Snow
11 Ressurreição.
Notas iniciais
A vida.
Uma palavra pequena de sentido tão complexo e grande que deveria ser um crime ser chamada assim, com tão poucas letras. Fácil de tirar, e mesmo os deuses não são imunes a ela.
Foi isso que Perséfone percebeu ao deixar-se escorregar para a acolhedora escuridão que vinha abraçá-la. Tão delicada como cristal. E que a qualquer momento poderia ser retirar de seus dedos. Mas dessa, ela não reclamou.
Se gostava de viver? Amava todos os prazeres, mesmo aqueles que haviam aprendido a pouco e em outras condições não daria o braço a torcer. Havia tanto ainda, conquistar tanto, mas tudo o que aconteceu foi aquela calmaria.
E estava de volta ao mar, há aquela praia de areia bege e águas negras. Seus dedos tocaram a fria espuma.
Estava na linha, no limite e no reino de Hades.
Suspirou.
Perdera-o. Seria? Seus cabelos moviam-se ao olhar para o topo. Não havia nada, estava sozinha ali.
Sozinha.
Então, sem pensar duas vezes, pulou no mar.
Duas vozes a trouxeram para a realidade ou o sonho. Ela não sabia dizer, na verdade. Mas sabia que as conhecia. Que eram familiares. Uma delas até mais que as demais. Havia algo de intimo ao escutá-la, algo que fazia seu coração acalmar-se e acelerar ao mesmo tempo, deixando-a confusa e em dor. Uma deliciosa dor. E nunca quis tanto abrir os olhos, apesar de não conseguir o fazer.
Quem era?
- EU A ENTREGO PARA QUE VOCE CUIDE DELA, QUE A MANTENHA LONGE DE UMA GUERRA E É ISSO QUE ACONTECE?
Era um tom forte, como trovões, que fazia tudo tremer essa que dizia. De algum lugar, sabia que a conhecia. A outra, por outro lado, foi baixa, velada e firme.
- Não espero que esqueça que eu estou em guerra também.
- Sabemos, mas havia dito que a situação estava melhor por aqui.
- De fato esta, em relação ao de vocês, mas em guerras, se esqueceu guerra é guerra, não importa a proporção.
- Irmão, não me venha com palavras sabias de Atena.
- Então não haja como tolo. Fiz o que pude, apenas...
Suspirou alto. Som de passos.
- Zeus, acho que não há um local seguro para mantê-la, não há como evitar que ela veja a guerra.
Zeus... Esse nome ela conhecia. Imagens de um homem alto, loiro e de incríveis olhos azuis relâmpago apareceram em sua mente ao lembrar-se de quem era seu pai. Zeus, o deus dos deuses. O que ele fazia? Guerra? Onde estava?
- Eu sei que não há. – Zeus suspirou. – Só que ela é nova demais para ver tudo isso, toda a destruição que traz.
- E o que pretende fazer? Colocá-la em uma caixa e esperar que ninguém nunca a abra? – uma terceira voz, forte como ondas, sussurrou pelo cômodo. – É hora dela se virar, Zeus, ela é uma deusa.
- Poseidon...
- Irmão, apenas espere ela melhorar. Ela provavelmente nunca sofreu um ataque tão firme ou profundo.
- E o que fará em seguida, Poseidon?
- Levaremos ela para o Olimpo, para a mãe dela e para Atena, para que ela aprenda a lutar, Hades. Não concorda, Zeus?
- Atena então a ensinara, como Poseidon disse. Será o melhor para ela, Hades.
- Não é de meu assunto isso, o que resolverem, farei. Não quero brigar agora, meu reino está sendo atacado e isso já está de bom tamanho como problema para mim.
- Hades, não diga isso.
- É apenas a realidade, Poseidon.
- Sabemos que ela...
- Está terminado, irmãos. Esse assunto não remete a vocês, assim como o que farão com ela não remete a mim. Fiz o que me pediram e agradeço pela ajuda, agora, escolham o que irão fazer.
- Hades...
- Não, Poseidon, Hades está certo. – suspirou. – Ficara assim então... Assim que Perséfone melhorar, mande-a para a mãe dela. O resto ficara conosco.
- Considere feito então, Zeus.
- E obrigada pelos dias que a manteve segura.
- Sempre cuido bem dos meus negócios.
- Ainda assim, obrigada, irmão. Lide bem com a guerra. Vamos, Poseidon, não podemos deixar tudo por muito tempo.
Escutou passos se dirigindo ao que pensou se a saída. Outros, mais leves, vieram na direção da cama.
- E não deixe que a guerra infiltre sua mente, Hades, nem tudo é só morte.
- Duvido muito, Poseidon, sou o deus da morte.
- Alguém me disse uma vez que a morte é só o começo. Espero que pense assim, irmão.
- Cuide de Atena.
- Ela mais cuida de mim do que eu dela. – era visível o sorriso naquela voz de Poseidon. – Cuide-se.
- Sempre.
- Digo de verdade.
- Você não tem que ir?
Por alguns segundos, não houve nenhum barulho.
- Sempre o coração de gelo. Talvez esteja na hora de mudar.
Então, um cheiro de sal e mar preencheu o ar quando Perséfone respirou outra vez e soube que o deus dos mares, um de seus tios preferidos, havia ido embora.
Não soube o quanto ficou assim, sem ouvir nada alem de sua própria respiração pesada, no momento em que sentiu um peso diferente na cama.
Quase podia saber como ele estava, com os cotovelos nos joelhos, o queixo pousando nas mãos, olhando para o nada com aqueles olhos negros.
Hades, o deus dos mortos.
Aquele que ela se lembrava de amar. E que não ligou para nada. Seu coração doeu. E no final de contas, ele era mesmo intocável como a neve. Frio demais para ser aquecido como o inverno.
Outra vez, caiu no escuro.
[...]
Acordou meio grogue ao sentir dedos hábeis tocando sua barriga.
Eram gelados, de um jeito estranho, como se não existissem, sussurros de vento e gemeu ao ter algo puxando sua pele de um jeito nada agradável. Com aquilo, demorou um pouco, mas conseguiu abrir os olhos.
Onde estava?
A luz machucava suas pupilas, ainda que fosse bem baixa, com iluminação necessária para ver o cômodo que se encontrava. Era todo em tons neutros, sem muitas coisas. Uma lareira acesa, paredes cheias de quadros, chão coberto de tapetes negros, um guarda roupa enorme, a cama de dossel onde se encontrava e uma grande janela de corpo inteiro. Por ela, via a neve caindo, com força.
Flocos brancos em uma quantidade que nunca tinha visto antes e que a encantaram com sua beleza.
Então, a dor a trouxe de volta de sua contemplação.
Procurando os músculos corretos, girou a cabeça e viu uma senhora, com seus muitos anos de vida, tremulando como um fantasma e curvada sobre sua barriga, trocando gazes quase acobreadas por novas, em um processo demorado em que limpava tudo com néctar.
Doía, mas já podia ver que melhorava. E a lembrança de como aconteceu aquilo a fez tremer. Provavelmente devia fazer isso sempre, pois Shadow nem se que levantou a cabeça, continuando o que fazia e nem percebendo o medo que antes sentia tornar-se lagrimas.
As palavras que havia escutado ante e que só vinham agora, de seu pai falando com Hades, cortou seu coração e não conseguiu segurá-lo. Não era uma deusa de chorar, mas como não fazer quando escutou aquilo?
Em segundos, seu corpo tremia e chorava como nunca fizera antes.
- Senhorita... Perséfone... Está bem?
Tentou respirar, mas tudo o que conseguia era chorar mais enquanto via o rosto em pânico de Shadow.
- Deseja que eu chame Hades?
- Não. – ela segurou o braço da fantasma. – Não, por favor, não.
- Mas... Ele desejava vê-la assim que fosse possível, que acordasse.
- Não... – soluçou. – Por favor, finja que estou dormindo.
- Isso é meio impossível, Perséfone.
Aquela voz a fez girar o rosto de uma vez.
Nem se quer havia percebido o homem de cabelos negros, com os dois primeiros botões da camisa social abertos e sentado em um poltrona bem ao lado da janela. Olhos negros encararam os seus. Frios.
Seu coração pulou apesar de tudo o que ouvira, suas mãos suando por ansiedade e a fazendo sentir-se mais tola ainda. Pouco depois, ele caminhava em sua direção, as mãos no bolso, sem tirar os olhos de sua pessoa.
- Por que não me desejava ver, Perséfone?
Engoliu a seco.
Por que você é um insensível? Por que eu antes de morrer disse que te amava só para receber em troca a garantia que eu seria entregue a minha mãe sã e salva como se fosse um produto? Ou para dizer que disse que não tenho nada a ver com você?
Mais lágrimas escorreram por sua bochecha e queimaram ao tocar em um de seus machucados. E não pode dizer nenhuma delas. Era uma covarde, como já havia escutado antes. Tanto que a manteve presa em um local para que não pudesse ir para uma guerra porque era covarde e fraca demais para isso. As palavras de seu pai doeram.
Eles estavam todos juntos nessa também? Pensou enquanto o fitava. Ate você Hades? Virou o rosto, sentindo-se traída.
- Estou apenas machucada demais para estar apresentável – mentiu baixinho, fechando os olhos.
Posso não mudar o que sinto por você, mas não serei tão detestável assim comigo mesma, decidiu, parando de chorar.
- Acha que pode andar?
Para que eu possa ir embora?
- Não... – por que estou mentindo sobre isso? Ela já conseguia sentir que andaria se precisasse e isso significava que já podia ir para o Olimpo. – Não, ainda dói muito.
- Shadow, poderia nos deixar a sós?
- Não... – Perséfone impediu e fitou Hades, tentando parecer machucada, apesar de querer era chorar. – Por favor, Hades, não posso agüentar um inquérito agora.
Por alguns segundos ele nada disse, somente encarando seus olhos como se guardasse algo para então dar um quase imperceptível assentimento.
- Falaremos depois, então. Descanse por hora.
- Obrigada.
- Se me derem licença.
E assim saiu, sem dizer mais nada. Perséfone encarou Shadow que a fitava com um olhar preocupado.
- Já acabou? – perguntou a senhora de antigos olhos azuis.
- O que?
- Sua paciência.
Por alguns segundos, Perséfone nada falou, como Hades antes fizera, para em seguida suspirar, fechando os olhos para evitar que visse sua dor.
- Não foi a minha que acabou primeiro, Shadow, foi a dele. Talvez nunca tivesse.
- Sabe quantas vezes ele tomou café da manha com alguém? Nunca, Perséfone. Não antes de você. Ele faz o que pode para ter esses momentos com você.
- Podia ser, Shadow, mas tudo mudou.
Ou talvez nem tenha começado.
E voltou a dormir sob os cuidados dela.
[...]
No terceiro dias depois daquele em que acordou, não teve mais como mentir sobre a dor e, tomando nos horários corretos o néctar e comendo a ambrosia, Perséfone resolveu que era a hora de voltar a andar ou sentiria mais dor ao ficar tanto tempo parada.
Acabou por descobrir que dormiu por um mês humano, que ninguém tinha certeza se voltaria do coma que estabelecera e só mantiveram cuidado dela assim porque Hades informou que ela não morreria, apenas se recuperava.
Assim como também não o via a três dias inteiros, nunca sabendo se ele esteve ou não no quarto dele.
Shadow mantinha-se a dizer o quanto ela o mudara, o quanto ficara ali, por perto, esperando-a acordar e evitando ao máximo a guerra se estender para as terras daqui a fim de mantê-la em segurança, mas tudo o que Perséfone fazia era assentir, fingindo estar satisfeita quando aquilo na verdade a machucava.
Tudo o que ele havia feito, tudo que ela havia dado, havia sido um contrato para mantê-la viva. Para não deixar a mais nova lutar. Mas o que sentia, nenhum deus, nem mesmo seu pai, poderia tirar.
O preço que pagaria seria bem maior ao final.
Decidida de que não ficaria mais ali parada, que devia mais era voltar mesmo para casa, levantou-se e sozinha vestiu uma calça jeans e ficou se admirando no espelho, somente de sutiã, para encarar seus machucados.
Estavam horríveis.
Logo abaixo da ultima costela, havia um corte transversal onde se lembrava da dor de ter aquela lamina profundamente enfiada ali.
Seus dedos afagaram o local antes de subir para um pouco acima de seu peito que estava arroxeado para então para ao corte suave que havia no meio do pescoço. Tremeu antes de levantar a mão para escorregar por sua bochecha cortada, sua têmpora arroxeada, seu couro cabeludo machucado até sua boca cortada ao canto.
Estava horrível.
Pálida, como se voltasse da morte, magra demais e sem brilho algum que costumava ser sua marca. E o ultimo sabia que se dava ao fato da dor que vinha sentindo em seu coração. Preferiu então nem olhar suas costas, ou suas pernas, pois as mãos estavam cheias de bandagens que não ousou retirar.
Colocando um moletom que a deixava com cara de adolescente, calçou uma sapatilha qualquer e saiu da frente do espelho, fugindo daquela sua imagem e se escondendo debaixo de um capuz.
Precisava caminhar.
Era noite e a única luz era a da lua adentrando pelas enormes janelas enquanto andava com passos pequenos pelos corredores enormes, olhando carinhosamente cada quadro. Eram lindos, do jeito renascentista que amava. Imagens de locais maravilhosos, de terras paradisíacas e de vidas diferentes daquela que vivia encantavam-na à medida que caminhava.
Parou ao ver um que descrevia bem como fora a guerra contra os titãs.
E até mesmo Hades era representado nela.
Seus dedos tocaram carinho a face que parecia cruel ali, mas que ela conhecia o outro lado, o sorriso de quando ele brincou consigo.
Sem autorização, seus olhos encheram-se de lagrimas e teve de forçar-se para não permitir que elas caíssem, tanto que parou seus próprios questionamentos sobre se ele sentia algo ou não, e preferiu continuar a caminhada.
Parou de contar assim que viu que andava muito, forçando mais do que devia aqueles ferimentos, que os sobrepujou quando percebeu estar começando a ficar sem ar por causa da dor.
E foi assim que se segurou janela, seus dedos apertando com força o ferro e antes que pudesse sentar ou mesmo cair, como não estava duvidando de acontecer, um braço forte a abraçou por trás, colocando-a corretamente em pé, e puxou suavemente sua cabeça para trás.
- Respire. – a voz dele era baixa em seu ouvido.
Feito como ele pediu, Perséfone notou como seu corpo adorava-o, como se encolhia contra ele como se sempre precisasse de proteção e culpou seus sentimentos por isso. Abrindo os olhos, virou um pouco a cabeça e encarou as orbes negras que estavam como sempre sem qualquer sinal de algo.
Se levantasse um pouco o rosto, a boca, o beijaria e teve de esforçar para não se mover. Precisava dele, mesmo quando sabia o que aconteceria agora que estava melhor. Precisava da confiança, da certeza, do abraço dele, mesmo do sorriso dele. Só que...
- O que pensa que esta fazendo aqui sozinha? – perguntou Hades, baixinho, com as sobrancelhas franzidas. – Você poderia estar em apuros e ninguém te encontraria nesse enorme castelo.
E mesmo com raiva, ele estava certo. Suspirou, sentindo o clima todo indo e fitando o outro lado.
- Precisava me levantar. Estava cansada.
- Só...
- PERSEFONE.
Ambos olharam para onde Shadow chegava correndo. Parecia muito preocupada, como se tivesse esquecido um dos bolos preferidos de Hades queimando e não soubesse onde ficava o fogão.
Apesar de trágico, era engraçado ver que algumas coisas não mudavam. Perséfone sorriu para a senhora.
- PERSEFONE... Oh, graças aos deuses, você está bem. – ela parou a alguns passos ao notar quem a segurava. – Nunca mais faça isso, ainda bem que Hades estava por perto.
- Ela apareceu perto do escritório, pensei que fosse você e vim ver... Só que era ela. Está tudo bem agora.
Perséfone sentiu uma dor estranha ao escutar o “só que era ela” ao classificar aquilo como se fosse “olha, a criança que faz bagunça, mas tudo bem, sei lidar com ela”. Mas tratou de ignorá-la.
- Está tudo bem, ele está fazendo drama, foi só uma dorzinha. Pode me soltar, Hades.
Era claro que ele não estava contente ao ser chamado de dramático, pouco ela se importou, a não ser por não senti-lo mais tão perto, aquilo havia sido o mais próximo que estiveram juntos nos últimos dias, e tentou se manter em pé ao perder o apoio do forte braço dele.
- Viu? Eu...
Antes que pudesse terminar, suas pernas tremeram e cairia de novo caso ele não a segurasse outra vez.
- Vejo como está bem, Perséfone.
- Cansada apenas, Hades.
- Shadow, pode deixá-la comigo, já a levarei para o quarto.
- Senhor, tem certeza? E os...
Hades a cortou, suavemente.
- Pode deixar, Shadow.
Era claro que ela segurava um sorriso, então, tratou de assentir e sair correndo, não dando tempo de Perséfone implorar que não. Ela ainda não estava pronta para lidar com Hades.
Tinha só três dias acordadas e ainda procurava lidar em não acordar suando ao recordar do homem de armadura branca cravando a adaga perto de seu coração.
E ai, estava outra pergunta: como ela havia sobrevivido? O que Hades fizera? Perguntava-se todas as vezes que acordava de madrugada e que o fazia agora enquanto o sentia abraçando sua pessoa, seu rosto contra o peito dele, os braços mantendo seu corpo firme sobre seus pés. E ela nem mesmo entendia.
- Hades... – sussurrou. – Pode me soltar.
A voz dele foi perto, sob seu ouvido:
- Fique quieta, só um pouquinho, por favor.
Não sabendo como agir, apenas assentiu com a cabeça e deixou-se ser segurada por ele.
Pouco demorou para estar o abraçando de volta, suas mãos prendendo com força no terno dele e seu corpo tremendo sob o choro que nem sabia estar guardando. Aquelas cenas, daquele dia, voltavam com tudo e aquilo que sobrava para se salvar de não ser sugada por eles era a certeza viva de Hades a sua frente, um pouco curvado, com o nariz em seus cabelos e não dizendo nada.
Era dele que precisava.
- Está tudo bem, Perséfone, acabou.
Afastou-se um pouco para encarar os olhos negros.
- O que aconteceu ao cavaleiro?
Algo brilhou nos ônix.
- Eu o matei, não podia deixá-lo vivo depois de...
Perséfone não precisou ouvir para compreender o que ele queria dizer, então, só voltou a afundar o rosto no peito dele com cheiro de menta e algo mais masculino. Algo como um porto seguro.
- Obrigada.
- Desculpe-me por aquilo, devia ter...
- Ninguém podia ter previsto.
- Mas...
- Está tudo bem. – e forçou-se a afastar-se do abraço dele. Por dois segundos ele negou, mas então permitiu, aqueles olhos de pantera analisando se ela cairia outra vez. No entanto, Perséfone escorou-se na janela e secou os olhos. – Você deve estar muito ocupado, por causa de tudo e... Eu vou lá deitar, não devia ter me levantado mesmo... Chamarei Shadow, não se preocupe, tem outras coisas a fazer e... Me desculpe por ter andado por aqui, eu não sabia e... – percebendo que falava por demais, deu um sorriso minúsculo e apontou para o outro lado. – Vou indo.
Deu alguns passos, sentindo o coração doendo por ter ressuscitado e tido a certeza de que ainda o amava, segurando-se nas coisas para não cair, quando uma mão segurou a sua firmemente e forçou-a a olhar para trás.
Hades, com os dedos trançados aos seus, não a olhava, claramente desconfortável. Aquele toque, a força inerente a ele, a sensação de senti-lo. Era maravilhoso.
- Fica aqui comigo... Quero dizer, eu te levo mais tarde pro quarto... Só...
Sorriu pela confusão dele e devolveu o aperto, ganhando de brinde os olhos negros que a encantaram de uma forma que nem sabia como explicar.
- Tem algum lugar que eu possa me sentar? Não acho que vá conseguir ficar assim por muito tempo.
E ele sorriu.
O sorriso mais lindo que ela já havia visto, como se tivesse acabado de ganhar um presente. E por aquilo, por aquele simples sorriso, sentiria aquela dor de novo. Não agüentou não devolver o repuxar de lábios e o deixou puxá-la para os braços fortes.
Sem previsto, Hades colou um beijo suave em seus cabelos. Estava no céu. Era isso que ele a fazia sentir: empurrá-la para um inferno de dor com sua total imparcialidade e então trazê-la ao céu com um simples e raro sorriso.
Era isso que ela definiria como amor: Hades.
- Obrigado.
E preferiu não dizer nada para aquilo com medo de ele ficar retraído em sua própria bolha de ar. Queria o sentir assim, tocável, amável, jamais ansioso.
Por isso, não falou uma palavra se quer enquanto o assistia entrar em um cômodo cheio de fileiras de livros em estantes, fechando a porta atrás deles, até enxergar uma mesa de madeira escura cheia de folhas e paginas por toda a parte, inclusive um mapa, e a única luz ligada de todos os locais que esteve naquela noite.
Hades só parou ao sentar-se, consigo no colo, na única cadeira de couro que tinha por perto. As demais estavam longe demais, claramente dos outros que trabalhavam com ele, e das quais Perséfone não ousou perguntar. Somente aproveitou o carinho do abraço dele, segurando-a como uma criança.
- Você esta gelada, quer outra blusa de frio?
Encostou o rosto no ombro dele.
- Não, está agradável aqui.
- Se estiver te machucando...
- Estou bem, Hades, acalme-se. – falou suavemente, tocando o nariz no pescoço dele, a aspirar o maravilhoso cheiro dele. Estava viva. Por causa dele e tudo o que lhe doía o coração, todo o ódio que devia sentir por ser trocada como uma roupa, sumiam com aquela sensação. Era tão bom. – Certeza de que não estou te atrapalhando?
- Não, já é tarde, agorinha ia dormir.
- Desculpe por ter roubado sua cama.
- Onde pensa que eu tenho dormido?
- Não acredito.
- Ainda bem, o colchão do quarto de hospedes é horrível, tenho que mandar mudar.
Riu baixinho, afastando-se para encará-lo. Os olhos negros, após tanto tempo, sorriam. E nada mais importava, nem que sua barriga doesse ou que estava tão cansada. Era só ela e Hades.
E antes que pensasse no que ele fazia, enquanto sua pessoa deslizava uma mão pelo rosto dele, sentiu a respiração de Hades perto e mesmo seus olhos não conseguiram parar de encará-lo ao mesmo tempo em que percebia o aperto firme e bom dos dedos gelados em sua nuca.
Era um pedido. Uma permissão para beijá-la que a levou a sorrir amável para ele. Estava com medo de machucá-la, e mesmo que não
Soubesse que a machucava com tanto carinho quando devia a tratar como uma visitante apenas, agradou a ela que ele se preocupasse.
Então, com esse sorriso, que foi retribuindo, levando a dois sorrisos dele no mesmo dia, Perséfone fechou os olhos e deixou-se sentir os lábios firmes sobre os seus. Gelados, maravilhosos, cheios daquilo que ela mais precisava. Suas mãos deslizaram para os cabelos dele. Perto. Hades também a puxou, colando seus peitos.
E nem mesmo a dor conseguia quebrar esse sentimento. Era queimando de dentro, pulsando por suas veias, escorregando por seus dedos e recebendo o mesmo dele, dos toques que ganhava a cada vez que se soltavam e voltavam a colar os lábios. Então, estava sentada, com as pernas uma de cada lado das dele, adorando-o por tocar suas costas com aqueles dedos mágicos que acordava cada parte daquele amor que se guardou congelado por um mês inteiro. Ou que ganhava seu poder maximo naquele momento enquanto erguia o rosto de Hades e sentia suas próprias lágrimas de alivio deslizar pelas bochechas dele.
- Perséfone. – sussurrou baixinho, beijando seus olhos. – Nunca mais me de um susto desses.
Sorrindo pela doces palavras que eram tão raras, Perséfone afastou-se um pouco e apenas o encarou, assistindo perplexa o quanto de sentimentos havia naqueles olhos negros agora. Enxergava somente aquilo que conhecia, mas era o suficiente para saber que ele teve medo, que sorria agora por sua cara, que guarda alguma dor e algo mais que não conseguiu tocar e por isso que se aproximou mais, tocando seus narizes sem em nenhum momento deixar de afagar o maxilar dele.
- Você já sabe o que eu diria.
- Desculpa?
Riu baixinho.
- Isso também, mas não irei dizer.
E ela o viu se retrair um pouco.
Apesar de tudo o que passaram, sabia que havia algo estranho, que havia algo de errado do porque de ele negar sentimentos. Que primeiro precisava descobrir o que era, mesmo que tivesse de mentir que ainda não podia voltar para o Olimpo. Ainda que custasse seu coração e sua felicidade, queria fazer aquilo por ele, para que ele saísse daquela concha a cada vez que dissesse o verbo com “a”. Beijou delicadamente os lábios que continuavam tensos, como não estiveram antes, somente os tocando para saber se valeria a pena, e sorriu ao saber que sim. Seus dedos deslizavam pelo cabelo macio e liso, tão negro quanto os olhos que a fitavam, curiosos.
- Por que não? – a voz era um sussurro naquele silencio.
- Porque cada coisa tem seu tempo, Hades, e eu vou esperar o seu momento para dizer.
Ficaram se encarando, ele provavelmente degustando suas palavras que ela não soube se dissera certo enquanto ela simplesmente absorvia a beleza que havia por dentro daqueles olhos negros, que lhe traziam tanta alegria e tristeza, que a faziam se sentir viva e sentindo. Por fim, ele sacudiu a cabeça, sorrindo de lado, e tocou seus lábios mais uma vez.
- Obrigado, Perséfone.
- Não agradeça, você que me salvou. – encolheu-se nos braços dele. – E merece muito mais do que só a fama de herói.
Ele riu. Um riso precioso, em seu ouvido.
- Vamos pensar depois quem é o herói, tudo bem? Há algum problema se eu trabalhar mais um pouco? É que tem muita coisa para se fazer ainda e não queria...
- Shh, está tudo bem. – acarinhou o rosto dele. – Vou chamar Shadow.
- Não. Fique.
E ela não entendeu o que ele queria dizer. Não até compreender que ele queria que ela continuasse ali no colo dele (o que era maravilhoso) ao mesmo tempo em que ele lia. Sorriu ao entender.
- Tem certeza? Posso pesar.
- Certeza.
Roubando só mais um beijo que o deixou perplexo, Perséfone se encolheu no peito largo, escutando o coração rápido sob seu ouvido e permitiu seus olhos se fecharem.
- Qualquer coisa, só me acordar, estou exausta.
- Durma.
- Não trabalhe demais.
E não disseram mais nada.
Ali, nos braços dele, às vezes o fitando com os olhos semifechados para enxergá-lo encostado calmamente na cadeira, os pés sobre a mesa e segurando seu corpo como se fosse algo de vidro enquanto lia algo, Perséfone dormiu, pensando em quão contraditório era aquilo.
E se podia lidar entre ser rejeitada e amada.
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