Notas iniciais
Enjoy ;)

Já haviam passado dois dias. Dois terríveis dias em que manterá-se enclausurada naquele enorme castelo entre ficar escutando, porque queria, tudo o que Shadow dizia enquanto a empregada fazia doces cupcakes na cozinha e descobrir cada aposento daquele enorme local por saber, de acordo com um dos capitães com quem esbarrara em um dos corredores, que Hades não se encontrava em casa. E mesmo sentindo-se uma idiota por estar preocupada com o mesmo, só o que podia fazer era esperar pelo momento em que ele viesse conversar com ela.

O que ela estava achando muito difícil de acontecer. Hades encontrava-se cada vez mais frio e mais distante desde o dia em que tivera seu primeiro beijo. Ou talvez o segundo se contasse que ele tocara seus lábios com os gelados e rudes dele para fazê-la adormecer para conseguir roubá-la. Mas, não era isso que importava, e sim a verdadeira agonia que sentia a cada vez que seu corpo aquecia ao recordar como ele tocara seu corpo, sua boca, seus cabelos. Era algo... Que não compreendia.

E que sempre fazia Shadow rir a cada hora em que olhava para sua pessoa e achava-se perdida nos pensamentos de como o poderoso e frio deus do Mundo Inferior poderia ser tão suave consigo.

- Está babando. – brincou ela uma vez enquanto arrumava seu espartilho após tomar um banho, no terceiro dia em que Hades não aparecia em casa, pela manha. De acordo com o que pudera recolher de informações, Hades não esteve em nenhum dos quartos, somente em um maldito escritório que ainda não descobrira ficar. Respirou fundo ao sentir que seus órgãos eram pressionados. – Desculpe, querida, mas é somente o que eu posso lhe oferecer para vestir.

Era um lindo vestido. De fato o era. Cheio, volumoso em tons de rubro e branco que destacavam seus olhos castanhos ao se encarar pelo espelho. Um daqueles em que se veria Julieta prender o ar para usá-lo ou talvez Maria Antonieta, com um corpete que lhe avantajava os seios e deixava em completo destaque o colar de “cachorrinho”, como passara a chamar, que o deus dos mortos lhe dera.

Suspirou com mais uma puxada.

- Eu compreendo.

- Parece uma princesa.

- Em pleno século da comunicação e velocidade, a deusa Perséfone em um vestido antigo. Romântico, mas triste se eu tivesse que sair desse castelo. Parece que estou perfeitamente em um conto de fadas, e sem meus poderes por causa desse colar. Quase branca de neve.

Shadow sorriu de sua analogia enquanto soltava seus cabelos e finalmente deixava-se ver por completo.

- Sim, um conto de fadas com uma linda princesa.

- E com direito a um monstro. – brincou a deusa acidamente se referindo a Hades que a fazia sentir-se cada vez mais preocupada. Pensava assim, no momento em que se virou para encarar os olhos azuis da senhora. – Você acha que ele está bem?

- Quem? Hades? Relaxe, garota, aquele ali não cai tão cedo. É duro na queda.

- É... – enrugou os lábios. -... Shadow, se eu te perguntasse algo, você responderia?

Pode ver a cautela nos olhos sempre amáveis de quem se tornara sua melhor amiga naquele lugar.

- Depende... – hesitou. – Trata-se de algo que remeta Hades?

- Podemos dizer que sim.

- Não existe o podemos dizer que sim, ou pode, ou não pode.

A senhora suspirou ao mesmo tempo em que passava por seus ombros um manto suave e quentinho cor de neve que agradou muito a deusa para abaixar seus pelos arrepiados. Só não sabia se eram por frio ou por poder descobrir algo que aquele castelo não mostrasse sobre o deus dos mortos.

- Querida, existem coisas que somente Hades poderia lhe dizer, que seria como trair a confiança daquele garoto.

- Ou seja, nunca irei escutá-las. – sua voz era doce ao provocar, sempre encoberta por polidez. – É apenas uma perguntinha.

Por alguns segundos, encarou os olhos a sua frente, implorando mentalmente para que ela ajudasse até que a senhora sorriu um pouquinho e assentiu, acendendo uma chama de esperança que talvez a levasse a compreender porque estava ali.

- Mas, só uma, Perséfone.

Assentiu, animada.

- Uma única.

Shadow sorriu-lhe carinhosamente, sabendo que só o que ambas desejavam era Hades bem.

- Voalá, pergunte.

E achou-se abaixando os olhos para encarar a bainha do lindo vestido cor de sangue, uma péssima recordação de como vira o temível Hades envolto naquele liquido dos monstros, ao questionar:

- Por que eu estou aqui?

Durante trinta tensos segundos, nenhum som escutou-se no quarto. Só havia o som suave da neve batendo no vidro de corpo inteiro, o chiado fraco da língua de fogo que lambia a vela e o farfalhar de seu pesado, mas quente, vestido. Até que Shadow ergueu seu rosto pelo queixo e sorriu-lhe.

- Terceiro quarto à esquerda, na torre principal, no próximo lance de escadas à direita. Vai ter suas respostas lá, querida.

E, por aquilo, Perséfone teria abraçado a senhora, mas o que ela na verdade fez foi assentir, já a segurar a barra do largo vestido a fim de correr, pronta para finalmente descobrir do que se tratava no instante em que a mão fantasmagórica a impediu. Sorria-lhe.

- Antes, venha, coloque essas luvas. Esse castelo pode ser bastante frio para quem não está acostumado a ele.

[...]

Seguiu todas as indicações que Shadow lhe dera, sinceramente cansada por não conseguir respirar muito – o que a fez se perguntar como aquelas mulheres usavam aquele espartilho – e chegou ao local que deveria, a agradecer mentalmente por estar usando luvas tão vermelhas quanto seu vestido que chegavam até os seus cotovelos ao saber que naquele momento seus dedos estariam queimando de puro frio. Era como sempre estar no Ártico dentro daquele castelo. Na verdade, dentro do Mundo Inferior. E viu-se até gostando do peso, da consistência e, acima de tudo, do calor que aquela roupa antiga e aquele pequeno “cobertor” que sempre chamavam de manta ao redor de seus ombros, aplacava um pouco daquele gelo que fazia suas respirações saírem em lufadas de nuvenzinhas brancas.

E, então, parou de fronte ao quarto que lhe fora recomendada entrar, de repente, indecisa sobre se deveria agarrar aquela maçaneta em formato de romã e girá-la ou se deveria desistir daquilo até Hades decidir que era hora de saber o porquê de esta ali. Ao ter completa noção de que o segundo não aconteceria, forçou a porta de madeira rústica, mas muito bem envernizada onde detinha o formato de uma grande arvore esculpida em alto relevo. Abriu sem muitos ruídos apesar do peso, o que a fez inferir que aquele maldito colar – do qual não conseguia tirar – não somente lhe extraía os poderes, como também as suas forças como deusa. E que a incitou a xingar mentalmente Hades por aquilo.

O quarto era simples. Duas janelas largas e completadas com mosaicos de vidro colorido abriam espaço para um tapete persa ao chão, algumas estantes laterais e, o que mais destacava em todo aquele aposento, bem ao centro, uma pomposa e saudável arvore que crescia do nada, logo abaixo do buraco simétrico que havia no tapete para acomodá-la como parte da decoração. Tão surpreende e magnificamente perfeitos juntos.

E, o que a levou a caminhar, ainda segurando a barra do vestido a se aproximar, foram às frondosas e com aparência deliciosas de cinco romãs que mal cabiam em sua mão ao tocar uma delas, tão belas que o que mais desejava era arrancá-las e provar um gomo, que sabia que lhe traria a lembrança dos bons verões repletos de frutas maravilhosas como aquelas que tinha com sua mãe.

Foi quando escutou alguém pigarrear atrás de si. Virou-se de súbito ao ser pegar admirando e desejando aquela fruta que não era sua só para deparar-se com um abatido e cansado Hades escorado no vão da porta. E mesmo parecendo suavemente mais debilitado, ainda irradiava aquele medo que fazia seu coração pular. O suficiente para lhe amedrontar como um coelhinho ao ver um lobo. Um lobo com olhos tão negros quanto à noite, pensou ela enquanto deslizava seu olhar pericial pelo corpo do deus a fim de encontrar algum machucado. Mas achava-se imaculadamente perfeito: cabelos bem penteados, terno sem qualquer amasso e com aquele belo rosto fechado em indiferença. Algo que começava a se acostumar.

- Quem deixou você entrar aqui?

Ela viu-se engolindo a seco ante os negros tão perigosamente nervosos, a levá-la a recordar como ele machucara seu corpo todas as vezes que esteve no limite. Não poderia entregar Shadow.

- Eu... Eu achei que, talvez, pudesse... Entrar nos cômodos e... E...

Estava patética até aos seus ouvidos ao gaguejar e vê-lo somente erguer uma sobrancelha.

- Não, nessa torre é proibida a sua entrada.

Aquilo a fez engolir a seco. Seja delicada.

- Certamente... – deu um sorriso calmo enquanto encaminhava-se para saída, não o deixando ver que aquelas palavras, rudes, machucaram seu coração em algum ponto. Algum lugar que ela desconhecia por nunca ter sentido nada parecido antes. Quer dizer, o que ela conhecia além de alegria, medo, dor e, agora, desejo? Nada. – Peço-lhe desculpas, não desejava atrapalhá-lo e nem olhar o que não deveria, sor.

Mas, antes que tivesse a chance de se esquivar dele para voltar à cozinha onde sabia que seria bem recebida com palavras doces e suaves de Shadow, os dedos gelados seguraram seu braço, no exato local em que nem a luva e nem a manga do vestido fechava, onde a pele fria entrou em contato direto com sua pele quente e criou uma corrente elétrica que a recordou de como fora ter aqueles lábios contra os seus ao erguer o rosto, sentindo que o local estava mais frio ainda, para encarar os olhos negros. Ficaram assim, com ela tentando compreender o que se passava naquela mente, no momento em que ele suspirou, visivelmente exausto.

- Não aja como uma serviçal que responde aos comandos do patrão, Perséfone.

E ela quis gritar um: Tecnicamente, você é meu dono. Eu sou sua enquanto usar esse estúpido colar. Mas, ao invés de alimentar sua fúria, fez algo aquecer ao perceber que pertencia e estava na palma da mão daquele homem. Não o force. Assentiu, finalmente desviando os olhos dos negros por não saber o quanto aguentaria sem ser congelada com aquela distancia dele. Era uma deusa de sol, de bons momentos e de felicidade, não de dor e tristeza. Suspirou.

- Desculpa.

- E não peça mais desculpas, você é uma deusa, não um cachorrinho.

E outra vez quis dizer que estava se tornando ao ficar enclausurada naquele lugar. Mas, só o que de fato fez, foi assentir uma vez mais e sorrir, doce e polidamente.

- Como quiser.

Ficou alguns segundos assim, a encarar o chão, no momento em que ele deixou a mão que segurava seu braço cair e suspirou ao seu lado.

- Pode ir, mas não entre mais aqui.

- Sim e me desculpe mais uma vez.

Ia embora, sentindo que entendera porque teria respostas para o fato de encontrar-se ali, que era porque Shadow sabia que Hades aparecia assim que adentrasse no cômodo. Só o que talvez não soubesse era que estivéssemos tão longe e, agradavelmente, sem contato, pensava assim, a encolher-se dentro do manto branco para ver se se aquecia mais, no momento em que escutou a voz de Hades lhe chamar. Girou nas sapatilhas quentinhas para olhar o rosto mais relaxado do deus.

- Você está linda.

Uma onda, de puro prazer feminino ao alguém elogiá-la, fez uma ondinha de calor subir até suas bochechas e levar um sorriso singelo que há muito tempo não dava a sua boca que sabia estar vermelha de frio.

- Obrigada, Hades.

Ele apenas assentiu, um dos fios negros escapando do resto para ser pego pelos dedos bem maiores que os seus do deus, em um movimento que sua mente classificou como sexy e a fez corar ainda mais.

Foi quando Perséfone percebeu. Ele não fora cruel, nem bruto... Talvez um pouco mandão, mas estava com as armaduras mais abaixadas. E era aquele momento. Outra vez mais, encaminhou-se na direção do mesmo e só parou ao encontrar-se de frente ao deus, encarando-o de baixo e sorrindo suave, uma calmaria que seu peito não se achava por estar tremendo de puro medo. Hades era, sem duvida, o homem que mais lhe atormentava no mundo. E achou-se perguntando não o que viera fazer a principio, mas algo que começou a cutucar sua mente desde que vira aquele fruto vermelho.

- O que aquela Roma faz para você tratá-la desse modo?

Viu-se mais forte e segura do que imaginara que teria de ser para encará-lo. Hades limitou-se a olhar seus olhos sem qualquer expressão.

- São preciosas e perigosas o suficiente para que tenha magia em cada uma delas, Perséfone.

- São como as maças de Hera?

Ele pareceu pensar por um minuto, claramente calculando se matava ou não sua curiosidade.

- Pode-se dizer que sim, só que um pouco mais cruéis do que apenas te transformar em uma deusa.

- Eu desejaria ter provado uma das maças de Heras... – divagou enquanto desviava o olhar para uma das romãs que chamava sua atenção por se destacarem tanto no cômodo. E nem mesmo o corpo de Hades a sua frente, a poucos centímetros, detinha tanta a sua concentração quanto o fruto rubro. -... Mas já nasci deusa, não havia o porquê de precisar de comer uma delas quando são tão raras. Eu me lembro de cada uma delas. Era tão grandes quanto suas romãs, mas não tão vermelhas e sim douradas, para tornar deuses maiores, e prateadas, para deuses menores, que brilhavam no meio daquele lindo campo de trigo que minha mãe adorava. Eu sempre perguntava a ela, quando era pequena, por que eu não podia apanhar somente uma delas... – sorriu da recordação, um misto de tristeza e saudade tomando seu coração ao lembrar da figura materna. – E mamãe dizia: por que Hera te caçaria até o final e tudo isso não valeria a pena por uma só maçã daquelas, valeria, minha princesa?

Um silencio tenso pairou assim que terminou de dizer, sentindo que lágrimas escorriam por seu rosto, patéticas que sempre resolviam aparecer diante do deus. Era quase como se render de fraqueza, mas que não conseguia controlar. Secou com uma mão a bochecha molhada.

- E sabe que hoje penso que teria valido a pena? Por mais que Hera tivesse me expulsado do Olimpo ou meu pai brigado com ela, por aquele fruto eu faria.

- Mas, assim você...

- Sim, eu me tornaria mortal. – e encarou os olhos negros, um pouco triste. – Seria tão ruim assim ser apenas uma humana?

Nada disse ele, somente a fitar seus olhos, parecendo levar a sério sua pergunta até que Perséfone percebeu o quão tosca e manteiga derretida deveria ter parecido e sorriu ao repor sua postura, rindo internamente de si mesma ao pensar no que ele imaginava sobre si.

- Ignore, Hades, vou deixá-lo. Acho que... – impediu uma lágrima de rolar enquanto sorria ao olhar para o teto. -... Deve ter sido o fato de estar meio sonhadora. Coisas minhas, me desculpa não me parecer nem um pouco com uma dama.

- Só por que está chorando não é uma dama?

Era explicita o sarcasmo que preenchia aquelas palavras ditas pela voz rouca dele.

- Dizer o que não deve, isso é não ser uma dama.

Mas, os olhos eram estranhamente mais suaves ao encará-lo para se despedir.

- Eu não te acho menos dama com isso. Acho que está até aguentando bem a situação.

Só ache. Sorriu, a se esconder atrás de um deles.

- Uma gentileza de sua parte pensar de tal forma, sor. Agora, se me der licença...

Contudo, antes que tivesse a chance de descer as escadarias, Hades impediu sua passagem com o corpo ao bloquear a saída. Seu rosto praticamente tocava abaixo do ombro do mesmo, tão pequena e facilmente machucavel ante o poder do deus por encontrar-se sem os seus. Quer dizer, ao menos, parcialmente. Conseguira se proteger de uma besta, mas não mais que aquilo também. Era como poder sentir em cada pelo de seus braços o gelo vindo do poderio do deus a sua frente. E forçou-se a levantar os olhos para encarar os negros com mesma força.

- Você me perguntou para que serviam as romãs.

Perséfone assentiu com vontade de virar-se para encarar os frutos a mera menção deles.

- Não precisa responder, Hades. – sorriu. – Eu compreendi que é algo valioso e deve manter seu segredo bem guardado.

Mas, ele pareceu não lhe ouvir.

- Quem come um gomo se quer daquela romã, fica preso ao Mundo Inferior para sempre, por isso deve ser tão bem guardada e impedida de ser tocada por outras pessoas. Elas causam desejo de comê-las que nenhum resiste ao triscar e encanta seus consumidores até terem engolindo o sumo por completo.

E, Perséfone pensou no fato de que havia tocado uma delas com seus dedos enluvados. Isso a fez pensar que talvez devesse ser contato direto. Foi quando uma pergunta nasceu em sua mente.

- Se mantém alguém embaixo... – olhou, curiosa, os orbes negros acima de si. -... Porque você não me fez comer uma delas?

Algum tempo, ninguém disse nada, aquela pergunta a pairar no ar enquanto se fitavam, ela com desejo de descobrir mais até que ele suspirou ao tocar delicadamente o colar envolta de seu pescoço com os dedos gelados. Tremeu ao recordar como ele fora suave ao beijar ali naquela noite.

- Fique com Shadow, aparecerei mais tarde, assim que terminar o que tenho de fazer. – suspirou. – E peça a ela que a arrume para aquilo que havia lhe dito, ela vai entender quando disser.

- Hades... – segurou a mão dela assim que o mesmo se virou e não se viu tendo o olhar retribuído -... Desculpa-me.

- Já te disse para parar de se desculpar, Perséfone, você é uma deusa, impõe o que deseja.

- Eu sei... – apertou os lábios ao mesmo tempo em que apertava os dedos gelados dele, tão confortadoramente grandes e fortes. – Só... Cuide-se, está bem? Fiquei preocupada por não aparecer, nem dar noticias, nem nada para... – hesitou. – Estou sendo ridícula outra vez, não tem como você se cuidar em uma guerra. Só... Avise quando não for voltar, ok? Eu sei que você não deve satisfações a ninguém, mas... Esquece, isso está patético.

- Perséfone...

- Não, não precisa dizer. Só... Volte, tudo bem? Não queremos mais nenhuma morte, certo?

E então soltou sua mão da dele, sabendo que ele escutara tudo muito bem apesar de sua voz ter saído tão baixa quanto um murmúrio, indo para a cozinha a espera do que ele guardasse bem aquelas palavras e as cumprissem.