Snuff
5 Capitulo 5- Me Against The World
13 de outubro (Me Against The World)
Machismo!
Questiono-me porque é que a maior parte dos homens pensam que são superiores às mulheres? Porque é que eles pensam que somos o sexo mais fraco quando somos nós, Mulheres, que damos à luz um Ser Humano e somos nós, Mulheres, que durante cinco dias por mês, vemos quase a morte à nossa frente devido às cólicas menstruais. Eles pensam que somos o sexo sensível, que não aguentámos ver sangue, mas somos nós, Mulheres, que sangrámos por entre as pernas 60 de 365/366 dias. Poderia fazer uma lista imensa de argumentos que provam que o sexo feminino não é inferior ao sexo masculino. Toda aquela testosterona dá-lhes cabo dos poucos neurónios que têm! Está explícito no dicionário de todos os homens que se és violento quer dizer que és mais homem que os outros? És o macho-alfa? Que se tens mais músculos que outro podes chamar esse outro de bicha?
Sabaku No Gaara! Quem ele pensa que é? Não é nenhum super sayajin para falar das mulheres assim e mesmo que fosse não iria deixar que o fizesse e saísse impune. A data está marcada! Tenho uma semana para ganhar aquele libertador de testosterona. Começando por hoje, sábado.
EU VOU TREINAR NEM QUE SEJA NA BANHEIRA.
Saí de casa as seis e meia da manhã para correr. Nunca antes acordei tão cedo para fazer algo e agora estou a correr para enfrentar um cara que só vi uma vez na vida. Realmente esta vida de sedentarismo faz-me mal porque bastou uns minutos a correr para já me encontrar cansada.
Olho o relógio! São sete horas e decido então parar para descansar num parque perto da faculdade. Sento-me num banco, inclino a cabeça para trás e fecho os olhos.
Será que posso realmente ganhar? Sinceramente, não penso em desistir mas a ideia de me ver exposta perante aquele garoto, agora, irrita-me profundamente. Na altura nem me importei, só não queria deixar que ele fizesse das mulheres chacota!
We’re not gonna be just a part of they game
We’re not gonna be just the victims
No domingo, a minha rotina segue-se igual à de Sábado, mas na Segunda, o que sucedeu foi exatamente o contrário. O meu despertador não tocou de manhã o que levou ao meu atraso para a escola e, consequentemente, me levou a não fazer a minha corrida matinal. Acordei tão sobressaltada que nem reparei que tinha vestido a camisola do avesso, que uma das meias não condizia com a outra e, por último, tinha-me esquecido de pentear o cabelo.
Quando entrei pelos portões era como qualquer outro dia normal. Como sempre olhei ao redor e como sempre as pessoas estavam a olhar para os seus celulares de última gama ou então a conversar entre si, porém, quando entrei no corredor as pressas para chegar na minha sala antes do toque, demasiadas cabeças foram viradas na minha direção e isso para mim é incomum. Foi a primeira vez que reparam em mim!
Também foi incomum na aula de história. A professora pediu que nos juntássemos em pares para fazermos um trabalho para a próxima semana e como sempre ficava sozinha. Contudo desta vez alguém decidiu se sentar á minha beira. Era um rapaz moreno, olhos pretos e com um sorriso cínico nos lábios. Parecia que estava a gostar da atenção de estar sentado com a esquisita da turma. Não lhe dei a atenção que ele queria! A sensação em tê-lo por perto não era boa. No final da aula apresentou-se como Sai e pediu para fazermos o trabalho juntos. Eu não aceitei, obviamente!
Na terça, a primeira coisa que fiz quando cheguei ao colégio foi tomar o pequeno-almoço pois saí demasiado cedo para não encontrar os meus pais.
Estava descansada a tomar o meu chá quando senti uma mão em cima do meu ombro. Olhei de esguelha e deparei-me com Sai e o seu sorriso esquisito. Normalmente, eu ignoraria, mas, dadas as circunstâncias, decidi que desta vez eu não deixaria passar em branco.
—O que é que queres? – Virei-me novamente para a frente para apreciar o sabor a menta do chá.
—Conversar! Não é isso que os amigos fazem? – Novamente o seu sorriso falso apareceu.
Ele deve ter alguma demência ou algo do tipo porque eu não me lembro de ter dito que era amiga dele.
—Amigos!? Desde quando? Não me lembro de ter trocado mais de que meia dúzia de palavras contigo. – Revirei os olhos com a ideia estupida.
—De qualquer maneira, aqui está o meu endereço! – Entregou-me um pequeno papel e levantou-se – Está em frente da minha casa até às duas horas.
—Eu não vou! – Falei mais alto para ele ouvir.
Levantei-me em seguida em direção à sala de aula e sentei-me no meu lugar. Peguei no caderno de japonês e revi se estava tudo bem com os exercícios que foram pedido para trabalho de casa. Ainda sentia algumas dificuldades em escrever o japonês depois de tanto tempo fora do Japão.
Deu o toque e vi aquela manada de animais entrarem no recinto à qual eu chamo de sala de aula mas alguns devem conhecer como “sitio onde eu não quero estar, mas só estou aqui para distrair os outros”.
Olhei para o caderno e esperei que o professor entrasse e, novamente senti que alguém estava à minha beira. Não precisei olhar, sabia que era a mesma lombriga branca que encontrei no refeitório mais cedo.
As aulas passaram rapidamente e quando dei por mim já estava em frente à faculdade. Mais uma vez a monotonia dos meus dias voltavam e isso não me agradava. Sabia que tinha dificuldade em fazer amigos, mas sabia também que tinha ainda mais dificuldade em confiar nas pessoas. Tenho a Diana como amiga, mas foi a única que se aproximou de mim antes de tudo acontecer, de tudo o que sou agora. Foi uma amizade sem barreiras e nem chatices. Foi engraçada a maneira como nos conhecemos. Lembrar-me faz-me sorrir.
Éramos de turmas diferentes e naquela altura eu gostava de um garoto que a sua melhor amiga também gostava. Aconteceu que eu namorei com esse garoto, mas foi um namoro mais complicado que já tive. Um ano depois ficamos na mesma turma e ela veio ter comigo porque viu que eu estava sozinha e que ela também estava. Fomos ficando mais cada vez mais próximas até que um dia ela contou-me que as ex-melhores amigas dela falavam muito mal de mim pelas costas e que ela deixou de andar com elas porque elas traíram a confiança dela. Acabou que nós as duas vingamo-nos delas ao confirmar a nossa amizade para toda gente. Foi a melhor coisa que fizemos, não usamos esquemas e nem artimanhas, usamos apenas o poder da amizade.
Deixei-me de lembranças quando notei uma figura parada na porta de entrada. Ino estava de braços cruzados. Não queria vê-la então aproveitei que ela tinha a cabeça virada noutra direção e coloquei o capuz para ela não ser capaz de me reconhecer. Fui passando muito devagar e com compassos leves. Missão completa, passei por ela. Fui na direção dos balneários quando ouvi passos. Por favor, que não seja ela. Por favor Zeus, dá uma ajudinha a esta humilde alma só desta vez.
Mas mais uma vez Zeus não estava para ouvir as lamúrias de Haruno Sakura.
—Pensavas que passavas despercebida? – Riu a loira.
—Sim!? – Entrei dentro do balneário, abri o cacifo e comecei a despir-me.
—O que é que se passa Sakura? – Sentou-se no banco e cruzou as pernas enquanto me analisava. – Parece que nos andas a evitar. Fizemos alguma coisa que te ofendeu? Se fizemos, peço já desculpa.
Naruto e Karin com certeza não contaram nada do acontecido. Ino está aqui de cara lavada e sem um pingo de tristeza, então só me resta pensar que nem da existência da morte do porteiro ela sabe.
—Nada! Eu não ando a evitar ninguém, apenas não tenho tempo. – Menti descaradamente – Para além disso não tenho como me comunicar convosco.
—Hum… – murmurou desconfiada – Se é esse o problema…. Dá-me o teu telemóvel! – Estendeu a mão.
—Para quê? – Perguntei enquanto guardava o resto da roupa na bolsa.
—Para guardar o meu número! – passou a mão pela minha bolsa até encontrar o bendito – Aqui! Yamanaka Ino, a tua best friend. Agora já podes ligar para mim. – Devolveu o telemóvel. Puff, minha filha para seres minha best friend vais ter que suar muito – Tens redes sociais?
—Eu criei algumas para procurar a Temari mas apaguei-as. – Guardei o objeto e sai porta fora enrolada na toalha.
—Então volta a reativá-las porque eu vou-te adicionar no nosso grupo. – Ela bateu palmas e continuou a seguir-me. Assenti e pensei se seria mesmo uma boa ideia ativá-las – Eu ouvi que desafiaste Gaara para uma competição de natação.
Surpresa virei-me para ela. Não tinha noção de como se tinha espalhado a notícia.
—Como soubeste disso?
—Ah, se calhar não sabes, mas Gaara é irmão da Temari. – Ela riu – E como deves saber ele é um gabarolas então foi só uma questão de tempo até nós sabermos.
Virei a cara, não tinha o que lhe dizer. Ela pegou-me de surpresa.
—Sinceramente acho que já estava na hora de alguém enfrentar aquele garoto. – Tirou as sapatilhas e mergulhou os pés na água.
—Porquê? – Perguntei levemente desinteressada.
—Ele acha-se o tal, mas não passa de um menino que não sai de baixo das saias da Temari. –Balançou os pés na água – Vai por mim, eu passei a minha infância com aqueles dois e vi como foi a evolução dele. Se é que se pode chamar de evolução. – Revirou as bagas azuis.
Ri em concordância e comecei a fazer os alongamentos.
—Não tens medo? – Ela perguntou mas eu não percebi.
—A que te referes? Em perder uma competição para um rapaz? – Ela não respondeu – Não, eu não tenho medo porque se eu perder agora eu vou treinar cem vezes mais para ganhar numa próxima.
—Não era a isso que eu me referia. – Riu – Mas é bom saber disso.
—Então referes-te a quê?
—Referia-me ao estares aqui a nadar sozinha. – Ela olhou nos meus olhos.
Por um momento vi preocupação a passarem nos seus olhos.
—Não, já tive mais medo. – Entrei na água e constatei que estava morna – Para além disso olha ali – apontei em pontos específicos nas paredes – São câmaras! Eles estão a vigiar-nos neste momento, por isso sugiro que tires os pés da água – disse e fui obedecida. Ri da preocupação dela – Tu és do curso de desporto, certo? Como é que não sabes destas coisas?
—Nunca entrei aqui dentro. Para ser franca evito este sitio. – Desviou os olhos.
—Porquê? – Novamente ela desviou o olhar – Não me digas que não sabes nadar?
—Eu nunca tive nem a coragem para entrar num mostro destes. – Gesticulou com as mãos para mostrar o tamanho da piscina.
—Olha que nem é das maiores. Se fosses nas outras queria só ver!
—Como não menina? Já leste o que está escrito ali? – Apontou para a parede – São dois metros de profundidade e cinquenta metros de comprimento. Como é que isso não é grande?
—Não sendo! – Comecei a nadar para a outra extremidade e voltei novamente a parar aos pés de Ino. Agarrei-me à parede, recuperei o fôlego perdido e coloquei os óculos na cabeça.
—Sabes que fizeste um tempo muito bom? – Olhou para o telemóvel.
—Estavas a cronometrar? – Olhei admirada mas curiosa com o seu comentário – Quanto fiz? – Ela mostrou o telemóvel e vi vinte e quatro segundos e vinte e três – É, não é mau!
—Não é mau? Estás a brincar, certo? –Levantei uma sobrancelha em forma de questionamento – Esse tempo foi o melhor da chinesa Le Jingyl em 1993.
—Pff! Em 1993 eu ainda nem era um feto. Com certeza que há muito melhores agora. – Coloquei os óculos.
—Verdade, mas não querias começar logo no topo, certo? Tens que começar por baixo para poderes dar o teu melhor e assim chegar ao topo.
—Faz sentido! Mesmo assim, começar por baixo não me vai fazer vencer o Gaara, pois não!?
—Não, mas eu sei o que podes fazer! – Ela levantou-se e calçou as sapatilhas.
—O quê? Posso saber? – Vi ela a catar a sua bolsa do chão.
—Claro! Está aqui amanhã à mesma hora e eu digo-te! – Pegou na bolsa dela e foi-se.
Que menina esquisita! Num momento muito contente e bate palmas e noutro muito melancólica e triste. Parece bipolar.
Bipolar não! Aquela deve ter é dez polos! Aposto que é de capricórnio.
They're taking our dreams and they tear them apart
'Til everyone's the same
No dia seguinte, quarta-feira, saí mais cedo de casa. Os meus pais vieram com a história de eu arranjar um namorado que estivesse á altura dos Haruno e desde então eu tenho-me tentado esquivar das suas tentativas de conversa. Estamos em pleno Século XXI, mas parece que o cérebro deles é retardado. Não suporto mais isto!
Ao chegar no colégio vi que no moral tinha um aviso de inscrição para a faculdade e que todos os alunos devem passar na secretaria para pegar o papel. Era agora! Era agora que tínhamos de nos decidir se queríamos seguir o estúpido sonho dos nossos pais ou o nosso sonho. Parece uma questão fácil, mas não é! Com isso em mente fui para a sala e sentei-me à espera do professor.
Seguir o meu sonho ou sonho dos meus pais? Arranjar um namorado para agradar os meus pais ou viver sem garotos e sem complicações?
—Bom dia turma. – Assustei-me quando vi a professora entrar na sala – Quem está pronto para saber mais sobre números cíclicos?
Ah matemática! Porque é que tu existes?
No final das aulas, quando já estava pronta para ir para casa lembrei-me que tinha de ir buscar o papel de inscrição. Dei meia volta e fui em direção à secretaria. Quando lá cheguei vi que estava uma fila enorme de alunos para fazer o mesmo. Encostei-me à parede e esperei. Quinze minutos depois vejo Sai a sair e vir na minha direção.
—Tu não apareceste ontem. – Olhou-me ressentido.
—Estas a falar de quê?
—Do trabalho! Ficaste de aparecer em minha casa. – Colocou a folha na mochila.
É verdade! Tinha-me esquecido completamente do trabalho. Devido ao raio da competição e ao meu encontro com Ino esqueci-me completamente.
—Eu disse que não ia! – Relaxei ao lembrar-me que o tinha informado – Não ouviste?
—Ouvi mas pensei que fosses aparecer na mesma.
—Pensaste mal! Eu deixei bem claro que ia fazer o trabalho sozinha. – Andei para a frente conforme a fila ficava mais curta.
—Vá lá! O que é que custa fazeres o trabalho com outra pessoa? Não é como se eu tivesse uma doença contagiosa. – Riu achando graça à própria “piada” – Podemos trocar ideias e tudo.
—O que é que custa? O que custa é que eu sei como as pessoas da tua espécie são e sei muito bem o que são essas trocas de ideias. – Ele olhou interrogativo para mim.
—Pessoas da minha espécie? E como serão as pessoas da minha espécie? — cruzou os braços.
—Fazem-se muito de amiguinhos mas na verdade tem outras intensões.
—Uau! É assim que achas que eu sou? – Assenti. Ele pelo contrário riu e tirou um papel da mochila – Ok justo, toma! – Entregou-me um papel – São as minhas classificações do ano passado. Por algum motivo eu esqueci-me de as tirar da mochila, mas agora elas servem para alguma coisa. – Fechou a mochila – Dá uma vista de olhos e se mudares de ideias sabes onde me encontrar – Virou costas e foi embora.
Olhei para o papel que tinha em mãos e dei uma vista de olhos. Caramba! O garoto até que era inteligente. Não tinha nada a baixo de sete e a classificação máxima era dez a matemática, mas mesmo assim ainda não confio nele. Psicopatas são inteligentes também. Guardei a folha na minha mochila.
Ok, admito que o julguei mal no quesito de inteligência. Voltei a andar e finalmente peguei o raio da ficha de inscrição.
I've got no place to go
I've got nowhere to run
They'd love to watch me fall
They think they know it all
Chegou a tão esperada sexta-feira e eu estava uma pilha de nervos. Não consegui dormir direito só de pensar nas possibilidades. Novamente saí de casa sem pentear o cabelo e esqueci-me de uma parte crucial da minha vida, os meus fones.
Nas aulas não me consegui concentrar e fui mandada embora por não ter um bom rendimento e por adormecer. Como estava cedo, aproveitei e vim embora. Fui o caminho todo no autocarro a amaldiçoar-me por ter me esquecido dos fones.
Cheguei em casa e deparei-me com a minha mãe a almoçar na cozinha.
—Já estás em casa? – Olhou para o relógio pendurado na parede – Não andas a faltar outra vez às aulas, pois não? Porque se tu andas, desta vez vais para um colégio interno lá para a beira dos alemães. – Olhou-me furiosa para mim e apontou-me o dedo indicador para o nada como se fosse a Alemanha.
—Não mãe, eu não ando a faltar! O professor faltou e eu vim embora mais cedo. – Mais uma vez menti.
Mentir para os meus pais estava a tornar-se um hábito desde que eles deixaram de se importar com os meus sentimentos. Pousei a mochila no chão.
—Olha os modos! Apanha a porcaria da mochila do chão.
Peguei na mochila e num ato de revolta atirei-a para o sofá na sala. De todos os dias tinha que ser hoje que ela se lembrou de vir almoçar em casa.
—Ainda tem almoço para mim ou tenho que fazer para mim? – Perguntei ao voltar para a cozinha.
—Tens sorte que fiz a mais! – Revirei os olhos.
Que grande sorte! Nos outros dias sou eu que faço o meu almoço sozinha.
Comemos em silêncio até ao fim da refeição. No final, levantei-me e coloquei tudo na máquina para lavar.
—Então… – Limpou a garganta e voltou a falar – Já encontraste um candidato? – Olhei interrogativa para ela – Um namorado! – Gesticulou com a mão como se fosse óbvio.
—Mãe, não comeces com isso outra vez, por favor! – Disse sentando-me no sofá e ligando a televisão – Não comeces que eu não tenho paciência para esse assunto.
—Está bem, não falemos disso por agora. – Olhei para ela incrédula. Era a minha mãe mesmo ou ela foi abduzida por um ET? Porque se fosse a minha mãe ela não desistiria até provar que estava certa. – Falemos então da inscrição à faculdade. Já anunciaram quando tens que ir buscar a folha de inscrição? – Eu sabia! Eu sabia que tinha coisa.
—Não, ainda não! – Omiti o facto de saber sobre esse assunto apenas para acabar com a conversa com ela.
—Estranho! Por esta altura eles já deviam ter anunciado. – Assenti com a cabeça mais concentrada no programa – Não interessa! De qualquer maneira tu sabes que vais ter que te inscrever em medicina. É a área mais nobre que pode existir. Para além disso os teus avós eram médicos e antes de morrerem pediram para tu também seguires medicina.
Levantei do sofá e subi as escadas para pegar a bolsa com as coisas de natação. Voltei a descer as escadas seguida pelo olha inquisidor da minha progenitora.
—Onde vais? Ainda não acabei de falar contigo. – Levantou e veio na minha direção.
—Eu sei muito bem que não. – Olhei para ela – Foi para isso que vieste a casa? Para falarmos no mesmo assunto que eu já me recusei um milhão de vezes? – Perguntei exaltada.
—Querida, do que é que estas a falar? – Sorriu cínica.
—Podes parar por aí com o teu cinismo, mãe. Eu sei que este almoço foi proposital, está bem? – Coloquei a mão na maçaneta – Eu sei quais são as tuas intenções. Eu sei que tu queres fazer a minha vida num inferno desde que aquele incidente aconteceu. Mas adivinha só? Eu não vou deixar que o teu veneno chegue até mim. Não mais! Se isso era tudo o que me tinhas para dizer podias continuar sem vir a casa! – Olhei firme para e ela e então saí porta a fora.
I'm a nightmare, a disaster
That's what they always said
A minha cabeça começou a latejar com a força que eu reprimi as lágrimas para não caírem. Eu não iria chorar outra vez. Não por causa dela porque apesar de ser minha mãe, ela não merece.
Fui em direção à biblioteca para passar o tempo até o desafio começar. Ao chegar fui na direção de literatura japonesa e peguei no primeiro livro que me apareceu à frente, mas na mesma hora que me sentei, o meu telemóvel começou a tocar e obrigou-me a sair da biblioteca por causa do barulho.
—Oi? Quem fala? – Olhei para os lados da rua.
—É a Ino tonta! – Riu – Não olhaste na tela do telemóvel?
—Estava mais preocupada em não fazer barulho na biblioteca. – Sentei-me na entrada.
—Ah então estás na biblioteca? Não saias daí! – Desligou.
Não percebi nada, mas voltei novamente para dentro do recinto e vi que o livro que tinha pegado já não estava no mesmo sitio. Suspirei e desta vez fui para o corredor das exatas. Se vou ter que esperar que chegue a hora ao menos vou esperar com alguma coisa que puxe pelo meu cérebro. Comecei a ler o problema matemático.
-Numa caixa, estão cinco bolas, indistinguíveis ao tato, numeradas de um a cinco. De quantas maneiras possíveis se podem colocar, lado a lado, as cinco bolas, de modo a que as bolas com números de três e quatro fiquem ao lado uma da outra? – Li em voz alta – O quê? Não entendo nada do que está a perguntar, vamos para a próxima. – Abanei a cabeça e voltei a ler.
—Considere a experiência aleatória que consiste em retirar ao acaso e em simultâneo três bolas da caixa e observar os seus números. Sejam X e Y as variáveis aleatórias seguintes. X: “o número de bolas retiradas com o número impar” e Y: “soma dos números das bolas retiradas”. Determine P(Y 10|X=1), sem recorrer á fórmula da probabilidade condicionada. – Fiquei a olhar para aquele pedaço de folha com o meu cérebro a dar voltas e voltas sem fim.
—São dois terços.- virei-me para cima e vi Ino. Olhei interrogativa. – P(Y 10|X=1) são dois terços . Mas não interessa. Não foi para isso que vim aqui. – Esfregou as mãos e sentou-se à minha beira – Como é que tu estás? Pronta?
—Na verdade não! Dormi mal e estou muito cansada. – Coloquei a cabeça no livro – Acho que vou dormir aqui e quando acordar isto tudo já vai ter passado. – Levantei a cabeça.
—O que é isso agora? Espírito derrotista? Onde é que está aquela Sakura que eu encontrei na quarta-feira? – Revirei os olhos – E não me revires os olhos! – Deu-me dois tapas leves na cara – Tu vais lá e não vais desistir. Não só porque o Gaara vai fazer com que tu te irrites como eu não vou deixar que desistas, percebeste? – Assenti – Muito bem! Vamos lá que está na hora.
Mas já? Olhei a hora no relógio da biblioteca e realmente estava sim. Fomos lado a lado até a universidade, a Ino a tagarelar sobre uma revista Teen, enquanto eu tentava respirar normalmente devido ao nervosismo. Entrei no recinto da piscina e olhei para Ino.
—Vais ficar para assistir? – Tirei a roupa de forma nervosa já dentro do balneário.
—Claro! Vou estar lá nas bancadas para te apoiar. – Assenti – Lembra-te, respira fundo e nada de nervosismos, tu és muito melhor do que ele! – Foi-se embora provavelmente para as bancadas.
Acabei de me preparar e sentei-me no banco para relaxar. Inspira pelo nariz e expira pela boca. Alfa, beta e ómega. Com certeza tenho de deixar de ver séries.
—Estás pronta? – Assustada virei-me para a fonte da voz desconhecida. Não tinha reparado que alguém tinha entrado – Desculpa, não te queria assustar.
—Sabes que aqui é área feminina, certo? – Ele assentiu – Quem és tu afinal e o que fazes aqui?
—Oh magoou! Nem te lembras de mim? – Sorriu de canto – Uchiha Sasuke, o cara que salvas-te à uma semana atrás.
Uchiha Sasuke? Uchiha? Eu já tinha ouvido esse nome em algum lugar mas sinceramente não me estou a lembrar de onde. Mais tarde averiguo.
—O cara da cãibra? – Perguntei – Mas ainda não me respondeste. O que fazes aqui?
—Desejar-te boa sorte. Toda a gente está farto da atitude do Gaara e eu também, mesmo sendo o seu melhor amigo.
Olhei mais uma vez para ele e apreciei melhor o aspeto do garoto. Terá provavelmente a minha idade ou será um pouco mais velho, de estrutura alta, cabelo preto liso e rebelde, olhos pequenos e levemente puxados, a boca fina e comprida. Vestia-se de uma forma informal.
—Obrigada! – Agradeci com um pequeno sorriso.
—Bom, eu vou indo agora. Não quero ser apanhado aqui e ser apelidado de pervertido. – Ei ri e ele saiu porta fora.
I'm a lost cause, not a hero
But I'll make it on my own
I've gotta prove them wrong
Me against the world
Fui na direção da área da piscina, mas antes de entrar, ouvi duas pessoas a falarem e olhei para ver quem eram.
—Eu sabia que ela não vinha. Fugiu no último momento com o rabo entre as pernas de certeza. – Gaara cruzou os braços orgulhoso.
—Não digas asneiras Gaara. Ela está a preparar-se. Eu tenho a certeza que ela vai ganhar. – Tal comentário pareceu enfurecer o Sabaku.
—O que é que fazes aqui afinal Yamanaka? Não me lembro de te ter convidado para me vires ver a vencer. – Virou-se completamente para a loira.
—Pois não. Não me convidaste para te vir ver a ganhar porque tu não vais ganhar. – Sorriu triunfante – Para além disso, eu estou aqui para apoiar a minha amiga Sakura.
—O quê? És amiga da outra lá? – Apontou para a porta do balneário feminino – Vocês realmente merecem-se. Duas derrotadas ficam bem uma com a outra.
—Eu não sou derrotada Sabaku! – Bateu o pé no chão.
—És sim e essa Sakura também, nem se quer se deu ao trabalho de dizer alguma coisa porque eu vou comprovar isso hoje. – A fala dele irrita-me profundamente – Aliás, como eu disse, ela nem veio. – Não conseguia mais ficar a ouvir sem reagir e saí do meu esconderijo.
—Estou aqui cabeça de ferrugem! – Disse referindo-me ao facto de ele ser ruivo.
Gaara olhou para mim enraivecido e depois sorriu desbocadamente.
—Olha se não é a donzela que veio salvar a perdedora.
Ignorei-o e fui para o recinto onde se encontrava a piscina com Gaara e Ino ao meu alcance. Quando lá cheguei a primeira coisa que reparei foi o amontoado de pessoas que estavam nas bancadas. Temari, Naruto,Karin, Neji, Sasuke e a tal garota com cabelo azulado que eu esqueci-me do nome.
—Sakura-chan, força! – Ouvi o grito de Temari e Neji levantou um cartaz escrito “Fighting”.
Não sei porque eles estão aqui. Estivemos juntos apenas uma vez e não deve ter sido dos melhores encontros que eles já tiveram. Eu também não sou das melhores pessoas do mundo, mas mesmo assim eles estão aqui para me apoiar sem me conhecerem. Sem conhecerem a camada de gelo que formei para me proteger de pessoas indesejadas.
—Bando de patetas. Como se uma garota me pudesse vencer. – Colocou os óculos – Venha, vamos acabar logo com isso! – Garoto irritante.
Por alguma razão aquilo enervou-me. Mesmo que eu ainda não fosse próximo deles, eu não suporto que uma pessoa insulte outra sem ter conhecimento da personalidade da pessoa em questão.
Acalmei-me e lembrei-me do que Ino me ensinou durante o resto da semana.
Flashback On
—Muito bem, gostei da tua pontualidade! – Olhou para a prancheta que estava nas suas mãos e depois virou-se para mim – Senta-te porque tenho algumas coisas para perguntar e para te dizer.
Fiz o que me pediu.
—Primeiro: há quanto tempo é que tu treinas e quantas vezes por semana? – Olhou para a prancheta pronta para escrever.
—Talvez desde os meus oito anos de idade e treino duas vezes por semana. – Ela escreveu.
—Ok, a prática leva à perfeição e com atividades físicas não é diferente. O ideal é fazer um treino de natação três vezes por semana, no mínimo. Se uma pessoa treina menos do que isso, o corpo fica em processo de descanso e não se adapta.
—Anotado – Esfreguei o braço.
—Que técnica costumas usar enquanto nadas?
—Técnica? Nadar o mais rápido possível conta como técnica? – Ri pela pergunta.
— Não conta. A natação é feita de forma técnica então não adianta querer nadar o mais rápido possível. Pensar apenas na velocidade é gastar energia em vão. – Foi até à sua mochila e entregou-me um objeto esquisito.
—O que é isto? – Apontei para o objeto.
—São nadadeiras. Usa-as e elas vão melhorar a tua postura durante o nado e vão melhorar a tua musculatura. Claro que não vai ser num dia, mas como tu mesma disseste, se não venceres agora, vais treinar cem vezes mais para ganhar na próxima. Estou a contar com essa dedicação. – Escreveu na prancheta e voltou a falar – Que tipo de exercícios fazes quando vens para a piscina?
—Os normais suponho. De costas, mariposas e por aí vai. – Dei de ombros não vendo onde ela queria chegar.
—Isso não chega. Vais começar a fazer corridas na água e um pouco de hidroginástica também. Isso vai fazer com que a tua força para o nado aumente. Vais fazer o que eu te disse variando a intensidade e a velocidade para teres um melhor rendimento. Percebendo isto vais ser capaz de ganhar ao Gaara. Percebido? – Assenti um pouco surpresa com a determinação da moça – Muito bem, vamos começar!
Flashback Off
Concentração e foco Sakura, lembra-te do que Ino disse. Usa a raiva que o Gaara te provocou para te motivar.
Subi na plataforma e fechei os olhos. De repente todos os outros sons desapareceram e o que restou foi apenas a voz de Sasuke a fazer a contagem decrescente e a palpitação do meu coração nos ouvidos.
3, 2, 1…
… e os sons voltaram todos de uma vez. Saltei com a maior velocidade que consegui e depois de “deslizar” na água comecei a aplicar força nas pernas e nos braços. Exigia tudo de mim ao lembrar-me do ruivo a troçar do sexo feminino.
Temari Pov
Eu sei que talvez seja errado estar a torcer pela rapariga que desafiou o meu irmão. Podia ser errado mas está na altura de Gaara crescer e se tivesse de usar Sakura para isso eu ia usá-la como arma sem hesitar.
Desde conheci Sakura soube que ela tinha algo de diferente. Era mais acanhada, mas não chegava ao ponto de não saber falar com ninguém. Era calma, mas não ponto de ser aborrecida. Tinha assuntos interessantes. Porém o que me chamou mais a atenção foi a barreira invisível que ela tinha ao se refrear em alguns assuntos. Parecia que escondia alguma coisa. Não é como se eu confiasse cem por cento nela, mas alguma coisa puxa-me sempre para ela. Os olhos dela transmitem-me isso.
Olhei para a bancada para ver as várias reações das pessoas que se encontravam. Não eram muitas, pelo contrário, era os amigos do meu irmão e o meu grupo de amigos. Pensei que Sakura tivesse muito mais amigos.
Naruto via tudo calado e provavelmente ansioso para saber quem vai ganhar. A Karin mesmo sendo casmurra também sorria na espectativa de quem seria o vencedor. Neji era o que mais animava a bancada com a ajuda de Ino. Ambos seguravam um cartaz escrito “Fighting Sakura”. Tenten tinha vindo com o uniforme de líder de torcida do antigo colégio. Os amigos de Gaara eram os únicos que permaneciam em silêncio.
Olhei novamente para a frente a tempo de ver Sakura e Gaara a darem a volta e virem na direção contrária. Tinha que admitir, a competição estava acirrada. Quem fosse ganhar seria por pouco.
—Vai Gaara, tu consegues. – Novamente olhei para a bancada e vi a garota de cabelo preto azulado em pé a torcer pelo meu irmão. Nunca fui muito com a cara dela. Não sei o que ela fez, mas desde que chegou ela conseguiu com que o meu irmão e Sasuke se separassem do dos meninos que agora eram nossos amigos. Não deve ter sido coisa boa.
—Vai Sakura, não percas para esse projeto de homem mal feito. – Desta vez quem gritou foi a Ino e eu ri pela expressão. Novamente, sei que é errado rir dele.
—Vai Sakura, dá cabo do meu irmãozinho. – Gritei.
Estavam a meio da piscina e demasiado perto do fim da partida. O meu coração pulava em tamanha expetativa que eu podia ouvir o sangue a bombear na minha cabeça. Quem será que ganha? No fim mesmo da piscina toda a gente levantou-se para poder ver melhor quem ganha. Sakura? Gaara? Fecho os olhos e quando volto a abrir vejo que as luzes estão apagadas. O que aconteceu? Eu não vi quem ganhou.
—Quem ganhou Neji? – Coloquei as mãos nos ombros dele exasperada.
—Não sei, as luzes apagaram-se no momento em que eles chegaram ao fim. – Retirou a minha mão.
—Alguém que ligue a luz que eu não vejo nada. – Ino pediu.
De repente as luzes acenderam-se e eu soltei a mão de Neji. Desci as bancadas com os meus colegas em direção aos dois que se encaravam mortalmente.
— Alguém viu quem chegou primeiro? – Sakura perguntou finalmente quando viu que nós estávamos lá e saiu da piscina.
—Obviamente que fui eu. Sou homem e muito mais forte. – Sorriu empolgado e satisfeito.
Mais uma vez o meu irmão estava a passar dos limites.
—Não sabemos disso. Pelo o que eu vi tanto tu como a Sakura estavam lado a lado antes de as luzes se apagarem. – Ino refutou a afirmação de Gaara – Por isso o resultado é inconclusivo e não há como contestar isso.
— Isso é o que vamos ver. – Saiu do recinto furioso.
Sakura Pov
Temari veio até mim, abraçou-me e sorriu.
—Muitos parabéns! Mesmo não sabendo quem ganhou tu foste a minha preferida desde o início. – Disse eufórica.
Tirei a touca revelando as madeixas loiras e compridas presos num coque.
—Obrigada, mas deverias torcer pelo teu irmão. – Peguei a toalha que estava pendurada na parede e enrolei-me. O meu corpo começou a reclamar de frio agora que estou fora da água.
—Não interessa. Foste demais Sakura. – Ino desta vez falou – Eu sugiro uma ida ao cinema para comemorar o desempenho da minha amiga Sakura. Quem alinha? – Perguntou já pondo a mão no ar para dar a sua confirmação – Olhei para todos e vi que todos colocavam a sua mão no ar. Ao ver que a última mão que foi posta no ar foi a de Naruto lembrei-me do nosso último encontro e a dúvida voltou.
Ele sabia ou não sabia?
But I'll make it on my own
I've gotta prove them wrong
Me against the world
Fale com o autor