Snow
1 Tudo sempre começa em Festa...
Notas iniciais
Boa Leitura ^^
Perséfone suspirou pela trigésima ou quadragésima vez ao ver quem se postava ao seu lado. Era um dia comum aquele nos campos cheios de petúnias e rosas de sua mãe, Demeter, onde havia uma pequena confraternização em que se incluía todos os deuses, desde menores a maiores, para jogarem polo. Claro, a garota de lindos e suaves cabelos castanhos claros e de olhos achocolatados, tinha alguma noção de que certas pessoas, como aquele de terno e gravata perto de si, iriam aparecer para finalmente verem quem era a bendita e tão falada Coré, igual sua mãe adorava chamar a si mesma. Uma capa de polidez e carinho para falar “ela chegou à família” fora usada para acobertar sua chegada, era obvio, porque nenhum olimpiano era tão cara de pau assim. Mas achou-se até gostando da família.
Até aquele momento. Nem tudo pode ser perfeito.
Bebericou um pouco de seu Martini, ganhando força, antes de se virar para encarar delicadamente o nada agradável convidado – deus dos mortos. E nunca se perguntou como um dia ele fora tão unido àquela família que se encontrava ali, rindo e se divertindo, como há muito tempo não fazia. Se é que algum dia isso ocorrera.
Mas, apesar de todo o drama e toda aquela raiva estranha e aquele ódio que passara a sentir só de ouvir as tremendas e cruéis histórias sobre aquele deus, não tinha como deixar de admitir, como uma admiradora de belos monumentos, que ele era realmente sensual com os olhos negros contra a pele tão branca, totalmente diferente da sua morena. Todos diziam a ela, que antes mesmo de nascer, Hades um dia usara roupas antiquadas e velhas, que não ligava muito para a “moda” que Afrodite impunha e que só vivia no Mundo Inferior, um dos piores lugares que ela poderia imaginar ir a sua vida. E, ao que parecer, ao finalmente perceber que chegavam a um século novo e único, um em que podia utilizar todos os poderes que detinha, mudara a percepção.
E, internamente, mesmo não aceitando, Perséfone aprovava aquela mudança. Imaginá-lo de roupas estranhas era difícil agora que acabara acostumando-se com os ternos sempre negros e bem cortados, assim como vê-lo com aqueles cabelos negros grandes e presos quando não o imaginava de outra forma que não aqueles fios mais escuros que a noite batendo no máximo na gola da blusa social branca, como de praxe. E odiou-se ao ver-se não indo embora no momento em que aqueles olhos escuros encararam os seus, tão estranhamente opacos e frios que lhe davam arrepios, ainda mais que vivia envolta em coisas fofinhas e lindinhas, nada amedrontadoras igual aquele poder que ele irradiava.
Hades deu um sorrisinho de lado, misterioso.
– Querida sobrinha. – a voz era rouca, mas agradável aos ouvidos. Assim como o rosto bonito daquele seu tio que parecia ter não mais que trinta anos de idade. Um Drácula tão gostoso quanto o de Van Helsing, pensou, virando de uma vez a bebida para ver apagava aquele seu ódio por vê-lo tão bonito. – Vejo que está apreciando a festa.
Era bem audível a ironia naquelas palavras. Perséfone compreendia do que ele falava. Passara praticamente a festa inteira nos jardins do outro lado, na parte de trás do templo, longe do pessoal e somente conversando com alguém quando ia visitá-la. Quer dizer, até sentir sede de algo alcoólico para ver se acalmava seus músculos e seu nervosismo ao odiar a ideia de sua mãe fazer uma confraternização como se ela fosse um produto a ser vendido no leilão e ir ali, onde se encontrava incrivelmente conversando com seu tio de olhos negros e virando seu segundo Martini. Sabia que não deveria beber muito, não estava acostumada, mas isso pouco importava naquele momento. A bebida estava quente o suficiente para afogar toda aquela estupidez que Demeter fazia. E para amainar seu ódio por Hades.
– Sem dúvida, está agradável, não concorda? – disse suavemente enquanto enchia mais uma taça daquele liquido transparente. O liquido da felicidade. – Espero que esteja gostando.
– E sua delicadeza já começa a sumir.
Seus inocentes olhos chocolate se expandiram de surpresa ante a direta dele. Nunca ninguém dizia assim com ela, nem mesmo Zeus, seu pai. E forçou-se a ser doce e agradável.
– Desculpa por meus modos, talvez meus pensamentos rebelaram-se, mas creio que deseja...
– Que você pare de beber isso – Hades apanhou a taça de sua mão e a colocou de volta a mesa, intacta. Não pode deixar de olhar estupefata para aquela ousadia, sem acreditar na frieza daqueles olhos negros tão profundos quanto o Tártaro e tão impossíveis de se lerem quanto um espelho. – Uma moça delicada como você não deveria querer se afogar nessa bebida.
Engoliu a seco ao saber que era verdade o que ele dizia. Mas, quem se importava com isso quando o que mais desejava era um chá de sumiço ou um buraco onde enfiar a cara? Aparentemente, seu tio. Seu bonito e estranho tio de quem odiava tanto e que a encarava com uma centelha de diversão nos lábios que davam a impressão de ser firme. Ao menos, ao encará-los.
– Certamente – fez um aceno nobre contra sua vontade, sendo a mais encantadora possível. O que estava achando difícil no meio de tanta gente que vinha lhe dar parabéns como se estivesse grávida. – Um descuido meu, tio. Creio que não vá se repetir.
Hades ergueu uma sobrancelha para seu comentário.
– Sua mãe te ensinou a cantar bonitinho, Perséfone. O que mais ela fez?
Me escondeu de tudo e de todos já soubessem quem eu era. Deixou seu sorriso mais caloroso e carinhoso que podia, aquele que poucas vezes usava, só para quando cometia algum erro grave, se libertar. Era delicada, e nunca podia se esquecer disso. Sua mãe sempre lhe dissera que meninas doces raras vezes conseguiam amores ou qualquer outro perigo não corriam. Uma forma de proteger a si e ao mesmo tempo fazer todos gostarem de si. E eu queria lhe dizer um foda-se.
Mas viu-se enchendo atentamente o copo que pousavam nos dedos longos e fortes de Hades com o whisky que havia ali e que notara que era o que tomava só pelo malte que o fazia. Às vezes, havia o lado bom de ser filha da deusa da agricultura.
– Não compreendo aonde quer chegar com tal frase, tio – voz doce. – Mas acho que não há maldade alguma nela, há?
Por alguns segundos, ele somente fitou seus olhos, deixando a si mesma presa naquela escuridão apavorante em que parecia que todos os monstros mundanos deviam habitar para alguns milésimos depois sorrir, um sorriso bem mais cruel, enquanto colocava entre seus dedos mais finos e suaves, que se bateram involuntariamente contra os gelados dele nesse movimento, a sua taça com Martini e segurava com a outra, deixando para lá a bebida âmbar que acabara de servi-lo, o seu cotovelo, já pronto para guiá-la, mostrando-se muito mais interessado em algo em que não compreendia, mas que teve medo de encarar. Os olhos frios sorriram por um minuto.
– Vamos, vou te afastar dessa família.
E Perséfone tremeu, algo dentro de si, não compreendendo o que aquele homem vinte centímetros mais alto que si poderia fazer.
Seu vestido laranja até o chão, em degrade, se arrastava pela grama alta dos campos de trigo enquanto, pela primeira vez, conversava calmamente com Hades, algo inesperado e que, mesmo não gostando, admitia ser bom fugir um pouco daquela família, em que às vezes degustava sua bebida. Caminhava assim, o vento batendo tanto em seus cabelos longos quanto nos negros dele, uma imagem bem contraditória em meio de tanta cor, no momento em que, após deixarem morrer o assunto para curtirem a calmaria, ele olhou para trás, tão seguro de si e sorriu ao fitar seus olhos. Ainda continuava a ser o sorriso cruel, mas havia mais um ar cumplicidade por estarem fugindo juntos daquela ridícula e desnecessária confraternização. Ou seja, lá o que fosse aquilo que sua mãe fazia.
Um ar que a incitou a sorrir cadenciadamente, achando-se uma péssima filha pelo que fazia: bebia e não comparecia a sua própria festa. Era nota dez. E uma curiosidade brotou na sua mente.
– Tio...
– Me chame de Hades.
Era aquela voz dura como aço que a fez se retrair suavemente pelo tom rude. Delicado.
– Hades... – se corrigiu antes de prosseguir. -... No que está pensando?
Ele foi claramente pego de surpresa ante sua pergunta, as sobrancelhas negras no rosto aristocrático e bonito saindo bem mais pronunciadas pelo tempo que não deveria ser pego em guarda baixa.
– Por que a pergunta, Coré?
Suavemente, sorriu. Era uma boneca.
– Me chame de Perséfone.
Na mesma cartada. E Hades pareceu perceber isso ao dar um sorriso misterioso de lado.
– Então, Perséfone, por que da pergunta?
Seus esguios e pequenos ombros se mexeram sob o pano delicado do vestido.
– Divagações, apenas.
Demorou-se um minuto antes dele responder, em uma voz baixa e parar a sua frente, aqueles olhos encarando os seus de cima e usando todo o poder que havia neles. Por algum instinto, muito mais profundo, tentou fugir ao dar três passinhos para trás, deixando cair a taça que nem fez som ao entrar em contato com o chão, contudo, mal conseguira gritar, sem nem entender porque pedia ajuda, quando ele tampou sua boca, a pele fria contra a sua quente e bronzeada fazendo-a tremer. E ela não tinha duvida ser de medo. Hades passou um braço por sua cintura.
– Shhh, nadinha, nem pense nisso, Coré. – sussurrava ele enquanto puxava seu corpo para perto. E mesmo em desespero, viu uma centelha de preocupação no negro. Ou talvez tenha sido sua imaginação. – Eu vim te buscar e não sairia jamais sem você daqui, sobrinha, ainda bem que facilitou o processo.
Então, antes que pudesse se fugir, viu a palma afastar-se para segurar seu rosto e logo havia lábios, tão frios quanto inverno, tão insensíveis quanto à neve e tão sem emoção quanto o gelo contra os seus. Era a pior sensação de sua vida, que não era muito longa, e que nem a fizera tremer tanto ao empurrar fracassadamente o peito dele só para ser mais segura. Até que seus olhos se fecharam, a boca suavemente acalmando-se sobre a sua. E então, o escuro.
Hades suspirou ao segurar a linda deusa Perséfone desacordada em seus braços, achando-a tão bela quanto seu irmão Zeus, a fim de evitar uma briga entre o céu e o Mundo Inferior, havia lhe dito ao oferecê-la. Achara uma péssima ideia. Comercializar pessoas era algo datado do século dezoito ou menos durante a humanidade que tanto seguiam, mas viu-se realmente tentado ao encarar aquele rosto tão delicado quanto uma rosa naquele belíssimo vestido que só destacava ainda mais aqueles olhos avelãs inocentes e carinhosos com todos. E perguntava-se agora como poderia ter negado-a ao fitar a face serena e delicada da deusa contra seu ombro, aqueles braços pendendo ao ser movida. Tivera de usar seu poder nela, enfeitiçá-la com o dom da morfina, que só utilizava quando era realmente necessário para evitar pessoas que iam ao Elísio sofrerem ao morrer. Não precisava ser exatamente um beijo, como fizera a ela, podia ser um toque, um olhar, contudo, vira-se inclinado a saber qual era o gosto que ela teria ao ser a filha da deusa da agricultura. E as especiarias que ainda salpicavam em sua boca eram estranhas e que não pudera classifica-las ainda.
E nem terei tempo para isso.
Pensou ao encarar os seus familiares, tão longe, se divertindo em jogar polo. Mal sabiam o que acontecia do outro lado.
Então, mandando somente uma mensagem telepática para Zeus ao avisar que pegara seu premio, Hades sumiu nas sombras e achou-se caminhando com Perséfone pelo corredor escuro de seu castelo, em direção ao seu quarto. Não demorou muito para Shadow, sua “empregada”, se é que poderia chamá-la assim uma vez que era um espírito, achar-se ao seu lado, os olhos que deveriam ter sido azuis surpresos e a boca aberta.
– Essa é...
Trincou o maxilar, já a espera do grande sapo que ela pagaria para sua pessoa, de um modo que o fazia sempre recordar que já não tinha autoridade alguma com a mulher que praticamente o criara e o faria perder a cabeça. Não agora. Não com ela.
– Sim, essa é Perséfone, filha de Deméter.
– Meus deuses, Hades, o que...
– Shadow, por favor... – virou-se para encarar os olhos translúcidos da sua empregada segundos depois de abrir a porta em verniz e negra com cenas de tortura de seus aposentos. -... Sabe que nunca digo isso, mas, podemos deixar para outra hora. Perséfone precisa de cuidados.
Uma das sobrancelhas da fantasma ergueu-se.
– Você deu a morfina?
– Eu não tinha outra escolha...
– E depois a sequestrou.
– Outra vez não tive escolha, então... – cortou o que ela iria dizer com um olhar severo e com sua voz fria. -... Sabe do que ela necessita. Pegue um pouco do sumo daquela flor branca e venha, rápido, matar uma deusa não está na minha lista negra.
– Odeio seus humores negros, Hades. E já estou indo, acharia um desperdício matar uma moça tão bonita.
Assim, enquanto sabia que Shadow sumira e Hades caminhava para sua enorme cama de madeira negra, pensou no que aquela endorfina poderia causar a ela. Talvez uns dois dias ruim, com um pouco de febre, mas nada demais para uma deusa. A não se que Shadow demore, pensou acidamente ao mesmo tempo em que pousava o corpo delicado de Perséfone no colchão cor de escuridão, vendo mostrar periodicamente o tecido enquanto a acomodava. Era linda. Não tinha duvida quanto a isso.
E mesmo sem tempo para apreciá-la, pois tinha uma guerra a enfrentar, sorriu-lhe ao tocar a face quente e adormecida.
– A inocente deusa sequestrada pelo deus do mundo inferior. Posso até me divertir quando sua mãe souber disso, Perséfone. Demeter não perde por esperar, porque eu... – beijou ternamente a testa da mulher adormecida pelo seu beijo. -... Não vou desistir assim tão fácil.
Notas finais
Enfim, espero que tenham gostados e pra me dar animação para postar mais um capítulo... Que tal um recadinho pra mim? ^^
Beijinhos e até a próxima,
Nivea
;D
Ps: Não sei porque, mas achei o cara da capa tão perfeito para Hades... Ai, ai *--*
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