Notas iniciais
Só pra avisar mesmo... Tem MUITA linguagem imprópria. Então, preparem-se! Mais notas ao final do capítulo.

Conviver com o Kanda era difícil.

Para não dizer impossível.

Isso porque aquele japonês, além de um maldito, era um mulherengo desgraçado.

E, bom, ele gostava de transar com as garotas no meu apartamento.

Ou deveria dizer nosso apartamento?

– Cahém. – Pigarreei bem forte, só para chamar a atenção do casalzinho que estava se esfregando na porta do quarto.

Precisamente, para chamar a atenção de certo japonês moreno que estava amassando a pobre garota contra a porta do quarto.

Quando notou minha presença, Kanda virou a cabeça, encarando-me com aquele olhar de quem diz “eu vou te matar por ter me interrompido”. Arqueei uma sobrancelha, os braços cruzados, dando pouca importância para a ameaça visual dele.

Só sentia um pouco de pena da garota, coitada. Ela queria sumir da minha vista, escondendo-se atrás do corpo do moreno, totalmente envergonhada.

Não a culpava por essa situação.

– Desembucha logo o que você quer, feijão maldito! – Ele rosnou, mais irritado do que eu imaginei.

AAAh, aí vamos nós.

– Primeiro, meu nome não é “feijão”. Segundo... – Suspirei, relaxando os músculos dos ombros. – Assim, pouco me importa com quem você transa ou deixa de transar. Também pouco me importa a forma como você faz isso... – Ele arqueou ambas as sobrancelhas, descrente do meu discurso. Apoiei as mãos na cintura e conclui: – Mas você bem que poderia tirar o escorpião do bolso e pagar um motel, não acha?

Pronto. Iria ser agredido em três, dois, um...

– COMO É, MALDITO?! – Ele me pegou pela gola da camisa, erguendo-me uns dois centímetros do chão. Não perdi a compostura, pelo contrário: encostei o nariz contra o dele, encarando-o fundo nos olhos, segurando seus pulsos.

– Eu disse pra você tirar o escorpião do bolso e pagar um motel. – Rosnei, conseguindo ver os olhos negros faiscarem, tamanha era a sua raiva diante das minhas palavras.

Ele iria dar um soco bem no meio da minha fuça, não fosse a garota se pronunciar, aflita:

– De-deixa Kanda! A gente se vê outra hora. – Disse, ajeitando a blusa e passando por nós. No mesmo instante o japonês me largou, indo até ela.

– Ei, ei, ei, não precisa se incomodar com ele não! – Kanda disse, pegando-a pelo pulso. A garota me fitou, depois fitou o moreno de novo.

– Não é isso, só não quero que arranje briga por minha culpa... A gente pode se encontrar outra hora, não tem problema! – Pela forma como ela falava, dava para ver que estava bem aflita.

O que se seguiu dali eu não ouvi, porque Kanda fez questão de baixar tanto o tom de voz que só com muita concentração alguém entenderia. E, no momento, eu não estava nem um pouco a fim de me concentrar, principalmente na conversa dos dois.

A conclusão seguiu-se com um olhar fulminante dele para mim e, logo depois, os dois saindo do apartamento, provavelmente indo para um motel.

Suspirei pesadamente, passando a mão pelos cabelos, colocando-os para trás. No mesmo segundo eles voltaram à posição anterior, mas aquilo me serviu para acalmar os nervos.

Verdade seja dita, eu importava-me sim com quem ele transava. E onde transava.

Para ser bem sincero, o que mais me incomodava era que ele transava com qualquer uma, menos comigo.

– Ah, claro Allen. Como se o japonês mais popular da faculdade fosse largar as popozudas pra vir comer sua bunda. Grande garoto. – Bati com a mão na testa, indo para a cozinha preparar um café bem forte.

Fazia três anos que eu havia começado o curso de medicina. No mesmo ano, juntei um dinheiro e resolvi alugar um apartamento. Foi quando eu o conheci.

Assim que meus olhos caíram sobre aquele corpo trabalhado, os longos e lisos cabelos negros e aquele rosto com traços orientais, meu coração parou de andar no ritmo.

Estávamos cogitando o mesmo local, só que o aluguel era muito alto para que pagássemos separadamente. Numa conversa qualquer, sabe Deus por que, decidimos por dividir o lugar, cada um pagando metade. A quantia serviria muito bem em nossos bolsos.

E... Pronto! Eu tinha acabado de me foder completamente. No instante em que disse “aceito” para a proposta.

No início, pensei que seria vantajoso, afinal eu estaria morando com o cara quem estava paquerando. Só que não bastou uma, uma maldita semana, pra eu descobrir que o desgraçado era mulherengo.

Quis me matar no mesmo instante.

Aliás, fiquei uns três dias cogitando suicídio quando me olhava no espelho de manhã.

Mas tá, eu resolvi aguentar firmemente. Quem sabe ele não me daria bola, se eu jogasse as cartas certinhas na mesa?

Pff, piada. Era mais fácil eu arranjar uma garota para mim do que ele me dar bola. O infeliz arranjava uma parceira por semana, era impressionante.

E o mais legal de tudo: ele transava com elas em casa.

Imaginem se eu não quis pegar a faca da cozinha e enfiar na jugular.

Nem sei como eu aguentei três malditos anos convivendo sob o mesmo teto.

– Eu sou muito burro, só pode. – Sentei-me à mesinha redonda da cozinha, xícara na mão e tão logo comecei a tomar o café.

Talvez eu tivesse uma esperança mínima de que ele olhasse pra mim, por mais impossível que isso parecesse.

Ou então eu era mais burro do que imaginava.

Após tomar o café, voltei para a sala, reparando que a garota havia esquecido a bolsa em cima da mesa de centro.

Olhei para os dois lados, como quem procurava ver se estava seguro e, assim que constatei estar limpo, voei até a bolsa dela, abrindo e procurando a identidade.

– Evangeline. – Cantarolei, arqueando as sobrancelhas. – Puta, o Kanda tem um dom pra conseguir menina com nome complicado. E todas ocidentais. – Coloquei os documentos de volta na bolsa, fechando-a. Era só isso que queria saber, mesmo.

Se o maldito só pegava ocidental, por que não me pegava logo? Eu vivia no mesmo teto, cacete!

– Mais fácil o Kanda cortar as próprias bolas do que pegar um homem. – Puxei de leve meus cabelos, suspirando.

Tá. Eu ia ficar louco se continuasse dentro daquele apartamento até o japonês xarope voltar.

Peguei a mochila que havia largado na porta, indo colocá-la no meu quarto. Ele ficava no fim de um pequeno corredor, o qual se formava com a parede da cozinha e do quarto do Kanda. Abri a porta e atirei a mala sobre a cama.

Fucei nela só para pegar a carteira, depois fui até o armário e busquei uma jaqueta preta. Fechei tudo e saí rapidinho dali, pegando as chaves do apartamento e trancando-o.

xxx

– Então...? – A chinesa me perguntou, enquanto colocava sobre a mesa de centro uma bandeja com duas xícaras de louça com chá. – Pronto. No estilo inglês, pra você matar as saudades de casa.

– Valeu Lena. – Desencostei a cara da mesinha, só para pegar a xícara com cuidado, sentir aquele doce aroma e, por fim, degustá-lo.

Se tinha algo que a Lenalee sabia fazer, era um bom chá inglês. Dava-me até arrepios de tão parecido que era.

– E aí? O que você fez dessa vez? – Ela perguntou, apoiando ambos os cotovelos na mesa, o queixo indo até as mãos. – Pois para você ter vindo aqui sem ligar antes, foi porque aprontou algo com o Kanda.

– Ah, nada demais. – Coloquei a xícara sobre o pratinho, olhando para ela. – Eu o mandei tirar o escorpião do bolso e pagar um motel. – Sorri que nem idiota, vendo a morena fazer caras e bocas. – Oh sim! A menina estava com ele.

– Meu Deus! Ele vai te matar! – Ela puxou os próprios cabelos, parecendo desesperada. – Como você me fala uma coisa dessas, Allen?!

– Sei lá. Acho que quero morrer mesmo. – Joguei a cabeça contra a mesinha, um som oco saindo dela quando minha testa bateu na madeira. – Lenalee, o que eu faço?! – Baguncei os cabelos, totalmente desesperado.

– Comece a preparar o velório, porque eu acho que ele vai realmente te matar quando voltar. – Ouvi-a pegar a xícara, degustando do chá que havia preparado.

– Matar nada! Depois do sexo o bicho acalma. – Levantei e fui terminar o chá, ela rindo provavelmente pelo vermelho enorme que eu deveria ter na testa.

– Impressionante mesmo é que você conhece cada detalhe dele, Allen. – Colocou a xícara vazia sobre o pratinho. Imitei-a, suspirando, cansado. – Você tem uma paciência enorme, pra aguentar essa situação por três longos anos.

– Fala logo que eu sou burro, Lena. É mais digno. – Ela levou as mãos até meu rosto, puxando minhas bochechas, mexendo-as de um lado pro outro.

– Burro o caramba! – Largou meu rosto, bufando, colocando ambas as mãos na cintura. – É paciente! Se fosse assim, eu e o Lavi seríamos burros também, porque ficamos quase um ano em um vai-não-vai desgraçado.

– A história de vocês é diferente! – Ela veio sentar-se ao meu lado, passando os braços pelos meus ombros, a testa encostando na minha têmpora.

– Diferente uma ova! Ele ficou com um monte de gente nesse tempo em que nós ficamos analisando terreno. – Ela suspirou. – Eu sei como você se sente. Eu também ficava louca quando o via com outras.

– Vocês não viviam sobre o mesmo teto. – Revirei os olhos. Ela bufou.

– Mero detalhe.

– Mero detalhe, Lenalee?! – Exasperei, olhando pra ela. Foi quando eu me toquei que estávamos próximos demais. – Oe, o Lavi não sente ciúmes de você assim comigo não?

Ela desatou a rir. Mas riu tanto, tanto, tanto que caiu pra trás, rolando no chão.

– Ai, Allen! – Ela se recompôs após uns cinco minutos, limpando as lágrimas do canto dos olhos. – É mais fácil eu virar homem do que você!

– Ha. Ha. Ha. Muito engraçado. – Cruzei os braços. A morena riu de levinho, depois apoiou as mãos nos meus ombros.

– Eu estou mentindo? Aliás, eu quase te vejo como irmã, sabia?

– “Irmã”?

– É bobinho! Tá longe ainda pra ser “irmão”! – Dei um tapa no ombro dela, mas ela riu mais ainda, que nem tonta.

Ai Deus, esses amigos que eu tenho.

– Vamos mudar de assunto! – Revirei os olhos, vendo que ela não pararia de me provocar tão cedo.

– E vamos falar do quê? Essa semana não tem fofoca nenhuma pra contar!

– O quê?! O colégio tá quieto, é? – Exasperei, indignado.

Lenalee era um poço de informações confidenciais da vida pessoal da galera da faculdade. Eram impressionantes as peripécias que vinham parar em seus ouvidos.

E eu, como bom melhor amigo, sabia de todas elas em primeira mão.

– Por incrível que pareça! A galera aquietou os ânimos um pouco. Mas não duvido que isso dure duas semanas. – Ela começou a tirar as xícaras da mesa, levando-as para a cozinha junto da bandeja.

– Na pior das hipóteses, a gente sempre pode falar da bunda do Lavi. – Sugeri, rindo.

– Eu ouvi isso, Walker! – Pulei para frente quando a voz grave, porém divertida, do ruivo chegou aos meus ouvidos.

Foi então que eu vi o Lavi em pessoa descendo as escadas, todo arrumado. Só então me lembrei de que Lenalee também estava arrumada.

– Vão sair? – Perguntei o óbvio, mas nenhum deles se preocupou em ironizar. Ao contrário, me responderam até animados.

– Vamos pra um barzinho. Não quer ir com a gente não? – Lenalee convidou. Arregalei os olhos.

– Mas não é um encontro ou algo assim?

– Que encontro, rapaz. É só para descontrair, mesmo. – O ruivo estendeu a mão pra mim, ajudando-me a levantar. – Se quiser ir, vai ser super bem-vindo.

– E iria ser ótimo para você tirar os problemas da cabeça. – A chinesa veio da cozinha, direto na minha direção e, quando estava próxima o suficiente, deu um peteleco na minha testa. – Anda, vamos.

– Tá, mas eu vou assim mesmo. Nem quero arriscar voltar pra casa e me trocar.

– Que nada, está excelente assim. – Ela deu uma arrumada no meu casaco. – Além do mais, ninguém garante que você não vá voltar com uma faca na jugular se entrar em casa agora.

– Haha, muito engraçada você. – Debochei. Ela revirou os olhos. Lavi só riu do nosso lado.

Apenas esperei-os apagarem tudo e, sem demoras, nós saímos.

Se o Kanda podia se divertir, por que eu também não?

xxx

Bar, som alto e luzes. Aquilo era uma boate.

Nada mais adequado para uma sexta-feira à noite. Principalmente quando se estava cheio dos problemas feito eu.

Não havia companhia melhor do que uma boa bebida e um lugar barulhento para se esquecer das coisas.

Nesse exato momento eu estava muito bem acompanhado de um copo de whisky com limão, sentado ao balcão, só aproveitando o lugar. Tinha dado uma golada quando Lenalee veio, sentando-se no banquinho ao meu lado.

– Vê se não enche a cara! – Ela puxou minha orelha de leve. Bufei, revirando os olhos.

– Vai dar uma de minha “mãe” agora? – Olhei feio pra ela. A chinesa devolveu o olhar.

– Vou! Você fica insuportável quando tá bêbado. – Fiz uma expressão indignada. Ela não riu. – Sério! Não tô a fim de te levar para casa quase em coma alcoólico.

– Eu não vou entrar em coma alcoólico! – Pestanejei, dando outra golada e terminando o copo de whisky.

Para! Eu sabia beber, não era a primeira e nem seria a última vez que eu faria isso.

Lavi chegou no meio da discussão, sentando-se do meu outro lado, chamando o barman e pedindo algo que eu não consegui ouvir.

– Qual a boa? – Perguntou animado.

– Sua namorada tá reclamando porque eu tô bebendo. – Apontei Lenalee com os olhos. Lavi fez alguns gestos pra ela, ela devolveu com outros e eu entendi foi porra nenhuma.

– Pô, Le. Deixa ele! O Allen não vai abusar não. – O barman chegou com a bebida dele. – Ah, faz um pro moço aqui do lado também. Por minha conta. – O Barman assentiu e foi preparar a bebida.

– O que você pediu? – Perguntei. Lenalee bateu com a mão na testa, não acreditando que ele estava me incentivando.

– Um treco que tu vai amar. – Lavi deu um tapinha nas minhas costas. A chinesa cedeu também e pediu uma bebida para a barwoman que passou por ela.

– Tá bom, vocês bebem. Mas se algum de vocês começar a passar mal, eu não vou socorrer. – Era mentira, ela ia nos socorrer, mas não estava a fim de ser contrariada.

E muito menos nós estávamos a fim de contrariá-la.

– Ô Allen, tem umas garotas muito gatas aqui. Por que você não aproveita e arranja uma pra ficar? – Lavi me deu um cutucão no ombro, rindo de brincadeira. Revirei os olhos, vendo o barman me entregar a bebida que o ruivo havia pedido antes.

– Lavi, amigo, eu não curto um par de melões roçando no meu peito. Eu gosto é de colocar a coxa no meio das pernas de alguém e sentir aquilo endurecer. Sacou? – Dei uma piscadela pra ele e poderia jurar que ele se arrepiou, mas não foi de excitação.

– Ai, tá bom cara, eu respeito o seu gosto, mas prefiro não ter detalhes. – Ele virou o copo que estava com ele, fazendo-me arregalar os olhos. – Não sei se aqui você vai achar alguém que curte, mas pelo menos valeu o passeio, né?

– Só a bebida já vale. – Dei uma golada na minha, adorando o sabor. – Que bebida é essa?

– Leite de Onça. Vodka, leite de coco e leite condensado. Show, né? – Assenti, terminando de tomar.

Aquilo me deu um calor que só Deus para explicar.

Queria ver me virar com tudo aquilo depois.

Leves e delicados dedos cutucaram meu ombro. Olhei para o lado e percebi a Lena com um sorriso bailando no rosto, quase encantada.

– Né, Allen. Não surta, mas tem um cara mó gato olhando pra você. – Ela apontou com a cabeça e eu virei levemente o rosto, só pra olhar quem era.

E, bem como ela disse, ele era um gato. Alto, longos cabelos escuros, meio enrolados, a pele meio morena, olhos tão castanhos que chegavam quase a ser amarelos, brilhantes na pouca luz do lugar. Sorri de canto, encantado com a imagem que vira.

Como se não bastasse isso, ele sorriu de volta, parecendo muito interessado.

– Vou dar um empurrãozinho. – Lenalee sussurrou bem perto de mim, dando uns tapinhas no meu ombro. Logo em seguida, mudou de cadeira, indo sentar-se ao lado de Lavi.

Pedi outra bebida para o barman, dessa vez Martini e, enquanto ele me servia, o gatão de cabelos escuros veio sentar-se ao meu lado. Seus lábios chegaram bem próximos da minha orelha, o hálito quente dele me fazendo arrepiar quando falou:

– Não tá acompanhado?

– Não. – Respondi, o sorriso começando a bailar nos meus lábios.

– Opa, que bom. – Fez um sinal para o barman, pedindo alguma coisa. – Pensei que a princesa ali estava com você.

– Só conhecida. – Virei um pouco de lado, para poder encarar melhor sua figura. Ele tinha um corpo bem esbelto e o sorriso em seu rosto era convidativo. – Você...?

– Passagem. – A bebida dele chegou e ambos demos uma golada, deixando os copos sobre o balcão. – Sabe, de longe você é uma graça, mas de perto... – Ele se aproximou do meu rosto, olhando fundo dentro das minhas íris. – É extremamente tentador. Pedacinho de pecado.

– Encantado com o elogio. – Sorri malicioso, analisando ele mais uma vez da cabeça aos pés. – Você também é um pedaço de mau caminho.

– Então... Que tal eu te mostrar aonde leva esse “mau caminho”? – Apontou para um canto escuro com a cabeça e eu logo senti todo o meu corpo arrepiar com a perspectiva.

Não era um compromisso. Só uns pegas avulsos. Que mal faria?

Quando saí com o rapaz dali, ainda tive tempo de ver Lavi e Lenalee fazerem sinal positivo pra mim. Acenei bem de leve com a cabeça, o sorriso falando mais do que o gesto.

Mal chegamos ao cantinho escuro, a primeira coisa que ele fizera fora me jogar contra a parede, prensando seu corpo contra o meu. Começamos a trocar um beijo ardente, cheio de sensualidade, à medida que nossas mãos iam explorando os peitos, por cima das roupas, amassando-as.

Ele colou os quadris com os meus, a boca descendo por meu pescoço, as mãos subindo pelos lados do meu corpo, levando a blusa junto. Agarrei seus cabelos, adorando a forma como meus dedos afundaram nos fios longos, a sedosa textura tocando a ponta deles.

O rapaz voltou a me beijar com ânsia, sua coxa vindo de encontro ao meio das minhas pernas, pressionando meu membro semi-desperto, um arrepio gostoso percorrendo minhas costas. Agarrei-me nos seus ombros, deixando que ele me levantasse um pouco pelo quadril, seu corpo me prensando tanto que eu pensava que atravessaria a parede.

Foi então que veio, do fundo da minha mente, uma pontada de culpa, quando ela gritou alucinadamente o nome de Kanda.

Culpa por estar fazendo isso com outro. Culpa por desejar ser ele quem me tocasse.

Meu tesão desapareceu na hora.

Empurrei o rapaz, não muito forte, mas o suficiente pra ele descolar de mim.

– O que aconteceu? Muito rápido? – Ele perguntou, os dedos passando levemente pelo meu rosto.

– Não... É que... Eu não deveria estar fazendo isso. – Disse, não sabendo como explicar. Sentia um gosto amargo na boca, um peso enorme na consciência.

– Você tem alguém? – O rapaz provavelmente deduziu pelos meus olhos.

– Mais ou menos. É um caso enrolado. – Cocei a nuca.

– Tudo bem. – Ele ainda roubou um beijo dos meus lábios, passando a mão pela minha bunda, onde eu o senti deixar algo no meu bolso. – Depois que desenrolar, me liga. – Piscou e se afastou com um sorriso divertido no rosto.

Quando ele se perdeu na multidão da pista, eu fui ver o que deixara no meu bolso. Era um cartão com seu nome e telefone, provavelmente algo que ele usava na empresa onde trabalhava.

– Muito esperto... Tyki. – Sussurrei, arqueando as sobrancelhas quando li o nome no cartão. Guardei-o novamente no bolso, dirigindo-me até o balcão, onde estava anteriormente.

Só que, por alguma razão, eu me sentia acabado. Como se o mundo resolvesse cair sobre as minhas costas.

Pra melhorar, quando eu cheguei lá, consegui pegar a Lena e o Lavi bem no flagra. Ela estava no colo dele, os dois se beijando apaixonadamente. Não queria interromper, mas o próprio Lavi – depois que abriu os olhos – deu uns tapinhas desesperados nos ombros da Lenalee, fazendo ela desgrudar dele.

– Que foi, diabo?! – Ela perguntou, irritada.

– O Allen, mulher! – Ele apontou pra mim e ela se virou, tapando a boca na mesma hora, assustada.

– Allen! Voltou rápido! – Eu ri mais do desespero deles do que de qualquer outra coisa. – O que foi? Não deu certo?

– Não. – Sentei-me ao balcão e não dei dois segundos para socar a cabeça nele, fazendo um som oco que assustou quem estava em volta. – Eu sou idiota.

– O quê?! Por quê? – Lenalee veio ao meu “socorro”, parecendo preocupada.

Ela sabia que eu não dispensaria um partido daqueles à toa.

– Estou com a consciência pesada. Pode isso? – Sentia que iria chorar. Será que era o efeito da bebida antecipado?

– Não, não pode! Quero dizer, pode! Arg! – Ela bateu na mesa, parecendo frustrada. – Não deveria! – Suspirou ao olhar para mim.

– Vou pra casa. – Anunciei após levantar a cabeça. Fiz um gesto para o barman, paguei o que deveria e levantei.

– Se quiser, eu te levo até lá. – Lavi ofereceu. Neguei com um aceno de mão.

– Relaxa, Lavi. Curtam vocês. Eu vou deitar e dormir que ganho mais.

Saí de lá sob olhares desapontados do casal. Coloquei as mãos no bolso assim que deixei a boate, o ventinho frio da madrugada cortando levemente o meu rosto.

Eu ainda me perguntava o quão idiota eu conseguia ser.

xxx

Tudo que eu queria naquele momento era rodar a chave, entrar no apartamento e seguir um caminho reto até a minha cama, onde pretendia cair e dormir.

Ou, quem sabe, afogar-me em algumas mágoas antes de pegar no sono.

Só que essa doce perspectiva foi-se embora assim que abri a porta e me deparei com uma jovem moça só de lingerie passando pela minha sala, provavelmente indo para a cozinha.

O olhar que trocamos foi tão surpreso que eu não saberia dizer qual de nós dois estava mais indignado com a situação.

Tentei quebrar o gelo com um sorriso, mas ele saiu forçado demais, o que fez a moça sentir-se ainda mais desconfortável com a situação.

– Err... Se você quiser, tem café na caneca térmica. E alguns frios na geladeira. – Ofereci. Ela não me dirigiu a palavra e só então eu pude perceber que ela estava corada. – Não se incomode comigo, tá? – Fechei a porta atrás de mim, trancando-a.

A jovem continuou rumo à cozinha, provavelmente para sair da minha vista. Já eu tive os planos totalmente mudados graças a um certo japonês que teima em ficar fazendo as coisas todas erradas.

Parecia de propósito, não era possível.

– Oe, Kanda! Kanda! – Gritei à porta do quarto, mas nenhuma resposta veio. Eu poderia ser educado e bater levemente, só que no momento eu não estava a fim, então dei uma bica mesmo, e bem forte, para ver se o jumento acordava. – Japonês desgraçado, acorda de uma vez!

Não deu dois segundos para ele abrir a porta e, se fosse em outra ocasião, acho que eu teria sofrido um ataque, porque ele estava só de cueca, exibindo todo aquele lindo corpo só para mim.

E nem aquela cara de demônio oriental dele conseguia quebrar a linda imagem que seu corpo formava aos meus olhos.

Só que eu realmente não estava com cabeça para ficar admirando, porque minha raiva estava além dos limites aceitáveis.

– O que foi?! Já não bastou me irritar mais cedo? – Perguntou, ríspido como sempre.

– Não estava te irritando. Estava sendo sincero. – Cruzei os braços, fechando a expressão. – E quando eu disse pra tirar o escorpião do bolso, era pra tirar dos dois bolsos, tá?

– Olha aqui seu filho duma...

– Não xingue minha mãe!

– Vá se foder! Você fica torrando meu saco, deveria era agradecer por eu não xingar toda a sua geração!

Pronto, nós nos pegamos pelo colarinho em plena madrugada. Eu estava meio bêbado, ele provavelmente esgotado por conta do sexo, mas mesmo assim, ainda arranjamos forças pra manter aquela briguinha por alguns momentos.

E, novamente, fui salvo de tomar uns tapas pela acompanhante dele, que nós nem havíamos percebido ter entrado no quarto e se trocado; reparamos somente quando ela passou como um furacão, indo para a porta.

– Ei, Rosangela! – Porra, outro nome complicado. Queria morrer com aquilo. – Não precisa ir embora! Ignora o que o idiota de cabelo branco diz.

– Mas ele está certo, Kanda! – Agora até eu fiquei surpreso. Alguém concorda comigo, então? – Eu arrastei você pra cá. Nem sabia que você dividia o apartamento... – Oh, que legal, ele sequer contava isso pras pessoas.

– Mas Ro! Olha a hora, você não pode voltar agora. É perigoso! – Ele a pegou pelos ombros, genuinamente preocupado. Surpreendia-me ver que ele se importava, pelo menos.

– Deixa Kanda, eu tenho dinheiro, pego um táxi. Não dá nada. – Ela se desvencilhou dele, indo para a porta. – Depois eu te ligo, tá? – Ela mesmo a abriu e encostou depois.

Eu só fiquei olhando, encostado à parede e de braços cruzados. Apertei os olhos depois de ouvir o som gerado por um murro que Kanda deu na porta.

Provavelmente, ele o teria dado na minha fuça, caso tudo isso não houvesse acontecido.

Novamente salvo pela rival. Uhul.

O moreno se virou, as íris negras sempre banhadas naquela irritação tão corriqueira que, eu podia jurar, era direcionada só para mim.

– Qual o seu problema? – Pestanejou, indignado. – Primeiro foi com a Evangeline, agora com a Rosangela! Você tem problemas com garotas, por um acaso?

– Não tenho problema nenhum com elas. – Desencostei da parede onde estava, descruzando os braços. – Só que não é nada agradável eu chegar em casa e pegar uma menina de lingerie, não concorda?

– Ah, pelo amor de Deus! – Ele bateu com a mão na própria testa e eu não conseguia crer que ele achava a situação normal, para ficar tão indignado com a minha reação. – Você também transa, não é mesmo? Duvido que você pague motel toda vez que vai fazer isso!

– Eu não pago! Mas não faço na casa de ninguém, também.

– Faz onde então? No meio da rua?!

– Não te interessa onde eu faço sexo, Kanda! O que interessa aqui é esse seu mau hábito desgraçado de transar toda semana com uma no apartamento! – Dei um soco na parede, frustrado.

– Juro que não sei qual a sua implicância. – Ele passou a mão pelos cabelos, depois a levou aos olhos, esfregando-os de leve. – O quê? Você queria alguma delas? Ou será que queria ser você no lugar delas, transando comigo?

Ah, eu não ouvi aquilo.

Ouvi?

– O quê... O que você disse? – Perguntei, descrente.

– Eu perguntei se queria ser você no lugar delas! Porque, puta que pariu, não é possível uma pessoa ser tão implicante assim!

Preferia que ele não tivesse confirmado a frase.

Eu sei lá o que deu em mim naquele momento. Não sei se foi por culpa dele, por culpa da bebida, do cansaço...

Da maldita espera de três anos por qualquer sinal que fosse.

A única coisa que eu sei foi que, no segundo em que minha mente voltou a funcionar, eu já o havia prensado contra a porta, meus lábios pressionados contra os dele.

Kanda não esboçou reação alguma, a princípio. Seus olhos estavam arregalados, como se não quisesse acreditar no que acontecia bem ali, à sua frente.

Ele só foi reagir quando eu passei a língua por seus lábios, pedindo passagem para entrar.

Pensava que, se uma situação como essa ocorresse antes, ele me daria um soco. Só que não foi isso que aconteceu.

Ele me deu um tapa. Um tapa no qual eu pude sentir todos os seus cinco dedos marcando minha bochecha.

Dei uns dois passos para trás, a mão onde ele havia batido. Olhei para ele e o vi com a mão sobre os lábios, os olhos ainda arregalados, incrédulos.

Naquele momento, o que eu vi em seus olhos negros era um sentimento que eu não pensava, nunca na vida, ter direcionado para mim.

Era nojo.

Kanda estava... Com nojo.

Baixei a cabeça, apertando os dedos em volta da minha bochecha. Não consegui conter as lágrimas que começavam a escorrer dos meus olhos.

Tudo estava transbordando. Todos aqueles sentimentos, contidos durante três anos.

Três malditos e tortuosos anos.

– He. – Dei uma risadinha descrente. Era tanta coisa passando pela minha cabeça que eu estava a um ponto de perder todos os parafusos que me restavam. – Que ironia, não acha?

Levantei o rosto, só para vê-lo olhando para mim. Seus olhos negros atravessaram os meus, só que agora eles estavam... Vazios.

Ele não estava sentindo nada por mim naquele momento.

Sorri, talvez o sorriso mais genuíno que tenha dado nesses últimos anos no qual convivi com ele.

– Eu queria realmente estar no lugar delas.

Incredulidade.

Indignação.

Espanto.

Receio.

Tudo isso eu vi passar pelos seus olhos à medida que ele absorvia minhas palavras. Eu continuei chorando e chorando, incapaz de parar.

Bastava. Já havia passado do meu limite.

– Sai da frente. – Disse. Ele pareceu não entender. – SAI DA FRENTE DA PORTA! – Gritei e, no mesmo segundo, ele foi para o lado.

Não esperei mais nada, só peguei as chaves e saí, deixando a porta aberta mesmo.

Ao menos, eu fiz o que deveria ser feito.

Desapareci de lá sem olhar para trás.


Notas finais
Vocês vão me perdoar, minhas cantadas são HORRÍVEIS mesmo, então não me xinguem, por favor. (。・_・。) Eu sou do século passado OTL
Assim, eu adoraria ouvir a opinião SINCERA de vocês sobre tudo na história: a forma como o tema foi abordado, a narrativa, a personalidade deles, a relação entre eles... Enfim, tudo que os agradou ou deixou de agradar. Então, por favor, deixem uma review, por mais que doa o coração. Eu preciso realmente delas! Obrigada por ler até aqui!