So Close That I Cant Breath
2 But not for me
Notas iniciais
E, óbvio, todos os créditos da betagem para a MelKeigo ♥ Otsukaresama, Mel! Você é um anjo por me aguentar por seis horas UASHUDAHSDHSAU E um viva para "A bandeja entrou no quarto (trazendo consigo uma chinesa)" (y~
– Oi, cara! – A voz grave do ruivo soou meio insegura à medida que ele entrava no quarto. – Como você está... MEU DEUS DO CÉU! – Eu até sabia o porquê da sua surpresa: eu havia levantado o rosto.
Tinha se passado uma semana desde o incidente no meu apartamento. De lá para cá, a única coisa que eu conseguia fazer com eficiência era chorar, isso sem contar nas noites de sono perdido. As consequências podiam ser notadas apenas olhando para a minha figura: grandes olheiras, olhos vermelhos, o rosto pálido e abatido devido às refeições que deixei de fazer.
O espanto dele era plausível. Eu estava quase como um quadro pintado a óleo de algum daqueles artistas famosos, retratando o estado mais deplorável de uma pessoa viva.
Isso porque eu ainda nem havia aberto a boca. Queria só ver quando ele ouvisse minha voz rouca.
– Cara... A Lena me disse que ele te deu um tapa, não uma surra. – Quis rir, mas não tinha voz nem pra isso. Os olhos verdes de Lavi se arregalaram levemente, mas logo em seguida voltaram ao normal. – Você realmente queria só transar com ele? Porque ninguém fica desse jeito só porque não conseguiu uma foda!
– Isso nem eu sei, Lavi. – Respondi, num fio de voz. O ruivo passou a mão pelos cabelos arrepiados, não sabendo o que dizer.
Confesso, até eu estava com dó daquela minha imagem. Só que eu não podia fazer nada.
Todos os sentimentos contidos durante três anos floresceram de um segundo para outro. Vieram como uma correnteza forte descendo uma montanha.
Era impossível controlar.
A chinesa entrou no quarto, trazendo chá e alguns aperitivos em uma bandeja, a qual deixou sobre o criado-mudo.
Aliás, se não fosse pela Lenalee, talvez eu tivesse morrido de fome já. Ela foi o anjo da minha última semana. Sem sua ajuda, talvez eu sequer tivesse um teto para dormir todos esses dias.
Porque para aquele apartamento eu não voltava.
– Você precisa reagir! – Ela disse, sentando-se ao meu lado na beira da cama. Levou a mão aos meus cabelos, fazendo um cafuné que, para alguém no meu estado, era a melhor coisa do mundo. – Acho que uma semana foi o suficiente para você se lamentar, não acha? Que tal tomar uma atitude?
– Mas ele vai fazer o que, Lena? Voltar lá e encarar o demônio? – Lavi pegou no ponto principal da história. E o silêncio se instalou entre nós.
Durante aqueles dias eu não havia pensado em nada. Doía demais pensar em qualquer coisa que fosse sobre o assunto.
A única certeza que eu tinha era de que meus sentimentos por Kanda tomaram proporções muito maiores do que as que eu estimava. Ele havia deixado de ser só uma “paquera”, uma “paixonite”.
Eu realmente queria algo com ele. Algo além de sexo.
Mas muito provavelmente nem sexo eu conseguiria.
– Eu estava pensando em sair de lá. – Mencionei, após longos minutos naquele constrangedor silêncio. – Pegar minhas coisas e... Achar outro lugar.
– Mas nem se ele te aceitasse de volta?! – Lavi questionou aflito.
– Não sei se suportaria mais tempo do jeito que estávamos. – Fiz um gesto para Lenalee abrir espaço e peguei a bandeja, colocando-a sobre minhas pernas, para degustar do chá e do aperitivo. – E as coisas vão ser diferentes agora, de toda forma. Não sei se o Kanda vai conseguir conviver com uma pessoa que o beijou assim, de repente.
– Isso é verdade...
Novamente o silêncio, só não se tornando tão repreensor pelos barulhos mínimos que eu fazia enquanto comia. Foi quando Lenalee disse:
– Né, Allen, hoje tem aquele show ao vivo de Jazz para o qual a Miranda nos convidou mês passado. Você ainda lembra, não?
– É hoje? – Arregalei os olhos. Havia esquecido completamente.
Miranda, outra amiga nossa, havia conseguido alguns ingressos para um bar fechado que tocava música ao vivo. A apresentação dessa noite seria com o tema “Jazz” e, como sabia que eu gostava, ela logo me ofereceu para acompanhá-la. Lenalee havia se interessado e, como tinha um ticket sobrando, Miranda a convidou também.
– Que horas começa? – Questionei, colocando a bandeja sobre o criado-mudo novamente.
– Às 18h. Termina às 20h.
– Curtinho, não acha? – Lavi disse surpreso.
– Sim! Bom, é outro estilo de bar, né. – Ela coçou a nuca. – É para um pessoal diferente. As pessoas que vão lá costumam ter um gosto muito restrito...
– IIh, gente metida? – Lavi arqueou a sobrancelha.
– Eu diria gente mais fechada. Quase como um nicho. – Foi o que eu respondi, espreguiçando-me. – De toda forma, eu vou. Não posso deixar a Miranda na mão, afinal eu já prometi, não é mesmo?
– Sim! Ah, aliás... – A morena se virou para o ruivo, jogando os braços pelo ombro dele, passando o nariz por sua bochecha. – Lavi, meu amor, será que você consegue arranjar umas roupas pro Allen?
– Tipo o quê?
– Uma blusa branca, uma calça preta social e um colete. É que a galera no bar não aceita qualquer tipo de vestimenta.
– Ué, ele não tem essas roupas não?!
– Tenho. No apartamento. – Sussurrei. Na hora ele entendeu o recado.
– Pode deixar, eu vejo o que posso fazer, tá? – Ele fez um cafuné, bagunçando meus cabelos. E eu pude sorrir.
Naquele momento, qualquer demonstração de afeto era muito bem-vinda.
– Bom, eu vou indo. Passo aqui de novo por volta das 16h pra entregar as roupas pra ele. – Lavi caminhou, parando próximo à porta, junto de Lenalee. Deu um selinho nos lábios da chinesa. – Se cuida, tá? E cuida dele também. – Olhou pra mim, sorrindo como um bobo. – Vê se anima, Allen! Quero você bem para nós irmos às baladas.
Sorri, concordando com um aceno. Os dois saíram do quarto, deixando-me sozinho novamente. Virei-me e deitei a cabeça no travesseiro.
Iria tentar dormir alguns minutos, pelo menos, para ter forças à noite.
Aproveitaria também e tomaria o resto das decisões que me cabiam.
xxx
Eram 17h35min agora. Lavi me trouxe as roupas, como prometido e, nesse exato momento, eu terminava de arrumar o colete na frente do espelho.
Só que o rosto não ajudava nem um pouco.
– Não quer passar algo pra esconder essas olheiras? – Lenalee perguntou, o salto fazendo barulho conforme ela se aproximava.
Ela estava muito bonita naquele vestido preto, os cabeços presos para o alto, os brincos dourados pendurados nas orelhas.
Eu ficava até com vergonha de sair com ela no estado em que me encontrava.
– Ah, deixa Lena. Nem vai adiantar muito mesmo. – Suspirei, esgotado. Nunca pensei que ficaria dessa forma na vida.
Ao menos, não novamente. Só fiquei assim quando meu pai adotivo morrera.
Só que eram outras épocas. Eu era mais novo também. Mas agora eu era um homem formado.
Pensava ser, pelo menos.
– Se anima um pouco, vai. – Ela colocou a mão no topo da minha cabeça e eu sorri, não muito largo, mas pelo menos foi sincero. – A Miranda chega em dez minutinhos. Vê se não atrasa.
– Olha quem fala! Eu já estou pronto. E você?
– Adivinha! – Foi o que ela disse, enquanto corria de volta ao banheiro.
– Vocês mulheres, viu. Mudam de endereço, mas não mudam o jeito.
– Shhh! – Ela ficava louca da vida quando eu falava assim.
Fui sentar-me na sala enquanto esperava Lenalee terminar de se arrumar. Fiquei olhando para o teto branco e, por alguma razão, minha mente estava tão limpa quanto ele.
Talvez eu tivesse relaxado, depois de uma semana revirando um monte de pensamentos. Menos mal.
Tudo o que eu menos queria era ficar chorando no bar.
Quando Lenalee começou a descer as escadas, a campainha tocou. A chinesa apressou o passo para atender à porta.
– Allen, vamos! – Chamou-me e em um segundo eu estava lá.
– Olá, Allen. – Miranda sorriu-me, mas eu pude ver que ela ficou chocada ao ver minha aparência.
– Quanto tempo, Miranda. – Sorri de volta. Miranda sempre fora um luxo de pessoa, na minha opinião. Era a mais velha de nós, mas só alguns anos. Vestia-se sempre muito elegante e requintada, parecendo até uma lady.
Assim que Lenalee trancou a porta, fomos todos para o carro de Miranda. Deixei que a chinesa a acompanhasse no banco da frente. Durante todo o trajeto elas foram conversando, mas eu me mantive recluso ao meu canto, somente vendo a paisagem passar.
Quando chegamos ao tal bar, Miranda deixou o carro para que os manobristas o guardassem. Em posse dos convites, nós entramos. O lugar não era muito grande, deveria ter bem umas 25 mesas somente, todas distribuídas ao redor de um pequeno palco, onde estavam posicionados uma bateria, um piano, um violoncelo e um trompete, além do microfone ao centro, claro.
Dirigimo-nos aos locais marcados. Era uma mesa disposta bem ao centro, num lugar que eu considerei privilegiado. Após nos sentarmos, aos poucos, o local foi enchendo, à medida que o resto dos convidados chegava.
Faltando alguns instantes para iniciar o show, os garçons começaram a passar nas mesas, oferecendo bebidas e anotando pedidos do jantar. As duas meninas ao meu lado conversavam animadas; não era para menos, fazia muito tempo que não se viam.
Miranda, assim como eu, cursava medicina, mas estava adiantada. Já fazia residência e, por vezes, quase não conseguíamos vê-la. Todas as oportunidades eram muito bem aproveitadas. Ela era uma companhia muito agradável de ter.
– Allen, o que achou do lugar? – Ela perguntou, querendo me inserir no assunto.
– Aconchegante. – Sorri de leve. O garçom passou em nossa mesa, oferecendo Martini. Na hora aceitei, não tendo como recusar. – Estou ansioso para o show.
– Eu também! Estou muito emocionada. Aliás, nem tenho como te agradecer, Miranda. – Lenalee parecia uma criança de tão encantada que estava. Ao seu lado, a moça sorriu, satisfeita por ter a sua companhia.
As duas aproveitaram e pediram algo para comer. Pensei em recusar, mas Lena me obrigou a comer algo, por mínimo que fosse, para que não tivesse um colapso. E porque ela detestava ver-me bebendo de estômago vazio.
– Não vou deixar que vire alcoólatra por conta da depressão! – Foi a justificativa dela.
Não iria virar alcoólatra. Apesar de, nas últimas semanas, eu ter abusado da bebida.
Graças a ela, não passei tão mal quanto poderia durante aqueles sete dias.
Quando o show começara, o burburinho que estava no local se desfez. As duas primeiras músicas foram só instrumentais, o som aconchegante que só o Jazz proporcionava penetrou minha alma, quase como se lavasse os meus problemas conforme as notas eram tocadas.
Três, quatro, cinco músicas. O jantar fora servido. Enquanto degustávamos a comida, aconchegávamo-nos na voz terna da cantora, naquela melodia baixa, sem agitação.
Era aquele conforto de que eu precisava naquele momento. Nada para aumentar os ânimos. Somente algo para acalmá-los... Livrar-me deles.
Após o jantar, tocaram mais três músicas e houve um intervalo de dez minutos. Nesse ínterim, Lenalee comentou:
– Você parece bem melhor. Dá para ver pelo seu rosto.
– Sério? – Sorri sem graça. – Eu realmente gosto de Jazz. Desde sempre, ele me acompanhou nesses momentos. Minha alma se lava toda vez que eu escuto uma música assim.
– Vou chamá-lo para outras apresentações, se é assim! – Miranda comentou, sorrindo. O garçom havia acabado de nos servir a Amarula que pedimos minutos antes.
– Ficaria lisonjeado, Miranda.
– Estou feliz. Depois de sete dias, seu astral finalmente deu uma melhorada. Estava sentindo falta desse Allen de bom humor. – Lenalee comentou, dando um gole no licor.
Passados dez minutos, o show prosseguiu. Tocaram-se mais duas músicas que me foram muito agradáveis aos ouvidos. Um pouco no final da segunda, Miranda e Lenalee começaram a sussurrar coisas a toa que eu comecei a prestar atenção e até comentei algo.
Meu bom humor estava voltando aos pouquinhos.
Só que a vida é bem irônica com a gente. E, ao início da última música, tudo mudou.
They’re writing songs of love, but not for me
Ah, aquela música. Tão nostálgica. Eu a ouvi várias e várias vezes, mas... Naquele momento...
A lucky star’s above, but not for me
Ela se encaixava tão bem com a minha situação que era assustador. Apertei de leve o copo que tinha em uma das mãos, o rosto apoiado na outra. Fechei os olhos, absorvendo mais a melodia.
With love to lead the way
I’ve found more clouds of grey.
I was a fool to fall and get that way;
Although I can’t dismiss
The memory of his kiss.
I guess he’s not for me.
A música sequer havia acabado e minhas lágrimas já estavam rolando soltas novamente, silenciosas, acompanhando a melodia. Lenalee percebeu, aflita, mas nada disse. A voz tênue da cantora voltou, tornando a repetir a frase.
They’re writing songs of love, but not for me.
A lucky star’s above, but not for me.
Levantei-me calmamente da cadeira, encostando-a novamente, sem fazer barulho. Caminhei a passos relativamente rápidos, saindo do recinto. Parei à porta do bar, tentando acalmar um pouco a respiração, conter as lágrimas.
Mas tudo era em vão.
Os dedos delicados procuraram por meus ombros. Virei-me e Lenalee me olhava, entristecida.
“Não era para terminar assim”, diziam-me seus olhos. Sorri para eles, por aquela compaixão.
– Deveria ter ficado para o término. – Comentei, voltando a olhar para frente, para a rua além do vidro da porta.
– Acha que eu consigo, vendo meu melhor amigo chorar quando deveria estar se divertindo? – O argumento dela era excelente. Eu ri bem de leve por conta dele.
– É, você está certa.
Ficamos alguns minutos em silêncio, podendo ouvir as palmas dentro do salão de onde estávamos.
– Eu vou pedir para a Miranda me deixar no apartamento. – Falei, depois de enxugar o rosto com um lenço que havia no bolso.
– O que você vai fazer? – A morena perguntou, aflita.
– Arrumar minhas coisas. Vou sair de lá.
– Tem certeza? Assim, sem mais nem menos?
– O que mais eu poderia fazer, Lena? – Olhei para ela, cansado. Não obtive resposta. – Eu poderia até forçar um pouco a barra... Quem sabe eu não conseguia uma transa com isso?
– Endoidou de vez?! – Exasperou, fazendo-me arregalar os olhos. – Olha pra você! O estado em que ficou, sem nem ao menos encostar nele! Acha que vai viver se chegar a ter alguma coisa, mesmo que seja sem compromisso algum?!
– Não sei. – Suspirei. – Mas, pelo menos, eu teria o gostinho.
Ela não me respondeu. Talvez não soubesse como. Ou talvez não quisesse me magoar com a resposta.
Aos poucos as pessoas foram saindo do local. Miranda logo veio ao nosso encontro. Expliquei para ela a situação e a jovem concordou em me deixar no apartamento, para que arrumasse minhas coisas.
– Vocês podem ir depois, ok? Eu faço isso sozinho. – Disse, já dentro do carro de Miranda.
– Tem certeza?! Não vá fazer loucuras, hein! – Advertiu a chinesa. Acenei de leve com a cabeça, concordando que não faria nada.
Eu só queria entrar e olhar uma última vez aquele local em que passei três longos anos. E queria fazer isso sem ninguém ao lado.
xxx
Eu estava parado à frente da porta fazia uns quinze minutos mais ou menos.
Só que aquela sensação de insegurança não passava. Era tão forte que eu chegava a suar frio.
Meu medo era entrar e encontrar ele com outra mulher de novo.
Apesar de a situação não ser novidade, talvez eu não aguentasse ver mais uma vez.
Já estava acabado, ter mais uma decepção daquelas...
Não gostaria nem de pensar no que poderia resultar.
Respirei fundo, tomando coragem e rodando a chave na fechadura, abrindo a porta bem devagar.
Fui olhando dentro do apartamento à medida que abria a porta. Quanto constatei que não havia nada de surpreendente lá, entrei, encostando-a atrás de mim.
O lugar estava num silêncio tão incomum que eu jurava que Kanda não estava em casa.
Mas a minha primeira surpresa foi que, sim, ele estava. Não deu nem cinco segundos para ele aparecer da cozinha, olhando-me com uma expressão pasma, não sei se por eu ter aparecido ali ou por minha aparência física.
A minha segunda surpresa foi que ele estava sozinho.
Eu diria que era quase um milagre.
– Então você apareceu. – Ele disse. Não o respondi. – Onde esteve esse tempo todo? – Caminhei a passos largos, passando por ele e seguindo para o quarto. – O que aconteceu com você pra ficar desse jeito?
Eu já estava ficando irritado. Eram perguntas demais para alguém que não deveria se importar.
Entrei no quarto, sendo seguido por ele. Abri uma das portas do meu guarda-roupa e puxei de lá uma mala, colocando-a aberta no chão. Comecei então a esvaziá-lo, guardando as roupas ali.
– Oe, o que significa isso? – Indagou, mais surpreso do que eu esperava que ele estivesse. Continuei o que estava fazendo, sem sequer mexer os lábios. – Me responda de uma vez!
– Você tem problema de visão? Eu estou guardando minhas roupas. – Respondi grosso, enquanto jogava as peças de qualquer jeito dentro da mala. – Eu vou sair daqui.
– Como é?
– Você é surdo? Eu disse que vou sair daqui! – Gritei e não bastou um segundo para eu sentir os braços dele no meu colarinho, levantando-me e prensando-me contra o armário com força.
– Então é assim?! – Ele usou o mesmo tom de voz que o meu. – Você vem, mexe com a cabeça das pessoas e depois desaparece sem dar explicações, é isso?!
– O que você quer que eu te explique? O que tinha que ser dito, já foi! – Rosnei, sendo prensando de novo contra o armário, com mais força agora, fazendo minhas costas doerem.
– Você me disse uma frase e quer que eu entenda a história toda?! Eu quero motivos, eu quero explicações! – O moreno gritava, apertando mais o meu colarinho.
Estreitei a vista, uma mistura de cansaço e raiva crescendo no meu peito.
– Pra que diabos você quer uma explicação?! Que diferença isso vai fazer na sua vida? NENHUMA! Você vai continuar saindo, vai continuar tendo suas mulheres, vai continuar na mesma ladainha de sempre. Tanto faz eu explicar ou não.
– Olha aqui seu broto de feijão idiota, se eu estou pedindo por explicações, é porque eu acho necessário! Eu quero saber! – Ele me largou, batendo com ambas as mãos na porta do armário atrás de mim. – Eu vivi três malditos anos com você e, do nada, você me beija. Ao menos me dê explicações para isso, seu retardado!
– Aquela frase não foi suficiente?!
– Não!
– Você é mais burro do que eu pensei. – Ele bateu com mais força no armário atrás de mim, provavelmente se segurando para não esmurrar minha cara.
Ficamos uns três minutos naquela posição: ele com os braços apoiados no armário, próximos da minha cabeça, e eu acuado diante sua figura. Não olhava em seus olhos; não queria saber o que se passava por eles.
Um turbilhão de coisas surgia em minha mente naquele instante. E, conforme elas iam surgindo, a vontade de chorar voltava, uma falta de ar estranha se instalava em mim devido à proximidade do seu corpo.
Era tortura, não era? Só podia ser tortura aquilo!
– Você vai me responder ou não? – Kanda perguntou em um tom de voz mais baixo do que eu pensei que ele usaria.
Eu estava cansado. Exausto, para dizer a verdade. Meu coração não poderia doer mais. Meu espírito não poderia clamar por mais misericórdia.
Se era pra foder com tudo mesmo, por que não usar uma última cartada?
– Se você me beijar, eu te falo. – Disse, olhando para ele. Seus olhos se arregalaram, dando um ar diferente para a feição oriental. Quis sorrir, mas não consegui. – Só um beijo, e eu te conto o que quiser.
– E depois? – Ele perguntou, meio receoso.
– Desapareço da sua vida.
Ficamos longos minutos sem dizer nada. Kanda tirou os braços do lado da minha cabeça, cruzando-os, virando de lado, a típica expressão de uma pessoa pensativa. Eu fiquei do mesmo jeito que estava antes, imóvel.
Eram coisas demais para eu me dar ao luxo de desperdiçar o resto de energia que me restava com movimentos inúteis.
Quando o moreno finalmente se virou, eu quase fui para trás com a intensidade de seu olhar. Ele se aproximou de mim.
– Só um beijo e você responde qualquer coisa que eu quiser? – Perguntou, pegando meus ombros, olhando fundo nos meus olhos.
– Qualquer coisa. Mas precisa ser um beijo de verdade. – Sorri, maroto. Ele fez uma expressão de deboche, como quem perguntava o que eu queria dizer com aquilo.
Palavras não foram mais trocadas depois disso. Ele se aproximou devagar, parando a milímetros de meus lábios, receoso. Provavelmente se perguntava onde estava com a cabeça para fazer algo como aquilo.
Eu também adoraria essa resposta. Quero dizer, era tão importante mesmo uma explicação para ele?
As perguntas desapareceram quando seus lábios tocaram nos meus. Como era ele quem estava fazendo aquilo, deixei que tomasse controle da situação. Kanda moveu os lábios levemente sobre os meus, como se experimentasse a textura.
Devagar, ele chupou meu lábio superior, deixando que ele escorregasse pelos seus. Não me resisti e virei um pouco a cabeça de lado, para deixar que eles se encaixassem melhor. A pressão que ele fizera a seguir fora tão boa que eu pensei ter pisado no paraíso.
Não havia línguas, mas só a textura daqueles lábios carnudos em cima dos meus já era uma sensação que eu não conseguia explicar.
Senti a sua língua passear sobre a minha boca, como se pedisse para que eu a abrisse. Sem demoras obedeci, deixando que ela escorregasse para dentro, indo de encontro com a minha, enroscando-se com ela.
Uma de suas mãos foi até minha cintura, passando levemente ao seu redor, enquanto a outra passava por minhas costas, trazendo meu corpo para mais perto do seu. Apoiei ambos os braços em seus ombros, apertando suavemente.
Quando me dei conta, já estava explorando totalmente a boca dele e ele a minha. Deixávamos os lábios escorregarem uns pelos outros, as línguas se enroscarem, quase como se dançassem. Chupamos levemente a boca um do outro, para logo em seguida voltarmos a nos enterrar dentro delas, ávidos.
Sentia meu coração acelerar a cada novo toque, a cada segundo que aquilo durava. Um calor começou a invadir meu corpo, um arrepio gostoso subindo pelas minhas costas. Passei as mãos pelo pescoço dele, acariciando levemente sua nuca, uma vontade absurda de enterrar os dedos em seus cabelos, mas que eu contive para não abusar.
As coisas começaram a sair dos eixos quando os dedos dele apertaram mais a minha cintura, começando a subir levemente a minha blusa.
Paramos com os lábios colados, as respirações se misturando. Olhamos fundo nos olhos um do outro, procurando por algum sinal de “pare”, mas não achamos nenhum.
Foi quando tudo desandou.
Kanda me prensou fortemente contra o armário, a boca novamente colada na minha, só que mais exigente, mais insaciável, mais agressiva. Suas mãos começaram a subir por dentro da minha blusa, tocando minha pele com força, sentindo cada pedaço sob seus dedos.
Sem demoras eu busquei o prendedor em seus cabelos, arrancando-o assim que meus dedos o alcançaram, as mechas negras longas caindo sobre minha mão, eu finalmente podendo matar aquela vontade louca de sentir os sedosos fios em meus dedos.
Uma de suas coxas passou pelo meio das minhas pernas, as mãos indo até a minha cintura, dando a volta por ela. Agarrei-me ao seu pescoço, vendo sua intenção de me levantar e, sem esperar segunda ordem, o moreno o fez, dando meia volta e me atirando sobre a cama de viúvo que havia ali no quarto.
Ele caiu sobre mim, a boca indo direto no meu pescoço, chupando, mordendo, marcando, em um desespero que eu parecia não conhecer. Minhas mãos, enquanto isso, trabalhavam em puxar sua blusa, não dando segundos para que conseguisse removê-la, Kanda tacando-a para qualquer lado do quarto.
O moreno buscou meus lábios novamente, desabotoando depressa a minha blusa branca, atirando-a junto com o colete para outro canto que não tinha importância. Aquele turbilhão de toques impacientes cessou quando Kanda pôs as mãos sobre o meu peito e, então, interrompeu o beijo, olhando espantado.
– Eu não tenho seios. – Lembrei-o. O japonês piscou umas duas vezes, parecendo tentar entender o que faria agora. Achei divertida a situação. – Hey. – Chamei, indo até seu ouvido, sussurrando baixinho nele. – Sabe, eu tenho mamilos e, da mesma forma que funciona com elas, funciona comigo.
Kanda entendeu o recado, porque eu mal terminei de falar e ele já havia me prensado contra o colchão, a boca descendo pelo meu peito, as mãos apertando meus braços. Sem demoras ele chegou até meus mamilos, fazendo exatamente o que eu esperava: passando a língua por eles, chupando-os, arranhando os dentes de leve.
Outra pausa quando eu não contive a garganta e soltei o meu primeiro gemido. O moreno olhou para cima, parecendo não acreditar no que ouvira. Arqueei uma sobrancelha, irônico e no instante seguinte ele voltou ao que fazia anteriormente.
Separei mais as pernas para deixá-lo se encaixar entre o meu corpo. Num instante Kanda soube como se ajeitar, encostando o quadril contra o meu. Largou meus mamilos, o rosto ficando a altura do meu, seus olhos me encarando com uma surpresa que eu achava encantadora.
Passei as mãos pelos seus longos e sedosos cabelos, colocando-os para trás, enroscando meus dedos neles. Cheguei com a boca bem próxima da sua, os lábios se roçando, úmidos, ávidos por mais um beijo, as respirações se misturando, sôfregas e impacientes.
– Você fica adorável com essa expressão. – Sussurrei na minha voz mais rouca e sedutora. O efeito fora imediato, porque os lábios dele juntaram-se definitivamente aos meus, ele enterrando a língua dentro da minha boca.
Nossas mãos, impacientes, já buscaram os cós das calças, os zíperes sendo abaixados, as pernas se enroscando conforme tentávamos chutá-las para fora do corpo. O alívio ao nos vermos livres delas foi uma sensação prazerosa até demais.
Rolamos na cama, eu ficando por cima de seu corpo, sua mão passada sobre minha cintura, a outra em meus cabelos, puxando levemente enquanto eu segurava seu rosto, as línguas se enroscando fora da boca mesmo, por falta de paciência de seus donos para encaixá-las dentro das bocas.
Rompi o contato com seu rosto quando senti seus dedos se enterrarem na minha bunda, apertando a carne com vontade. Gemi, deliciado. Incentivado por isso, ele levou a outra mão até lá, apertando mais e eu arqueei as costas, deixando meu pescoço livre para que ele lambesse e chupasse ao bel prazer.
Quando menos esperava, eu já estava sentado sobre sua pelve. Consegui ouvir um gemido bem baixo quando minha bunda roçou em sua ereção.
E, para alguém que nunca tinha ficado com homens, ele estava duro até demais.
Comecei a rebolar levemente sobre ela, sentindo seu dono começar a perder os eixos conforme os movimentos ficavam um pouco mais rápidos e a pressão aumentava na região. Inclinei um pouco o corpo, descendo, deixando sua ereção passar pelos meus testículos até ficar junto da minha, enquanto minha boca buscava seu pescoço para deixar uma bela marca roxa.
As unhas dele arranhavam de leve minhas costas, sua língua entrando na minha orelha, brincando com ela. Puxei de leve os cabelos da sua nuca, para trazê-lo para mais um beijo sedento, desesperado, onde as línguas se enroscavam e mal conseguiam ficar dentro da boca.
Demos uma trégua para buscar ar, os lábios ainda se roçando, os corpos colados, suados.
– Primeira gaveta do criado mudo. – Foi o que eu consegui falar depois de muito custo. O ar parecia mais pesado do que normalmente era naquela situação.
– Hã?
– Na primeira gaveta, eu disse. – Repeti, beijando sua bochecha, passando a língua por ela, adorando o gosto meio salgado devido ao suor.
– Como? – Ah, puta que pariu.
– Porra japonês, você é surdo?! Abre a primeira gaveta do criado mudo! – Rosnei, podendo ver a veia que saltou em sua testa. Meio segundo depois, seus dedos puxaram meus cabelos com força e eu mordi os lábios para aguentar a dor.
– Como é que é, filho da-
– Não xinga minha mãe, caralho!
– Puta que pariu! Então explica pra que eu vou abrir essa merda!
– Pra pegar o lubrificante e a camisinha, seu burro! – Rosnei, tirando a mão dele dos meus cabelos e indo pegar eu mesmo as coisas.
Haja paciência, viu.
– Custa você explicar, jumento?! – Taquei o pacote de preservativo na cara dele, pra ver se largava de ser besta. – Desgraçado! Vai tacar essa merda na sua avó!
– Se você parasse de ser burro, eu até pensava no seu caso. – Fiquei de joelhos na cama, tirando a cueca e jogando-a para qualquer canto. No mesmo instante, Kanda se calou e virou o rosto, mas eu pude ver a vermelhidão em suas orelhas. – O que foi? Intimidador demais ver um pinto?
– Cala a boca, retardado! – Puxei seus cabelos, fazendo-o virar o rosto e, quando ele olhou para mim, beijei-o novamente.
Tudo se perdeu quando as bocas se tocaram. Novamente aquela euforia, aquela avidez, a vontade insaciável pelo toque dos corpos. Desci a mão livre por seu peito, passando pela pelve até enfiá-la dentro da cueca. Ele gemeu quando teve sua ereção agarrada por meus dedos, vacilando no beijo.
– O quê? É tão bom assim? – Cantarolei, os lábios colados aos seus. Vi que ele ficou irritadiço e sorri.
Ergui sua cueca com a mão e, depois, fui descendo-a bem devagar, até ela sair do corpo e dei um fim em sua existência. Fui descendo os lábios peço pescoço dele, passando pelo peito, parando um pouco abaixo do umbigo.
Peguei então o pote de lubrificante, espalhando um pouco nas mãos. Kanda arregalou os olhos quando viu o que eu fazia e eu tive de me segurar para não rir de sua expressão.
– O-o que vai fazer? – Perguntou assustado.
– Algo que talvez você não vá querer ver. – Sorri, descendo o rosto por sua pelve, roçando o nariz ali, a boca bem próxima de sua ereção.
Levei a mão com o líquido à minha própria entrada, espalhando-o ali, penetrando um dedo de leve. Enquanto isso, usava a outra mão e a boca para estimular o moreno, ouvindo ele gemer de uma forma quase entregue. Concentrei-me só em sugá-lo, lambê-lo e chupá-lo, enquanto me preparava para tê-lo em meu corpo.
Não me dei ao capricho de levantar os olhos e ver sua expressão. Mas, pelo comentário, eu já poderia imaginar como ela estava:
– Você é louco.
Deixei que seu membro escorregasse para fora da minha boca, um fio de saliva ainda unindo-os, que logo desapareceu. Com a mão limpa, busquei o pacote de camisinha e o abri com os dentes mesmo, apesar de ser errôneo. Peguei o preservativo e o deslizei por seu membro, até que ficasse certinho.
Fazia tudo isso sendo assistido por um par de olhos negros com sentimentos mistos entre espanto, admiração, prazer e encanto.
Fui beijar seus lábios mais uma vez e, diferentemente do que eu havia pensado, ele não os recusou. Trocamos um beijo ardente; suas mãos vieram e afagaram meus cabelos, arranharam de leve minhas costas, seus dentes apertando levemente meu lábio inferior entre eles.
– Posso exigir um pouquinho de você? – Perguntei da maneira mais sensual que consegui. Ele fez um leve aceno com a cabeça, o brilho em seus olhos sendo o motivo do sorriso surgir em meu rosto.
Devagar deitei-me para trás, separando bem as pernas e erguendo-as, segurando-as por baixo dos joelhos. Por entre elas eu ainda pude ver a expressão de Kanda que, de tão pasma, chegava a ser engraçada.
– Ninguém nunca abriu as pernas pra você assim não? – Tive de perguntar, fazendo-o se irritar.
– Eu quem deveria perguntar. Você não está se abrindo fácil demais não? É tanta necessidade assim em me ter? – Retrucou, querendo sair por cima.
– Você não sabe quanta necessidade. – Rebati e ele só fez um “tch”.
No segundo seguinte eu senti suas mãos tomarem o lugar das minhas, abaixo dos meus joelhos. Respirei fundo e relaxei quando ele começou a entrar, mas ele estava indo rápido demais para aquela situação.
Estava machucando.
– Hey, hey, assim não. – Pedi, a voz contorcida de dor. Ele parou, surpreso. – Mais devagar.
Parecendo entender, continuou a penetrar, mas um pouco mais lentamente. Eu sentia minhas barreiras serem vencidas numa velocidade cômoda, apertando a colcha da cama. Assim que entrou totalmente em mim, Kanda curvou o corpo para buscar meus lábios, os quais ofereci de bom grado.
Conforme trocávamos o beijo, trancei as pernas em volta de sua cintura. Aos poucos ele começou a se mexer, indo e voltando minimamente. Foi aumentando a velocidade contínua e gradativamente, até estar arremetendo quase sem controle contra mim.
Sentia meu corpo ir e voltar no lençol, a sensação que busquei durante três anos começando a me consumir por inteiro.
Só faltava agora ele acertar aquele ponto e tudo ficava perfeito.
– Aí não. – Chorei em sua orelha, puxando levemente seus cabelos, aproveitando que ele estava com a face enterrada no meu pescoço. – Mais pra direita.
Senti que ele queria dizer algo, mas estava tão compenetrado que nem conseguia. Chorei de novo, pra ver se ele entendia.
Foi então que ele acertou onde eu queria.
– Ai mesmo, Kanda! – Gemi deliciado e ele fez daquilo um estímulo para ir mais rápido.
Mas agora ele estava acertando exatamente onde eu queria. Eu praticamente chorava em sua orelha de tão prazerosos que eram os gemidos que escapavam por entre os meus lábios. Levei a mão ao meio de nossos corpos, começando a me masturbar, apesar da fricção fazer uma parte do trabalho.
Com seu rosto tão próximo, conseguia ouvir os gemidos que ele produzia, provavelmente essa sendo sua primeira experiência em uma região tão apertada.
Conforme o frenesi chegava, uma sensação incontrolável tomava meu corpo. Era a mistura do prazer unida com a necessidade e a ânsia que eu tive durante todo aquele tempo. O desejo se realizando após três longos anos de espera.
Quando atingi meu ápice, senti o corpo todo formigar, tamanha fora a intensidade. Kanda separou seu corpo do meu para poder investir mais rápido, provavelmente próximo do orgasmo também.
Eu não consegui contar quantas vezes mais ele arremeteu contra mim, por estar perdido demais naquela sensação de torpor que ele produzia ao acertar minha próstata de novo e de novo. Quando finalmente gozou, Kanda deixou todo o seu peso cair sobre mim, sua cabeça ficando enterrada no colchão bem ao lado do meu ouvido.
Eu ouvia e sentia sua respiração, descontrolada e em jorros assim como a minha. Sentia o meu corpo todo em um estado de fadiga. E, de repente, o teto começou a embaçar.
Mas não era sono. Eram lágrimas, pesadas e salgadas, como eu tanto havia experimentado na semana que se passara.
Depois da loucura, eu já conseguia sentir o peso e a dor da decisão que havia tomado. Lenalee havia me alertado disso, mas eu não a havia escutado.
– Oe... – Ouvi a sua voz grossa soar próximo do meu ouvido. Fechei os olhos bem apertados e me recusei a abrir.
– Só me deixa dormir agora. Por favor.
Ouvi um “hm” de sua parte em concordância. Ele se acomodou da forma que estava mesmo, nem se dando ao luxo de sair de cima e de dentro de mim.
Mas foda-se. Eu só queria dormir mesmo. Com ou sem ele por perto.
Recuso-me a admitir, mas foi muito melhor com ele por perto.
xxx
Acordei com alguns feixes de luz entrando por entre a veneziana. Mexi-me levemente e senti o corpo inteiro doer.
Por algum santo milagre a minha cabeça não doía também.
Levei alguns segundos para reparar que eu estava dormindo com a cabeça encostada ao travesseiro. Não me lembrava de ter trocado de posição em alguma hora da noite.
Virei-me de lado, a cama estava vazia. Suspirei, passando o braço pela frente dos olhos.
O que diabos eu queria? Uma recepção calorosa depois da primeira noite de sexo?
Para com isso.
Definitivamente, eu era burro.
Sentia as lágrimas voltarem aos meus olhos – que por sinal, era outra parte do meu corpo que doía – e estava decidido a deixá-las rolarem soltas, quando uma fragrância deliciosa encheu o ar.
Era cheiro de café.
Traguei com força o ar, para sentir mais aquele aroma. Com uma vontade que veio sabe Deus de onde – provavelmente do estômago, porque eu estava com fome – levantei-me, espreguiçando-me devagar.
Olhei ao redor e reparei que tanto as minhas roupas quanto as de Kanda estavam atiradas pelo chão, parecendo intactas desde ontem.
Por alguma razão, um sorriso veio até os meus lábios. Saí da cama, pegando a minha cueca e vestindo-a, só para não ir até a cozinha sem nada.
Quando cheguei lá, encontrei o moreno só de cueca também, terminando de tirar o café da cafeteira. Surpreendeu-se ao se virar e encontrar minha figura parada próxima ao balcão.
– Quer café? – Perguntou. Acenei positivamente e ele pegou duas xícaras, colocando-as sobre a mesa redonda.
Sem precisar de um convite, fui até lá, sentando-me. Ele encheu uma das xícaras e ofereceu-a a mim. Peguei, adorando o aroma e, sem delongas, comecei a degustar do líquido.
Ficamos longos minutos naquele mortal silêncio, concentrados mais em tomar o café do que em qualquer outra coisa. Mil e um pensamentos pipocavam na minha cabeça, fazendo-a dar leves pontadas.
Como se já não me bastasse o corpo todo latejando.
– Então... – Kanda começou, fazendo meu coração acelerar. Era a hora da verdade. – Onde você passou essa semana?
– Na casa de uma amiga. – Suspirei, mexendo levemente a xícara, fazendo o líquido lá dentro seguir o mesmo movimento.
– Comeu direito lá? Ela te tratou bem? Ninguém por um acaso te...
– Você é o que, minha mãe? – Ironizei, olhando-o torto. Vi uma veia pular na testa dele, seus dedos se fecharem mais em volta da asa da xícara, irritado. – Que diabos de perguntas são essas? Era isso que você queria saber?
– Porra! – Ele gritou, fazendo-me quase derrubar o café. – Você desaparece por uma maldita semana, volta só nove horas da sexta-feira, com cara de quem levou uma surra! Acha que eu vou pensar o quê, demônio?!
– Você estava preocupado comigo? – Arqueei as sobrancelhas, surpreso.
– Puta que pariu! – Ele bateu com a xícara e a mão na mesa, fazendo-a mexer, e se levantou. Fui um pouco para trás, prevenindo-me caso ele quisesse me bater. – A gente vive sobre o mesmo teto há três malditos anos, você acha que eu quero ficar sabendo que você saiu de casa e foi encontrado em algum beco escuro, todo fodido e deformado?! – Rosnou, as sobrancelhas juntas, numa típica expressão sua de raiva. – Ainda por cima a culpa ia ter sido minha.
– Eu quem decidi sair do apartamento. – Encostei o cotovelo na mesa, apoiando a bochecha na mão fechada. – No que você teria culpa?
– E saiu daqui por que, se não por eu ter te batido? – Kanda voltou a se sentar e o silêncio se instalou novamente.
Mais alguns minutos em que eu só fiquei olhando para o meu café, esperando mais alguma pergunta por parte dele. Nenhuma veio. Foi então que eu mesmo decidi colocar todas as cartas na mesa de uma vez:
– Eu gosto de você.
– Oh, jura? – Ele satirizou e foi na minha testa que a veia saltou.
– Eu pensava que você era tudo, menos insensível. – Bati com a xícara na mesa, olhando torto para ele. – Você não queria uma explicação? Pronto, está aí a sua explicação.
– Sério que você ficou três anos no mesmo teto que eu só para ter uma única foda? – Ele arqueou as sobrancelhas, descrente.
– Sim e não. – Revirei os olhos. – Nos primeiros meses, sim. Mas com o passar dos anos, não. – Encostei-me à cadeira, jogando a cabeça para trás, encarando o teto. – Só que o que adianta? Você não consegue parar nem com uma menina! Quem dirá ficar comigo? – Sorri, sarcástico, um gosto amargo na boca.
Levantei da cadeira, caminhando para fora da cozinha. Quando estava próximo ao balcão, ouvi a voz grossa questionar:
– Vai aonde?
– Arrumar minhas coisas. – Virei de leve a cabeça, sorrindo. – Eu disse que iria sumir da sua vida, não disse? Pois então. Hora de cumprir essa parte do acordo.
Ia dar um passo quando ouvi o barulho da cadeira sendo empurrada, pisadas fortes vindo à minha direção.
E, de repente, ele estava com os braços em volta da minha cintura, o nariz enterrado nos meus cabelos.
– Que merda é essa? – Perguntei, mordendo os lábios.
– Eu não concordei com essa parte do trato. – Foi o que ele disse, enterrando mais ainda a face nos meus cabelos. – Tem noção da falta que você faz nessa casa, seu feijão idiota?
– Pense pelo lado bom, você iria poder transar sem ter alguém para te encher o saco. – Sorri para não começar a chorar. Ele me apertava tão forte em seus braços que eu sentia que iria cair, caso ele me soltasse de repente.
– E que emoção teria transar se não teria ninguém para me pegar no flagra? – Sussurrou, descendo os lábios pela minha nuca, fazendo-me arrepiar.
– Você quer me usar pra ter mais emoção no sexo? Seu aproveitador. – Ele me virou para ficar de frente para a sua figura, pegando meu queixo e o levantando.
– A gente sempre pode transar com a porta do apartamento aberta. – Encostou os lábios nos meus antes que eu pudesse recrutar da merda que ele havia falado.
Um beijo como aquele eu não sentia fazia muito, muito tempo. Ele apertava minha cintura conforme nossas línguas se enroscavam, massageavam, pressionavam. Passei os braços por seu peito, rompendo o beijo e encostando a cabeça em seu ombro.
– Isso é um convite para um segundo round? – Questionei irônico, sentindo seu nariz voltar aos meus cabelos, os lábios encostando-se à minha testa. – Você é assim com todo mundo?
– Depende da liberdade que me dão.
– Que crueldade. – Comecei a chorar, escondendo a cabeça em seu ombro. Pensava que, agora, iria ter algum consolo, uma mão amiga para me amparar.
Mas era o Kanda, afinal.
– CARALHO. – Ele gritou, puxando meus cabelos da nuca, fazendo-me desencostar de seu ombro. Olhei espantado para ele, as lágrimas ainda escorrendo, mas a expressão totalmente contorcida de susto. – Você começou a chorar de novo, sua maria-mole. Para com isso! Eu já não sei mais o que fazer!
– Você sabe o que eu estou sentindo?! – Rosnei, ficando furioso. – Você sabe o que eu aguentei em três anos? Você sabe o que tudo isso significa para mim?
– Era pra significar alguma coisa! Não era isso que você queria?!
– Não quero você com pena de mim, seu bosta!
– Eu não estou com pena de você, seu animal desgraçado. – Ele tentou me pegar pelo pescoço, mas eu segurei suas mãos e nós começamos uma guerra para ver quem se livrava do outro primeiro.
– Se não é pena, então o que é?
– EU NÃO SEI! – Encostamos as testas, os olhos quase soltando faíscas. – É isso que eu quero descobrir. Passei a maldita semana tentando entender, mas não consegui.
– O quê? – Surpreendi-me, arregalando os olhos, diminuindo a força nos braços. Devagar nós os descemos, até estarmos só de mãos dadas. – Você sente algo por mim? Sério? – Comecei a rir, descrente.
– Mas é um broto de feijão retardado mesmo. Não ria, maldito! – Ele apertou meus dedos, mas eu só consegui rir mais.
Encostei os lábios nos seus, chupando levemente, tendo o ato devolvido. Ficamos fazendo aquilo por alguns instantes, até eu dizer:
– Quer tentar descobrir o que é isso que você está sentindo?
– Acho que você é o único que pode me fazer descobrir. – Suas mãos foram até a minha cintura, agarrando forte, eu podendo sentir os dedos bem firmes na minha pele. – E, sabe... Aquela ideia de segundo round não é nada mal.
– Ora, ora. – Passei os dedos por debaixo do queixo dele, fazendo leves cosquinhas. – Será que é sedução de mais pro senhor Kanda?
– Chega a ser um pecado ver você assim. – Arregalei os olhos, tendo a boca tomada pela dele, numa avidez que tirou um sorriso dos meus lábios.
E, conforme ele ia me puxando novamente para o quarto, eu só conseguia pensar, bem lá no fundo, que a dor no meu corpo não passaria tão cedo.
xxx
They're writing songs of love, but not for me.
“Quem fala?”
“Lenalee! Sou eu, Allen.”
“Allen! Meu Deus, onde você esteve? Já estava preocupada.”
“Estou no apartamento, Lena.”
A lucky star's above, but not for me.
“Conseguiu arrumas suas coisas? Onde vai ficar?”
“Eu não vou mais sair daqui, Lena.”
“Como?! O que aconteceu?”
“Muitas coisas aconteceram.”
With love to lead the way
I've found more clouds of grey
than any Russain play could guarantee.
“AAh! Me conta, me conta!”
“Calma, Lena! Eu vou te contar. Que tal tomarmos um chá?”
“Claro! Quando você pode vir?”
“Quarta está bom pra você?”
“Excelente!”
I was a fool to fall and get that way;
Heigh-ho! Alas! And also, lack-a-day!
“Sua voz parece melhor. Acho que as coisas ficaram bem, então.”
“Mais do que bem, eu diria.”
“Ora! Não me deixe curiosa!”
Although I can't dismiss the memory of his kiss,
I guess he's not for me.
“Não estou te deixando curiosa.”
“Está sim!”
“Então tá bom... Eu só vou te garantir uma coisa.”
“O quê, o quê?”
They're writing songs of love, but not for me.
A lucky star's above...
“Eu acho que, agora, tem uma estrela brilhando para mim lá em cima.”
“Sério?! Quer dizer que vai dar certo?!”
With love to lead the way...
“Eu espero, Lena.”
Eu espero.
Notas finais
No mais, a música usada nesse capítulo é "But not for me" da "Lisa Ekdahl". Tem no youtube, caso queiram ouvir!
E... Eu ficaria muito feliz com reviews. O que gostaram? O que não gostaram? Superei a expectativa de vocês? Decepcionei-as? Quais partes foram mais interessantes? Tudo que vocês acharem relevante, podem mandar! Leio tudo com muito carinho. (´・ω・`)
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