para não ter de prestar atenção. A briga só parou quando as enfermeiras vieram, fazendo a senhora Jones se retirar.

Mas claro, eu só fui perceber isso quando os braços de Nea estavam em meus ombros.

– Vai ficar tudo bem, Allen. – Ele me disse, afagando minha nuca.

Ainda ficamos umas boas horas lá até que eu fosse liberado. Voltei pra casa no colo de Nea, pois os médicos alegaram que eu poderia ainda estar com tonturas leves e isso acarretaria em outra queda se não tivesse cuidado.

Quando chegamos a casa, fomos recebidos por um par de olhos chocolates assustados. Mana veio até nós rapidamente, questionando:

– O que aconteceu? Por que esse curativo na cabeça, Allen?

– O filho da– – Senti que Nea engasgara para falar, pois havia evitado um palavrão. Óbvio que, mais tarde, eu os usaria com bastante frequência. Mas naquele momento, eles evitavam tais palavras na minha presença. – O filho da Jones. Ele tacou uma pedra no Allen.

– O quê?! – Mana estava descrente. – Por que ele faria isso?

– Porque a mãe e o pai dele não deram educação para aquele moleque, por isso! Ele estava chamando o Allen de aberração. – Nea irrompeu até a sala, colocando-me sentado no sofá.

– Não acredito. Ele parecia tão bonzinho...

– Na frente dos pais, até eu era. – Nea revirou os olhos. Fitou-me, acariciando minha nuca com extremo cuidado. – Calma, tá certo, Allen? Eu não vou deixar que eles façam algo semelhante de novo.

– Hmm... – Baixei levemente o rosto. Nea continuou com o afago, fazendo-me sorrir.

– Qualquer coisa assim que eles fizerem, você deve me contar, ouviu bem? – Concordei com um aceno. – Muito bem. Não precisa ter mais medo agora.

– Na verdade... – Eu comecei, olhando-o novamente. – Eu... Fiquei feliz. Por você ter me defendido, Tio Nea.

– Como? – Ele parecia desentendido.

– Eu... Pensava que você me odiasse... Mas hoje eu tive a prova de que não era isso.

– Ah...!!

Antes que Nea começasse a falar, Mana desembestou a rir. Isso deixou-o irritado, fazendo com que se levantasse.

– Qual a graça, Mana?!

– Eu disse pra você! Você é muito frio, Nea.

– Não! – Ele abaixou-se novamente, fazendo-me mais um cafuné. – Olhe, Allen... Desculpe se eu pareci não gostar de você. É só que... Eu não sou bom com isso. Eu não consigo ser como o Mana. Mas eu gosto muito de você, viu?

– Não consegue porque não quer. – Mana disse, apoiado ao balcão que dividia os cômodos, ainda sorrindo.

– Não quero porque é irritante! Até eu enchia o saco quando você ficava de melosidade comigo quando éramos pequenos.

– Mentiraaaa! Você gostava! – Mana apontou para Nea e eles começaram uma pequena discussão sem sentido. Eu os acompanhei sorrindo.

Aquele, certamente, foi um dos melhores episódios daquele meu primeiro ano na casa deles. Após esse ocorrido, minha vida foi tendendo somente a melhorar, mês após mês, ano após ano.

Lembro-me também que, quando eu fizera 10 anos, havia recebido um outro grande presente. Esse, talvez, tivesse sido um dos melhores, após ter sido adotado por Mana.

E ele veio das mãos da Justiça britânica. A cena ainda é bem vívida em minha mente: Mana irrompeu pela porta da frente, surgindo como uma bala até a sala, onde estávamos eu e Nea. Sem mais delongas, veio até mim e abraçou-me muito forte. Retribui, ainda sem entender.

– Allen... Filho... – Ele olhou-me nos olhos, segurando meus ombros. – A partir de agora, você é oficialmente um Walker!

– Pera... Saiu a sentença então?! – Nea levantou-se, quase agarrando Mana.

– Sim! Sim! O Allen é, de fato, nosso filho!

– Jura?! Ouviu isso, Allen?! Ouviu?! – Antes que eu pudesse sequer concordar, Nea havia me pego no colo, agarrando-me muito forte. – Deus, você está pesado... – Comentou baixinho, mas logo Mana nos agarrou também, muito apertado.

– Conseguimos! Conseguimos! Finalmente.

– Você é oficialmente meu sobrinho. Entende isso, Allen?! – Nea olhava-me com encanto, felicidade. – Você é um membro da família. Você é um Walker como nós.

– Quer dizer que...

– Seu nome de registro agora será “Allen Walker”, filho. – Senti Mana beijar minha nuca, afagando meus cabelos. – Agora, não existe ninguém nesse mundo que possa nos separar.

Naquele momento, tudo o que eu conseguia fazer era piscar alucinadamente os olhos, absorvendo as palavras de Mana. Aos poucos, a vista começou a se embaçar e, quando eu menos percebi, já estava chorando, sendo confortado por dois pares de braços adultos carinhosos, em um abraço forte, terno.

A partir daquele dia, eu fiquei convicto de que nada poderia estragar a minha vida.

Mas ela poderia ser mais cruel do que eu imaginava.

Tudo começou em uma tarde qualquer durante a primavera. Eu estava acabando de voltar da escola, agora já com os meus 15 anos.

– Mana? – Chamei-o, após ter entrado em casa, olhando para além do pequeno corredor. Arqueei uma sobrancelha, estranhando o fato de ele não ter aparecido para me recepcionar. – Então, o professor disse que gostaria de marcar uma reunião para resolver aquela questão que você mencionou... – Comecei, adentrando para a sala.

Mas eu simplesmente congelei ao reparar que Mana estava caído próximo à mesa de centro.

– Mana?! – Indaguei, a voz não negando a preocupação, deixando a mochila pelo chão mesmo, para poder socorrê-lo. Tentei levantá-lo, mas ele era mais pesado do que eu imaginava. – Mana, o que aconteceu? Tudo bem com você?

– Allen... Filho... Eu... – Ele falava em um fio de voz, a respiração alterada, parecendo sôfrega.

Senti meu corpo começar a tremer com o desespero que aos poucos me invadia. Ainda tentei deixá-lo apoiado a mim, mas era em vão. Não tinha condições físicas para isso.

– Nea! Nea! – Comecei a chamar por meu tio. – Nea, rápido! O Mana, ele não está bem!

Dos fundos da casa, eu pude ouvir estrondos. Logo os passos se fizeram presentes, seguindo apressados para o local onde estávamos. Quando fitei meu tio, percebi que um medo descomunal tomou posse de sua expressão. Ele ainda respirou por uns 2 segundos antes de cair próximo a nós.

– Mana! Mana, o que foi? O que você está sentindo? – Meu tio pegou-o de meus braços, segurando-o firmemente pelos ombros. – Por Deus, o que você–

– Nea... Eu...

– Não tente falar. Só se preocupe em respirar. Allen – Nea virou-se para mim, o olhar incisivo. – Pegue as chaves do carro e vá abrindo-o, rápido.

Só tive tempo de concordar com um aceno, indo fazer o que meu tio pedira o mais depressa o possível. Mal pisquei os olhos e pude ver Nea com Mana nos braços, passando rapidamente pelo corredor da cozinha e seguindo até a porta.

Não sabia que meu tio tinha tanta força até aquele episódio.

Prontamente segui atrás deles, abrindo a porta da frente e destravando o carro. Nea me instruiu a abrir a porta traseira, onde colocou Mana deitado, sempre repetindo que ele deveria concentrar-se somente em tentar respirar o mais fundo que pudesse, soltando o ar em pequenos tossidos.

– Allen, eu vou levá-lo até o pronto-socorro. Você fica aqui. Te ligo assim que possível. – Disparou em um só fôlego, tomando as chaves da minha mão e seguindo ao banco do motorista, após fechar a porta traseira.

Em instante, o barulho do motor sendo acionado. Corri para abrir a pequena porteira e, de pé embaixo, Nea seguiu arrancando com o carro.

Comecei a respirar mais profundo, tentando acalmar os espasmos que meu corpo dava com frequência. A saliva parecia ter secado, ao mesmo que o ar ao redor estava cada vez mais pesado.

– Mana... – Foi tudo o que pude sussurrar, cerrando os punhos com força.

Ainda fiquei longos minutos parado ao lado da porteira. Quando finalmente consegui me acalmar, encostei tudo e voltei para dentro de casa.

E lá eu esperei. Longas e longas horas que pareciam se arrastar. O tic-tac do relógio da cozinha era quase ensurdecedor devido ao enorme silêncio que se espalhava pelos comodos.

A tarde terminou. Preparei uma pequena janta e segui com meus afazeres do colégio, na esperança de me distrair. Acabei dormindo sobre os cadernos e só fui acordar muito tarde, quando senti uma coberta sobre meus ombros e uma mão carinhosa afagando meus cabelos.

– Mana...? – Lembro-me de ter sussurrado, enquanto tentava focar na figura à minha frente. – Nea... – Murmurei, levantando-me lentamente. – Que horas são? E o Mana, onde está?

– Allen... Primeiro de tudo: como você está? Comeu alguma coisa? – Concordei com um aceno. Nea suspirou, os ombros baixos, os olhos meio inchados. – Sente-se no sofá. Eu tenho algo para lhe contar.

Fiz como fora pedido. Nea caminhou pela sala até as portas do quintal, suspirando enquanto olhava para o horizonte escuro além do vidro. Sentia meu coração bater cada vez mais rápido devido a ansiedade que me tomava a espera de suas palavras. Eis que ele começou:

– O Mana... Desde pequeno, ele tem um problema cardíaco. – Outro suspiro pesado por parte dele, meu corpo começando a enrijecer devido a constatação. – A primeira crise foi quando eu tinha uns 5 anos... Lembra-se que ele sempre tomava um remédio? Era o que controlava os sintomas. Mas... – Nea cerrou os punhos, a voz embargada. – Os médicos afirmaram que, cedo ou tarde, ele iria precisar de um transplante, pois só esses remédios não resolveriam o problema.

– Você quer dizer que...

– Chegou a hora. Ele precisa de um coração novo. – Senti que meu tio havia engolido o choro naquele momento. Eu estava em total estado de choque, incapaz de acreditar na situação. – Ele... Será transferido para um hospital em Londres. Ficará em monitoramento constante até que o doador compatível apareça.

– Não há nada que nós...? – Tentei questionar, mas pelo olhar que Nea me lançou, eu desisti.

– Rezar, Allen. Agora nós só podemos rezar. – Ele abaixou-se à minha frente, abraçando-me muito apertado.

Já sentiu todo o seu chão desmoronar embaixo dos seus pés? Era exatamente essa a situação em que eu me encontrava após aquela notícia. Os dias que se seguiram foram amargos. A casa parecia muito maior e vazia sem Mana por perto.

Nea, sempre que podia, estava no hospital. Ligava-me com frequência, perguntando se eu precisava de algo. Eu insistia a ele que gostaria de ver Mana, pois as semanas longe dele estavam me corroendo aos poucos. Eu o ouvia suspirar em frustração, dizendo que não podia me levar até ele ainda.

O tempo foi transcorrendo-se. Todos os dias, eu pedia a Deus para que um doador aparecesse; para que ele trouxesse meu pai de volta para mim. Tudo o que eu desejava era ter minha família de volta.

Que nós pudéssemos ter os dias felizes que sempre tivemos.

Mas o buraco parecia ir cada vez mais e mais fundo. Meu tio estava sempre fora e voltava muito tarde, cada vez mais abalado com os problemas que surgiam na burocracia do hospital e os problemas com a fila de transplante.

Eu não queria perder as esperanças. E, quando eu estava começando a me apavorar, uma luz pareceu surgir no fim do túnel.

Era por volta de umas 00h quando Nea me ligou. Sua voz estava totalmente mudada, como se ele tivesse injetado adrenalina no sangue:

– Acharam um doador compatível, Allen!

Só aquela frase bastou para que eu pudesse gritar de empolgação. Finalmente, depois de meses na espera, finalmente a luz no fim do túnel surgira.

– Amanhã eu trarei você para visitar Mana, está bem? – Fora sua última confirmação antes de desligar.

Acredite, eu mal poderia esperar para ver meu pai novamente. Todo aquele tempo longe de sua pessoa estava me corroendo aos poucos. Mas só a menção que eu tive fora suficiente para a energia contaminar-me outra vez.

Acordei eufórico no dia seguinte. Estava pronto antes mesmo de Nea começar a se arrumar. O caminho que fizemos de carro pareceu-me extremamente longo para uma cidade tão próxima.

Só que mais longo ainda fora o tempo de espera para o horário de visita.

– Eu realmente sinto muito por não tê-lo trazido antes, Allen. – Nea dizia, sentado ao meu lado, a cabeça baixa. – Foram tantos problemas que eu precisava resolver... Mana me cobrou horrores também. Eu sinto muitíssimo por isso.

– Tudo bem, Tio. Eu vi pelo que o senhor passou. – Acarinhei seu ombro. Ele levantou a cabeça e sorriu pela minha compressão.

– Senhores Walker? – Uma enfermeira nos chamou. – Podem subir para o quarto do senhor Mana.

Sentia meus dedos formigarem devido a ansiedade. Caminhava até com certo desespero. Assim que Nea abriu a porta, eu não me contive e corri até o leito.

– Mana! – Gritei, abraçando-o. Uma enfermeira ainda pediu silêncio e “mais modos”, mas eu não pude me conter. – Mana, Mana!

– Calma, filho. – Sentia seus dedos em meus cabelos, gentis como sempre, assim como sua voz. – Eu também estava com saudades.

Fitei finalmente seu rosto, percebendo a expressão levemente abatida. Mas aquele sorriso parecia espantar dele qualquer problema que tivesse – fosse ele grave ou não.

Ficamos longos minutos abraçados, até que eu finalmente me endireitei, sentando-me à beira do leito. Nea veio em seguida, abraçando Mana com tanto carinho quanto eu.

– Finalmente conseguimos um doador. Amanhã você estará fazendo o transplante, Mana. – Ele comentou, sentado em uma cadeira próximo a cama.

– Que bom. Isso é uma excelente notícia.

– Você fala isso, mas não parecia nem um pouco abalado com a perspectiva de não acharem um doador a tempo. – Nea retrucou, parecendo incomodado. Mana sorriu ainda mais largo.

– Não tenho do que reclamar, meu caro irmão. Minha vida até hoje foi muito boa. – Mana começara, respirando fundo. – Tive pais maravilhosos que sempre olharam por mim. Um irmão fantástico que, apesar de implicar, sempre cuidou muito bem de mim... – Virou-se para a minha figura, acariciando meu rosto. – E, também, fui agraciado com um filho espetacular. Não tenho absolutamente nada do que me queixar, em todos esses anos de vida.

– Pare de falar como se fosse um velho! – Nea advertira, sorrindo pequeno.

Nossa conversa depois seguiu com algo bem ameno. Mana questionou sobre o colégio, sobre minha rotina, se havia me alimentado direito, dentre outras coisas. Respondi tudo com muito gosto.

Aqueles momentos me foram tão preciosos, que eu mal pude ver que o horário de visita havia terminado. Só percebi, realmente, porque a enfermeira veio nos alertar.

– Eu preciso ir agora, Mana. – Eu disse, sorrindo para ele. Abracei-o forte. – Te vejo em breve.

– Filho... – Ele me segurou no abraço, apertando minhas costas. Beijou meus cabelos, afagando-os. Quando desencostei de seu peito, ele pegou em meu rosto, fitando-me intensamente com aqueles olhos chocolates. – Eu te amo muito. Lembre-se sempre disso. Eu tenho muito orgulho de você.

Senti meus olhos marejarem de leve, mas eu pude sorrir. Tão largo que sentia que meu sorriso sairia de meu rosto.

– Eu também te amo muito, Pai. Por tudo que você me fez até hoje. – Abracei-o pelo pescoço, bem apertado. – Obrigado.

A enfermeira insistiu e eu o soltei. Antes de sair, dei uma última olhada para trás. A maca de Mana ficava bem de frente para uma enorme janela; a luz que entrava por ela marcava toda a sua silhueta, deixando-a iluminada. E aquele sorriso dele parecia reluzir mil vezes mais. Ele acenava alegremente para mim.

Dei meia volta, feliz como a meses não me sentia.

O que eu não sabia, era que aquela seria a última vez que eu o veria com vida.

Notas finais
Foram dois longos anos. Dois longos anos em que eu tive sérias dificuldades em colocar ela no papel. Problemas em casa, problemas com a vida, afastamento do fandom... Foram tantos fatores e, acima de todos eles, o medo de não conseguir mais escrevê-la com a intensidade que eu a escrevi até então. Minha única saída havia sido, de fato, o hiatus. Acredito que esse era o tempo que eu precisava para amadurecer o suficiente e dar continuidade a So como ela merecia. Essa é a explicação que eu tenho para tanto tempo sem nenhuma atualização. Mas agora, ela não parará mais! Não até que eu tenha escrito tudo o que havia planejado. Sinto muito por faze-los esperarem por tanto tempo. Espero que tenham aproveitado o capítulo ao máximo e que ele ainda esteja no mesmo nível do resto da história!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.