Snuff

4 Capítulo 4- Strange


12 de outubro (Strange)

I don't fit the picture

I'm not what you want me to be

Disseram que era manha!

Disseram que era apenas para chamar a atenção!

Disseram que eu tinha que me esforçar para não estar depressiva!

Disseram que era falta do que fazer!

Falta de apetite, fadiga, cansaço, perda de energia, perturbações durante o sono, sentimento de inutilidade, falta de confiança, apatia, náuseas, pensamentos recorrentes sobre a morte e tristeza constante. Muito para se sentir num dia, não é? Pois é, mas é assim que me venho sentido dentro deste espaço de tempo em que me foi diagnosticado depressão.

Foi então que depois deste último incidente há três dias atrás o médico deu-me um novo diagnostico: depressão major. Esta consiste numa depressão diferente e mais perigosa. Nesta fase a pessoa pode parecer normal durante o dia a dia, desde o estado de euforia até ao que parece normal, porém no fundo vão ter sempre os mesmos pensamentos recorrentes em relação aos seus medos e por isso ser mais perigoso. Ninguém realmente consegue ver quando estão mal.

Fiquei a saber ainda mesmo naquele dia do acidente que me aplicaram um novo método de resolução.

3 dias atrás…

Sentia o meu corpo e os meus olhos pesados como se tivesse corrido uma maratona e tivesse agora acabado de me deitar. Os sons á minha volta era de um ambiente calmo. O cheiro de éter estava impregnado pelo local. Senti algo mexer no meu braço e num sobressalto abro os olhos para ver o que estava a acontecer. No primeiro momento as luzes extremamente brancas ferem os meus olhos e tenho que os fechar mais uma vez. Retorno a abri-los e, desta vez com mais calma, observo tudo em volta. Que me encontrava num hospital era óbvio, mas a pergunta é: como cá cheguei? Olho para o lado e vejo o médico com uma seringa com um pouco do meu sangue. Ele olhou para mim e sorriu. Li na placa da sua bata branca “Dr. Han”.

—Então Haruno Sakura, certo? – sentou na poltrona que estava ao lado da cama – Quero que me digas exatamente o que se está a passar para teres tido uma quebra de tensão.

Olhei confusa para ele.

—Como assim? Eu tive uma quebra de tensão? – olhei incrédula para ele.

—Segundo o seu namorado lá fora foi exatamente o que aconteceu. – olhou para o prontuário que tinha na mão e voltou a olhar para mim – Palidez, tontura, perda de equilíbrio e suores frios são sintomas de uma quebra de tensão. – novamente olhou-me, porém desta avaliando-me – A não ser que tenha sido outra coisa que tenha acontecido e não me queiras dizer.

Neguei com a cabeça e de repente o tecido do lençol da cama parecia mais interessante.

—Ele não é meu namorado e não, eu não sei de nada!

— Menina Haruno, nós já temos os seus prontuários de Boston. Não precisas de ter vergonha! Depressão não é nenhum bicho de sete cabeças mesmo que por vezes pareça.

Ri sem humor porque é verdade. Contudo, para mim era um bicho de sete cabeças que eu tinha que lidar e era demasiado complexo para se explicar.

— Se já sabia não precisava de todo o seu teatro. Bastava dizer as suas lenga-lengas de como eu tenho de me ocupar para me distrair e pronto. Corte o monólogo! – disse com lágrimas nos olhos.

— Nada disso menina, pelo contrário! Quero saber o que tens feito para melhorar até agora? – pegou na caneta e olhou para mim á espera que dissesse algo.

— Tenho ido para a piscina três vezes por semana e algumas vezes vou até á biblioteca. – olho pela janela e noto que ainda era noite fechada. Desvio o meu olhar para o relógio pendurado na parede e vejo que era quase uma da manhã. Estive demasiado tempo adormecida.

— Eu vou recomendar um psicólogo aqui do hospital mas só tu podes decidir se queres vir ou não. – continuou a escrever e depois deu-me um papel para as mãos. Olhei o seu conteúdo e interroguei-o do que se trata. – É a medicação que vais passar a tomar. São de três tipos diferentes. Vais tomar metade de um calmante e um antidepressivo na parte da manhã e antes dormir vais tomar o outro para ajudar com as insónias.

— Tenho que tomar isto tudo?

— Sim! No início podes senti-ter cansada e ficar sonolenta, mas depois o teu organismo vai se habituando e vai parecer que não estás medicada – explicou – Esta medicação é mais um método para que fiques calma durante o dia e não aconteça outras coisas piores que estas.

— E por quanto tempo tenho que tomar? – dobrei o papel e coloquei no bolso da calça.

—Tempo indefinido! Depender da tua melhoria. Existem pessoas que largam depois de um mês e existem também pessoas que nunca mais largam. Tudo depende da tua recuperação. Podes continuar com a natação que só te faz bem.

—E quando posso sair daqui? – retirei o lençol de cima de mim e virei completamente para o médico. – Detesto hospitais.

Ele riu e levantou da poltrona indo em direção à porta.

— Podes sair agora mesmo! – colocou a mão na maçaneta da porta abrindo-a um pouco. Porém, no momento a seguir voltou a fechar – Sabes Sakura, acho que devias explicar melhor a situação às pessoas que te rodeiam. Aquele garoto lá fora, por exemplo, ele chegou aqui muito aflito e está às voltas confuso com esta situação.

— Você disse-lhe o que se passava? – olhei para ele irritada.

— Não, mas isso não o impede de olhar o prontuário que está nos pés da cama. – virou novamente para a porta abrindo-a – Pensa no que eu disse em relação ao psicólogo! – saiu pela porta fechando-a.

De volta ao dia de hoje….

Mais uma vez acordei sem os meus pais no hospital e novamente fui levada para casa por um semi-desconhecido. Porém, desta vez tinha quase a certeza que esse semi-desconhecido sabia do meu problema e isso não podia de forma alguma acontecer. Era demasiado pessoal!

A reação de Naruto, ou melhor, a falta de reação dele também me deixou receosa. Ele sabia ou não sabia? Se ele soubesse iria contar aos seus amigos e aí acaba a minha oportunidade de fazer alguns novos amigos. Mas também posso estar a ser precipitada e não ser nada.

Acho que a única opção por agora será manter a distância do grupo de amigos de Temari e ainda mais distante de Naruto e o seu ar de misterioso.

Under the radar

Out of the system

É sexta feira e diferente dos outros dias sinto como se o meu corpo estivesse no chão mas a minha mente a quilómetros de distância. Vou na casa de banho e faço a minha higiene. Volto ao meu quarto e visto as primeiras calças que vejo à frente, coloco a minha camisola com capuz dos Slipknot e uns all-star pretos.

Desço as escadas e para minha grande surpresa vejo os meus pais sentados na mesa. Sento-me e começo a servir-me em silêncio. O ambiente entre nós já foi melhor.

— Bom dia também se diz senhora sem educação. – falou depois de me tirar o copo de sumo de laranja da mão. – Não tens nada para nos dizer?

—Bom dia! – tornei a pegar no sumo e desta vez bebo.- Não,não que me lembro de nada.

Ela bate na mesa de repente assustando-me e faz com que eu derrubasse o resto do sumo.

— Porra Sakura nos não mintas. Nós sabemos que estiveste no hospital esta semana. – pegou num pano e começa a limpar a mesa – Depressão major? Que porra Sakura, não podias inventar uma forma melhor de chamar a nossa atenção? Já não és uma criança. – olho o meu pai e ele continua com o olhar vidrado no celular. – Se queres alguma coisa pedes e não vais para o hospital chamar a atenção para a nossa família.

Deixei o pedaço de torrada que estava a comer de lado e fui para o meu quarto lavar os dentes. Volto a descer as escadas e encontro com a minha mãe na porta de casa.

—Toma! Tens dinheiro para o resto do mês portanto não voltes ao hospital. Ouviste? Não podemos manchar o nosso nome! – estendeu a mão com um molho de notas.

Olho para a sua mão, abro a porta e saio ainda a tempo de a ouvir a chamar por mim. Entro no autocarro e deixo-me ser guiada até ao colégio. Coloco o capuz na cabeça, os fones e mais uma vez, neste mês, as lágrimas de frustração querem sair. Uma delas escapa pelo canto do meu olho e eu limpo rapidamente.

Durante as aulas foi difícil manter a minha concentração. Não por serem matérias que não goste, pelo contrário, história, inglês e japonês são disciplinas que adoro, mas pelo simples facto de os medicamentos estarem a fazer efeito. Como o médico disse eu sentia-me sonolenta o que me fez quase dormir na aula de inglês. Na hora do intervalo dormi e fez-me muito bem. Fui muito mais acordada para a aula de japonês.

Da parte da tarde, quando cheguei a casa tomei banho e fiz o almoço. Não tinha muita fome por isso optei por apenas arroz e um pouco de peixe. Não queria ir na faculdade! Não queria ver Temari e nem nenhum dos seus amigos. Olhei para o telefone fixo e vi que tinha uma mensagem de voz, fui até ao mesmo e reproduzi.

—Oi Sakura! Daqui é a Diana, a tua melhor amiga. A única aliás, não sei se te lembras? – ela fez uma pausa e eu reparo que o seu tom de voz não é nada bom – De qualquer das maneiras era para te lembrar que és uma mal-agradecida e que ainda não me ligaste nenhuma vez desde que chegaste aí. Então liga-me!

Duas palavras: Deu merda.

Quando ela começava com este tipo de conversa quer dizer que está muito zangada e desta vez tem toda a razão. Eu realmente não tinha falado com ela nem uma vez se quer desde que tinha vindo para o Japão.

Peguei no computador e liguei o Skype para ver se ela estava online. Lá estava ela! Ora se aqui é meio dia de sexta feira então em Boston são onze e meia da noite de quinta feira. Onze horas de diferença. Liguei e no terceiro toque ela atendeu.

— Oi, desculpa não ligar antes mas aconteceram umas coisas que eu tenho que te contar. – olhei para o ecrã ela estava de braços cruzados e um bico enorme.

— Tu esqueceste-te de mim! – fez manha. Já disse que odeio quem faz manha?

— Novamente desculpa, aconteceram umas coisas. – voltei a desculpar-me pela última vez.

—Está bem, chuta. Eu também tenho umas coisas para te contar. – bateu palmas.

Caught in the spotlight

That's my existance

A conversa depois ocorreu normalmente, eu contei os detalhes de tudo o que tinha acontecido e ela aconselhou-me a ir ao psicólogo. Aconselhou não, quase que me obrigou. Contou-me que finalmente pintou o cabelo de cinza e que estava de caso com um garoto lá da faculdade de Boston.

Quando me deparei com as horas vi que estava atrasada no meu atual horário de natação. Corri para o meu quarto colocar as coisas prontas e saí de casa. Na entrada da faculdade não vi o sr. Tsuki e um aperto forte no meu coração deu-se. Desta vez quem se encontrava na entrada era uma mulher de aparência rígida.

— Boa tarde, eu tinha hora na piscina mas atrasei-me. Existe alguma possibilidade de entrar agora? – perguntei receosa.

— De maneira alguma menina. O que podes fazer é entrar no próximo horário.

— E a que horas seria? – ela olha para a prancheta que tem na mão e responde.

— Daqui a uma hora, pode ser?

Confirmei que podia ser nesse horário. Como ainda faltava uma hora decidi dar uma volta pelos departamentos. Passei pelo departamento de ciências e vi vários alunos com batas brancas nas suas salas de aula. No departamento de letras não consegui entrar pois estava fechado. No departamento de artes foi onde mais me demorei pois fiquei a admirar aquele espaço onde me levava para outra espécie de universo. Nunca contei isto a ninguém mas o meu sonho é entrar em música. Eu tocava piano desde os oito anos de idade, violino desde os dez e guitarra desde os dezasseis, porém esta última os meus pais não sabem. Quando se é filha de pessoas com um nível de vida mais elevado é assim, não se faz o que se quer então tem que se esconder aquilo que é proibido.

Saí do departamento de arte em direção ao de desporto e entrei no prédio com piscina. Desta vez tinha gente a nadar. Eram dois garotos e estes tinham uma treinadora a puxar por eles.

—Vamos lá Gaara! Vamos lá Sasuke! Se vocês querem ser os melhores têm que dar tudo de vocês seus franganotes.

Ri-me pela sua expressão porque de franganotes eles não pareciam nada. Pareciam até muito bem constituídos. Aqueci os músculos antes de entrar na piscina e em seguida entrei nesta. Comecei por fazer cinco voltas de costas, porém no começo da sexta assustei-me com o grito feminino que ouvi. Virei na direção do som incrivelmente irritante e vi que um dos garotos nadava, mas o outro estava aflito de baixo de água. Passei por de baixo das fitas e nadei até ele.

— Porra Hinata pára de gritar. Não é como ele não soubesse nadar. – riu.

— Não é como se ele não soubesse nadar mas com certeza alguma coisa aconteceu para ele estar aflito seu parvalhão. – puxei o ar para dentro dos pulmões e nadei para ajudar.

Debaixo de água passei um dos braços pelo seu tronco e comecei a puxá-lo para a superfície. Já com a cabeça fora de água vi que a garota estendeu os braços para ajudar. Com a minha força e com a ajuda dela conseguimos puxá-lo para fora e deitá-lo.

— Estás bem? – retirei os óculos dos olhos e ajoelhei perto dele.

— Estou bem, foi só uma cãibra. – sorriu e consegui ver os seus dentes perfeitamente alinhados. — Mesmo assim obrigado, nem o parvalhão do meu melhor amigo me veio ajudar. – olhou para o garoto que viha na nossa direção.

— Ah qual é Sasuke? Não sejas menina. – riu – Que culpa tenho eu que não aguentes uma dorzinha igual a uma garota e que não saibas nadar?

— Desculpa? Repete lá outra vez, Gaara! Acho que não ouvi bem. – a garota colocou a mão perto do ouvido como se realmente não ouvisse.

— Eu disse que não tenho culpa que ele seja uma garota e não aguente uma dor e muito menos que não saiba nadar! – O garoto voltou a repetir o que dissera anteriormente riudo-se na cara de indignada que a garota fez – Só as garotas é que não aguentam as dores, percebes?

— Seu otário! Se eu soubesse nadar eu desafiava-te agora mesmo. – apontou para o peito do então Gaara. – Seu machista!

Ela tem razão, ele foi um machista do pior. Eu sou uma garota e não consigo ouvir este tipo de coisas.

— Como te chamas? – perguntei já exaltada.

Ele retirou os óculos e a touca. Foi neste momento que vi que o garoto era ruivo com olhos verdes. Ele sorriu e levou a mão para frente do corpo como forma de cumprimento.

— Sabaku no Gaara! E como se chama a princesa de olhos igualmente verdes? – perguntou com aquele sorriso que me começou a irritar muito.

— Eu, Haruno Sakura, no dia doze deste mês, desafio oficialmente Sabaku No Gaara!

Desta vez ele não sorriu.

— Com muito prazer! Na próxima sexta ao mesmo horário miladie.

Virei as costas para o pequeno grupo e fui para os balneários. Porém, quando entrei nesse mesmo espaço é que repqrei no que tinha feito.

Como raios eu tive a coragem de desafiar uma pessoa que nem conheço?

You want to fix me

Push me

Into your fantasy