Snow

12 Café da Manhã.


Notas iniciais
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[Música — Skyfall — Adele] [Aqui]

A cama estava fria quando acordou.

Como esperado, Hades havia a levado para o quarto e a embrulhado, sem contar em ter trocado todos os curativos e tudo mais.

Só que ela imaginou que acordaria com ele ali, pelo menos por enquanto, pelo tempo que estivesse por ali, uma vez que se encontrava incrivelmente bem já que seus poderes de recuperação voltaram com a melhora de seu humor e de uma ótima noite, sem pesadelos, sem gritos, sem suar por medo do cavaleiro branco.

E sentiu-se despencando ao ver que ainda era um sonho tudo aquilo que havia sentido com Hades na noite anterior.

Como bem pensara: amada ou rejeitada? Qual era o pior ao se tratar daquele deus feito de gelo? Devia mentir? Ou ir logo?

- Pare – sussurrou para si mesma, levando-se com rapidez demais para em seguida ter de se segurar em um dos dosséis para não cair.

Respirou até dez, calmamente, e seguiu para o banheiro.

O que a esperava ali era algo que nunca imaginara. Nos seus primeiros dias, a visão fora contraria. Mas agora, parada ali na porta, a luz do dia entrando pela janela e tocando as fortes costas de Hades a deixou sem ar.

Ele encontrava-se de costas, completamente nu, a face erguida para sentir a água escorrer pelos cabelos negros, de olhos fechados, e passando as mãos no rosto. Ele era lindo. E só não gritou em surpresa por ter sido pega o admirando sabe-se lá por quanto tempo porque os olhos negros agarraram os seus assim que virou e não soube o que fazer.

Estava envergonhada, ao mesmo tempo em que fascinada por aquela pele, por aquele homem. Era algo que qualquer artista tinha como perfeição. Sabia que todos os deuses eram assim, mas havia algo a mais nele. Algo de perigoso, de negro, que a fazia se sentir tola ao imaginar esse cara amando-a e ainda assim a impedia de desistir dele.

Não soube como, de onde veio a confiança, que a levou a puxar blusa de frio, sentindo seus próprios cabelos tocarem suas costas nuas e retirar toda a roupa que lhe cobria, para ficar frente a frente dele, assistindo-o olhar para sua imagem. E teve vontade de se esconder ao imaginar como estavam feios as cicatrizes a machucados no momento em que percebeu o desejo que estava no negro.

Foi assim que conseguiu dar o primeiro passo, deixando para trás sua roupa, e caminhar muito vagarosamente até estar perto daquela fera. Pois era isso que Hades era: uma pantera inteligente que a qualquer momento podia atacar, ainda mais com aqueles olhos negros que assistiam suas passadas.

Só parou quando a água tocou seu rosto, encharcando seu cabelo, a centímetros dele.

- Posso? – perguntou baixinho indicando para o chuveiro.

Ele assentiu e nada fez enquanto sua pessoa fechava os olhos, apreciando como ele fez a água suavemente quente escorregar por seu corpo. Estava hipersensível a presença dele, mas sabia que tinha de dar um jeito e aproveitar enquanto ele não a mandava embora.

Então, ao abrir seus olhos, encarou-o diretamente.

E, esperando uma aprovação dele, esticou a mão para tocar o peito dele.

Nenhum fez nenhum movimento, analisando um ao outro, como se estivesse numa guerra. Pois era isso que aquilo era, uma guerra entre ela amá-lo e ele negar a esse novo sentimento que ela sabia que o assustava, porque também se encontrava assim. Nunca ninguém a fizera engolir o orgulho, humilhar-se ou morrer por algo.

Não como ele fazia.

E só não sorriu ao vê-lo dando um passo para frente, molhando-se, porque o clima estava energizado demais para isso. Também por sua mão estar em contato com a pele fria e firme daquele homem a sua frente.

Tirando os olhos dos negros para fitar o peito dele, Perséfone suavemente deslizou os dedos entre cada tracejado que o tórax bem trabalhado detinha, pelos anos de guerra, de luta, por ser quem era. Era incrível, de uma maneira que ela não sabia com explicar ao descer os dedos para cintura onde um dia vira um corte, sentindo-o tenso, admirando a flexibilidade.

O primeiro e mais belo corpo masculino que já vira. O único.

Escutou-o sugar o ar ao subir as mãos do quadril para as costas, tocando a coluna. E enquanto delineava com a unha cada músculo que ele retraia ao seu toque, cada vértebra, cada ponto de tensão, encarava-o como um corajoso caçador se depara com uma fera.

Uma fera que podia atacar a qualquer momento.

E no instante em que, com os braços nas costas dele, segurou-o pelos ombros, suas mãozinhas aparecendo para sua pessoa tão pequena, mal teve tempo de fazer algo.

Em um segundo, encontrava-se ali, na ponta dos pés para conseguir alcançar os ombros dele, no outro, a mão dele escorregava sem dó pelos cabelos de sua nuca e seus lábios se encontravam com força, com o desejo dele mesclado ao seu próprio, molhando-se juntos.

Então, estava presa contra a parede, suas próprias pernas envolta do quadril de Hades, a mão dele bem ao lado de sua cabeça, o outro braço por baixo de si e seus peitos, acelerados, colados. A maciez dela contra o poder maciço dele.

Perséfone inspirou profundamente ao ter os lábios dele colando contra seu maxilar, escorrendo como a água por seu pescoço. A mão masculina subindo por sua coxa, apertando-a entre o forte e o fraco, entre o machucar e o não. Então, os dentes suavemente mordiscando seus ombros pequenos, a mão em sua cintura, tocando-a como jamais imaginaria que alguém pudesse tocar. Era simplesmente... Hades.

Abriu os olhos, encarando o teto, sem acreditar que ele podia fazê-la sentir tanto. Arfou ao notar que os lábios dele colavam-se no local onde o cavaleiro havia a empalado e o olhou. Ele subia, mais para cima, para os seios que somente ele tocara. E que agora sentia uma nova onda de prazer ao perceber o que ele fazia. Sem perceber, segurava com uma das mãos o cabelo da nuca dele, o mantendo ali, enquanto mordia o lábio, sua outra mão arranhando as costas musculosas.

Então o puxava para cima de volta e descontava toda a vibração e calor que sentia nos lábios firmes de Hades, dando o máximo de si ao beijá-lo. Suas costas bateram outra vez no azulejo assim que ele a puxou mais para cima e a fitou.

Perséfone estava sem ar, completamente entregue a ele, no momento em que ele sussurrou:

- Certeza?

Ela apenas o beijou de volta, puxando com força o cabelo dele para manter-se no lugar e o impedir de sair também.

- Anda.

E com essa palavra, Hades arrumou-a melhor em seu colo, colocando seus braços ao redor do pescoço do mesmo, tocando-a mais para então ergue-la e vagarosamente, permitindo-a desistir se quisesse, tomar posse de seu corpo, preenchendo-a de um modo que Perséfone não compreendia.

Era mais que o físico, percebia isso ao mesmo instante em que o assistia olhá-la, os negros tão líquidos que eram como o mar daquele mundo frio e gelado. Como ele, mas maravilhosos quando alcançado outro nível, quando o compreendia, quando o sentia por completo.

E era isso que ela fazia, mesclando o físico de ser tomada por ele, com o que ele já havia ganhado com seu coração. Então, não havia mais nada para dizer.

Ele nada disse, segurando seu corpo que se adaptava aquilo, com a mão ao lado de seu rosto, permitindo-a que o tocasse em igual, para em seguida segura o arfar ao te-lo ao máximo.

- Hades – sussurrou colando sua bochecha a dele e voltar beijando o rosto menos expressivo e mais lindo do mundo para ela. Ao final, o olhou profundamente, despindo sua alma para ele, esperando que ele compreendesse do que abria mão, antes de tocar seus lábios aos dele.

Foi como uma bomba.

Assim que tocaram dessa maneira tão intima, dizendo através daqueles movimentos o que sentiam, ele passou a se movimentar e amá-la de uma maneira que Perséfone nunca compreenderia como, nem porque ou se quer onde começava. Eram um.

Naquele momento, sentindo-o respirar do mesmo modo que o seu, beijando sua boca, uma de suas mãos travadas contra a parede e sentindo seu corpo todo suar pela diferença de temperatura, soube que não havia saída, que o amava e que se destruiria antes de desistir dele.

E mesmo sendo perigoso, gostava dele exatamente por isso. Por não ser legível, por ser... Hades.

- Hades. – sussurrou deixando-o comandar seu corpo, fechando os olhos e apreciando-o como se fosse uma ultima vez, pois não havia mais como mentir estar cansada ou machucada, não quando se entregava a ele e o amava daquela maneira.

E que podia o levar a entregá-la ao Olimpo.

Calou seus pensamentos o puxando para mais perto e beijou como nunca antes. Então, haviam chegado ao ápice. Perséfone sentiu seu corpo esticar-se, como uma linha de tensão e em seguida caia no mais delicioso prazer nos braços de Hades. Este se segurou na beirada da janela, onde alcançava, e abriu os olhos para encontrar os seus.

Nada disseram, procurando normalizar a respiração enquanto se fitavam.

E ela o admirava em toda sua força, em seu poder que estava latente contra sua pele como se não pudesse segurá-lo e o cabelo bagunçado. Além dos magníficos olhos negros que a despiam, que destrancavam tudo o que guardava.

- Você é linda.

E a beijou suavemente, um beijo cheio de carinho, calmo. Sem necessidade de acabar com o desejo ou o ardor, só havia eles. Ela abraçando pescoço de Hades e ele segurando as pernas dela.

Depois disso, ele a soltou vagarosamente, tomando cuidado para ver se não havia ultrapassado algum limite para seu corpo frágil, e colocou-se atrás de sua pessoa para desfrutarem juntos o chuveiro. Ela tinha certeza de que nunca mais veria aquele local com mesmos olhos.

E nem que sabia como lidaria na hora de ir embora.

Por isso, fechou os olhos e permitiu-o lavar seus cabelos e seu corpo. Assim como ela fez a ele, gravando cada parte daquele homem, sentindo-o fitar seu rosto e sorrindo quando ele roubava um beijo seu como se pudesse ler o que sua mente pensava ao evitar os olhos dele.

Hades foi o primeiro a falar assim que estiveram vestidos, ela em um de seus clássicos vestidos, que ele mesmo ajudara-a a vestir, encarando-a com aqueles olhos negros através do espelho, se deliciando com seus gestos a cada vez que a tocava. E que agora estava sentada, olhando-o colocar seu terno.

Mais um dia, sabia ela. Tinha de lidar com sua guerra, seria egoísmo pedir que ele ficasse com ela, mas se surpreendeu que ele não sumisse logo e dissesse:

- Então, vamos tomar café da manha?

Parecia de bom humor, notou ela, sorrindo carinhosamente para ele antes de se levantar e parar na frente dele, só para arrumar a gravata tão negra quanto o resto da roupa, seguidamente de escovar com as mãos os ombros dele.

Não sabia se havia ultrapassado algum limite dele, pois ele ficara completamente imóvel, como se temesse que ela o batesse, uma idéia que a fez rir internamente e o olhar.

- Bem melhor. – sussurrou, a corar. – Vamos.

E não esperou nenhuma resposta.

[...]

O café da manha, no jardim de inverno, foi o mais incrível que Perséfone teve.

Ria a todo o momento, tanto de Shadow que estava ali conversando com eles como também por ter Jack, um dos militares que planejava tudo com o deus dos mortos, alem da participação ativa de Hades que parecia de bom humor com todos eles ali. Principalmente com Jack, sorrindo muito mais do que via geralmente.

Perséfone nem precisou perguntar para Shadow o porquê, era como se eles fossem irmãos ou melhores amigos.

Pegava-se o fitando com carinho ao vê-lo rir e sempre desviava os olhos ao ter os negros encarando os seus. Sentia suas bochechas corando enquanto tomava seu chá, quietinha. Ela deu uma olhadinha de canto e o pegou olhando-a com as sobrancelhas arqueadas. Sorriu, ainda que desviado o olhar.

Era bom vê-lo sorrindo, saber que alguém trazia alegria a aquele lugar, aquele coração. E por isso, seu coração ficou mais suave, sabendo que se ele a deixasse, teria alguém para fazê-lo sorrir. Ao mesmo tempo em que doía. O que aconteceria? Como poderia ser a mesma pessoa quando ele a ensinou a sentir tanto? Quando aprendeu tanto com ele? O que era amor, o que era dor, o que era alegria ou mesmo desespero. Talvez não do jeito correto, mas quem ligava? Estava boba por aquele sentimento e não se importava com o final.

Desde que ele seja feliz, pensou encarando-o de volta enquanto escutava os outros dois convidados conversando animadamente entre si. Eram todos bons e velhos amigos. E gostaria de participar daquilo, mas não estava em suas mãos.

- Está tudo bem? – perguntou aquela voz, baixinho, só para ela ouvir.

Sorriu, sem encará-lo.

- Apenas pensando.

- E eu posso saber o que?

Sentiu a mão dele afastando alguns cabelos de seu ombro. Aquele toque era maravilhoso. Inebriante. Vivo. Vivo como ela precisava, como sentia nas plantas, no verão.

Seu pedaço de verão naquele inverno.

- Nada demais, Hades, apenas que você deveria sorrir mais. Faz bem.

E virou-se para entrar na conversa de Shadow e Jack, deixando-o a pensar sobre o que havia dito. Ao final, comera mais do que deveria, mas estava ganhando mais peso depois de ter perdido tanto na recuperação. Gostava de ter algo alem de ossos, assim como adoraria que seu brilho voltasse.

E a fazia se perguntar se ele estava com ela só porque a achava bonita. Ele faria isso?

Apesar de doer, teve de admitir que também era provável, afinal, ouvira muito sobre isso, sobre ele.

Logo, Hades também voltara à conversa, rindo e se expressando, uma mão segurando a sua delicadamente. Um toque que fez os outros dois da mesa sorrirem de aprovação.

- Então, me lembro que Shadow brigou comigo e eu sai correndo pela casa. Se lembra Hades?

- Claro que sim, foi se esconder no meu escritório, garoto.

- Hey, nem sou mais garoto. Sou o Jack.

- Jack, o garoto ainda assim.

Os dois riram. E Perséfone sorriu antes de sem querer apertar a mão de Hades ao sentir uma forte pontada sob o machucado. Não sabia que havia feito uma careta até Shadow olhá-la preocupada, assim como o deus dos mortos, que chegou mais perto.

- Está tudo bem? – perguntou ele, afagando sua mão.

Deu um sorriso calmante.

- Uma dor boba. Nada demais. Não precisam se preocupar.

Mas claro que nenhum deles a ouviram.

Jack logo disse que se viam mais tarde e bagunçou seu cabelo.

- Durma um pouco, Perse.

E foi embora, com seu novo apelido que a fez sorrir por ser aceita pelo melhor amigo de Hades.

Em seguida foi Shadow.

- Vou buscar um pouco de néctar. Hades, leve-a para o quarto, vejo que forçaram demais isso.

Assim, deixando-a corada, Shadow sumiu e Hades ajudou sua pessoa a por de pé.

- Tem certeza de que consegue andar?

- Poderia, por favor, para de me tratar como uma criança. Na verdade, todos vocês? Eu sei dar conta de mim mesma, sei o que faço e só o que me faltava era outro Zeus me impedido de fazer tudo e me mandando pra cá como se eu tivesse dois anos de idade e uma guerra fosse demais para agüentar.

Hades encarou seus olhos, perplexo por ter estourado e pelo que tinha dito. Toda a alegria e bom humor sumiram dos orbes negras, tornando-se aços e ela suspirou.

Mais uma vez, já sabia que ele a deixaria no escuro.

- Quer saber? Que seja. Vou dormir.

Mas antes que pudesse dar um passo, Hades segurou seus ombros, fixando seu corpo e fitando seriamente seus olhos. Não havia um sinal do outro Hades que ela amava, que se mostrava quando se amavam, que ria mais cedo.

Era só o gelo. E já podia ver que não agüentaria. Ao final, era a paciência dela que acabaria.

- O que mais você sabe, Perséfone?

- De tudo. Inclusive do porque estar aqui. Na verdade, estou realmente surpresa por não ter notado antes. – já sentia as lágrimas de pura raiva escorrendo por seus olhos. – Eu sou uma burra mesmo. Esperar algo de você, por alguém que sempre ouvi historias tão fenomenais com mulheres quanto as de Apolo. Sinceramente, eu sou burra. É, pois é.

Ele franziu o cenho.

- Do que fala? Que historia?

Sorriu amargamente, de um jeito que nunca havia feito antes e que só vira Atena fazer a muitos anos quando Poseidon a traiu com Medusa.

- Hum... Tá, vamos brincar de que não sabe. Qual é? Aquela historinha sabe de que você toda semana saia com uma mulher, que as levava para cama e “olha nunca mais apareça na minha vida”... Ou então a de que você estava me mantendo presa aqui embaixo porque você... – tocou o peito dele com o dedo, com a visão embaçada pelo choro. -... E meu pai e meu tio fizeram um trato de “vamos deixar a criança nas mãos de Hades já que ela não sabe lidar com a guerra”... Qual prefere?

Hades suspirou, passando a mão no cabelo negro.

- Não é isso.

- Não é isso? É tudo o que tem a dizer? Hum... Deixe-me terminar... Ou devo lembrar a parte em que você falou “o que vocês que quiserem fazer com ela não me interessa”, era mais fácil ter dito, “ah, tira logo essa menina daqui, não agüento mais ela”.

Ele estava furioso ao segurar a mão dela.

- Você sabe que não é assim!

-SEI? – pela primeira vez Perséfone elevou a voz a alguém – EU SEI? VOCE NUNCA DISSE NADA, HADES, NEM MESMO QUANDO EU ESTAVA MORRENDO! NEM ONTEM, NEM HOJE, NEM NENHUM DIA QUE EU ESTAVA AQUI! E EU SEI? – respirou fundo, secando as lágrimas. – Desculpe... Só... Por favor, eu não sei o que está fazendo, não sei o que planeja, mas não me trate como uma boneca que pode brincar...

- Eu não brinco com você.

- Não brinca? Eu digo que... Que... – engoliu a seco, sabendo que ele travaria. – Você sabe o que e você não age de algum modo ao menos carinhoso, você... Congela. Então, some, aparece, some aparece e volta, me leva pra cama, desaparece e... Você quer que eu agüente isso? Você já me bateu, Hades, já quase me matou depois me beijou e fez... Você sabe o que comigo. E diz que não brinca comigo. Se você não sabe, sou uma deusa que tem sentimentos, diferente de você, entende?

- Perséfone...

Ela ergueu uma mão, sentindo-se cansada e sem ar.

- Por favor, não tente falar mentiras para ver se fico mais mansa. Não sou como Cérbero, então, isso será inútil. Eu só quero lhe dizer que pretende acabar com meu coração, sem problemas, irei deixar e você sabe o porque. Ou se vai me mandar de volta para o Olimpo, mande logo a sua entrega para minha mãe, ok?

- Mas você teria que estar bem para eu te mandar.

- Tanto faz, eu morreria aqui ou lá. São guerras e eu entendo delas apesar de me tratarem como se eu fosse uma criança. Sou a mais nova, mas luto guerras, diferentes, sim, mas são guerras. E sei que sempre haverá o lado vencedor e o machucado. Bata você escolher, Hades, eu ou você?

E saiu, segurando-se na parede.

Em um estalar de dedos, Shadow a ajudava. Entre um choro caladinho e as dores, conseguiu acompanhar os passos dela, não ouvindo nada vindo de onde deixara Hades alem de um quebrar de vidros. Algo que a preocupou, mas que a fez se decidir que não poderia pará-lo e só se machucaria mais naquele estado.

Então, somente respirou fundo, e deixou-se levar.

- Sabe, não sabe? – disse Shadow quando chegaram ao quarto e a ajudava naquele instante a tirar o vestido que sugava o sangue que saia.

Sem duvida, esforçou-se mais do que podia. Mas ao menos amou Hades mais uma vez.

Suspirou.

- Vejo que esses dias não ando sabendo de nada, Shadow. Seja mais direta.

Os olhos antes azuis olharam para ela pelo espelho, estavam piedosos.

- Lá no Olimpo, você poderia morrer antes, aqui, Hades se mataria para que ninguém te alcançasse. Hades morreria por você, Perséfone, como não percebeu isso antes?

- Eu percebo, Shadow, e eu o amo por isso. – fechou os olhos. – Mas eu preciso ouvir isso dele. Não sei mais o que fazer, estou cansada, estou morrendo.

- Não está...

- Sim, estou, Shadow, e você também sabe disso. O que me mantém é Hades e mesmo meu poder regenerativo esta fraco demais. Eu só tenho essa chance. Não posso sugar o poder que ele gasta comigo quando ele tem uma guerra a frente, Shadow, seria cobrar demais dele.

Shadow acarinhou seu cabelo.

- Você tem um bom coração, Perséfone.

- Espero que isso seja o suficiente para ele, Shadow.

- Já o é, querida, acredite – e beijou sua testa delicadamente. – Venha, vou te colocar para dormir. Você precisa descansar, colocar esse seu poder para trabalhar e...

- Cadê o colar? – pela primeira vez Perséfone notou que não sentia mais o gelado do colar negro. Tocou seu próprio pescoço, perplexa.

- Ele o tirou enquanto você dormia.

- Mas, assim eu posso...

Shadow assentiu.

- Sim, você pode ir embora... Então, eu te pergunto, Perséfone, por que ainda não foi?

- Eu... – suspirou. – Não sei.

- Sim, você sabe, mas está se esforçando demais para um começo de dia. Venha.

Segurando na mão dela, Perséfone caminhou devagar até cama e lentamente deitou-se, cobrindo-se com o edredom maravilhoso. Shadow trocou mais algumas palavrinhas com ela, coisas como o que desejava comer no lanche da tarde e o que pretendia usar mais tarde.

Pouco depois disso, Perséfone começou a relaxar, tentando evitar pensar sobre o que havia pensado ou se sentir culpada por ter jogado tudo isso nele no meio dessa guerra, quando escutou a porta se abrir e fechar suavemente, como se tivesse medo de acordá-la.

E usou o disfarce de descansar para assisti-lo caminhar pelo quarto, na direção da escrivaninha e lá deixar uma pasta marrom. Não soube se dormiu ou se mantivesse somente perambulando entre um cochilo e a realidade, mas viu-o todo machucado.

A única opção era de que ele estava na guerra.

E só essa idéia a aterrorizou, contudo, manteve-se cala enquanto o via se despir e sumir dentro do banheiro. Algum tempo depois, a cama ao seu lado, no ponto mais oposto que ela permitia, moveu-se sob o peso dele. Era visível que estavam brigados.

Entretanto, Perséfone não sabia lida com isso, nunca havia acontecido antes, sempre teve todos por perto a amando e rindo. E agora, ali estava, vendo as costas machucadas dele virada em sua direção.

Suspirando, fez o que sua mente pedia. Nunca poderia ficar com raiva demais dele. Apesar de ser um ponto fraco, também era seu ponto forte para lidar com aquela fera: um dos dois não podia ser cabeça dura demais.

Então, assim pensando, passou um braço cintura dele, a senti-lo tenso ao descansar a mão sobre o peito firme e afundar o rosto contra as costas, beijando-o no local inteiriço e fazendo as demais partes de fecharem.

Mesmo cobrando muito de si, sorriu, alegre por seu feito. Estava lindo de novo.

- Não devia ter feito isso, Perséfone.

- Shhh, eu já lhe disse o que devia dizer, ainda está de pé as minhas palavras, mas você tem uma guerra para lutar e se posso lhe ajudar quando você me mantém viva, o ajudarei.

- Já descobriu?

- Há muito tempo, desde que acordei. – escutou-o suspirar. – Não precisa explicar. Descanse, você tem uma grande luta ainda.

E si mesma fechou os olhos, aconchegada dele, quando o sentiu segurar sua mão delicadamente, quase com medo de machucá-la.

- Você tem um coração bom demais para alguém como eu, Perséfone.

Seu coração doeu ao escutar aquelas palavras, ditas com tanta convicção.

- Você escolhe o amor que quer, Hades. E se quiser o meu, sabe que irei lhe dar.

- Você diz isso...

- Não quero que responda, não ainda. Tudo ao seu tempo.

- Não sabe um terço sobre mim.

- O suficiente.

- Nem sempre fui um deus assim, já fui cruel, já matei pessoas de meu próprio povo, já degolei uma mulher que eu amava... – suspirou. – Como?

Ao ouvir essa confissão, os pelos de Perséfone se arrepiaram. Ele matara, muitos. Já escutara algo assim também, como uma piada de humor negro que não sabia ser verdade até aquele momento. Mas isso não deu medo a ela.

Apertando o rosto mais contra ele, assim como seus dedos contra os dele, soube que não duvidava. Ele já quase a matara, mas fora antes. E confiava em seu coração como nenhum outro deus.

- Se eu o escolhi, não pense no porque. E sim no que vai fazer. Acho melhor dormirmos, estamos ambos cansados. Pela manha, estarei aqui para continuarmos essa briga.

Escutou a risada baixinha dele segundos antes de sentir os lábios gelados contra as costas de sua mão.

- Boa noite, Perséfone.

- Boa noite, Hades.

E não precisou de outra iniciativa para dormir. Caindo dos mundos de Morfeu.