Notas iniciais
Hum... Demora em postar. Causa: Férias movimentadas, difícil acesso ao computador e lindas e chatas primas aqui em casa *--* Espero que gostem do capítulo ^^


Perséfone acordou um pouco perdida.



Estava escuro, o sol não parecia como de costume pela sua janela veneziana e nem mesmo o cheiro de rosas encontrava-se por ali.

Era um aroma completamente diferente aquele que preenchia o quarto. Uma mistura da praticidade da menta para acalmar com o poder do frio que adentrava em seu peito e fazia uma suave nuvem aparecer à frente de seus lábios ao respirar.

Gelo.

Neve.

Abriu os olhos, assustada, mas sem se mexer, seu coração a mil enquanto recordava onde se encontrava.

Diferente de tudo o que lhe diziam — que o Inferno era quente e que poucos dias podiam ser mais frios — a vista da janela de corpo inteiro, quando se levantou e encaminhou para ela a fim de saber se era verdade o pesadelo em que estava, mostrava vários flocos de neve escorrendo do céu e pousando no extenso e infinito tapete branco de gelo que não pareciam ser de ontem. A cor dele, como ela tivera de aprender por ser filha da deusa da agricultura, desprendia a ideia de que estivesse por ali há mais tempo que tinha de vida.

Assim é o Mundo Inferior? Perguntou a si mesma, sentindo lágrimas escorrerem por seu rosto ao tocar com o dedo o colar que Hades havia posto em si no dia anterior.

Ou fosse lá que dia tivesse sido.

Era uma prisioneira de um mundo todo em preto e branco, sem qualquer cor ou sabor além de morte. Uma prisioneira de Hades, o deus dos mortos.

Pousou uma mão no vidro gelado, surpreendo-se com a temperatura tão fria dele, que a fez imaginar que o coração dele deveria ser do mesmo modo.

Um frio, ignorante e que só ama a si mesmo. Um estúpido. Um... Seus olhos se embaçaram. Um idiota. Um deus que não merecia nada além do que seus campos de tortura tinham a lhe oferecer: dor e solidão.

Por toda a eternidade.

Mas o que eu havia feito de errado? Era a indagação de um milhão de dracmas que ela não conseguia achar. Nem se quer o conhecia, o que poderia ter feito de errado? O que poderia ter desencadeado a ira daquele deus cruel?

Era sempre tão doce, delicada, até mesmo quando sabia o que aconteceria consigo naquele dia no banheiro em que fora até ele e o agradeceu por um colar que a transformava em um cachorrinho dele, um animal domesticado que usava coleira para não se perder.

Pois era isso que imaginava que significava aquela gargantilha de brilhantes tão negros e frios quanto aqueles olhos do deus dos mortos.

Era seu fim.

Já se sentia piorando, seu corpo, que a mantivera doendo durante dois dias ou mais, não recordava em meio aquele turbilhão de dores, desejava vacilar e achou o momento perfeito de deixar para admirar aquela bizarra, mas magnífica paisagem branca depois no instante em que escutou o som de passos vindos do local em que ela sabia ser o banheiro.

Teve de correr, seus pés não fazendo som algum ao tocarem com rapidez o chão atapetado e, como qualquer outro lugar daquele quarto ou daquela vida dele, negro para não ser pega acordada.

Não queria encontrá-lo. Não sabia o que podia vir dele depois de tudo o que fizera consigo, que a deixara doente e a levara a fazer coisas somente através daqueles olhos gelados.

Tinha medo.

Pela primeira vez, sentiu seu coração pulando loucamente de medo como se estivesse fugindo de algum monstro que só percebia a vitima através de algum movimento brusco enquanto enfiava-se embaixo da grossa e macia coberta da cama, odiando admitir que o cheiro de menta era delicioso e mais forte ali.

Esteve assim, com o coração na boca de puro terror com tamanho poder que aquele deus detinha, quando escutou a porta se abrir, os passos soando secos e militares no chão e então o viu encaminhar-se de costas para si em direção ao que parecia ser um guarda-roupa.

Teve a certeza assim que ele o abriu e vários ternos aparentemente iguais entraram em seu campo de visão. Mas isso pouco importava para ela.

Era o deus quem chamava sua atenção.

Era alto, muito, talvez uns vinte centímetros a mais que si.

A pele branca que não demonstrava delicadeza como acontecia com sua prima Atena da qual seu marido, Poseidon, adorava brincar. Muito pelo contrario, era como o gelo lá fora: forte, impenetrável e infinitamente mais duro e moldado para aguentar milhares de golpes sem romper durante uma guerra.

Uma camada de puro aço branco.

E o físico dele ajudava a sustentar essa ideia. Era malhado, suas costas fortes a cada movimento que fazia para abaixar-se e colocar as calças após ter aparecido só de cueca Box, contraindo-se e mostrando cada músculo trabalhado. Seus bíceps eram tão grandes quanto os de seu primo Apolo, só que diferentemente desse, não era tão atrativos assim. Eram... Perigosos.

Na verdade, cada parte de Hades dizia: mantenha-se longe de mim ou eu te mato, uma pequena ironia que fez seu coração desejar rir baixinho.

Quer dizer, assim pensava, até ver, no momento em que ele virou-se um pouco de lado para arrumar algo, o grande corte que havia no quadril do mesmo. Já não sangrava, isso era certeza, mas era clara que foi atual, talvez até mesmo naquele dia, uma vez que deuses não demoram a se curar.

Mas, foi o suficiente para seu coração treinado para ser delicado e mole se desfazer do ódio e preocupar-se sobre o que acontecia.

Pensava nisso, a encarar cada machucado, agora que podia enxergá-los e não somente o belo corpo a sua frente daquele deus de aparência de trinta anos, quando se viu erguendo-se da cama, sem nem dar alarde a ele de sua presença, uma proeza que ela deveria se sentir bem, pois ninguém pegava o deus dos mortos de surpresa, e seus dedos trementes, um pouco assustada pelo poderio que ele emanava ao achar-se atrás do mesmo, tocarem um corte profundo no ombro do mesmo, a pele gelada queimando sob a sua tão quente.

Era... Rude.

A pela era rude e macia ao mesmo tempo sob seu toque.

No mesmo minuto, em um piscar de seus olhos preocupados com o quão forte deveria ser seu oponente para cortá-lo daquela forma, Hades havia se virado e segurava seu punho com algum poder que desconhecia.

Mas que fez, onde aqueles dedos tão gelados quanto à neve, começar a congelar sua pele por baixo, uma crosta de gelo crescendo. E apavorando seu coração com a compreensão de que aquele poder dele começava a congelá-la, seu peito a doer pela súbita falta de ar.

Até encarar aqueles olhos negros com medo do que ele era.

Estavam perigosos, mais do que qualquer momento em que o vira antes, em uma forma de “Não me toque” que a fez pensar que talvez estivesse em uma guerra.

E seu coração congelando.

– Hades – sussurrou, tão baixo pelo gelo que adentrava em seus pulmões que não soube se ele escutara, sem tirar os olhos dos dele, que pareceram sair do modo de ataque com o seu nome sendo chamado e que o fez soltar seu braço.

Frio.

Era isso que sentia ao dar um passo para trás.

Medo.

Pavor.

Dor.

E frio, um frio que fazia seu corpo tremer.

Até que tossiu, tendo que se segurar na parede, para voltar a respirar.

Ele estava me congelando, pensou Perséfone, sem acreditar que existia alguém daquele jeito. Um arrepio verberou pela sua coluna.

Frio.

Seus músculos gritavam em protesto, cada um deles tentando aquecer-se outra vez, tentando retirar aquela camada de gelo. Até mesmo seus dedos estavam assim, sua pele tornara-se branca onde ele tocara, veias azuladas aparecendo, ainda que só a segurara por poucos segundos.

Congelar. Era isso que ele fazia. Hades podia congelar um deus.

Tossiu outra vez.

E então, havia braços fortes e falsamente seguros, puxando-a para o colo daquele deus que encarou seus olhos com uma forte repreensão naquele breu que era.

– Não me toque sem avisar, Perséfone – dizia ele enquanto acomodava, um pouco cuidadoso, de acordo com sua mente, sua cabeça contra o ombro do mesmo, fazendo seu peso parecer uma pena. O que não era difícil de pensar que talvez realmente o fosse. – Viu o que aconteceu?

Ela tremeu ao ser colocado sob os grossos cobertores e Hades sentou-se ao seu lado, pousando em seguida a mão sob seu peito, bem acima de seu coração.

Era quente.

Ali a mão dele tornava-se quente, curiosamente agradável e que lhe dava a intenção de que a protegeria, de que a afastaria de todos os males que havia.

Tudo mentira, claro, mas era o suficiente para pousar sua palma sobre a dele, e encarar aqueles olhos, implorando para que tirasse aquela horrível sensação de ser congelada viva, de ter seu corpo em milhares de pedaços de gelo, como ocorria naquele momento ao tentar respirar.

– Desculpa. – pediu, de verdade, por tê-lo forçado a se proteger ao ser pego de surpresa, sua voz saindo arrastada. Tossiu, uma nuvem aparecendo sob seus lábios. – Hades, me ajuda.

A expressão dele foi de surpresa ao seu pedido de desculpas a algo que ela não reconheceu, algo que o fez assentir e pousar uma mão em seu rosto para então fechar os olhos dizendo algumas coisas em grego antigo que não compreendia.

Só havia aqueles dedos afagando suavemente sua face, algo completamente contraditório, e aquela palma em seu peito que gradativamente ia esfriando enquanto seu corpo ia aquecendo, tornando mais fácil respirar.

Logo, não sentia mais aquele gelo, ainda que seu punho continuasse em tom diferente do resto do corpo, mas imaginou que com o tempo sairia.

Assim que acabou, Perséfone respirou profundamente.

A sensação do ar gelado do Mundo Inferior nunca lhe pareceu tão magnífica e nem tão prazerosa ao queimar só um pouquinho ao descer para seus pulmões, ainda um pouco presos pela mão de Hades, mas livres o suficiente para que expandissem e exalassem.

Seus olhos, cor de chocolate, seguraram os dele e viu-se sorrindo, um sorriso que não precisou qualificar qual era. E que a fez segurar o punho do deus visualmente indiferente no instante em que esse tentou tirá-lo de lá.

– Obrigada. – disse, a apertar de leve a palma tão maior e gelada.

Ele somente assentiu, um aceno nobre e distante que a fez se perguntar como ele de fato era, se aquela era a expressão dele cotidiana ou se havia algo a mais, uma vez que soube através da agradável e acolhedora presença de Shadow, a empregada dele, que Hades não fora nenhuma vez lhe visitar.

Claro, foi um péssimo modo de encontrá-lo enquanto tomava banho, mas pensou que talvez ele estivesse ocupado com outras coisas.

Outras coisas tão destrutivas, disse a si mesma ao encarar o corte no peito do mesmo.

O que poderia estar acontecendo de tão ruim? Não era a favor de Hades, e duvidava que algum dia fosse, mas o que poderia estar enfrentando? Seus pais talvez estivessem brigando por ele tê-la roubado?

Se assim o fosse, não precisavam de uma briga.

De uma luta.

Suavemente, tocou a pele perto do machucado que se retraiu e a fez encarar o rosto frio de Hades. Ele não olhava para sua pessoa, encarava qualquer outra parte, parecendo seriamente... Envergonhado com aquilo.

O deus do Mundo Inferior com vergonha? Sorriu um pouquinho antes de voltar-se para o machucado. Estava profundo, provavelmente feito por uma espada.

Que veio daqui a aqui, ela tracejou o caminho da lamina da esquerda para a direita até encontrar outro corte que dava continuidade ao primeiro.

Quantos seriam?

Todos, em cada história que lera tanto sobre ele quanto sobre os demais deuses, já que teria de aprender todos os milhares de anos que não vivera com a família desde que nascera, diziam que Hades era tão bom com sua arma de poder, uma espada negra enorme e que sugava almas, algo que lhe trouxe horror no começo, um pouco parecidos com a de Cronos, quanto Ares era bom em matar em guerras e Atena em planejar ataques.

O que poderia tê-lo feito sair daquele modo de uma luta?

A não ser que...

Seus olhos se expandiram ao tocar um local chamuscado e só o que pode fazer foi encontrar aqueles olhos negros que admitiam o que ela pensava.

Seu coração tremeu por um segundo.

– Meu pai.

– Faz parte.

Hades deu de ombros, finalmente erguendo-se e afastando-se de sua pessoa deitada na cama e indo terminar de se vestir, como se nada estivesse acontecendo. Como se não estivesse retalhado. E...

Perséfone levantou-se de supetão, com um ódio crescendo em seu peito.

– Você machucou meu pai?

Um sorriso frio e cínico apareceu no canto da boca do deus enquanto este colocava uma gravata negra lisa.

Os cabelos estavam escovados para trás, quase em um ator que a deusa lembrava-se das humanas falando quando estivera na terra: Orlando Bloom.

Suas primas diziam que ele parecia-se, e viu-se o achando realmente próximo, só que mais bonito e bem mais perigoso. Além de mais velho, mais seguro de si e com um poder intocável.

E, sem duvida, sem aquele rostinho bonzinho que ele sabia fazer. Hades jamais seria bom. Era um estúpido.

E aquele sorriso só aumentava seu pensamento disso.

– Podemos dizer que ambos não se saíram bem.

– Você o machucou. Não basta a mim? Seu... – tremeu. – Idiota! Estúpido! Egocêntrico!

Foi como dizer para sua mãe que a odiava.

Uma fúria indômita e tão profunda apareceu naqueles olhos negros em geral indiferentes que a fez expandir os seus olhos de medo.

Uma raiva que o fez caminhar em sua direção, segurar seu corpo pelo pescoço, retirando seu ar, e nervosamente ir apertando enquanto aquele gelo novamente entrava em suas veias, só que dessa, calculada e lentamente.

O rosto cruel estava próximo, tanto que sentia a respiração dele contra suas bochechas, aqueles dois profundos e perigosos olhos encarando os seus com fúria, com tanta raiva que era palpável.

E até mesmo quando se viu sem conseguir respirar e colocou suas mãos envolta do pulso dele, não diminuíram nem um pouco aquela raiva.

– Nunca. – disse tão friamente baixo que a levou a tremer de medo sem tirar os olhos dos seus. – Nunca diga o que não sabe, Perséfone, e nunca se dirija assim outra vez a mim. Sou mais forte que você, sabe tão bem quanto eu o que posso fazer, sabe que posso matá-la, retirar sua vida assim... – forçou mais o aperto em seu pescoço. Seus pensamentos começavam a falhar. – Nunca se esqueça de onde está e quem é. Eu não tenho dó de matar uma deusa por me desacatar. Não se esqueça.

E então, ele jogou seu corpo para cima da cama, onde caiu de costas contra aquelas cobertas macias e teve de virar-se de lado para tossir, pedindo por ar, ainda sentindo os fantasmagóricos dedos gelados em que colocava sua mão, sem acreditar que ele quase a matara asfixiada.

Lágrimas escorreram pelo seu rosto, de medo, de dor, de raiva por tudo o que ele fazia a si.

De vontade de ser mais forte.

De não parecer estupidamente uma boneca nas mãos daquele deus.

Encolheu-se, nem ligando que seu vestido negro de veludo, um que acordara com ele, estivesse se levantando um pouco. E tentou conter seu choro.

Não podia ser fraca. Não podia demonstrar tudo o que sentia ali, na frente dele.

Não.

Mordeu o lábio.

Não.

De longe, escutou-o suspirar e então, segundos depois, a porta batia com força, deixando-a sozinha.

E ela prometeu a si mesma que mataria Hades, custe o que custasse.

Ele pagaria por tudo que passava.

Notas finais
Hey, hey, não se esqueçam do meu recadinho beeeeeeeem fofinho pra mim, belê? ^^

Beijinhos cheios de chocolate,

Nivea

;D